Czesław Miłosz: A língua como pátria, a poesia como testemunho

Por Cristiano Goldschmidt

Entre 1996 e 1997, Marcelo Paiva de Souza e eu dividimos um quarto por pouco mais de um ano em um hotel de estudantes em Cracóvia, na Polônia, onde estudávamos língua, história e cultura polonesa no Instytut Polonijny, ligado à Universidade Jaguelônica (Uniwersytet Jagielloński). Eu tinha então vinte anos recém-completados. Marcelo, aos vinte e sete, aprendia polonês e se preparava para o doutorado em literatura comparada na mesma universidade, onde veio a desenvolver pesquisa sobre as obras de Oswald de Andrade e Stanisław Ignacy Witkiewicz.

Marcelo já se destacava, naquela época, como um verdadeiro prodígio na aprendizagem de línguas estrangeiras – fala alemão, espanhol, inglês, italiano, francês e polonês. Havia nele uma atenção incomum para os mecanismos íntimos de cada idioma, para as suas sonoridades, irregularidades e formas de organizar a experiência comunicativa.

Para nós, dois jovens estudantes brasileiros dedicados, o polonês, com a sua espessura histórica e a sua complexidade gramatical, não nos aparecia como uma barreira intransponível, mas como uma paisagem que exigia observação, disciplina e convivência. Mesmo assim, o meu processo de aprendizagem só teve avanços e êxito graças ao apoio daquele gênio da linguística com quem tive o privilégio de conviver naquele período inicial de minha estadia em Cracóvia.

Essa lembrança não constitui um dado lateral diante de Para isso fui chamado: poemas, de Czesław Miłosz, publicado pela Companhia das Letras com seleção, tradução e introdução de Marcelo Paiva de Souza. Ela ajuda a compreender a natureza de uma tarefa tradutória que exige muito mais do que equivalência lexical. Traduzir Miłosz é entrar numa língua marcada pela história, pelo catolicismo, pela experiência do exílio, pelas guerras, pelo trauma do totalitarismo e pela permanência de paisagens que sobrevivem aos homens que as habitaram. É preciso escutar, em cada poema, não apenas aquilo que é dito, mas também as camadas de memória que tornam possível a sua dicção.

A antologia apresenta ao leitor brasileiro um amplo percurso pela obra poética de Miłosz, Nobel de Literatura de 1980, desde os textos da juventude, escritos nos anos 1930, até os poemas tardios e os últimos escritos. Organizada cronologicamente, a seleção acompanha as mudanças de tom, de forma e de perspectiva de um poeta que atravessou quase todo o século XX. O volume não oferece um retrato imóvel do escritor consagrado, nem reduz sua poesia a uma fórmula temática. Pelo contrário, permite observar a formação de uma voz que se transforma sem perder seu núcleo de inquietação.

A estrutura do livro é essencial para essa experiência. Em edição bilíngue, os poemas aparecem em polonês e em português, numa disposição paralela que preserva a presença material da língua de partida. A seleção se organiza a partir de diferentes momentos da trajetória de Miłosz, incluindo conjuntos como Três invernos, Salvação, Luz do dia, O rei Popiel e outros poemas, Gucio enfeitiçado, Cidade sem nome, Terra inabarcada, Crônicas, Cercanias ao longe, À beira do rio, Isto e Últimos poemas. O leitor percebe, assim, que está diante de uma obra em movimento, atravessada por transformações históricas, geográficas, filosóficas e espirituais.

Miłosz foi um poeta profundamente ligado à experiência histórica, mas sua poesia não se limita ao testemunho. A história, em seus poemas, não aparece como cenário externo ou simples repertório de acontecimentos. Ela invade a consciência, altera a percepção das coisas, modifica o valor das palavras e obriga o poema a se perguntar qual pode ser a função da linguagem depois da catástrofe. A guerra, o exílio e o totalitarismo não são apenas assuntos sobre os quais o poeta escreve. São forças que pressionam a própria estrutura do discurso.

Em parte significativa dos poemas da juventude, percebe-se uma tensão entre o desejo de encontrar alguma forma de ordem e a consciência da instabilidade histórica. Em Três invernos, a estação fria não funciona apenas como imagem de tristeza ou de pressentimento individual. O inverno contribui para uma atmosfera de suspensão e ameaça, na qual a paisagem parece registrar uma crise que ultrapassa a esfera privada. A natureza, em Miłosz, raramente é apenas decorativa: seus elementos podem adquirir valor histórico e simbólico, como se conservassem sinais de uma experiência que a memória humana tenta compreender.

Essa relação entre poesia e responsabilidade torna-se particularmente intensa em Salvação, conjunto marcado pela experiência da guerra e do pós-guerra. O poeta se defronta com uma dificuldade que atravessa a literatura europeia do século XX: como continuar escrevendo depois que a linguagem foi mobilizada para legitimar a propaganda, as ideologias e diversas formas de violência? Em vez de responder a essa crise por meio de uma retórica de grandiloquência moral, Miłosz desenvolve uma dicção de contenção e gravidade, atenta à materialidade da experiência e desconfiada das fórmulas que pretendem oferecer explicações definitivas para o sofrimento.

Um pobre cristão olha para o gueto é exemplar nesse sentido. O poema não apresenta apenas um observador diante da tragédia, mas uma consciência obrigada a reconhecer a própria insuficiência perante o horror. O ato de olhar deixa de ser uma operação neutra e se converte numa questão moral: quem contempla não permanece inteiramente fora do acontecimento, ainda que não possa repará-lo. Culpa, impotência e responsabilidade se aproximam numa experiência em que a linguagem parece incapaz de restituir o que foi destruído. A pobreza anunciada pelo título pode ser entendida, assim, como a pobreza de uma consciência que se reconhece limitada diante do sofrimento histórico e da exigência de encontrar palavras para aquilo que excede toda explicação.

A poesia de Miłosz está atravessada por uma imaginação religiosa, mas sua relação com a fé raramente assume a forma de uma certeza pacificada. Em diferentes momentos do livro, Deus surge como interlocutor da dúvida, horizonte de justiça e problema teológico. A experiência religiosa permanece em tensão com o sofrimento, a culpa, a morte e a liberdade humana. Por isso, a dimensão metafísica de sua poesia não elimina a interrogação; ao contrário, torna mais aguda a pergunta sobre o mal e sobre a possibilidade de encontrar sentido numa realidade marcada pela violência e pela perda.

Essa tensão aparece de modo especial em Um alcoólatra chega aos portões do céu. A presença do alcoólatra diante da eternidade impede que a questão da salvação seja tratada de maneira abstrata. A figura do homem vulnerável, confrontado com a culpa, o sofrimento e a própria condição, permite que o poema aproxime questões como liberdade e destino, responsabilidade e misericórdia. Em vez de oferecer uma alegoria moral fechada, o texto preserva a ambiguidade da experiência humana diante de Deus. A voz poética se aproxima do interlocutor divino sem partir de uma certeza pacificada, e o que se ouve é uma interrogação marcada simultaneamente por humor, sofrimento e desamparo.

Um dos movimentos mais constantes da obra é o retorno às coisas concretas. Em vez de submeter o mundo a uma teoria, Miłosz procura devolver às coisas sua presença. Essa atitude se manifesta com particular intensidade em Forja, poema incluído na seção Cercanias ao longe. A imagem do trabalho material e da transformação pode ser relacionada à própria atividade poética, desde que essa leitura não converta o texto numa simples alegoria sobre o fazer artístico. Em Miłosz, a matéria permanece matéria: o possível símbolo nasce da resistência do mundo concreto, não de sua eliminação.

Em Ode ao pássaro, essa atenção à presença das coisas se desloca para o problema da linguagem. O pássaro surge como uma realidade que não se deixa esgotar pelo nome que recebe nem pela descrição que o poema lhe oferece. Nomear não é possuir. A linguagem pode aproximar-se do mundo, mas não o encerra. Essa consciência de seu próprio limite não conduz Miłosz ao silêncio; torna sua dicção mais cuidadosa, como se escrever fosse uma maneira de preservar, na palavra, aquilo que a palavra jamais conseguirá dominar por inteiro.

A questão da língua adquire intensidade ainda maior na experiência do exílio. Distante da Polônia, vivendo em diferentes países e atravessando sistemas culturais diversos, Miłosz transforma o polonês numa espécie de pátria portátil. Em Minha fiel língua, a língua não é um instrumento neutro à disposição do indivíduo. Ela é herança, memória, paisagem, infância, tradição e conflito. Carrega vozes familiares, nomes de lugares, recordações históricas e as marcas da violência política.

Ser fiel à língua, em Miłosz, não equivale a conservá-la intacta. A fidelidade verdadeira consiste em obrigá-la a dizer aquilo que preferiria ocultar. A língua permanece viva porque aceita ser interrogada, deslocada e renovada. É justamente nesse ponto que a tradução de Marcelo Paiva de Souza adquire importância crítica. O tradutor precisa fazer o português receber uma experiência poética que se formou em outra história, sob outras condições sonoras e culturais, sem dissolver sua alteridade.

A tradução apresentada no volume parece enfrentar dois perigos opostos. O primeiro seria a literalidade rígida, que preservaria a ordem superficial das palavras, mas sacrificaria o movimento do poema. O segundo seria uma liberdade excessiva, capaz de produzir versos elegantes em português, porém desligados da estrutura de pensamento e da temperatura emocional do original. Marcelo procura uma terceira via, fundada no equilíbrio entre precisão e respiração poética.

Seu domínio e sua experiência com o polonês se fazem perceptíveis não como exibição de erudição, mas como controle. A tradução não parece desejar chamar atenção para si mesma a cada verso. Ela busca oferecer ao leitor uma língua portuguesa suficientemente natural para que o poema respire, mas suficientemente atenta para não apagar sua origem. O resultado é particularmente importante em Miłosz, cuja poesia alterna narração, reflexão filosófica, oração, descrição, memória e diálogo com outros autores.

A apresentação bilíngue favorece essa percepção. O leitor encontra o texto polonês e a tradução portuguesa em paralelo, numa disposição que não tenta fazer uma língua desaparecer dentro da outra. Mesmo quem não lê polonês percebe visualmente a existência de uma distância. O poema traduzido não se oferece como substituto absoluto do original, mas como uma forma de aproximação consciente. A página lembra que toda tradução é uma ponte construída sobre uma separação que não pode ser eliminada.

As notas do tradutor também participam desse trabalho de aproximação. Elas esclarecem referências históricas, culturais e linguísticas presentes nos poemas, incluindo nomes próprios, alusões literárias, elementos da tradição polonesa e expressões específicas. A nota sobre Esse, por exemplo, explica o sentido da palavra latina; outras esclarecem a lenda do rei Popiel, o termo wiennik e referências a figuras como Witold Gombrowicz, Budberg e Shih-Hsiang Chen. Esses comentários oferecem ao leitor instrumentos para atravessar zonas de difícil acesso sem substituir a leitura dos poemas por uma interpretação fechada. O resultado é uma mediação crítica que amplia o contexto da obra sem eliminar sua alteridade.

A introdução de Marcelo Paiva de Souza cumpre função semelhante. O ensaio situa Miłosz em seu tempo, acompanha os acontecimentos que marcaram sua formação e apresenta as principais tensões de sua obra, mas não reduz os poemas a ilustrações de uma biografia. O autor aparece como poeta, ensaísta, romancista, diplomata, tradutor e professor, além de escritor marcado pelo exílio e pela experiência dos regimes totalitários. No entanto, nenhuma dessas identidades esgota sua poesia.

A seleção permite acompanhar a passagem progressiva da violência histórica para uma meditação mais ampla sobre o tempo, a velhice e a morte. Nos poemas tardios, o envelhecimento não reduz o mundo a um repertório de recordações. Ao contrário, as coisas continuam excessivas e surpreendentes: livros, animais, pinturas, paisagens, cidades, nomes de amigos, imagens religiosas e episódios aparentemente banais. A velhice não produz serenidade automática. Ela intensifica a consciência da perda e torna ainda mais exigente a pergunta sobre o que pode permanecer.

Mittelbergheim revela outra dimensão da poesia de Miłosz. A paisagem não aparece apenas como cenário, mas como espaço de memória e de reflexão sobre a passagem do tempo. O próprio título, a indicação de que o poema foi escrito em Mittelbergheim, na Alsácia, em 1951, e a dedicatória a Stanisław Vincenz conferem ao texto uma espessura geográfica e afetiva. A localidade pode ser lida como uma possibilidade de pausa diante da inquietação do exílio e do envelhecimento, embora a serenidade sugerida pelo poema não elimine a consciência da transitoriedade.

Em O Fausto de Varsóvia, a tradição fáustica é colocada em contato com a experiência histórica da Polônia devastada pela guerra. O título aproxima o imaginário europeu de Fausto da realidade de Varsóvia, marcada pelo gueto, pela violência e pela memória do Holocausto. A figura fáustica deixa de pertencer apenas ao repertório da especulação intelectual e passa a ser confrontada com uma história concreta de destruição, culpa e sofrimento. O poema não recorre ao mito para escapar da história; ao contrário, faz com que a tradição de Fausto seja atravessada pela catástrofe histórica e adquira, nesse contato, uma gravidade nova.

Os pastéis de Degas constituem um exemplo expressivo da relação entre arte, memória e tempo. As figuras femininas contempladas pelo poeta não são apenas corpos preservados pela pintura. Elas pertencem a um passado que as obras de arte mantêm visível, mas não podem restituir integralmente. As imagens oferecem uma forma de permanência, embora também revelem a distância entre aquilo que sobrevive e a vida que já não pode ser recuperada. O poema pode ser lido, assim, como uma reflexão sobre a contemplação estética e sobre a impossibilidade de alcançar inteiramente o passado.

Em Orfeu e Eurídice, Miłosz retoma um mito antigo para abordar a perda numa linguagem moderna. A descida de Orfeu ao mundo dos mortos é imaginada por meio de um ambiente contemporâneo, no qual aparecem elevadores, mecanismos e cães eletrônicos. O submundo deixa de ser apenas uma região lendária e adquire uma configuração concreta, marcada por dispositivos e espaços que afastam a narrativa da atmosfera mitológica tradicional. Essa atualização aproxima o mito de uma experiência moderna da morte, da ausência e da desorientação.

Ainda assim, o centro trágico da narrativa permanece. Orfeu desce para tentar conduzir Eurídice de volta, mas a perde quando olha para trás. Esse gesto pode ser lido como a expressão da distância entre memória e presença, desejo e posse, amor e restituição. A perda não se reduz a um erro individual, pois também revela a impossibilidade de recuperar integralmente aquilo que o tempo levou. O mito sobrevive porque continua capaz de organizar uma experiência moderna da ausência.

Nos Últimos poemas, a inteligência de Miłosz conserva uma vitalidade que não depende de negar a morte. Em Um poeta de noventa anos autografa seus livros, a velhice aparece como uma condição de atenção intensificada, a partir da qual o escritor revisita sua trajetória, sua língua e os autores que participam de sua memória literária. As referências a inimigos e a escritores como Andrzejewski e Gombrowicz fazem da literatura uma espécie de comunidade entre tempos diferentes, na qual os ausentes continuam exercendo presença. O poeta não é transformado em monumento pela idade avançada; sua velhice o aproxima, antes, da consciência da precariedade e da persistência de toda forma de permanência.

Em Uma frase, a relação entre linguagem, rosto e memória assume uma forma concentrada. O poema parte de uma referência a Julia Hartwig e retoma a imagem dos espelhos que aguardam os rostos humanos. A simplicidade dessa imagem abre uma reflexão sobre a identidade, a memória e a passagem do tempo: aquilo que reflete também conserva o vestígio daquilo que já não está presente. O poema confirma a capacidade de Miłosz para extrair uma pergunta metafísica de uma situação mínima.

A tartaruga conduz essa investigação para o campo da vida animal. A tartaruga, observada no espaço doméstico, torna-se ocasião para uma reflexão sobre consciência, instinto, percepção e mortalidade. O poema não a reduz a um símbolo abstrato nem a transforma numa simples alegoria da condição humana. Sua presença desloca, ainda que provisoriamente, o centro humano da experiência e convida o leitor a considerar uma forma de existência cuja relação com o mundo não depende da linguagem humana. Nesse deslocamento, Miłosz amplia sua investigação sobre os limites da consciência e sobre a dificuldade de compreender inteiramente aquilo que não somos.

A Nota anos depois, incluída ao final do volume e datada de Cracóvia, maio de 2001, oferece um comentário posterior de Miłosz sobre o próprio percurso poético. O autor considera a relação entre os poemas antigos e os poemas posteriores, sua formação católica, a ideia de passividade do poeta e sua preferência por uma arte objetiva. Essa passividade pode ser compreendida menos como inércia ou desistência do que como uma disposição para acolher a realidade antes de submetê-la inteiramente a uma tese. O poeta se apresenta, nessa perspectiva, como alguém cuja tarefa não está totalmente definida de antemão, mas se esclarece no próprio processo de criação.

Essa concepção ajuda a compreender a variedade da antologia. Miłosz pode escrever sobre o gueto, a paisagem, um pássaro, uma pintura, um alcoólatra, uma tartaruga, um mito clássico ou um encontro com outro escritor sem abandonar a unidade profunda de sua obra. O que une esses temas não é uma fórmula, mas uma atitude diante do real. O poeta procura descobrir como as coisas resistem à redução, como preservam um núcleo de existência que nenhuma ideologia, religião ou teoria consegue absorver por completo.

A tradução de Marcelo preserva essa disposição. Seu português não procura tornar Miłosz artificialmente familiar, mas também não o deixa confinado numa distância erudita. O resultado é uma linguagem que mantém a estranheza do estrangeiro e, ao mesmo tempo, alcança o leitor com naturalidade. A tradução acompanha tanto a clareza narrativa de certos poemas quanto a gravidade meditativa de outros. Quando Miłosz se aproxima da oração, do relato, da sátira ou da reflexão filosófica, o português se adapta sem impor uma uniformidade de tom.

A força de Para isso fui chamado: poemas nasce, portanto, da combinação entre amplitude e critério. A seleção oferece um panorama expressivo da obra de Miłosz, enquanto a organização cronológica torna perceptível a transformação de sua voz. A introdução situa o autor em seu tempo e em sua tradição. A tradução oferece ao leitor brasileiro uma linguagem poética viva, capaz de acolher a densidade do original sem sacrificar a leitura. A edição bilíngue, por sua vez, mantém visível a relação entre presença e distância, que está no centro de toda experiência tradutória.

Miłosz continua grandioso porque não escreve a partir de uma certeza confortável sobre a grandeza da poesia. Ele escreve porque desconfia das palavras e, ainda assim, precisa delas. Escreve porque a história destrói, mas também porque algumas coisas continuam existindo e pedem para ser nomeadas. Escreve para compreender o mundo, embora saiba que compreender jamais será o mesmo que dominar. Marcelo Paiva de Souza oferece ao leitor brasileiro uma passagem rigorosa por essa obra, com a atenção de quem conhece não apenas o vocabulário de uma língua, mas também sua memória.

É nesse encontro entre o poeta e o tradutor que o livro encontra sua forma mais plena. Miłosz transforma a linguagem em instrumento de atenção, memória e resistência. Marcelo transporta essa experiência para o português sem eliminar as marcas de sua origem. O leitor recebe, assim, uma obra que articula história e metafísica, testemunho e imaginação, exílio e pertencimento, velhice e desejo de permanência.

A poesia de Miłosz não restitui o mundo a uma ordem definitiva. Ela o devolve à percepção, mais complexo e mais difícil, mas também mais vivo. Depois da guerra, do exílio, da violência política e da morte, ainda resta a possibilidade de olhar para uma paisagem, uma pintura, um animal, um rosto ou uma palavra e reconhecer que a realidade não foi inteiramente vencida. Para isso fui chamado: poemas é um livro sobre essa sobrevivência difícil. Na tradução de Marcelo Paiva de Souza, a voz de Miłosz chega ao português com densidade, clareza e estranheza suficientes para continuar nos interrogando.