A operária do gesto: Andréa Beltrão e o ofício de existir em cena

Homenageada em Gramado

Andréa Beltrão vai receber o Oscarito | Foto: Bruna Sussekind/Divulgação

Por Cristiano Goldschmidt

Alguns artistas se confundem com o próprio veículo em que atuam — a televisão os consome, o cinema os cristaliza, o teatro os devora e os vomita transformados. Andréa Beltrão, essa carioca de 1963 que aos 14 anos já pisava o palco do Tablado de Maria Clara Machado, nunca se deixou consumir por inteiro. Ela pertence a um grupo raro de artistas para quem a cena não é um trampolim, mas uma morada. E é precisamente essa condição de habitante — e não de visitante — dos três territórios das artes cênicas que a 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado decidiu celebrar ao lhe conceder o Troféu Oscarito, joia da coroa do evento serrano, destinado àqueles que dedicaram uma vida ao cinema brasileiro.

A notícia, anunciada em meados de julho, chega acompanhada de um gesto de justiça poética: Andréa também estrela Antártida, o filme de abertura do festival. Há algo de simbólico nessa coincidência. A atriz que abre o festival é a mesma que o festival homenageia — como se o tempo, esse senhor caprichoso, resolvesse fechar um círculo virtuoso entre a obra e o reconhecimento.

Para compreender Andréa Beltrão, é preciso recuar até 1976, quando uma menina de treze anos vestiu a pele de João Grilo em O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Que uma adolescente interpretasse o mais astuto dos personagens do teatro nordestino já dizia algo sobre sua inclinação: Andréa nunca buscou o adorno fácil. Queria o desafio. O Tablado, escola de teatro que formou gerações de intérpretes brasileiros, foi seu chão de formação. Ali, sob a influência de Maria Clara Machado, ela aprendeu que o teatro não é exercício de vaidade, mas de disciplina coletiva.

Nos anos 1980, enquanto a televisão brasileira vivia sua era de ouro, Andréa mergulhava em grupos teatrais — o Arco da Velha, o Manhas e Manias — e fazia teatro de rua, daquele em que o ator disputa a atenção do transeunte com o barulho do trânsito. Essa experiência de um teatro quase artesanal, despojado de parafernálias, forjou nela uma qualidade que a acompanharia por toda a carreira: a capacidade de preencher o vazio com presença. Não é pouca coisa. Num país onde o ator de televisão frequentemente abandona os palcos, Andréa fez o percurso inverso: levou para a TV a densidade que só o teatro sabe dar.

Mas foi em 1985 que o Brasil a descobriu em massa. Armação Ilimitada, criação anárquica de Antônio Calmon, Euclydes Marinho e Nelson Motta, com direção de Guel Arraes, era um programa que não se parecia com nada que a televisão brasileira havia produzido até então. Uma mistura de videoclipe, história em quadrinhos e cinema, a série acompanhava as aventuras de jovens na Zona Sul carioca. Andréa vivia Zelda Scott, uma jornalista que era, ao mesmo tempo, a consciência crítica e o coração pulsante da trupe. Ao lado de Kadu Moliterno e André de Biase, ela construiu uma personagem que se tornaria ícone de uma geração — a moça moderna, inteligente, dona do próprio nariz, que não precisava ser salva por ninguém.

Zelda Scott poderia ter sido uma armadilha para a carreira de Andréa — o tipo de papel que gruda na pele do ator e não o deixa mais escapar. Mas ela fez o que os grandes artistas fazem: recusou-se a repetir a fórmula. Nos anos seguintes, percorreu um arco que vai da mística Úrsula de Pedra sobre Pedra (1992) à doce e enigmática Dora de A Viagem (1994), novela de Ivani Ribeiro que marcou época na TV Globo. Em Mulheres de Areia (1993), viveu a sofrida Virgínia, papel que exigia dela um registro dramático que até então o grande público não conhecia. A cada nova personagem, Andréa parecia dizer: não estou aqui para agradar, estou aqui para investigar.

Mas é impossível falar de Andréa Beltrão sem dedicar um capítulo à sua parceria com Marieta Severo. As duas atrizes não são apenas amigas íntimas — são cúmplices de um projeto estético. Juntas, fundaram o Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, espaço que se tornou um dos mais importantes palcos da cidade. A peça de inauguração, Sonata de Outono (2005), baseada no filme de Ingmar Bergman e dirigida por Aderbal Freire Filho, foi um acontecimento. Andréa e Marieta dividiam o palco como mãe e filha, num duelo de afetos e ressentimentos que só duas atrizes de primeira grandeza poderiam sustentar.

O Teatro Poeira não é apenas uma sala de espetáculos. É uma declaração de princípios. Num momento em que a classe artística brasileira enfrenta sucessivas crises de financiamento e visibilidade, Andréa e Marieta apostaram na autonomia: construir o próprio espaço, produzir o próprio repertório, manter-se vivas pela força do trabalho. E há algo de heroico nessa teimosia. O Poeira é a prova de que o teatro brasileiro sobrevive pela obstinação dos seus artistas.

Foi nesse palco que Andréa realizou um dos feitos mais impressionantes de sua carreira: Antígona (2016), seu primeiro solo. Sozinha, sem rede de proteção, ela enfrentou o clássico de Sófocles numa montagem dirigida por Amir Haddad que começava com a porta do camarim entreaberta e a atriz conversando com a plateia como se estivesse em sua própria sala. Aos poucos, a intimidade dava lugar à tragédia, e Andréa conduzia o público pelas mãos até o abismo. O espetáculo rendeu-lhe o Prêmio Shell de Melhor Atriz — o terceiro de sua carreira, depois de A Prova e As Centenárias.

No cinema, sua trajetória é igualmente vigorosa. Foram mais de trinta longas-metragens, mas um deles merece destaque especial: Hebe: A Estrela do Brasil (2019), de Maurício Farias. Interpretar Hebe Camargo não era apenas um exercício de imitação — era um mergulho na alma de uma das figuras mais complexas da televisão brasileira. Andréa não fez uma caricatura da apresentadora loira e espalhafatosa. Ela encontrou a Hebe que existia por trás da Hebe: a mulher que enfrentou o machismo da indústria, que lutou por seu espaço, que carregava dores que o sorriso largo não deixava entrever.

A atuação rendeu-lhe o Grande Otelo de Melhor Atriz, o prêmio máximo do cinema brasileiro, após dez indicações ao longo da carreira. Mais do que isso: valeu-lhe uma indicação ao Emmy Internacional, colocando seu nome ao lado dos maiores intérpretes do planeta. Hebe, a personagem, e Andréa, a atriz, encontraram-se num ponto de intersecção raro: ambas sabiam que o show deve continuar, mas que o show não é tudo.

Outros filmes pontuam sua filmografia com a mesma precisão. Salve Geral (2009), de Sérgio Rezende, que representou o Brasil na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mostrou uma Andréa dramática, densa, capaz de sustentar sozinha o peso de uma narrativa sobre o colapso social. A Partilha (2001), de Daniel Filho, revelou seu talento para a comédia de costumes. Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho, documentário em que ela e outras atrizes interpretavam histórias reais de mulheres anônimas, foi uma aula de metalinguagem: Andréa não atuava, testemunhava.

Na televisão, dois personagens merecem ser lembrados como marcos da cultura popular brasileira. O primeiro é Marilda, a empregada doméstica de A Grande Família, seriado que acompanhou a vida dos Silva ao longo de catorze anos. Marilda era muito mais do que a “secretária do lar” — era a voz da razão, o esteio emocional, a figura que sustentava as contradições daquela família tão brasileira. Andréa deu a ela uma dignidade silenciosa que transcendeu o texto.

O segundo é Fátima, a metade feminina da dupla de Tapas & Beijos (2011–2015), criação de Cláudio Paiva. Ao lado de Fernanda Torres, Andréa construiu uma das parcerias cômicas mais afinadas da televisão brasileira. Fátima e Sueli eram duas amigas solteiras que administravam uma loja de noivas em Copacabana — e, de quebra, administravam suas próprias solidões. A série, que rendeu a Andréa o Prêmio Extra de Televisão de Melhor Atriz, era uma comédia sobre a vida comum, sobre os pequenos naufrágios e as pequenas vitórias de quem não é famoso nem rico. Andréa e Fernanda faziam isso com uma naturalidade que só o talento verdadeiro permite: parecia que não estavam atuando, estavam vivendo.

Mais recentemente, em No Rancho Fundo (2024), novela das seis da TV Globo, Andréa mostrou que continua em plena forma, recebendo o Prêmio APCA de Melhor Atriz em Televisão. A personagem, uma mulher do sertão nordestino, exigia dela um registro completamente diverso de tudo o que havia feito antes. Ela, mais uma vez, correspondeu.

O Troféu Oscarito que Andréa Beltrão receberá em Gramado no dia 15 de agosto de 2026 não é um ponto de chegada. É uma pausa para contemplação. A atriz que começou interpretando João Grilo aos treze anos, que fez teatro de rua, que fundou um teatro, que emocionou o país como Hebe e o fez rir como Fátima, que enfrentou Sófocles sozinha no palco e venceu — essa atriz ainda tem muito a dizer.

O prêmio, que leva o nome do grande Oscarito, o comediante genial que marcou o cinema brasileiro das chanchadas, é uma homenagem ao conjunto da obra. Mas, no caso de Andréa, o conjunto é tão vasto que mal cabe num troféu. Caberia, talvez, numa frase: ela fez da arte de representar um ato de resistência cotidiana. Não pela fama, não pelo dinheiro — mas porque, como ela mesma disse certa vez, “o palco é o lugar onde a gente fica inteiro”. E Andréa Beltrão, ao longo de cinco décadas de ofício, nunca deixou de ser inteira.

Que venham os próximos atos.