Cristiano Goldschmidt
Talvez por estar prestes a completar 50 anos em setembro próximo, ultimamente tenho pensado muito na minha infância e no início da adolescência em Portão do Ocoí, no oeste do Paraná, durante a década de 1980 e começo dos anos 1990. Muitas lembranças surgem aos poucos. Algumas trazem acontecimentos extraordinários. Outras permaneceram porque se repetiram tantas vezes que acabaram se confundindo com a própria paisagem daquele tempo. Entre elas está a figura de uma menina que atravessava a comunidade quase todos os domingos, visitando casas, entrando em cozinhas, ocupando varandas e participando, à sua maneira, da vida de praticamente todos os moradores.
Para nós, ela era a “mudinha do Belói”.
O Belói era seu pai, um próspero produtor rural da região. E aquela era a forma pela qual a comunidade a identificava. Hoje, é importante dizer, sabemos que a expressão “surdo e mudo”, tão comum décadas atrás, é inadequada. O termo correto é pessoa surda ou simplesmente surda. Mas estou falando de um tempo em que essa discussão inexistia no cotidiano das pequenas comunidades. Naquele contexto, “mudinha do Belói” não carregava maldade nem intenção pejorativa. Era apenas o nome pelo qual todos sabiam de quem se tratava.
Eu mesmo a conhecia apenas assim.
E isso talvez explique uma das maiores surpresas que essa história me reservou.
Mas essa revelação viria muitos anos mais tarde.
Naquele tempo, a “mudinha do Belói” era parte da vida cotidiana de Portão do Ocoí.
Os domingos pareciam pertencer a ela.
Depois do almoço, iniciava uma espécie de peregrinação que se repetia semana após semana. Visitava uma casa, depois outra, depois mais outra. Algumas vezes permanecia apenas alguns minutos. Em outras, passava boa parte da tarde. Tudo dependia da recepção, do movimento da casa e das pessoas que encontrava.
Era impossível encontrar alguém que não a conhecesse.
Quem morava na comunidade inevitavelmente acabava cruzando com ela em algum momento do domingo.
Hoje penso que poucas pessoas desbravaram tão bem aquele lugar quanto ela. Enquanto muitos de nós circulávamos entre escola, casas e propriedades vizinhas, ela parecia percorrer um território mais amplo. Conhecia os moradores, acompanhava as mudanças das famílias, percebia ausências, reaparecimentos e novidades. Havia algo de profundamente humano naquela necessidade de estar entre as pessoas.
Nós brincávamos muito.
E, embora a comunicação pudesse parecer improvável para quem observasse de fora, não me lembro de ter sentido qualquer dificuldade real para me entender com ela. Não conhecíamos Libras. Simplesmente fomos criando nossos próprios sinais e meios para nos entender.
Um gesto significava uma coisa.
Outro, algo diferente.
Certas expressões dispensavam qualquer explicação.
Com o tempo, construímos uma linguagem inteiramente nossa, feita de convivência, observação e confiança. Era uma língua que não existia em livro algum, mas funcionava perfeitamente para duas crianças que passavam horas brincando juntas.
Lembro de corridas pelos quintais, de brincadeiras improvisadas e daqueles longos períodos em que o relógio parecia ter pouca importância. Muitas vezes bastava um olhar para que um entendesse o que o outro pretendia fazer.
Talvez por isso eu nunca tenha pensado nela a partir de sua condição de pessoa surda.
Ela tinha também um jeito muito particular de ocupar o mundo. Era uma menina simples, mas não pela condição financeira da família, que era boa. A simplicidade estava na forma de viver. Ao mesmo tempo, gostava de adornos, de roupas diferentes e de peças que chamavam atenção. Pulseiras, colares, brincos e outros enfeites pareciam fazer parte de sua linguagem pessoal. Era como se utilizasse cores e brilhos para expressar aquilo que as palavras nunca puderam dizer.
Enquanto muitas pessoas se preocupavam em seguir padrões, ela parecia seguir apenas a própria intuição. Suas escolhas refletiam uma personalidade livre, espontânea e absolutamente autêntica.
Lembro de vê-la chegar usando várias pulseiras ao mesmo tempo, colares vistosos ou roupas que se destacavam em meio à discrição predominante da comunidade. Nada daquilo parecia calculado. Era apenas a maneira como gostava de existir no mundo.
Também gostava de ser maquiada. Bastava aparecer um batom, um pó facial ou qualquer novidade desse universo para que seus olhos demonstrassem interesse.
E gostava de ganhar presentes. Uma roupa, um colar, uma pulseira ou qualquer bijuteria eram recebidos com uma alegria sincera, daquelas que não precisam ser explicadas. O que a encantava era a atenção contida no gesto.
Havia ainda outra característica pela qual se tornara conhecida entre nós: seu entusiasmo pelos doces.
Se havia bolo, pudim, sagu ou qualquer outra sobremesa servida depois do almoço, as chances de repetir eram grandes. E repetia com uma satisfação tão genuína que acabava despertando simpatia em todos ao redor.
Muitas das minhas lembranças dela estão associadas justamente a esses pequenos momentos. Não a grandes acontecimentos, mas às cenas comuns que acabam sobrevivendo ao tempo: ela surgindo na estrada e entrando pelo portão sem necessidade de convite formal, sentada na cozinha observando o movimento da casa, experimentando um colar novo, repetindo uma porção de doce.
Durante muito tempo, pensei que essas fossem apenas lembranças de infância.
Até 2023.
Foi então que a revi pela primeira vez desde 1993.
Trinta anos haviam passado.
E foi nesse reencontro que descobri algo: a “mudinha do Belói” tinha um nome.
Gorete.

Confesso que a revelação me emocionou mais do que eu esperava. Não porque o nome fosse importante em si, mas porque ele parecia completar uma história iniciada décadas antes, como se uma peça discreta, ausente durante todo esse tempo, finalmente encontrasse seu lugar.
Saber seu nome não alterou a imagem que eu guardava dela.
Ela continua surgindo da mesma forma que sempre surgiu na minha memória: caminhando de casa em casa, carregando seus colares, distribuindo sorrisos, inventando maneiras de conversar e transformando uma comunidade inteira numa extensão do próprio lar.
Primeiro aparece ao longe, na estrada.
Depois atravessa o portão.
Senta-se na cozinha.
Observa o movimento da casa.
Experimenta uma pulseira nova.
Aceita mais uma porção de doce.
E segue caminho para a próxima visita.
Como fazia todos os domingos.
E, enquanto eu me lembrar dela, continuará atravessando aquele portão.

