O duo de blues formado por Mari Kerber e Ale Ravanello se apresenta ao vivo nas redes sociais do Parangolé nesta quinta-feira (2) às 20h. A apresentação faz parte da segunda edição de uma série de lives que o bar tem realizado com o objetivo de arrecadar recursos para os músicos que costumam se apresentar na casa. O bar segue fechado desde o início da pandemia da Covid-19.
A agenda de lives do Parangolé segue todas as terças e quintas durante todo o mês de julho, com espaço para variados gêneros musicais, como MPB, bossa nova, samba e pop. Estão na lista músicos como Gabriela Lery, Pablo Grilo, Marcelo Lehmann e Chicão Dornelles. Confira a agenda completa na imagem abaixo:
O secretário de Cultura, Mario Frias, afirmou que pretende uma auditoria sobre a aplicação dos recursos pela lei de incentivo à cultura, conhecida por Lei Rouanet, em entrevista há pouco à CNN Brasil.
Frias substituiu a ex-secretária Regina Duarte há uma semana. O novo secretário disse que não podem existir “os barões da Lei Rouanet”.
Frias ressaltou que a lei de incentivo à cultura é fundamental para um país que se preocupa com cultura. “Mas a cultura não é limitada ao eixo Rio-São Paulo, a cultura é brasileira e deve chegar a outros Estados”, defendeu.
Na viagem que empreendeu pelo Rio Grande do Sul , há 200 anos, o naturalista francês, Auguste de Saint-Hilaire, ficou mais de um mês em Porto Alegre.
Tempo suficiente para escrever um dos mais importantes relatos sobre como era a vida na, então, sede do governo da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul.
Como nas demais partes do Brasil em que percorreu ao longo de seis anos (1816-1822), Saint-Hilaire, além da botânica, teve um olhar arguto sobre usos e costumes, pessoas, política e administração.
Suas anotações, em forma de diário, mais tarde transformadas em livros, constituem um importante documento histórico.
Porto Alegre, na época, segundo a estimativa apurada por Saint-Hilaire, contava entre 10 e 12 mil habitantes. Entre esses, ainda viviam muitos dos primeiros porto-alegrenses natos e, até mesmo, gente nascida bem antes da fundação da cidade.
Assim, durante as suas perambulações, Saint-Hilaire pode ter encontrado pessoas que ainda denominassem o local como Porto de Viamão ou Dorneles, ou, mais singelamente, Porto dos Casais.
Mas, fora alguns pioneiros sobreviventes, e seus descendentes, a Porto Alegre de 1820 já era bem diferente daquela de sua fundação.
Na Rua da Praia, que Saint-Hilaire descreve como sendo a única artéria comercial, nada restava para lembrar a antiga colônia de pescadores e suas choupanas, incluindo a primeira capela, ou seja, habitações parecidas como as encontradas por ele no litoral a partir de Torres.
Saint-Hilaire descreve uma Porto Alegre cheia de construções novas e com uma certa pujança econômica, porto e comércio movimentados, fadada “a ficar rica”, como ele projetou.
O francês também constatou que Porto Alegre era bonita: “[…] Aqui lembramos o sul da Europa e tudo quanto ele tem de mais encantador”, escreveu no seu diário.
Por outro lado, achou que a cidade era mais suja que o Rio de Janeiro e lamentou que, apesar do frio intenso, as casas não tinham aquecimento.
E no que diz respeito a arquitetura, observou que, de tão acanhados, os principais edifícios públicos – Palácio, Câmara, Matriz, Palácio da Justiça – não condiziam com a importância da capital, nem com a riqueza da capitania.
Por que este desleixo, ou mesquinharia, com prédios que tem uma forte carga simbólica?
Para responder esta e outras questões, o JÁ entrevistou o historiador Sérgio da Costa Franco. Autor de livros como “Porto Alegre Ano a Ano: uma cronologia histórica 1732-1950”, “Os viajantes olham Porto Alegre 1754-1890”, e “Porto Alegre Sitiada” sente-se a vontade para falar daquele que foi um dos primeiros cronistas da cidade.
JÁ – O que diferencia Saint-Hilaire dos demais viajantes que percorreram o Rio Grande do Sul, especialmente Porto Alegre, na primeira metade do século XIX? Arsène Isabelle (1806-1888) e Nicolau Dreys (1781-1843), por exemplo, só para citar dois, franceses como ele.
SCF – O que diferencia Saint Hilaire dos demais viajantes contemporâneos é tanto a quantidade quanto a qualidade da informação.
Embora fosse um autodidata, Saint-Hilaire exibe uma massa de informação respeitável em botânica, zoologia e outras ciências naturais. O Abeillard Barreto, nosso melhor bibliógrafo, escreveu (Bibliografia Sul-Riograndense) sobre sua enorme capacidade de trabalho na coleta zoológica, a precisão e minúcia do seu diário. Chama-o de “inigualável visitante”, que além de tudo, ainda achava tempo para redigir monografias e comunicações para várias publicações da França.
Quanto a mais alentada de suas obras, a “Voyage à Rio Grande do Sul”, ele escreveu que ainda era o “manancial” mais sadio e mais profundo para o estudo dos homens e das coisas rio-grandenses”.
JÁ – Nicolau Dreys, inclusive, morava na cidade quando Saint-Hilaire esteve em Porto Alegre. No entanto, o naturalista não o menciona. Por quê? Afinal, não havia tantos franceses na cidade. E Dreys era um comerciante e homem de iniciativa.
SCF – Há em Nicholas Dreys uma referência a Saint Hilaire: encontraram-se num almoço em Rio Grande. Mas fora serem ambos franceses, talvez não houvesse muita sintonia entre os dois. Dreys era um bonapartista refugiado e, num tempo de “restauração” bourbônica, talvez não conviesse a Saint Hilaire a aproximação.
No diário, em 12 de julho, ele alude a um negociante francês que o convidara para uma festa. Não seria o Dreys?
JÁ – Trata-se, Saint-Hilaire, do primeiro cronista de Porto Alegre que, aquela altura, apesar de capital, ainda era uma vila?
SCF – Parece-me que a primazia entre os cronistas cabe a dois portugueses: Domingos José Fernandes, autor da Descrição Cronológica, Política, Civil e Militar da Capitania do Rio Grande do Sul (Lisboa, 1804) e a Manoel Antônio de Magalhães, autor de Almanaque da Vila de Porto Alegre. O primeiro fez observações muito interessantes sobre as ruas da vila nascente, assim como o Magalhães, que era comerciante estabelecido na esquina da Rua do Cotovelo (hoje Riachuelo), com o Beco do Fanha (hoje Caldas Júnior). O Almanaque é de 1808.
JÁ – Apesar de achar a cidade mais suja do que o Rio de Janeiro, ele faz observações bastante elogiosas.
SCF – Deve-se considerar que o Rio de Janeiro já era mais urbanizada que Porto Alegre, aqui ainda circulavam muitos cavalos e cabeças de gado. Por isso seria mais suja, suponho.
JÁ – Saint-Hilaire compara, por exemplo, o Caminho Novo (atual Voluntários da Pátria), ao que existe de mais agradável na Europa.
SCF – Lembro que o Caminho Novo era recém aberto e local aprazível, à beira do Guaíba, ocupado por chácaras. Nicholas Dreys lhe fez uma descrição muito lisonjeira. “Depois de se ter passado o fundeadouro da cidade, segue-se a NO um bairro pitoresco, ao qual se deu o nome de Paraíso (atual Praça Quinze); depois deste, na mesma direção, principia uma bela alameda plantada, na beira do rio de árvores frondosas, chamada CAMINHO NOVO que prolonga-se quase sempre com os mesmos ornatos, até perto da embocadura do Rio Gravataí, é certamente dos mais excelentes passeios que se pode ver”. É claro que era o Caminho Novo antes da ferrovia, das indústrias e do comércio atacadista que viriam bem mais tarde. A descrição de Nicolau Dreys me parece mais expressiva que a de Saint Hilaire.
JÁ – Uma das críticas que faz é que, embora o Guaíba seja uma das fontes de água potável da cidade, jogavam nele toda a sorte de imundícies. A população era tão inconsciente?
SCF – Nessa época, antes das descobertas da microbiologia, não havia muita preocupação com a sujeira dos rios. A primeira hidráulica – a Porto-Alegrense – captava água nas nascentes do Arroio Dilúvio e a distribuía sem tratamento. A segunda, que foi a Guaibense, captava direto no Guaíba e a distribuía sem filtragem ou qualquer tratamento. O que importava era descartar o lixo grosso: animais mortos, fezes humanas.
JÁ – Saint-Hilaire foi, realmente, o primeiro a constatar que o Guaíba era um lago? Controvérsia, rio ou lago, que dura até hoje.
SCF – Se foi o primeiro não se pode afirmar com certeza. É possível que sim.
JÁ – Uma das razões da sujeira era o fato da maioria das casas não terem jardins ou pátios e, por isso, o lixo ser arremessado diretamente na rua. Procede?
SCF – Provavelmente sim. Ademais, é bom lembrar o gado e os cavalos que frequentavam as ruas com abundância. Se não havia pátios ou jardins, abundavam os terrenos baldios.
JÁ – Ele elogia o local onde estava sendo construída a Santa Casa, nos limites da cidade, o que separaria os doentes dos sãos, evitando contágios. Sinal que, na administração, havia gente bem preparada. A cidade já contava com bons médicos? Era um tempo que, embora já existisse a vacina, grassava a varíola.
SCF – Parece que essa ideia de contágio de doença já existia, mas sem noção exata de como ocorria. A microbiologia só nasceu com os trabalhos de Pasteur e Koch, quase no fim do século 19 (década de 1870).
JÁ – Ele não fala bem das construções da cidade: concepção estética, materiais inadequados, espaços exíguos como o palácio do governador, ou a matriz.
SCF – Envolvida em guerras e revoluções, a sociedade gaúcha não se preocupou muito com a estética arquitetônica. De resto o Rio Grande ainda era uma província pobre, que só prosperou depois da Revolução Farroupilha, o que explica a demolição de quase tudo o que era antigo: a velha Matriz, o palácio dos governadores, a igreja do Rosário, a Bailante da Praça da Matriz, o prédio antigo da Caixa Econômica, a “Casa de Correção”. Por muito pouco escaparam a igreja da Conceição, o Mercado Central e outras raridades.
JÁ – Em contrapartida, ele diz que se percebe que Porto Alegre era uma cidade nova, cheia de construções. Era um momento pujante na história da cidade?
SCF – Ao tempo de Saint Hilaire, a cidade estava em crescimento. Mas ainda era muito pequena. Ele lhe atribuiu 10 a 12 mil habitantes, talvez com algum exagero, pois o Governador Paulo da Gama, em 1804, calculou em pouco menos de 4 mil os habitantes da freguesia.
Não se pode falar em “pujante” uma cidade que ainda não tinha indústria. Mas impressionava bem os visitantes e tinha boas construções em andamento.
JÁ – Também, como sugestão, fala em esplanadas. Porto Alegre já tinha recursos, do governo ou de particulares, para projetos arquitetônicos mais ousados?
SCF – Não havia recursos para iniciativas grandiosas. Nem do governo, nem dos particulares.
JÁ – Apesar de todas as críticas, não há dúvida de que ele achou Porto Alegre muito bonita. Ela continua?
O Atelier Livre Xico Stockinger, vinculado à Secretaria Municipal da Cultura (SMC), oferece quatro cursos novos, a partir de 6 de julho.
As aulas serão virtuais e abordam arte moderna, arte contemporânea, construções de narrativas e encadernação.
Os valores das capacitações variam entre R$ 150 e R$ 250. As inscrições podem ser realizadas através do blog do Atelier Livre. Servidores da prefeitura têm 50% de desconto, mediante apresentação de comprovação de vínculo. Bolsas poderão ser concedidas, após análise da solicitação e documentação.
O Atelier Livre aceita alunos a partir dos 16 anos.
Cursos
Cadernos de Viagem: do projeto à encadernação
Professor: Marcelo Armesto
Encontros: oito virtuais
Valor: R$ 150,00
Data: terças-feiras, de 7 de julho a 11 de agosto
Horário: terças-feiras, às 19 horas
Pré-requisitos: nenhum
Construção de um caderno de viagem desde a conceituação do projeto até a confecção do livro. Os encontros terão um livro de referência como fio condutor. Cada participante desenvolverá seu próprio caderno de viagem, utilizando referências teóricas e exemplos do campo da arte e da literatura apresentados, além de experiências práticas em encadernação e linguagens gráficas desenvolvidas em aula.
Arte Moderna
Professora: Anelise Valls
Encontros: oito virtuais
Valor: R$ 150,00
Data: início 6 de julho
Horário: segundas-feiras, às 19 horas
Pré-requisito: nenhum
Abordagem da produção artística da segunda metade do século 19 até os dias atuais. Afastando-se da história da arte linear e homogênea, propõe-se aqui tratar de movimentos, artistas e suas obras e demais aspectos constituintes à luz de determinado número de questões, de ordem formal, mas também filosófica e social. Neste sentido, a ideia é abrir sua história a outras perspectivas e narrativas possíveis. Pretende-se que cada uma das aulas possa funcionar como uma pequena introdução autônoma à história da arte moderna e contemporânea, orientada por uma questão específica.
Neste momento, será oferecido o curso Arte Moderna. Ao concluir cada módulo, o aluno deverá ser capaz não apenas de identificar a produção artística nos períodos abordados, como de compreender sua motivação, seus mecanismos históricos, e também seus impasses diante de questões que seguem em aberto.
Arte Contemporânea: Teorias e Práticas
Professora: Anelise Valls
Encontros: seis virtuais
Valor: R$ 150,00
Data: início 7 de julho
Horário: terças-feiras, das 14h às 17h
Pré-requisito: nenhum
Este curso dedica-se ao estudos de artistas e trabalhos que foram marcos nas Arte Contemporânea no eixo internacional, bem como seus agentes e circuito.
Imagem e Palavra Nas Construções Narrativas
Professora: Mayra Redin
Encontros: 16 virtuais
Valor: R$ 250,00
Data: de 6 de julho a 9 de novembro
Horário: segundas-feiras, das 14h à 17h
Pré-requisito: nenhum
Um curso teórico-prático para exercitarmos construções de narrativas a partir da prática da escrita, da fotografia, do áudio e do desenho, com o objetivo de experimentar as relações entre imagem e palavra na construção das poéticas dos participantes.
Neste ano, o projeto criado em 2003 por Clara Pechansky terá lançamento no dia 1º de julho, com o catálogo MINIARTE VERDADE VIRTUAL, pelo site www.miniartex.org. A partir desta quarta-feira, 24 de junho, o público já pôde assistir um vídeo mostrando uma prévia do catálogo nas redes sociais da artista no Instagram e no Facebook.
Cerca de 400 artistas de 12 países responderam à convocatória, formando um mosaico colorido e mostrando a diversidade da arte produzida na Argentina, Bélgica, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Itália, Espanha, Estados Unidos, México, Portugal e Taiwan.
O catálogo completo da MINIARTE VERDADE VIRTUAL tem design e produção gráfica de Liana Timm, que também é a Artista do Ano da exposição. São 50 páginas mostrando obras de arte e textos produzidos por artistas visuais, escritores e poetas, entre os meses de março e junho de 2020.
A apresentação do catálogo é assinada por Clara em português, espanhol e inglês, e traz notas biográficas de Liana Timm e dos homenageados de honra: Paula Goldstein, designer de iluminação da Disney, e Bruce Buckley, designer de animação em 3D, ambos norte-americanos.
A MINIARTE INTERNACIONAL também representa no Brasil as entidades Arte Sin Fronteras (Colômbia), Mai-Colombia Internacional, OMAI México e Arte México Internacional.
O Projeto MINIARTE INTERNACIONAL (www.miniartex.org) já produziu 37 edições que viajaram pelos 5 continentes. Sempre organizadas por artistas independentes e ocupando espaços públicos, essas edições compreendem 13 coleções que podem ser visitadas tanto no site da Miniarte quanto na Plataforma Flickr no link: http://bit.ly/3am3sgp.
Mais de 1500 artistas já participaram de diferentes edições, cada uma com um tema específico, na Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Holanda, Inglaterra, Irlanda do Norte, México, Estados Unidos.
A MINIARTE já foi exibida em vários estados brasileiros, a convite de universidades, museus e galerias oficiais.
Sobre Clara Pechansky
Nascida em Pelotas, RS, em 1936, vive e trabalha em Porto Alegre. Possui uma longa trajetória profissional, com mais de 60 exposições individuais e participações em Salões, Bienais, Trienais e coletivas que lhe valeram reconhecimento internacional.
Atualmente coordena as mostras CLARA PECHANSKY Y SUS AMIGAS, expostas no México e no Brasil. Fundou o Projeto Miniarte Internacional em 2003, e após 37 edições mostradas em galerias e museus dos 5 continentes, está inaugurando em 2020 a MINIARTE VERDADE VIRTUAL.
Sobre Liana Timm
Artista multimídia, arquiteta, poeta e designer. Vive em Porto Alegre com atelier em permanente ebulição.
Sua produção mescla manualidade e tecnologia, conceito e materialidade, história e contemporaneidade. Transita pelas artes visuais, pela literatura, pelas artes cênicas e pela música.
Realizou 74 exposições individuais, 32 shows musicais, publicou 54 livros, sendo 16 individuais de poesia. Recebeu 15 prêmios e desenvolve produções culturais e projetos editorias através da TERRITÓRIO DAS ARTES.
Sobre Paula Goldstein
É artista visual multipremiada. Nascida na Filadélfia, é Bacharel em Artes e Mestre em Design Gráfico.
Estudou Pintura em Roma, e iniciou sua carreira como Designer Gráfica de Animação e Diretora de Arte em Nova York, na NBC Universal, tendo recebido diversos Emmy Awards pelo seu trabalho na TV.
Nos últimos 14 anos Paula vem sendo uma Disney Feature Animation, recebendo vários Oscars técnicos da Academy Awards. Vive em Los Angeles com seu marido Bruce.
Sobre Bruce Buckley
Nascido no Canadá, é desenhista de animação especializado em modelagem em 3D, tendo criado personagens famosos para diretores importantes, como Steven Spielberg.
Artista Modelador Líder em 3D, criou para a Disney O Dinossauro. Nos últimos 20 anos vem trabalhando como modeling/texture artist, 3D designer, Concept Artist e Supervisor de Computação Gráfica para diversos filmes, tanto em animação 3D quanto em efeitos visuais. Também se dedica à escultura e à fotografia.
Algumas obras:
Obra de Clara Pechansky / Foto: DivulgaçãoObra de Alejandra Rivera- Colômbia / DivulgaçãoPaula Goldstein Truth Def / DivulgaçãoObra de Lina Lopez / Divulgação- ColômbiaAna Isabel Lovatto / Brasil / Divulgação
A Secretaria Municipal da Cultura, através da Coordenação de Artes Plástica, divulgou em edição extra do Diário Oficial (DOPA) desta quarta-feira, 10, os indicados ao XIII Prêmio Açorianos de Artes Plásticas. O júri de indicação foi composto por Luísa Kiefer, Fernanda Albuquerque e Daniel Escobar.
Uma das mais tradicionais premiações do setor, o Açorianos de Artes Plásticas tem como objetivo valorizar, homenagear e distinguir as importantes produções locais que se destacaram ao longo do ano. A iniciativa busca também ser uma forma de registrar, mapear e fomentar as diversas manifestações e suas contribuições com processos de criação e inovação para Porto Alegre.
Prazos – Entre 12 e 18 de junho, ocorre o prazo para a solicitação de recurso administrativo. Dia 19, a comissão de premiação reúne-se para definir a data e o modelo a ser adotado na cerimônia, conforme as normas de distanciamento social.
Parcerias – A Aliança Francesa, através do Institut de França, repete o prêmio Jovem Curador, com viagem à França para o primeiro colocado. Já a Fundação Iberê Camargo oferecerá uma residência. Além das parcerias, a Coordenação de Artes Plásticas irá disponibilizar a agenda das pinacotecas Ruben Berta e Aldo Locatelli para os vencedores das categorias Artista e Curador realizarem uma exposição Lista dos indicados
Destaque em artista início de trajetória
Camila Proto
Manoela Furtado
Verônica Vaz
Destaque em artista
Amélia Brandelli
Mariza Carpes
Teresa Poester
Destaque em curadoria
Ana Albani de Carvalho
Gabriel Cevallos
Mulheres Nos Acervos – Pesquisa Colaborativa: Cristina Barros, Marina Roncatto, Mel Ferrari e Nina Sanmartin
Destaque em exposição individual
Bruno borne – Ponto Vernal, Bruno Borne, Margs
Como Faremos Para Desaparecer – Eduardo Montelli, Ecarta
Nosso Lugar Ao Sol – Rochele Zandavalli, Centro Cultural da Ufrgs
Destaque em exposição coletiva
Acervo Em Movimento – Um Experimento de Curadoria Compartilhada Entre As Equipes do Margs, Margs
As Coisas Que São Ditas Antes, Ocupação. Residência. Exposição, Casa Baka
Faltava-Lhe Apenas Um Defeito Para Ser Perfeita, Ío, Museu do Trabalho
Destaque em ações de difusão e inovação
6º Festival Kino Beat
Artikin
Mulheres Nos Acervos
Destaque em publicações
Lenir de Miranda: Pintura Périplo, Icleia Borsa Cattani e Paula Ramos, Editora da Ufrgs
Diário De Uma Boneca, Lia Menna Barreto, Fvcb
O Percurso De Um Olhar, Luiz Carlos Felizardo, Departamento De Difusão Cultural, Biblioteca Central da Ufrgs
Destaque em acervos
Mulheres Nos Acervos – Pesquisa Colaborativa: Cristina Barros, Marina Roncatto, Mel Ferrari e Nina Sanmartin
Grupo De Bagé – Os Quatro, Caroline Hädrich e Carolina Bouvie Grippa, Fundação Iberê
Ações De Difusão Do Acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo,
Parceria DDC – Acervo Pbsa, Ufrgs
Destaque em ação de educação
10×15: Momentos De Não Calar, CAP/Ufrgs
Ação Educativa, Margs
Claudia Hamerski, Projeto Curadoria Educativa, Galeria Ecarta
A organização do Festival de Cinema de Gramado comunica a transferência do evento, inicialmente programado para agosto, para o período de 18 a 26 setembro. A nova data foi fixada a partir da análise do cenário nacional em função da pandemia.
Dia a dia, a organização e as equipes de conteúdo e produção observam e avaliam as alterações no cenário enquanto constroem a edição 2020.
“O Festival de Gramado reúne, aproxima equipes de produção, elencos, diretores e realizadores. São nove dias de celebração ao cinema, de reconhecimento às produções concorrentes, mas também de fomento e incentivo às novas produções. Os festivais mantêm o cinema vivo e Gramado tem muita honra de contribuir com o fortalecimento da indústria do audiovisual. Esse é o nosso compromisso e será mantido ainda que não sejam descartadas alterações ou adequações no formato”, avalia Diego Scariot, gerente de projetos da Gramadotur.
No atual cronograma, a seleção dos filmes para as mostras competitivas – curtas gaúchos e nacionais, longas brasileiros e estrangeiros – deve estar concluída até final de julho.
Segundo informações de 2019, no Brasil, a indústria do audiovisual emprega cerca de 300 mil pessoas. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) apontam que o país conta com 12,7 mil empresas de todos os elos da cadeia. A arrecadação anual do setor em impostos diretos e indiretos chega a R$ 3,4 bilhões. “A produção audiovisual tem uma importância social, cultural e econômica inestimável”, conclui Diego.
O Acendimento da Chama Crioula, que marca a abertura dos Festejos Farroupilhas a cada ano, foi transferido para 2021, devido à pandemia da covid-19 e respectivos protocolos de saúde pública estabelecidos pelas autoridades sanitárias e que suspenderam todas as atividades que gerem aglomeração.
Foto Divulgação Assessoria de Imprensa MTG
A definição aconteceu em reunião online realizada no dia 9 de junho pela presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho do Rio Grande do Sul, Gilda Galeazzi, com os coordenadores das 30 Regiões Tradicionalistas. Para referendá-la, nos próximos dias, haverá reunião do Conselho Diretor da entidade.
Para 2021, fica mantida a cidade de Canguçu, na 21ª Região Tradicionalista, como local do evento e a portaria 39/2014, que define os locais de acendimento da Chama Crioula para os próximos 30 anos, fica estendido para 2045.
Segundo Gilda, o local, o acendimento e a distribuição da Chama Crioula em 2020 ficam a critério de cada uma das 30 Regiões Tradicionalistas, dentro de suas áreas de atuação, e em conformidade com os decretos de saúde pública estaduais e municipais.
O Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho participa da 4ª Semana Nacional de Arquivos, que será realizada de 8 a 14 de junho. Em atendimento às orientações das autoridades de saúde para adoção de medidas de prevenção ao novo Coronavírus (Covid-19), a programação será virtual e poderá ser conferida no blog do Arquivo (ahpoa.blogspot.com) e na página no Facebook (@aqruivohistoricopoa).
A atividade denominada Uma semana no Arquivo – 4ª edição oferecerá, virtualmente, passeio pela instituição, entrevistas e exposições. Adequando-se à realidade, a instituição buscou alternativas para oferecer conteúdo de qualidade e entretenimento, sem precisar sair de casa.
Programação Exposições virtuais
Mulheres Negras fazendo história
Espaços Ameríndios em Porto Alegre
Caminhos dos Arquivos: nossas histórias nossas heranças
Vídeos
Por de trás daquele muro tem um arquivo
Visita virtual ao Arquivo histórico Porto Alegre Moysés Vellinho
Arquivo histórico: entrevista Sérgio da Costa Franco, historiador, pesquisador, escritor sobre a história de Porto Alegre
Semana Nacional de Arquivos – A Semana é uma temporada de eventos em arquivos e outras instituições de memórias de todo o país. Seu objetivo é aproximar essas instituições da sociedade e divulgar os valiosos trabalhos nelas desenvolvidos.
Dia Internacional dos Arquivos – A data se refere à semana em que se comemora o Dia Internacional dos Arquivos, 9 de junho, estabelecida pelo Conselho Internacional de Arquivos (ICA). É uma homenagem aos arquivos, fazendo parte de um calendário internacional. A cada ano, o ICA lança um tema diferente para inspirar os eventos. O deste ano é “Empoderando a sociedade do conhecimento”. No período de 8 a 14 de junho, o ICA promove também a mobilização de arquivos em âmbito internacional. Saiba mais neste site.
Na manhã do dia cinco de junho de 1820 o botânico e naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire cruzou o rio Mampituba (“o pai do frio”) e entrou na capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul.
Viajando numa carroça pelo litoral atravessou a fronteira e chegou a Montevidéu, de onde retornou completando um ano de viagem durante o qual escreveu o melhor relato sobre a situação do Rio Grande do Sul naquele período.
Sob forma de diário, mas sem o tom intimista que caracteriza o gênero, Saint-Hilaire recolheu material que ultrapassava sua expertise como botânico.
Escreveu sobre usos e costumes, gentes, clima, acidentes geográficos, situação política e econômica, num momento em que a ocupação do território era incipiente, a população não ia além de 80 mil habitantes, dispersa em pequenos povoados.
Também teve um olhar crítico sobre a administração da capitania sob o império portugues.
Castelo de La Turpiniére, onde nasceu Saint Hilaire
Auguste François César Prouvençal de Saint-Hilaire nasceu em 1779, em Orleães, França. Nobre, cresceu no Chateau de la Turpiniere, ao qual voltou para morrer em 1853.
Teve uma infância no Ancien Regime. Era adolescente na época do Terror (1793-1794), quando rolaram as cabeças dos antigos monarcas e, na sequência, dos principais líderes da Revolução Francesa, Danton e Robespierre.
Presenciou a ascensão e a queda de Napoleão I, e a restauração dos Bourbons em 1815. Em meio a tudo isso estudou história natural, tornando-se botanista. Algo vertiginoso.
Já era um homem maduro, próximo dos 40, quando chegou, em 1816, no Rio de Janeiro, na companhia do Duque de Luxemburgo, designado como embaixador na corte de D. João VI.
As relações entre França e Portugal caminhavam para a normalização, mas, por longo tempo, cairia sobre qualquer francês a desconfiança de ser um espião.
O que não impediu a Saint-Hilaire de obter as cartas de recomendação necessárias a peregrinar pelo Brasil como visitante oficial, recebendo por onde passasse a ajuda – transporte, comida, hospedagem – que precisasse.
Saint Hilaire fazia parte da nova leva de exploradores, os naturalistas, cujas observações, de cunho científico, passavam a concorrer com os relatos, muitas vezes de tom picarescos, dos primeiros aventureiros que, como Hans Staden, escreveram sobre o Brasil.
Saint- Hilaire, como Carl Friedrich Von Martius (naturalista, que percorreu o parte do Brasil no mesmo período que ele), ou John Mawe (minerador, viajou pelo Brasil entre 1807 e 1811), ou, posteriormente, Georg Heinrich von Langsdorff, são, prioritariamente, cientistas.
E, como seus pares, Saint-Hilaire não se contentará em apenas coletar material para análises e futuras coleções de plantas e animais destinados aos museus naturais da Europa.
Do castelo ao pampa
Quando Saint-Hilaire cruzou o Mampituba, trazia consigo a experiência de quase quatro anos de viagens pelo interior do Brasil – Rio, Minas, Goiás, São Paulo, etc –, viajando a pé, de barco, de carroça ou no lombo de um cavalo.
Fez um trabalho científico minucioso, principalmente no que tange a herborização. Ao término de sua viagem obteve uma estupenda coleção e catalogação de sete mil espécies de plantas. Acervo que seria entregue ao Museu de História Natural de Paris.
Quando chegou ao Rio Grande do Sul, Saint-Hilaire também trazia as fadigas acumuladas pelas penosas viagens e o descontentamento com aqueles que o serviam: José Mariano, um tropeiro mestiço alugado em Ubá; Manoel, um negro-forro alugado em São Paulo, encarregado do trato, carga e descarga dos animais; e Firmiano, um índio botocudo, encarregado do transporte e do preparo das provisões.
Enfim, ao cruzar o Mampituba, Sain-Hilaire, como sugere, explicitamente, as anotações do seu diário, não está no seu melhor astral. Escreve:
“Esta viagem vai se tornando cada vez mais penosa, contribuindo para o esgotamento de minhas forças e de meu ânimo. A imagem de minha mãe apresenta-se sem cessar em meu espírito, e, sempre me encontro sem ter com que me distrair vejo-me cercado de pessoas descontentes”. (SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul.Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1974).
Estes períodos de chagrin (desgosto), como ele diria, volta e meia aparecem em seus relatos. Mas nada que o impeça de trabalhar, herborizar, como gosta de salientar. Assim, ao passear pelos montes, Torres, admira cactáceas, um grande Eryngium, e entre bromelácias e arbustos, constata pela primeira vez na costa sul a mirtácea chamada pitanga.
Mas, se prevalece sempre o lado botânico, naturalista, Saint-Hilaire também registra que em meio a magnífica e, então, desolada paisagem do litoral Norte – mar a leste, lagoas, serra geral, cordilheira, a oeste – vivem camponeses muito pobres, que moram em míseras cabanas, choupanas e palhoças.
Habitações onde o frio, a chuva e o vento entravam por todos os lados. Algumas beiravam a tal indigência que ele recusa a hospitalidade, seja para pernoitar (“mandar fazer o seu leito”), seja para partilhar a sopa que uma família consome sob uma esteira estendida no chão de terra.
Mas, por outro lado, constata que não falta comida. Há culturas de milho, trigo, feijão, algum algodão, e alguma cana-de-açúcar para fabricar aguardente. Não eram de ferro.
Também analisa que, devido à falta de recursos dos camponeses do litoral, o rebanho é em número inferior ao tamanho das pastagens.
Apesar dessas primeiras impressões, Saint-Hilaire logo constatará que a Capitania do Rio Grande do Sul é uma das mais ricas do Brasil. E seu astral melhora ao atingir os Campos de Viamão e, logo depois, chegar a Porto Alegre, que já era capital, mais ainda não tinha ganho o foro de cidade, que só viria a ocorrer em 1822.
Saint-Hilaire permaneceu mais de um mês em Porto Alegre e, se por um lado, a considera mais suja que o Rio de Janeiro, por outro, não deixa de ressaltar as suas belezas. Escreve:
“Os terrenos planos e cultivados que vi, logo ao chegar a Porto Alegre, ficam apertados entre o caminho novo (atual Voluntários da Pátria) e a colina na extremidade da qual se acha a cidade. Raros são os passeios tão encantadores como o do Caminho Novo, o qual lembra tudo quanto existe de mais agradável na Europa”. (SAINT-HILAIRE, 1974).
Foi o primeiro, dada confluência dos rios – Caí, Gravataí, Jacuí, Sinos – a denominar o Guaíba como lago.
Percebe também que acidade está cheia de construções novas, que tem um porto e um comércio efervescentes. Também nota que, apesar do frio, as casas não possuem aquecimento, lareiras.
Isso faz com que as pessoas, dentro de casa, mesmo vestindo pesados capotes, que tolhem seus movimentos, continuem a tremer de frio.
Como curiosidade, no seu diário, em quatro de julho de 1820, escreve que: […]”Há geada quase todas as noites e o Conde (Conde da Figueira, governador, na época) mandou juntar muito gelo para fazer sorvete”. (SAINT-HILAIRE, 1974).
Também é a partir de Porto Alegre que Saint-Hilaire começará a entender realmente a complexidade dos interesses políticos, econômicos e militares que envolvem a capitania.
Mapeia regiões e recolhe dados sobre a flora, a fauna, exportações e importações, contingentes militares. Primeiro, em sua jornada rumo a Montevidéu. Depois, em seu retorno, já em 1821, ao Rio Grande do Sul, percorrendo as Missões, voltando a Porto Alegre.
Neste percurso, próximo ao arroio Guaratapuitã (cercanias de Uruguaiana), em primeiro de fevereiro de 1821, ocorreu a incrível experiência de Saint-Hilaire ao consumir o mel da lechiguana.
Eis como é que ele conta a “viagem”: […] “avalio não ter tomado quantidade a duas colheradas. Senti logo uma dor no estômago, mais incômoda que forte e deitei-me em baixo da carruagem, com a cabeça apoiada sobre uma pasta do herbário, caindo em uma espécie de sonolência, durante a qual senti-me transportado aos espaços celestiais, ouvindo uma voz que gritava: “Ele não se perderá, há um anjo que o protege.” Nesse instante minha irmã veio buscar-me pela mão. Achava-se vestida de branco, com uma faixa ao redor do corpo e sua fisionomia trazia aparência de inexpressável calma e serenidade. Tomou-me pela mão, sem me olhar e sem proferir uma só palavra, e conduziu-me perante o tribunal de Deus. Lembrei-me das últimas palavras da parábola do Bom Pastor e acordei”. (SAINT-HILAIRE, 1974).
Seguiram-se vômitos, sustos, e chás para cortar o efeito.. Conforme informa, entre o consumo do mel, 10 da manhã, e a volta da “sobriedade”, ao pôr do sol, Saint-Hilaire viveu, avant la lettre, aquilo que se chamaria de bad trip.
Ou seja, não dá pra configurar um Saint-Hilaire “viajandão” pelo pampa, pois, no fundo, levou a experiência como uma espécie de envenenamento, com sequelas, e da qual custaria a se restabelecer.
De resto, muitas anotações interessantes nesses percursos da volta ao Rio Grande do Sul.
A fertilidade dos solos, capazes de produzir cereais em abundância, e frutas de clima temperado. E as pastagens que, mesmo inferiores às uruguaias, garantem uma carne de excelente qualidade e um “magnífico leite”.
Sua curiosidade em relação à economia da capitania faz com que, em Rio Grande, obtenha informações e liste as importações e as exportações dos anos logo anteriores aos de sua chegada, de 1816 a 1819.
Elas dão um bom quadro do movimento comercial da época. A capitania exportou: carne seca, sebo, graxa, crinas, barris de carne salgada, couros de bois, couros de égua, trigo.
E importou: sal, farinha de mandioca, arroz, açúcar, marmelada, doces e chocolates, café, chá, vinhos, aguardente, presunto, bacalhau, manteiga, queijos, fumo, tecidos, móveis e, claro, escravos.
Mas, se por um lado, e para a época, trata-se de uma economia pujante, por outro, sofre, segundo Saint-Hilaire, as mazelas de um governo incapaz de defender os interesses da capitania no que tange a cobrança de impostos, considerados excessivos, e os abusos de requisições, como animais, para as tropas.
Também ouve e registra queixas sobre a falta de infra-estrutura, estradas intransitáveis, e, principalmente, pontes: “Venho de terminar uma viagem de quase 600 léguas, em região sulcada de rios e é notável não ter encontrado uma só ponte. Em toda parte só encontro pirogas, e essas quase sempre em péssimo estado.” ( SAINT-HILAIRE, 1974).
O governo era incapaz, inclusive, de oferecer segurança e, daí, conforme testemunhos dados a Saint-Hilaire, o abandono de muitas estâncias pela desistência de alguns proprietários em reconstruir, pela terceira vez, benfeitorias destruídas por tropas regulares, espanhóis ou portuguesas, milícias, mercenários, índios, ou bando de gaúchos.
Todos, invariavelmente, nestas ações, “requisicionavam” o gado, cavalos e tudo que pudessem levar.
Enfim, as anotações de Saint Hilaire sobre todas as mazelas que envolvem a administração da capitania. E a relação da mesma com o poder central – mesmo depois de efetuada a independência do Brasil, em 1822, dão elementos para vislumbrar a gênese do descontentamento que fará eclodir, em 1835, a Revolução Farroupilha.
Entre a civilização e a barbárie
O Rio Grande do Sul que Saint-Hilaire conheceu era um espaço geográfico sujeito a guerra de fronteiras ainda não definidas.
Uma disputa por terras que desde o século XVII conduzia ao engalfinhamento portugueses e espanhóis. E o conflito aumentou quando, depois de uma intervenção contra Artigas, comandada pelo general Lecor, em 1817, o governo português anexou a Banda Oriental, sob o nome de província Cisplatina, ao Brasil.
Assim, o Rio Grande do Sul no qual chegou Saint-Hilaire era uma praça de guerra, um grande acampamento militar em meio ao qual tentavam sobreviver – cada um de acordo com a condição a que estava sujeito – brancos, índios, negros e mestiços.
O que não era fácil apesar da abundância de carne e montaria. O Rio Grande do Sul também já era habitado por “bárbaros” gaúchos, termo que na época designava seres marginais, associados a crimes, pilhagens. Muito longe da aura aventureira que lhes daria José Hernandez com o seu Martin Fierro.
O gaúcho de Saint-Hilaire não é um monarca das coxilhas, mas um bandido, ou, o mais simpático que consegue chegar, “um bandoleiro de melodrama”.
Preconceito que poderia ser estendido a maioria dos rio-grandenses e platinos que, numa escala social, colocavam o gaúcho abaixo do escravo que, pelo menos, tinha cotação de mercado, era um “bem”.
Já o gaudério tinha serventia, ocasionalmente, como peão, principalmente em épocas de rodeio, ou soldado provisório nas guerras de fronteira. Mais comumente, era tido como ladrão, conforme exemplifica este testemunho colhido por Saint-Hilaire: […] “Os animais de Itaruquem (estância) desapareceram quando os gaúchos entraram em São Nicolau”. (SAINT-HILAIRE, 1974).
Entretanto, a prática de roubo de gado ou, eufemisticamente, “requisições”, era comum entre tropas (invasoras, rebeldes, ou legalistas), ou milícias que em troca, ofereciam vales que dificilmente eram pagos.
Na verdade, nenhum grupo social ou étnico fica imune ao julgamento e preconceitos de Saint Hilaire, embora, muitas vezes, se contradiga.
Os primeiros, logo na chegada, a colocar sob sua mira são índios, em Torres, num agrupamento de índios, prisioneiros, tomados a Artigas, e que seriam empregados na construção de um forte.
Eles eram:[…] “todos baixos, têm o peito de largura exagerada, os cabelos negros e lisos, o pescoço curto e uma fisionomia verdadeiramente ignóbil” (SAINT-HILAIRE, 1974).
Entretanto, logo em seguida, escreve que o alferes encarregado deles fez um “elogio de sua docilidade” (SAINT-HILAIRE, 1974). Meses depois, diante de um índio guaicuru percebe: […] “algo de nobre em sua fisionomia” (SAINT-HILAIRE, 1974).
Este desprezo em relação aos índios será recorrente em todo o livro. Mas, nada se compara ao julgamento que faz das índias. Para ele, são “feias, sem pudor, sem brio”, oferecendo-se aos homens que o acompanhavam.
Também, acrescenta, transmitem doenças venéreas. E, sobretudo, ociosas; […] “Não as vi fazer nada além de andar a toa e dormir” (SAINT-HILAIRE, 1974). E ele registra um dos dizeres da época: “As índias diziam que se entregavam aos homens de sua raça por dever, aos brancos por interesse e aos pretos por prazer” (SAINT-HILAIRE, 1974).
Saint Hilaire atribui a degeneração moral e material dos índios guaranis a destruição das missões: […]”Depois da saída dos Jesuítas os índios das Missões ficaram entregues aos soldados e homens corrompidos, vivendo atualmente de pilhagem, no meio das desordens da guerra, não sendo de admirar se suas mulheres não mais conheçam o pudor” (SAINT-HILAIRE, 1974)
Saint-Hilaire também se apega a ideia de que o principal problema dos índios, e nisso, segundo ele, inferiores aos negros, é sua falta de “noção de futuro”, apegando-se unicamente ao presente.
Vê-os como crianças, seduzidos por doces, como a garapa da cana fornecida pelos padres. Assim como a música, agora também utilizadas pelo militares para engajá-los nas tropas. E nisso, chama a atenção, no período, o enorme contingente de soldados índios envolvidos em combates nos dois lados da fronteira.
Contudo, em relação às índias, não se trata propriamente de misoginia. Ele é mais simpático em relação ao mulherio local, portuguesas, ou de origem, que, se não chegam a ter o charme das francesas, não se escondem, como em outras províncias do interior do Brasil, diante dos homens.
É interessante a descrição que faz de um grupo de senhoras num baile, em Rio Grande:[…] “Têm os olhos e os cabelos negros, e em geral belo porte e boa cor, porém, destituídas de graça, de atrativos dados pela educação, que as mulheres deste País não recebem”. (SAINT-HILAIRE, 1974).
Vale ressaltar o acento que dá sobre a falta de educação para meninas.
Tem um trato diferenciado em relação aos negros. Primeiro, como seres de segunda ordem. São comuns as expressões como: casa para negros, roupas para negros, um negro me trouxe isto ou aquilo.
Depois, valoriza-os em relação aos negros de outras províncias: […] “não há, creio, em todo o Brasil, lugar onde os escravos sejam mais felizes que nesta capitania […] os senhores tratam-nos com menos desprezo […] o escravo come carne a vontade, não é mal vestido, não anda a pé e sua principal ocupação consiste em galopar pelos campos, cousa mais sadia que fatigante” (SAINT-HILAIRE, 1974).
Também valoriza os negros como grupo étnico: […] “quase todos os escravos do Barão (José Egídio, barão de Santo Ângelo) são negros-minas, tribo bem superior a todas as outras, por sua inteligência, fidelidade e amor ao trabalho”. (SAINT-HILAIRE, 1974).
Mas percebe a verdadeira relação, simples mercadoria, noutra situação, trágica, testemunha, ao ser içado do rio o corpo, cadáver, de um negro que se afogara, e ver o patrão gritor: [..] “Ah, meu dinheiro! Meu dinheiro! Que me custa tanto a ganhar”. (SAINT-HILAIRE, 1974).
Contudo, foi numa estância nas charqueadas que Saint-Hilaire testemunhou uma das cenas mais tristes da escravidão no Brasil:
“Há sempre na sala um pequeno negro de 10 a 12 anos, cuja função é ir chamar os outros escravos, servir água e prestar pequenos serviços caseiros. Não conheço criatura mais infeliz que esta criança. Nunca se assenta, jamais sorri, em tempo algum brinca! Passa a vida tristemente encostado à parede e é frequentemente maltratado pelos filhos do dono. A noite chega-lhe o sono, e, quando não há ninguém na sala, cai de joelhos para poder dormir. Não é esta a casa a única que usa esse impiedoso sistema: ele é frequente em outras” (SAINT-HILAIRE, 1974).
Se tem compaixão por um escravo e, também, apesar do desprezo, da sorte dos índios, Saint-Hilaire não deixa de ter um senso de meritocracia.
Assim, se louva o português, ou de origem lusa, ou europeu em geral, que, mesmo de baixa extração, enriquece pela iniciativa e senso de economia, faz o mesmo com índios, negros e mulatos que, apesar de todas as adversidades, souberam, através de esforço próprio, alçar-se muito além de sua condição humilde, seja ocupando cargos de oficiais militares, seja na aquisição de propriedades.
Sinal que, apesar de membro da aristocracia do Ancien Regime, não ficou imune a revolução burguesa que se operava.
Mas, talvez devido a falta de noção de pompa e circunstância, não poupa a elite local: […] “Os habitantes desta Capitania são ricos e não ambicionam senão o aumento dessa riqueza. Tal fortuna, entretanto, pouco contribui para o conforto de suas existências; nutrem-se mal e não conhecem diversões. Os momentos de lazer são dedicados ao jogo ou as intriguinhas de aldeia. Na maior parte são ignorantes e sem educação; como não recebem nenhuma instrução moral e honra agem sempre de má fé em seus negócios”. (SAINT-HILAIRE, 1974).
Como pode reparar, a pompa, elite ou não, dos rio-grandenses, estava na prataria que adornavam peças de montaria, arreios, esporas, etc.
Legado
Aristocrata, Saint-Hilaire era seguidor de uma ideologia que preconizava uma hierarquia de raças, que seria utilizada ao longo do século XIX na política colonial européia, legitimando, em nome de uma “missão civilizatória”, a ocupação de terras na África, na Ásia, em detrimento das populações autóctones, assim como ocorreu na América.
Seu livro, hoje, devido as considerações preconceituosas – sobre índios, negros, mestiços, americanos em geral – pode ser considerado como racista.
Também seria taxado de machista pelas considerações que faz sobre as mulheres e até misógino, caso das índias. Enfim, um diário cheio de declarações politicamente incorretas, destinado ao índex dos bem pensantes, e o autor no rol dos não frequentáveis.
Também se deve considerar que o diário sobre a viagem ao Rio Grande do Sul foi publicado postumamente. Ou seja, ele teve mais de 30 anos para rever, acrescentar, cortar, ou alterar seus escritos. Parece que não fez nada disso. Ou seja, não abdicou de nenhum dos seus preconceitos.
Porém, restringido aos valores e preconceitos do seu tempo, e na forma como descreveu a sua viagem, misturando observações de cunho científico a confissões de ordem pessoal, Viagem ao Rio Grande do Sul, fora os diversos aportes históricos de dados sociais, culturais e econômicos já citados, mostra um universo em transição, de fronteiras não delineadas, de conflitos de interesses, onde se digladiam brancos, portugueses, ou de origem, espanhóis, ou de origem, índios, negros, e mestiços, representados pelos “bárbaros” gaúchos, lutando por espaços ou liberdade.
Um farto material para pesquisas de caráter histórico e científico, e também para ficcionistas diante de um contexto onde, se havia muita miséria, também havia muita aventura, e homens que se nutriam somente de carne, muitas vezes sem sal. Saint-Hilaire, como previra, talvez tenha sentido muita saudade (nostalgie) desses “desertos”, como eram denominadas as regiões onde não havia cristãos.