O Estado sucumbiu antes dos seis jovens de Rio das Pedras

Por Cristiano Goldschmidt

Na manhã deste domingo, 28 de junho, acompanhei pela GloboNews a reportagem sobre o desaparecimento de seis jovens em um intervalo de apenas três meses em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Confesso que fui tomado por uma indignação profunda e pela perturbadora percepção de que, no Brasil, nos habituamos a coexistir com o intolerável. A notícia trazia um dado que, em uma nação verdadeiramente comprometida com a dignidade humana, seria irrelevante: nenhum dos seis jovens possuía antecedentes criminais ou, segundo seus familiares, qualquer vínculo com facções criminosas. Testemunhas relatam que foram abordados e executados por milicianos. A Polícia Civil investiga os casos. Contudo, a verdadeira tragédia reside justamente nesse detalhe.

O simples fato de a biografia de uma vítima precisar de escrutínio para que sua morte desperte comoção revela uma deformação severa do nosso senso ético. É como se o direito à indignação estivesse condicionado a um atestado de idoneidade, uma espécie de certificado de respeitabilidade que separa as vidas que merecem luto daquelas que podem ser descartadas. Por isso, tantas famílias, imersas no luto e antes mesmo de clamarem por justiça, veem-se compelidas a blindar a honra de seus filhos. Este é, talvez, um dos sintomas mais perversos da degradação moral fomentada pela violência endêmica: a vítima é julgada antes do algoz.

No entanto, há uma camada ainda mais sombria e estrutural. O sumiço desses jovens não é apenas um dado na mórbida estatística fluminense; ele simboliza o colapso histórico de um Estado que, há décadas, demonstra incapacidade de garantir sua premissa elementar: a salvaguarda da vida. É impossível tratar o tema sob a ótica asséptica com que dramas humanos são convertidos em indicadores de gestão. Há mais de quarenta anos, o Rio de Janeiro sobrevive a promessas de pacificação, planos estratégicos e operações pirotécnicas. Mudam-se os governadores, secretários e slogans, mas o medo permanece imutável. O que não se altera é o rastro de famílias em busca de respostas e a certeza de que existem territórios onde a soberania legítima foi revogada por poderes paralelos que operam à luz do dia.

Um Estado não fracassa apenas ao falhar na captura de criminosos. Ele sucumbe quando perde o monopólio legítimo da força e, consequentemente, a confiança da população. Quando grupos armados ditam quem circula, quem trabalha e quem deve desaparecer, a autoridade pública dissolve-se em uma irrelevância burocrática. Essa erosão institucional não é súbita; ela é um processo lento de normalização do absurdo, onde a exceção se torna a regra e o crime organizado assume funções de ordenamento social. Rio das Pedras, berço histórico das milícias, é o laboratório desse experimento de falência republicana.

É aviltante. Não há termo mais preciso para descrever a sensação de impotência diante do Estado que assiste, inerte, ao sequestro de sua própria autoridade. É aviltante que moradores de uma metrópole global vivam sob o jugo de milícias, sendo retirados de transportes públicos sob a mira de fuzis. É ultrajante que mães peregrinem por meses enquanto o silêncio institucional agrava a angústia. Toda autoridade pública deveria sentir o peso do constrangimento diante dessa falência. Governar não é gerir coletivas de imprensa nem produzir gráficos de redução de criminalidade que não se traduzem na segurança das calçadas; governar é assegurar o direito básico de ir e vir sem o risco do extermínio.

A palavra “desaparecido” carrega uma crueldade singular: ela suspende o luto. Diferente da morte confirmada, que permite o rito de passagem e o início da cicatrização, o desaparecimento condena os familiares a uma clausura emocional. Não permite o repouso da esperança nem a finitude do desespero. É uma tortura psicológica continuada, onde cada dia sem respostas é uma nova violação da dignidade humana. A repetição dessas tragédias gera uma anestesia coletiva, transformando o extraordinário em corriqueiro. Uma sociedade que perde a capacidade de se horrorizar diante do bárbaro começa a aceitá-lo como destino inevitável, uma característica geográfica do Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro não merece esse fardo. Sua população não pode ser refém da dicotomia entre a beleza exuberante de sua geografia e a brutalidade de seu cotidiano. Nenhuma democracia é plena enquanto o poder paralelo legisla, julga e executa à revelia das instituições republicanas. Quando o crime exerce funções estatais, assistimos ao encolhimento da própria República, que se retira das periferias e deixa o cidadão à mercê da “lei da força”. A ausência do Estado não é um vácuo; ela é preenchida por uma ordem arbitrária e violenta que ignora os direitos fundamentais.

A pior violência não é apenas o ato do algoz, mas a inércia persistente das instituições que deveriam impedir que isso continuasse acontecendo. Os seis jovens de Rio das Pedras expõem uma ferida que transcende a segurança pública: é uma crise política, moral e civilizatória. É a prova de que o contrato social foi rompido em determinadas áreas do território nacional. A memória coletiva, anestesiada pelo excesso de escândalos e tragédias, torna-se curta demais para enfrentar problemas que exigem soluções estruturais e coragem política.

O desaparecimento mais inquietante, afinal, não é apenas o desses jovens, mas o da convicção de que o Estado ainda existe para proteger o cidadão comum. Quando essa crença se esvai, a violência deixa de ser um crime isolado para se tornar uma ausência sistêmica. A imagem mais dolorosa do Brasil contemporâneo não é apenas a das ausências em Rio das Pedras, mas a de um país que segue seu curso como se certas vidas pudessem ser apagadas sem que, com elas, desaparecesse também a nossa própria humanidade. Resta o silêncio das autoridades e o grito sufocado de mães que, contra todas as evidências, ainda esperam pelo retorno de quem o Estado permitiu que sumisse.

A tragédia desses jovens é um espelho onde o Brasil deveria se olhar para enxergar o tamanho de sua omissão. Enquanto o poder público se ocupar apenas de administrar a própria imagem, Rio das Pedras continuará sendo o símbolo de uma República que encolhe diante do fuzil. O desaparecimento dos seis jovens é o desaparecimento da nossa esperança em um país onde a vida, independentemente de antecedentes ou endereços, seja o valor supremo. Sem isso, não há democracia, apenas uma convivência forçada com o bárbaro.

Abaixo, os seis jovens desaparecidos em Rio das Pedras de janeiro a junho (fotos: Reprodução TV Globo): Josimar dos Santos Ferreira, 36 anos, Ryan Palhares, 25 anos, Pedro Henrique Lopes Guimarães, Luan Victor, 15 anos, Gustavo Henrique Nascimento Francisco e João Ícaro Alves Souza.

Josimar dos Santos Ferreira, 36 anos

Ryan Palhares, 25 anos

Pedro Henrique Lopes Guimarães

Luan Victor, 15 anos

Gustavo Henrique Nascimento Francisco

João Ícaro Alves Souza