A 18ª cúpula do Brics em Nova Délhi, que começa nesta sexta-feira, 11, com algumas agendas bilaterais prévias, e vai até domingo, 13, terá uma agenda econômica bastante concreta. A presidência indiana parece querer evitar que o Brics fique concentrado apenas na questão geopolítica e avançar em mecanismos efetivos de comércio, financiamento e integração econômica.
O jornal econômico indiano Financial Express destaca como um dos temas principais o comércio em moedas nacionais e redução da dependência do dólar. Este provavelmente será um dos assuntos mais importantes. Os ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais já discutiram em Mumbai o aumento do uso das moedas nacionais nas transações entre os membros, além da integração dos sistemas de pagamentos.
Não está em discussão, pelo menos como proposta consensual, criar uma moeda única do Brics. O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, que representará o Brasil na cúpula, destacou que o foco não é “desdolarizar”, mas sim criar novas formas de promover o comércio de maneira mais rápida, direta e barata.
Isso será feito através de sistemas de pagamento interoperáveis, que são plataformas financeiras e tecnológicas capazes de se comunicar e realizar transações entre si de forma direta, segura e fluida, mesmo pertencendo a empresas, bancos ou redes diferentes. Eventualmente a utilização de moedas digitais de bancos centrais. A tendência é avançar por etapas, com pagamentos em reais, rúpias, yuans, rublos etc..
A agência Reuters confirma que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul já discutem a possibilidade de interligar sistemas nacionais de pagamentos rápidos e CBDCs (moedas digitais de bancos centrais). O objetivo é reduzir custos e tornar os pagamentos transfronteiriços mais rápidos.
Além dos cinco fundadores, o bloco incorporou Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. O grupo também estabeleceu uma categoria de nove países parceiros.
Interligar sistemas nacionais de pagamentos é especialmente importante para o Brasil porque poderia facilitar o comércio com China, Índia, Rússia e outros membros sem que cada operação precise necessariamente passar pelo sistema financeiro estadunidense.
Nova estratégia até 2030
Durante a 16ª Reunião de Ministros do Comércio do Brics, concluída com sucesso esta semana em Jaipur, Rajastão, a Índia está propondo aumentar a integração das cadeias globais de valor entre os países do BRICS. Já foi aprovado um plano 2026–2030 que prevê cooperação em cadeias produtivas, investimentos, farmacêuticos, segurança alimentar e infraestrutura.
A Estratégia de Parceria Econômica do Brics 2030 será um documento para guiar a cooperação econômica e financeira entre os integrantes até o fim da década. Apoio a um comércio aberto e justo, defendendo as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC); cooperação para compartilhar tecnologias, expandir a inteligência artificial (IA) na agricultura e indústria e estruturar a governança de dados; incentivo ao investimento verde e infraestrutura de transição energética por meio do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e diminuição da burocracia para que empresas de um país do Brics invistam nos outros parceiros.
Se a Estratégia Econômica é o mapa geral, o Plano de Ação é a ferramenta prática para proteger as rotas de comércio. Cadeias de Valor Globais são as etapas pelas quais um produto passa, desde a matéria-prima até a montagem, divididas entre vários países.
O principal objetivo do plano para 2026-2030 é a resiliência, ou seja, garantir que as fábricas e o comércio não parem mesmo diante de guerras, pandemias ou sanções políticas. Entre seus pontos centrais está a diversificação de fornecedores para evitar que o bloco dependa de um único país ocidental, ou mesmo de um único parceiro interno, para peças sensíveis.
Outro ponto é a Plataforma de Investimento Estratégico, com a criação de canais rápidos para monitorar e impulsionar cadeias essenciais, como a produção de remédios (farmacêutica) e a segurança alimentar. Criar uma logística integrada através do trabalho em conjunto na cadeia de suprimentos logísticos do Brics para desatar nós em portos, aeroportos e ferrovias. E ajuda para que micro, pequenas e médias empresas consigam crédito facilitado para exportar e fazer parte dessas cadeias globais. Esse ponto é particularmente relevante porque pode transformar o Brics em um espaço econômico mais integrado.
Aqui há uma questão estratégica para o Brasil: minerais críticos, energia, alimentos e produtos industriais podem ganhar importância. O Brasil possui vantagens justamente nos setores que o Brics pretende tornar mais seguros e diversificados: alimentos, petróleo, minério de ferro, minerais críticos, biocombustíveis e energia.
A presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como o Banco do Brics, Dilma Rousseff, tem projetado a mobilização de capital privado como um imperativo estratégico para a instituição nas reuniões do bloco na Índia. A discussão não é apenas aumentar seus empréstimos. Há uma tentativa de fazer o NDB mobilizar muito mais capital privado, reduzindo riscos para investidores e aumentando sua capacidade de financiar infraestrutura.
Isso pode ser muito importante para países como Brasil e Índia, porque permitiria financiar infraestrutura, energia e transição tecnológica sem depender exclusivamente de Banco Mundial, FMI ou mercados financeiros ocidentais.
O NDB deve ampliar o financiamento em moedas nacionais para proteger os países que pegam empréstimos com juros flutuantes em moedas estrangeiras fortes, como o dólar ou o euro, ficando totalmente expostos e vulneráveis às subidas e descidas do mercado financeiro global.
Há uma questão por trás disso: até que ponto o Brics conseguirá criar uma infraestrutura financeira paralela ao sistema dominado pelo dólar sem provocar, cada vez mais, reações dos Estados Unidos?
O Brics já representa 49,5% da população mundial, cerca de 40% do PIB global e 26% do comércio global. O comércio de mercadorias entre os países do Brics superou a marca histórica de US$ 1 trilhão em 2025. Esse avanço representa um crescimento de mais de 13 vezes (ou cerca de 1.090%) em relação aos US$ 84 bilhões registrados em 2003.


