Arte, Política e Democracia: livro convida a reflexões sobre o futuro do país

Coletânea reúne pesquisadores de diferentes estados e aproxima teatro, dança, artes visuais, memória e participação política

Em um claro convite à reflexão coletiva sobre o futuro do país, às vésperas das eleições, o livro Arte, Política e Democracia: reflexões sobre artes visuais, teatro e dança, será lançado em Porto Alegre no dia 30 de setembro, das 19h às 21h, na Fundação Ecarta, dentro da programação do projeto Ecarta Anfitriã.

Organizado por Daniela Kern, Rosane Vargas e Cristiano Goldschmidt, o livro reúne 19 artigos produzidos por pesquisadores de diferentes regiões do país. O resultado é uma coletânea de ampla abrangência temática, que percorre a história da arte, o teatro, a dança, o carnaval, a performance, a cultura afro-brasileira, questões de gênero, as políticas culturais e os movimentos sociais para discutir um mesmo problema: de que maneira a produção artística participa das disputas de memória, representação e poder que atravessam a democracia brasileira.

A origem do projeto está ligada a outra publicação organizada por Goldschmidt. Depois de lançar Diálogos com Paulo Freire para entender e mudar o mundo: 100 anos de um educador (Editora Diálogo Freiriano, 2022), coorganizado com Liana Borges, com a parceria de Nita Freire, viúva do educador, Goldschmidt afirma ter percebido que precisava se dedicar a uma obra voltada às relações entre arte, política e democracia. O livro anterior homenageou o centenário de nascimento de Paulo Freire, reconhecido como Patrono da Educação Brasileira.

“Pensei que precisava me dedicar a organizar uma obra sobre ‘Arte, Política e Democracia’, desta vez um livro que trouxesse reflexões sobre o momento político que então vivíamos, com ataques às artes e à cultura em geral”, relata Goldschmidt.

Naquele momento, ele procurou Rosane Vargas e propôs uma parceria na organização. Rosane sugeriu o nome de sua orientadora de doutorado, Daniela Kern, para integrar a empreitada. Desde o início, segundo Goldschmidt, a ideia era lançar um edital público para a submissão de artigos, de modo a reunir contribuições de pesquisadores das artes de muitos estados da federação. O projeto foi iniciado no primeiro semestre de 2022 e se desenvolveu em meio à pandemia, à crise política e ao agravamento dos ataques às instituições democráticas.

A proposta resultou em uma publicação que não se restringe à análise de obras consagradas ou de episódios recentes. Os artigos também recuperam experiências históricas pouco conhecidas, acompanham trajetórias coletivas e mostram como diferentes linguagens artísticas produziram formas de resistência em contextos autoritários.

Um teatro que transforma a conjuntura em cena

Entre os textos em destaque está “Crônica de uma performance em Teatro”, de Marcelo Ádams. O artigo parte da experiência do ator no espetáculo O inverno do nosso descontentamento, Nosso Ricardo III, uma criação baseada em Shakespeare e realizada com a atriz Margarida Peixoto e o diretor Luciano Alabarse, da Cia Teatro ao Quadrado.

Em vez de apresentar apenas uma análise externa da montagem, Ádams escreve a partir do próprio processo de criação e descreve a organização da performance em cenas. O espetáculo alterna a presença do personagem Ricardo com a do ator Marcelo, explorando as fronteiras entre representação e depoimento, personagem e intérprete, passado histórico e conjuntura brasileira.

O artigo acompanha recursos de encenação como a composição física do protagonista, a construção de um corpo marcado por escoliose, a presença de máscaras, os jogos com a quarta parede e o uso de referências a Frankenstein, White Heat e King Kong. A montagem também incorpora elementos de Beckett, Shakespeare, Brecht e da tradição do teatro épico.

Um dos momentos mais diretamente relacionados à política brasileira é a cena do discurso. Com duração superior a 23 minutos e cerca de 3,7 mil palavras, ela reproduz a velocidade e determinados padrões de fala associados ao discurso político contemporâneo, com destaque aos discursos de ódio proferidos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. A imitação não funciona como simples caricatura. O procedimento revela como a linguagem pública pode combinar apelo religioso, violência, autoritarismo e teatralidade.

O texto de Ádams interessa ao conjunto do livro porque mostra a política dentro do próprio mecanismo da cena. Não se trata apenas de abordar um tema político, mas de compreender como ritmo, corpo, voz, figurino, paródia e presença do ator produzem uma leitura crítica do poder.

O artista como empreendedor de si mesmo

Outro artigo é “Neoliberalismo e arte contemporânea”, de Lucas Dilacerda. O autor examina a transformação da figura do artista em um trabalhador que precisa administrar a própria imagem, divulgar permanentemente sua produção e converter sua presença em valor.

A análise passa pelas ideias de Arthur Danto sobre os regimes ontológicos da arte e pelo conceito de “artista-etc.”, associado a Ricardo Basbaum. Dilacerda observa que o artista contemporâneo é frequentemente levado a acumular funções: produtor, curador, gestor, comunicador, empreendedor e “blogueiro de si”.

O texto identifica três efeitos do neoliberalismo no campo artístico: a exigência de formalização do trabalhador como microempreendedor individual, a ampliação indefinida das tarefas reunidas na expressão “artista-etc.” e a necessidade de transformar a autopromoção em parte permanente do trabalho. A crítica não recai sobre o uso de redes sociais ou sobre a autonomia profissional em si, mas sobre a transformação da visibilidade em obrigação econômica.

Ao tratar a arte e o artista como invenções históricas, o artigo questiona a ideia de que exista uma essência fixa da produção artística. O que se entende por arte muda conforme as instituições, as relações econômicas e as disputas sociais. A democracia, nesse contexto, também depende das condições concretas de trabalho, financiamento, circulação e reconhecimento dos produtores culturais.

Quando a destruição vira mercadoria

A crítica ao mercado e à tecnologia aparece de forma radical em “A obra de arte na era de sua destrutibilidade técnica”, de Yuri Flores Machado. O artigo analisa o projeto The Burned Picasso, no qual um desenho de Pablo Picasso, Fumeur V, de 1964, foi adquirido, queimado e associado a um NFT (non-fungible token), um registro digital em blockchain que passou a representar a obra destruída.

O episódio é colocado em diálogo com Walter Benjamin, especialmente com as discussões sobre aura, reprodução técnica e sobrevivência da obra. O texto pergunta o que acontece quando a destruição física deixa de significar desaparecimento e passa a funcionar como estratégia de valorização financeira.

Para Machado, a operação expõe a relação entre especulação, exclusão cultural e fetichização tecnológica. A promessa de uma arte imaterial e acessível por meio da blockchain não elimina as desigualdades do sistema artístico. Ao contrário, pode criar novos espaços de privilégio, nos quais a experiência da obra é substituída pelo acesso restrito ao ativo e à narrativa de sua valorização.

O artigo também questiona o mito da neutralidade tecnológica e aproxima a queima do desenho de Picasso de outras formas históricas de destruição de imagens, livros e patrimônios. A discussão amplia o alcance do livro ao mostrar que a relação entre arte e política passa, atualmente, também pelos regimes digitais de propriedade, circulação e visibilidade.

Arquivos, masculinidades e memória colonial

A coletânea apresenta ainda o estudo de Ramsés Albertoni Barbosa sobre a artista chilena Voluspa Jarpa. O texto investiga obras que reorganizam documentos desclassificados sobre as ditaduras sul-americanas e a Operação Condor. Em instalações como Declassified, secret and confidential: outgoing message e L’Effet Charcot, o arquivo aparece como material físico, fragmentado e incompleto.

Barbosa aproxima os documentos de questões relacionadas ao trauma, à histeria e à memória histórica. A obra de Jarpa não apenas expõe informações antes mantidas em segredo. Ela também torna sensível o modo como a violência política continua inscrita no corpo dos arquivos, nas lacunas e nos apagamentos.

Na parte dedicada à dança, Luciano Correa Tavares e Suzane Weber da Silva discutem as experiências afrodiaspóricas de homens negros e suas masculinidades. O artigo aborda as relações entre corpo, raça, gênero e poder, além das condições econômicas precárias que caracterizam o trabalho na dança.

Os autores mobilizam conceitos de capital corporal, social e cultural para analisar a trajetória de dançarinos negros, entre eles Rui Moreira, Luiz de Abreu e Rubens Oliveira. O texto também recupera a importância de Rubens Barbot, criador de uma companhia brasileira voltada à cultura negra, e discute o conceito de danças negras formulado por Patrick Acogny.

A questão central é saber como corpos negros são enquadrados, reconhecidos e valorizados no campo da dança. Ao mesmo tempo em que esses artistas enfrentam padrões raciais e estéticos dominantes, produzem outras noções de pertencimento, masculinidade e presença cênica.

Uma chamada pública para ampliar o debate

O livro inclui também artigos sobre a atuação do Bando de Teatro Olodum, os trabalhos de Gê Viana, as experiências de história oral e performance de Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky, as pesquisas de Frederico Duarte Bartz sobre imagens e socialismo no movimento operário do Rio Grande do Sul e o Clube de Gravura de Bagé, estudado por Andréia Carolina Duarte Duprat.

A diversidade de temas corresponde à escolha editorial de abrir a publicação à participação de pesquisadores de várias partes do Brasil. O edital público permitiu que a coletânea não ficasse limitada a um único centro acadêmico ou a uma perspectiva regional. Essa abrangência aparece tanto na variedade dos objetos quanto nas diferentes formas de pesquisa, que incluem análise de espetáculos, história da arte, estudo de arquivos, entrevistas, história oral, leitura de imagens e acompanhamento de práticas coletivas.

O resultado é uma obra que trata a democracia como uma experiência disputada no cotidiano. Ela está nos palcos, nos desfiles de Carnaval, nos jornais operários, nos museus, nos monumentos, nos arquivos, nas instituições de ensino e nas condições de trabalho dos artistas.

Em período eleitoral, o lançamento de Arte, Política e Democracia recoloca a cultura no centro do debate público. A publicação mostra que as artes não apenas refletem crises políticas. Elas também produzem documentos, questionam versões oficiais, abrem espaços de participação e constroem imagens capazes de alterar o modo como uma sociedade reconhece seus conflitos.

Serviço

Lançamento: Arte, Política e Democracia: reflexões sobre artes visuais, teatro e dança
Data: 30 de setembro de 2026
Horário: das 19h às 21h
Local: Fundação Ecarta, Porto Alegre
Programação: projeto Ecarta Anfitriã
Organização: Cristiano Goldschmidt, Rosane Vargas e Daniela Kern
Editora: Panorama Crítico
ISBN: 978-65-89388-03-6

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