O pré-sal não pode ser entregue numa bandeja global

Geraldo Hasse
A economia começa a sair do fundo do poço e quem a puxa é a locomotiva Petrobras, que já produz mais de um milhão de barris por dia nos campos do Pré-Sal descobertos em 2006.
Alcançar tamanha performance em apenas dez anos seria caso para prêmio, mas não há no famoso Mercado quem reconheça a eficiência da empresa, colocada na linha do choque entre o neoliberalismo emergente e o distributivismo de governos voltados para os pobres.
Também não se vê ninguém festejar a autossuficiência finalmente alcançada após mais de 60 anos de trabalho em terra e no mar. Pelo contrário, o que se nota é um esforço para deteriorar a imagem da empresa. E, no entanto, ela vem dando a volta por cima.
Na moita, sem alarde, a grande BR já recuperou R$ 455 milhões de dinheiro desviado em casos comprovados de corrupção. Uma gota d’água no oceano, dirão os pessimistas. De fato, o valor equivale a apenas meio dia de faturamento anual da empresa, mas o fato relevante é que a petroleira nacional vem tapando os furos por onde vazavam as propinas.
Detalhe: os últimos R$ 145 milhões foram recuperados de casos ocorridos entre 1997 e 2012. O dinheiro estava em bancos suíços em conta pertencente a Julio Faerman, ex-representante da empresa holandesa SBM Offshore, locadora de navios-plataforma, equipamentos caríssimos e cartelizados no mundo. Num acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, o tal Faerman reconheceu que obteve o dinheiro “através de atividades criminosas”.
As investigações começaram bem antes da Operação Lava-Jato e a Petrobras, como vítima das falcatruas, atuou como assistente de acusação no processo. Atingida em cheio pelo vendaval da Operação Lava Jato a partir de 2014, a Petrobras vem se mostrando muito maior do que a crise.
Dias atrás, o presidente Pedro Parente teve de reconhecer que a produção média dos poços do Pré-Sal ultrapassou a previsão – de 15 mil barris diários, chegou a 25 mil. Ex-ministro dos governos tucanos, Parente parece ter assimilado o pensamento nacionalista dominante no corpo técnico da empresa. Pode ser uma tática conciliatória enquanto não é possível aplicar a estratégia subjacente ao golpe contra a presidenta Dilma: “entregar” o pré-sal a petroleiras estrangeiras.
O perigo está na Câmara dos Deputados, onde tramita o Projeto de Lei 4567/2016, que retira da Petrobras a obrigatoriedade na exploração na camada do pré-sal. Essa proposta formulada às pressas pelo senador José Serra permitirá que as multinacionais explorem os campos do pré-sal sem o essencial controle da Petrobras, que deixará de ser obrigatoriamente operadora. Como ministro de Relações Exteriores do governo Temer, Serra não esconde sua intenção de tirar o filé da Petrobras.
O projeto é antinacional e entreguista porque retira da Petrobras o conhecimento geológico do nosso subsolo marinho, aliena a decisão sobre as tecnologias adotadas, tirando a preferência para equipamentos produzidos no Brasil e terceirzando a decisão sobre o ritmo adequado de exploração das jazidas.
O deputado paulista Carlos Zarattini acaba de publicar artigo no site do GGN argumentando que, ao contrário do que alega Serra, não há motivo para ter pressa na exploração do pré-sal porque, depois que descobriu as jazidas, a Petrobras desenvolveu a tecnologia de exploração em águas profundas e conseguiu reduzir os custos de produção a menos de US$ 10 por barril. Uma façanha que causa inveja e aguça a cobiça internacional.
Seria um crime contra a soberania nacional entregar o pré-sal agora que a Petrobras começou a sair do sufoco financeiro do endividamento. Na real, o esforço da empresa é um exemplo para o Brasil, que entrega aos credores da dívida pública uma montanha de recursos que deveriam ser transformados em investimentos em infraestrutura.
Ao fim e ao cabo do gigantesco processo de endividamento do Brasil,  quem mais investe no país é a Petrobras. Até 2021 ela vai investir US$ 70 bilhões em recursos próprios e conta atrair parceiros/sócios que invistam mais US$ 40 bilhões.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
“De certa maneira, a rede de companhias multinacionais representa em forma embrionária o sistema nervoso central de uma ordem econômica global emergente.”
Giovanni Agnelli, presidente da Fiat, em depoimento na ONU em 1975, época em que os grandes chefes do capitalismo mundial elaboravam o Consenso de Washington/Trilateral

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