ENIO SQUEFF / À morte de um grande amigo

Foto de 2002 de Rodolfo Ancona Lopez | “Laerth, acompanhando fotos de alguns quadros, em frente ao ateliê, em Pinheiros, São Paulo “

Morreu o Laerth Pedrosa, grande amigo, grande conhecedor de arte, um dos homens mais cultos com quem tive a oportunidade de conviver por quase 50 anos. E que sempre me animou na escolha que fiz quando deixei o jornalismo pela arte. Ele me sabia um desenhista, desde os tempos em que nos encontramos em São Paulo para fazer parte da turma que criou a “Veja” (não era a porcaria em que se transformou mais tarde). Quando recebi o convite do Roberto Duailibi para trabalhar na DPZ, queria continuar no jornalismo e sugeri o nome do Laerth. Foi então que  ele se tornou um publicitário de grande sucesso durante o período em que atuou na profissão.

Quando adoeceu, faz alguns anos, senti muito a sua falta. Era o melhor crítico de arte que um pintor podia ter. Sua morte não foi a interrupção de uma vida normal. Quando teve a síndrome de Korsakoff (diagnóstico da nossa amiga comum, a psiquiatra pelotense Maria Luiza Silveira), praticamente fechou-se para o mundo. Ontem, dia 12, finalmente, “parou de morrer” como me disse uma vez, meu amigo Newtonm Mizuho Miura.
Na verdade talvez seja isso mesmo. Um dia paramos de morrer. Os amigos morrem, há os panegíricos, mas tudo se resume a nossa paradoxal inconformidade com a morte.
O Laerth não morreu do que se morre  hoje em dia, de coronavírus, mas porque não aguentou uma pneumonia de que foi acometido na casa de repouso em que foi obrigado a viver, quando ao cabo de um acidente doméstico, passou a se locomover numa cadeira de rodas.
Avisado pela querida amiga Dora Kalef, dei a notícia aos amigos comuns, o Elmar Bones, o Marcius Cortez, o Lourenço Cazarré, à própria Maria Luiza. Chorei amargamente, e me consolei imaginando que ele já não estava feliz em sua vida de cadeirante, mais incapaz que nunca. Sim, admito, se a infelicidade fosse a razão para morrer, não contabilizaríamos, entre os mortos, os muitos que a pandemia produziu. E que alguns bolsonaristas – sempre eles – teimam estupidamente em ignorar.
Escrevi à Maria Luiza: “estamos cada vez mais solitários nesse mundo”.
Há muito o Laerth deixara de conviver com os amigos no ateliê. Mas agora sei que não terei mais a alegria de vê-lo entrar, ainda que claudicante, em meu mundo, anunciando, talvez, em seu passo incerto, o que aconteceu anteontem e que eu pensei que nunca fosse ocorrer. E constato que a vida está se indo, só que neste nosso Brasil de assassinos, de forma rápida, como jamais imaginaríamos.
Agora, nada de suas observações sobre a minha pintura, nunca mais. Até o encontro dos átomos em que todos nos transformaremos, todos, sem mais a consciência de que um dia ríamos às suas intervenções irônicas e sempre inteligentes.
O Laerth, mais um amigo querido que entra na Barca de Caronte. Adeus, companheiro, vá ao encontro da Terão Chebl, do Randáu Marques, do Martinho Lutero, do Carlos Moraes…
Enio Squeff é jornalista e artista plástico.

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