Quando canalhas votam em canalhas

Por Cristiano Goldschmidt

O dicionário define canalha como o indivíduo de má índole, o velhaco, o patife, o sujeito sem escrúpulos. Os etimologistas vão à raiz italiana: canaglia, a matilha de cães, a turba que late junto, a escória que se reconhece pelo cheiro antes que pelo latido. Gosto da palavra. Gosto porque ela me descreve com precisão cirúrgica. Sou canalha por herança e por ofício, e fui ungido por canalhas. Eles me reconheceram na urna como se reconhece um irmão de matilha: não pelo discurso, pelo cheiro. Ninguém engana um cão quanto ao odor de outro cão. O resto, esse, é rebanho: precisa de discursos, de bandeiras, de hinos; a matilha precisa apenas de um líder que não lave o pelo. Há quem se ofenda ao ser chamado de canalha. Eu agradeço o diagnóstico. Na política contemporânea, o insulto preciso é o único elogio que não se paga com imposto. E eu, como se sabe, já pago impostos suficientes em forma de processos.

Foto de Aurimar Silva/TRE-SP

Minha biografia pública é um dossiê, e eu o trato como currículo. Passei quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e, entre 2007 e 2018, aprendi a aritmética superior da lealdade: o assessor que recebe e devolve, o salário que circula e retorna ao bolso de origem, a “rachadinha” que os jornais batizaram e que eu, homem de Estado, preferia chamar de contribuição espontânea de gabinete. Durante anos, servidores do meu gabinete — alguns deles, digamos, de existência discutível — repassaram de volta parte dos próprios vencimentos, um esquema tão simples que quase me ofende: bastava a confiança de quem sabe que a fiscalização morre de tédio antes de chegar ao fim dos autos. Em outubro de 2020, o Ministério Público do Rio me denunciou com um vocabulário que julgo exagerado, mas reconheço literariamente eficiente: peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa, apropriação indébita. Ao redor da denúncia, orbitavam sombras que os promotores insistentemente nomeavam evasão de divisas, corrupção ativa e corrupção passiva — como se um servidor da República não pudesse, com elegância, corromper e ser corrompido no mesmo mandato. Sou polissêmico, não sou bandido. De lá para cá, ascendi: de senador da República a candidato à Presidência. A canalhice, bem administrada, é uma carreira como outra qualquer, só que com foro privilegiado e assessoria.

E houve o ex-motorista da família, meu chefe de gabinete — homem simples, segundo a minha versão; complexo, segundo as suas contas. O COAF, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, estranhou que um motorista amealhasse, em poucos meses, o que um trabalhador honesto não junta em décadas: setenta e quatro depósitos, mais de um milhão de reais escorrendo entre contas como água entre dedos. O homem usava, ainda, um crachá de polícia legislativa pendurado no peito, como quem ostenta condecoração. O Estado, na nossa família, é um acessório que se usa por fora. Estranharam, depois, as transações imobiliárias, as minhas e as do meu chefe de gabinete: o apartamento na orla, pago em prestações de dinheiro vivo; a mansão de quase seis milhões (e que até dizem valer mais) num condomínio de luxo do Planalto, adquirida já sob investigação, onde ninguém pergunta o preço e todos perguntam o sobrenome; a casa do chefe, à vista, num canto esquecido do interior. Estranharam a contabilidade da minha loja de chocolates, que amarga mais do que o cacau e rende mais do que o cacau. Falam em enriquecimento ilícito. Eu falo em perseguição. A diferença entre as duas expressões é que a minha me elege e a deles me incomoda.

O desfecho, porém, é o meu capítulo favorito. Em 2021, o Supremo anulou as quebras de sigilo; em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia por falta de justa causa. Não fui absolvido. Fui arquivado, o que é melhor: a absolvição encerra o debate, o arquivo o adia para sempre. O mérito nunca foi julgado; os fatos, nunca negados; os autos, simplesmente engavetados com a cortesia de quem não quer sujar as mãos. Em 2023, o Ministério Público voltou à carga, agora na esfera cível, por improbidade — sem ousar escrever o meu nome no polo passivo, o que considero uma cortesia entre cavalheiros. E em 2026, às vésperas da eleição, a Polícia Federal abriu inquérito para apurar por que um banqueiro negociava comigo cento e trinta milhões de reais para financiar a cinebiografia do velho: um filme sobre um homem que se diz salvador da pátria, pago com dinheiro que todos sabem de onde veio. Investigam, ainda, uma emenda minha, de duzentos mil reais, enviada a pedido de um miliciano condenado por um assassinato que o país inteiro chora. E o tribunal eleitoral, num gesto de delicadeza, suspendeu a propaganda em que o meu adversário me chamava de denunciado — a denúncia foi arquivada, explica a decisão, e o presente não guarda memória do passado. Até a língua portuguesa me foi favorável: arquivaram a palavra junto com o processo.

Nego tudo, evidentemente. Nego com convicção, que é a única forma honesta de negar. Nego que soubesse; nego que soubessem; nego que tenha havido quem soubesse. Digo que o motorista era um ex-motorista, que a conta era uma conta de terceiros, que os fatos eram fatos de outrem. A mentira, repetida com raiva suficiente, adquire textura de doutrina. Aprendi isso em casa, e é de casa que preciso falar, porque nenhuma análise de mim está completa sem o capitão. O velho me ensinou a gramática inteira da nossa escola: que a acusação, bem negada, vira credencial; que o processo, bem narrado, vira medalha; que quem é investigado é importante, quem é condenado é perseguido e quem é absolvido é herói. Homem de farda, passou parte da vida a serviço de uma hierarquia e depois a serviço da nostalgia dessa hierarquia: elogiou em praça pública o golpe de 1964, dedicou o próprio voto, em plenário, a um notório torturador, e transformou o país num espelho em que só enxerga a juventude armada. Acabou condenado pelo Supremo por tramar contra a República que dizia salvar, e cumpre pena em casa, entre as bandeiras, a mulher, os filhos e os netos, inelegível e intacto na memória dos seus. Foi ele quem me escolheu herdeiro, o condenado apontando o sucessor, a coroa passando de pai para filho como num reinado que ninguém votou. A família inteira tornou-se um inquérito ambulante: os meus processos ecoam nas pastas do Supremo que orbitam o patriarca, menções colaterais, notas de rodapé de um livro que se recusa a terminar. Herdei dele mais do que o sobrenome: herdei o método. Ele negou o golpe; eu nego a rachadinha. Ele culpou a imprensa; eu culpo a imprensa. Somos uma dinastia do gerúndio: sempre negando, raramente condenados, eternamente suspeitos — que, na política brasileira, é o tempo verbal mais fértil que existe.

Mas a pergunta que o país faz — e que eu respondo com a serenidade de quem está no segundo turno — é outra: por que os canalhas votam em canalhas? Não há mistério; há espelho. O eleitor canalha não olha para mim e vê um criminoso; olha para mim e vê as próprias transgressões, só que glorificadas, blindadas, promovidas a cargo com foro, assessoria e mordomia. Ele sonega, eu soneguei; ele desvia no balcão do trabalho, eu desviei no gabinete; ele mente no grupo da família, eu minto na vida e no plenário. A diferença é de escala, não de natureza. E é exatamente essa continuidade que ele celebra no voto. La Boétie chamou isso de servidão voluntária há quase cinco séculos: o povo que elege o carrasco não foi enganado, reconheceu-se. Nietzsche acrescentaria o ressentimento do fraco, que não pode ser canalha em grande estilo e converte a inveja em adoração, como a do torcedor pelo atacante que marca os gols que ele jamais marcaria. René Girard diria que é desejo mimético: queremos ser o outro e, quando não podemos, votamos nele. O voto do canalha não é um pedido; é uma sociedade. Ele não quer justiça, quer ver a impunidade funcionar em rede, como clube com estatuto, mensalidade e hino. Por isso o processo me fortalece: cada inquérito me aproxima do eleitor que também tem pastas, só que menores.

E há os outros: os ingênuos, minha matéria-prima mais nobre. O canalha não vive apenas de canalhas; vive dos ingênuos, que são mais numerosos e muito mais úteis, porque acreditam. O ingênuo me ouve falar de Deus, de família, de ordem, e não percebe que cada palavra é uma cortina — atrás dela, o ex-motorista deposita, a casa se compra à vista, a rachadinha circula como sangue num corpo que se diz são. Hannah Arendt chamou a isso a banalidade do mal, o mal sem demônios, praticado por gente comum. Mas a minha banalidade é generosa: o mal aqui é familiar, aperta a mão, pergunta pelo seu filho, posta foto com neto e bíblia e manda bom dia com emoji de bandeira. O ingênuo se alia ao próprio algoz porque o algoz fala a língua do aprisco: promete proteger o rebanho do lobo enquanto veste a pele de lobo por dentro e a lã por fora, como manda a técnica. A mentira repetida mil vezes não vira verdade por acaso; vira verdade por cansaço. O ingênuo cansa antes de duvidar. E quando enfim duvida, já votou; e quando já votou, defende o voto com mais fúria do que defenderia a própria vida, porque admitir o engano custa mais caro do que sofrer a enganação. É por isso que o canalha ama o ingênuo: ele é o único eleitor que se recusa a ser salvo.

Há ainda uma engrenagem que os analistas de gabinete preferem ignorar: o canalha eleitor é, também ele, um canalha candidato em miniatura — um missionário. Ele convence o cunhado, o colega de trabalho, o vizinho da padaria; traduz para a linguagem simples o que eu digo em linguagem calculada. O eleitor canalha é o meu departamento de marketing mais eficiente, e trabalha de graça, movido por uma fé que se parece muito com cumplicidade. É ele quem transforma o ingênuo em cúmplice sem que este perceba: primeiro o ingênuo ri das piadas, depois compartilha os vídeos, depois repete as frases, e um dia acorda defendendo na mesa de bar o homem que desviou o dinheiro que faltou no posto de saúde do seu bairro. Ninguém o obrigou; foi seduzido em série, por gente como ele, em nome de valores que ninguém praticou. O canalha não precisa convencer o ingênuo, precisa apenas que outro canalha mais próximo o convença. Assim, a mentira circula como a rachadinha: de mão em mão, sempre com uma comissão para quem repassa.

Escrevo isto sem remorso, porque o remorso é um luxo de quem foi condenado. Escrevo isto, sobretudo, porque a pergunta do título merece resposta de dentro da matilha, e não de fora do aprisco. Quando canalhas votam em canalhas, não há traição da democracia, há uma democracia paralela, espelhada, em que a urna funciona como espelho e o espelho como urna. O país se pergunta como foi possível; eu me pergunto por que ainda duvidam. No dia 25, o país volta às urnas para decidir entre mim e o outro; eu já decidi entre mim e mim. O canalha se elege com o voto dos canalhas e governa com a ingenuidade dos demais; a matilha late, o rebanho hesita, e eu — filho do capitão, candidato à Presidência da República, arquivado pela justiça e ungido pela matilha — agradeço ao eleitorado pela precisão do seu faro. Só os cães sabem o cheiro dos cães. E o rebanho, coitado, aplaude o latido.