Por Cristiano Goldschmidt
Por trás de cada eleição existe uma disputa de projetos. Mas existem momentos em que o processo eleitoral transcende a simples escolha entre programas de governo e se transforma em algo mais profundo: um julgamento coletivo da memória histórica de uma nação. O Peru vive um desses momentos.
A presença recorrente de Keiko Fujimori como protagonista da política peruana obriga o país a revisitar um dos períodos mais controversos de sua história recente. Filha e herdeira política de Alberto Fujimori, presidente que governou o Peru entre 1990 e 2000, ela carrega consigo não apenas um sobrenome, mas um legado que continua dividindo profundamente a sociedade peruana. A própria persistência desse debate revela uma questão que ultrapassa as fronteiras do Peru e alcança qualquer democracia contemporânea: o que acontece quando sociedades que sofreram experiências autoritárias passam a considerar, novamente, a entrega do poder a representantes diretos dos mesmos grupos políticos que protagonizaram esses processos?

A década de 1990 permanece como uma das mais complexas da história peruana. Alberto Fujimori chegou ao poder em meio a uma grave crise econômica e a uma intensa escalada da violência promovida por grupos insurgentes. Seus defensores costumam destacar o combate ao terrorismo e a estabilização econômica. Seus críticos, entretanto, lembram que tais resultados vieram acompanhados de práticas incompatíveis com os princípios fundamentais de uma democracia constitucional.
O episódio mais emblemático ocorreu em 1992, quando Fujimori promoveu o chamado autogolpe, dissolvendo o Congresso e intervindo no Poder Judiciário para concentrar poderes em suas mãos. O gesto representou uma ruptura institucional profunda e demonstrou como o discurso da eficiência pode servir de justificativa para a erosão gradual das garantias democráticas. Posteriormente, vieram à tona escândalos de corrupção, esquemas de espionagem política e graves violações de direitos humanos, que culminaram em condenações judiciais e consolidaram a imagem internacional do regime como uma experiência autoritária.
Contudo, a grande questão não reside apenas no passado. Ela reside na forma como esse passado continua sendo mobilizado politicamente no presente.
Se existe um aspecto particularmente perturbador na trajetória política de Keiko Fujimori, ele reside no fato de que sua carreira jamais conseguiu desvincular-se integralmente da herança histórica que a tornou conhecida nacionalmente. Ao contrário de lideranças que procuram construir uma identidade própria e autônoma, sua principal força política sempre esteve associada à preservação, à reinterpretação e, em certa medida, à reabilitação da memória política do pai, Alberto Fujimori. Essa escolha não é apenas simbólica. Ela representa uma disputa permanente pela narrativa histórica do país.
O problema não está em vínculos familiares. Democracias não operam com critérios hereditários de culpa. Filhos não respondem pelos atos de seus pais. O problema surge quando a herança reivindicada inclui precisamente o fechamento do Congresso, a submissão das instituições aos interesses do Executivo, denúncias de corrupção sistêmica e violações de direitos humanos reconhecidas judicialmente. Nesse contexto, a exaltação do legado fujimorista deixa de ser uma simples estratégia eleitoral e passa a representar um embate sobre os próprios limites éticos da memória política.
Mais do que uma candidatura individual, Keiko Fujimori tornou-se a expressão contemporânea de um movimento político que, ao longo dos anos, demonstrou dificuldade em realizar uma autocrítica profunda sobre os abusos cometidos durante a década de 1990. A ausência dessa revisão histórica produz uma consequência preocupante: a normalização gradual de práticas autoritárias sob o argumento de que determinados resultados econômicos ou de segurança pública seriam suficientes para compensar os danos provocados à ordem democrática.
Talvez resida aí uma das maiores fragilidades do fujimorismo como projeto político. Sua narrativa frequentemente convida a sociedade a recordar os supostos êxitos do período, mas se nega a reconhecer e a enfrentar com igual intensidade os custos institucionais que acompanharam esses resultados. Nenhuma democracia madura pode aceitar que a eficiência administrativa funcione como absolvição histórica para a concentração de poder ou para a relativização ou degradação dos direitos fundamentais.
A experiência histórica demonstra que regimes autoritários raramente se apresentam como autoritários. Em geral, surgem revestidos por promessas de ordem, estabilidade, prosperidade ou combate ao crime. A sedução dessas promessas reside justamente em sua aparente simplicidade. Problemas complexos recebem soluções rápidas; instituições são retratadas como obstáculos; mecanismos de controle passam a ser vistos como entraves à governabilidade. É exatamente nesse ponto que as democracias começam a correr riscos.
A história política contemporânea mostra que as democracias dificilmente morrem de maneira abrupta. Na maior parte dos casos, elas são corroídas lentamente. O processo começa pela desqualificação das instituições, avança pela concentração gradual de poder e culmina na normalização de práticas que anteriormente seriam consideradas incompatíveis com a vida democrática.
Por essa razão, a memória histórica desempenha papel central. Não se trata de cultivar ressentimentos ou de transformar o passado em uma prisão permanente. Trata-se de compreender que sociedades maduras precisam ser capazes de reconhecer seus erros para evitar repeti-los.
O caso peruano não é isolado. Em diversas partes do mundo, famílias associadas a governos autoritários conseguiram preservar influência política por décadas, transformando sobrenomes em patrimônios eleitorais. Trata-se de um fenômeno que deveria provocar reflexão profunda em qualquer sociedade democrática.
Existe algo de profundamente desconfortável — e até mesmo vergonhoso do ponto de vista histórico — quando nações que sofreram com a concentração de poder, a fragilização institucional e a supressão de direitos passam a aceitar com naturalidade a perpetuação política de grupos familiares diretamente ligados a esses processos. Não se trata de negar direitos políticos a ninguém. Trata-se de questionar o que leva uma sociedade a transformar em herança eleitoral experiências que deveriam servir como advertência histórica.
Quando descendentes políticos ou familiares de líderes associados a rupturas democráticas permanecem como forças centrais do sistema político durante décadas, evidencia-se uma incapacidade coletiva de renovação. Revela-se a dificuldade de construir novas lideranças, novos consensos e novas referências éticas para a vida pública. Trata-se de um sintoma que não deveria ser motivo de orgulho nacional, mas de inquietação.
A verdadeira questão não é se Keiko Fujimori reproduzirá – caso eleita – as nefastas práticas do passado de seu pai. A questão mais relevante é outra: por que uma democracia que conheceu os altos custos do autoritarismo continua sendo chamada, repetidamente, a decidir entre alternativas que mantêm viva a sombra desse mesmo passado? Essa pergunta talvez seja mais importante do que qualquer resultado eleitoral, porque diz respeito não apenas ao futuro do Peru, mas à capacidade das democracias contemporâneas de aprender com seus próprios erros.
No caso peruano, a discussão sobre o fujimorismo permanece viva justamente porque o país ainda busca responder perguntas fundamentais sobre sua identidade democrática. Até que ponto supostos resultados econômicos positivos podem justificar abusos institucionais? É possível separar eficiência administrativa de práticas autoritárias? O combate à criminalidade pode servir como argumento para flexibilizar garantias constitucionais? Essas questões não pertencem apenas ao Peru. Elas atravessam praticamente todas as democracias contemporâneas.
Mais importante do que o destino eleitoral de qualquer candidatura específica é a capacidade da sociedade de avaliar criticamente os legados políticos que se apresentam diante dela. O verdadeiro risco para uma democracia não está necessariamente em uma pessoa ou em um partido. Está na disposição coletiva de relativizar princípios democráticos em nome de soluções aparentemente simples para problemas complexos.
Quando isso ocorre, a história deixa de ser uma fonte de aprendizado e passa a ser um ciclo de repetições.
O Peru encontra-se diante de uma escolha que possui significado muito além de suas fronteiras. Independentemente do resultado eleitoral, o debate em curso recorda uma verdade frequentemente esquecida: democracias não são patrimônios permanentes. Elas exigem vigilância constante, memória ativa e compromisso inegociável com as instituições.
Uma sociedade pode sobreviver a crises econômicas, escândalos políticos e períodos de instabilidade. O que dificilmente supera sem consequências profundas é a perda da capacidade de distinguir entre a força legítima das instituições e a sedução recorrente dos projetos políticos que prometem concentrar poder em nome da salvação nacional. A história latino-americana está repleta de exemplos desse equívoco. O desafio das novas gerações é garantir que eles permaneçam apenas como história — e jamais voltem a se apresentar como destino. Que este não seja o destino atual do Peru.
