Laura Cardoso: a trajetória de uma das grandes intérpretes do Brasil

Em 2006, com a primeira-dama Marisa Letícia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Cultura, Gilberto Gil, quando Laura Cardoso recebeu a Ordem do Mérito Cultural | Foto: Fabio Pozzebom/ABr

Por Cristiano Goldschmidt

Laura Cardoso nasceu Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, em 13 de setembro de 1927, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, filha de imigrantes portugueses. Morreu na noite de 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, também em São Paulo, de causas naturais, segundo informações divulgadas pela família. Entre uma data e outra, há quase um século de vida e mais de oito décadas dedicadas à interpretação. Poucas trajetórias brasileiras oferecem uma medida tão precisa da continuidade da arte de representar, atravessando o rádio, o teatro, o cinema e a televisão sem jamais reduzir o trabalho do ator à mera celebridade.

Laura Cardoso pertence a uma geração que precisou construir, ao mesmo tempo, a própria carreira e as condições de existência de sua profissão. Quando começou no rádio, em 1942, aos 15 anos, atuar ainda não era uma ocupação facilmente admitida para uma moça de família. O teatro carregava o peso de antigas convenções, a televisão dava seus primeiros passos e o cinema brasileiro buscava uma identidade entre a precariedade industrial e a ambição artística. Laura entrou nesse mundo sem a proteção de uma escola consagrada ou de um sistema profissional plenamente estabelecido. Sua formação foi feita de observação, disciplina, tentativa, erro e escuta.

Esse aspecto é decisivo para compreender sua grandeza. Laura Cardoso nunca pareceu interessada em exibir a técnica como um ornamento. Sua técnica estava incorporada ao corpo, à voz, ao tempo de cada pausa, ao modo como um olhar podia modificar a temperatura de uma cena. A atuação, nela, era uma forma de pensamento sensível. Mesmo quando interpretava personagens de poucas falas, produzia a impressão de que havia uma vida inteira acontecendo antes e depois daquele instante.

Sua estreia na televisão ocorreu em 1952, no programa “Tribunal do Coração”, da TV Tupi, quando o meio ainda ensaiava suas linguagens. Ela participou de teleteatros, novelas e programas que ajudaram a estabelecer a dramaturgia televisiva no país, passando por emissoras como Tupi, Record, Excelsior, Bandeirantes e Cultura. A televisão brasileira costuma ser lembrada por seus grandes títulos, mas sua história também foi construída por intérpretes capazes de dar consistência ao cotidiano da ficção. Laura foi uma dessas presenças fundamentais. Ela não apenas esteve nas primeiras décadas da televisão: ajudou a conferir ao veículo uma densidade que ultrapassava a função ilustrativa do ator.

Em 1981, ao estrear na Globo em “Brilhante”, como Alda Sampaio, Laura já era uma atriz de trajetória consolidada. A partir dali, sua presença alcançaria um público ainda maior. Na emissora, participou de mais de 60 novelas, número impressionante não por seu valor estatístico, mas pelo que revela sobre a amplitude de sua contribuição. Laura não dependia da centralidade da personagem para estabelecer uma relação de autoridade com a cena. Muitas vezes, entrava em uma trama como coadjuvante e saía dela como uma das figuras mais lembradas pelo público.

Essa capacidade aparece com clareza em “Mulheres de Areia”, de 1993, na interpretação de Isaura, mãe das gêmeas Raquel e Ruth, vividas por Gloria Pires. Isaura poderia ser apenas uma figura de sustentação narrativa, uma personagem encarregada de comentar ou acompanhar o conflito das filhas. Laura, porém, lhe conferiu espessura moral, humor, aflição e uma espécie de sabedoria doméstica que nunca se confundia com resignação. Sua presença ajudava a ancorar a novela em uma experiência familiar reconhecível, tornando o melodrama menos abstrato e mais próximo da vida.

Em “A Viagem” (1994), interpretou Guiomar, outra personagem cuja força não dependia de gestos grandiosos. Laura tinha a rara capacidade de fazer com que o espectador percebesse o pensamento antes da fala, como se a personagem se formasse diante dos olhos por meio de uma sucessão de hesitações, certezas e pequenas contradições. Em “Irmãos Coragem” (1995), como Sinhana, encontrou uma personagem ligada à tradição, à família e à dureza de um mundo rural atravessado por conflitos. A atriz não transformava essas mulheres em símbolos imóveis. Ao contrário, devolvia a elas contradições, desejos e uma inteligência própria.

Também por isso sua carreira não pode ser compreendida apenas como uma coleção de personagens populares. Laura Cardoso deu visibilidade a mulheres maduras, mães, avós, trabalhadoras, matriarcas, figuras religiosas, mulheres submetidas às convenções sociais e personagens que carregavam em silêncio as consequências de escolhas feitas por outros. Em suas mãos, esses papéis deixavam de funcionar como simples tipos dramáticos. A atriz encontrava neles uma singularidade, frequentemente localizada em um detalhe de voz ou em uma mudança quase imperceptível de postura.

Em “Caminho das Índias” (2009), como Laksmi Ananda, construiu uma matriarca cuja autoridade não era feita apenas de rigidez. Havia ali uma combinação de tradição, afeto e controle, uma personagem que compreendia o mundo a partir de valores sólidos, mas que também precisava negociar com as transformações ao seu redor. Em “Gabriela” (2012), viveu Doroteia; em “Sol Nascente” (2016), interpretou Dona Sinhá; e, em “O Outro Lado do Paraíso” (2017), deu vida a Caetana, uma mulher marcada pela experiência e pelo conhecimento de uma comunidade. Em cada uma dessas personagens, Laura reafirmava sua particular maneira de trabalhar a velhice: não como apagamento, mas como acúmulo de presença.

Sua contribuição para a televisão inclui ainda uma dimensão cômica que por vezes é subestimada quando se fala de sua imagem como grande dama da dramaturgia. Laura sabia que o humor não é uma interrupção da densidade dramática, mas uma de suas formas mais complexas. Em uma participação na série “Os Normais” (2002), como a inusitada mãe de aluguel do personagem vivido por Luiz Fernando Guimarães, demonstrou domínio do ritmo, da surpresa e da irreverência. Seu humor nunca parecia procurar o aplauso. Surgia da precisão com que a atriz reconhecia o absurdo de uma situação e permitia que ele se manifestasse.

No teatro, onde sua presença foi menos contínua do que na televisão, Laura encontrou alguns de seus trabalhos mais intensos. Em 1959, estreou em “Plantão 21”, sob direção de Antunes Filho. Mais de três décadas depois, em 1993, voltaria a colaborar com o diretor em “Vereda da Salvação”, de Jorge Andrade, interpretando Dolor. A personagem exigia uma combinação rara de brutalidade, desamparo e dimensão trágica. Laura não se apoiava em uma exteriorização fácil da dor. Seu trabalho era mais rigoroso: deixava que a violência do mundo se alojasse no corpo da personagem, produzindo uma presença simultaneamente concreta e simbólica.

Por “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, recebeu o Prêmio Shell de Melhor Atriz em 1990. Três anos depois, foi novamente reconhecida pelo prêmio por sua atuação em “Vereda da Salvação”. Essas distinções têm importância particular porque registram o reconhecimento de uma atriz cuja imagem pública estava fortemente associada à televisão. Laura nunca aceitou, na prática, a hierarquia que costuma colocar o teatro como espaço superior e a televisão como território menor. Sua trajetória demonstrava que o valor de um intérprete não está apenas no suporte em que trabalha, mas na qualidade da atenção que dedica a cada cena.

O cinema também revelou uma Laura menos presa às exigências de continuidade das novelas. Em filmes como “Imitando o Sol” (1964), “Terra Estrangeira” (1995), “Através da Janela” e “Copacabana”, sua atuação ganhou outras durações e outras zonas de silêncio. Em “Através da Janela” (2000), de Tata Amaral, como Selma, a atriz trabalhou uma personagem atravessada pela solidão, pela memória e pela dificuldade de reorganizar a vida. A câmera cinematográfica, ao se aproximar de seu rosto, encontrava não uma máscara expressiva, mas uma superfície cheia de tempo.

Em “Copacabana” (2001), Laura interpretou uma personagem de forte registro popular e recebeu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, hoje Prêmio Grande Otelo, por sua atuação. Também foi reconhecida por trabalhos em “O Outro Lado da Rua” (venceu em 2005) e “De Onde Eu Te Vejo” (venceu em 2017), consolidando uma relação com o cinema que não se limitava a participações decorativas. O que o cinema percebia nela era a possibilidade de sugerir muito sem precisar explicar tudo. Laura compreendia que a contenção pode ser uma forma de eloquência.

Seus prêmios incluem três troféus Grande Otelo (2002, 2005 e 2017), múltiplos reconhecimentos da Associação Paulista de Críticos de Arte, dois Prêmios Shell (1990 e 1993), Troféus Imprensa (1973 e 1996), o Troféu Mário Lago de 2002 pelo conjunto da obra na televisão e a Ordem do Mérito Cultural concedido pelo Ministério da Cultura, em 2006. Recebeu ainda distinções em festivais, entre elas o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema Brasileiro de Miami, em 2000, por “Através da Janela”. A lista é extensa, mas não deve substituir a análise. Premiações registram momentos de reconhecimento; não explicam, sozinhas, a permanência de uma artista. No caso de Laura, o dado mais expressivo talvez seja a capacidade de seus personagens sobreviverem à circunstância da exibição.

Laura Cardoso pertence ao grupo de intérpretes que modificam o imaginário de um país sem necessariamente ocupar o centro de todas as narrativas. Sua arte foi feita de recorrências, de aparições que pareciam familiares e, ao mesmo tempo, sempre traziam alguma novidade. O público reconhecia sua voz, sua dicção, o desenho de seu rosto, o modo como sustentava uma frase. Essa familiaridade, porém, nunca se tornou repetição automática. Laura transformava o reconhecimento em matéria de criação.

Há uma diferença entre longevidade e permanência. A longevidade pode ser apenas a sucessão de anos; a permanência exige que o trabalho continue produzindo sentido. Laura Cardoso permaneceu porque seus personagens não eram abstrações de uma época. Eles carregavam algo que ainda reconhecemos em nós: a negociação entre o desejo e o dever, a autoridade construída pela experiência, o medo de perder os vínculos, a solidão escondida no interior da família, o humor como defesa contra a dureza do mundo.

Seu último trabalho no cinema foi o curta-metragem “Dona Rosinha”, realizado em 2025, quando a atriz tinha 97 anos. O encerramento é eloquente sem precisar ser transformado em fábula. Laura continuou trabalhando até uma idade em que a sociedade costuma imaginar a velhice como retirada, silêncio e improdutividade. Sua presença lembrava que o corpo envelhecido não é um corpo artisticamente encerrado. Ao contrário, ele pode carregar camadas de experiência inacessíveis a qualquer maquiagem ou expediente técnico.

A atriz também ensinou, por sua própria prática, que interpretar não é desaparecer completamente dentro de um personagem. Existe sempre uma negociação entre a pessoa e a figura inventada, entre a memória do intérprete e o texto, entre o gesto planejado e aquilo que nasce no momento da cena. Laura fazia essa negociação com uma naturalidade trabalhada, expressão que define bem seu estilo. Parecia espontânea porque havia disciplina; parecia intuitiva porque havia pensamento; parecia familiar porque sua invenção era profundamente particular.

O legado de Laura Cardoso não está apenas na quantidade de trabalhos ou na duração de sua carreira. Está na demonstração de que a atuação pode ser, ao mesmo tempo, popular e sofisticada, acessível e rigorosa, cotidiana e trágica. Ela compreendeu a televisão como arte de intimidade, o teatro como espaço de risco e o cinema como lugar de concentração. Em todos esses meios, conservou uma qualidade essencial: a capacidade de olhar para uma personagem sem desprezá-la.

Talvez seja essa a medida mais justa de sua grandeza. Laura Cardoso não julgava suas personagens de fora. Mesmo quando interpretava mulheres endurecidas, autoritárias, engraçadas ou moralmente ambíguas, procurava a lógica íntima que as fazia existir. Daí a sensação de verdade que acompanhava seus trabalhos. Ela não pedia que o público admirasse suas personagens. Pedia, pela força silenciosa da interpretação, que o público as reconhecesse como seres humanos.

Em uma cultura que frequentemente confunde novidade com valor, Laura Cardoso deixa uma lição de outra ordem. A arte também se renova pela permanência, pela capacidade de atravessar mudanças sem perder a atenção ao essencial. Durante mais de oito décadas, ela acompanhou a transformação dos meios, dos costumes e das linguagens, mas conservou a convicção de que atuar é compartilhar uma história com a multidão. Essa convicção, inscrita em sua voz e em seus gestos, permanece agora como memória viva da dramaturgia brasileira.