Casa Ramil: a transição geracional de uma família musical

A Casa Ramil, espetáculo musical que vem se apresentando em cidades brasileiras, é um caso raro de sucesso de crítica e de público. No último fim de semana de agosto, lotou por duas noites seguidas os 900 lugares do Teatro Ademir Rosa em Floripa.

São sete figuras no palco, seis homens e uma mulher, vários instrumentos se alternando nas mãos de pais, filhos, tios e sobrinhos, uns compositores, todos cantores unidos pelo sobrenome Ramil. Uma caixinha de música reciclável cujos integrantes moram em cidades distantes (Rio, Pelotas, Porto Alegre e Macapá), onde estão sempre prontos e dispostos a se juntar para mais um show.

A reinvenção dos Ramil não acontece só no palco. Nos bastidores também atua um grupo de mulheres portadoras da mesma genética. Com Branca no comando, Karina, Isabel e Khris dão o chamado suporte artístico ao grupo musicista made in Laranjal Beach em 2018.

Recordemos: no início, há mais 50 anos, os dois mais velhos da irmandade montaram um grupo chamado Almondegas, que deu à luz a dupla Kleiton e Kledir, estrelas da música popular que subiram de Pelotas ao Rio com trilhas de novelas da Globo. Solito no pampa, com os ouvidos abertos para a música da fronteira, ascendeu o caçula Vitor com uma série de canções de raro lirismo.  

Quarenta anos depois, os Ramil vivem uma transição geracional. Os veteranos KK+V passam a bola para Ian, Thiago, Gutcha e João. Além de mesclar hits antigos como Vira Virou (de Kleiton) a canções recentes como Artigo 5º (de Ian), o ajuntamento artístico-familiar enriqueceu as apresentações com conversas, lembranças, comentários e citações nos intervalos entre as canções. Tanto para o público como para os artistas, é um achado que propicia distensão e intimidade.  

Nessas pausas relaxadas, os mais novos jogam conféti nos mais velhos (suas “referências”), que lançam farpas e lantejoulas entre si. É tudo tão natural que nem parece ser combinado. Segundo Vitor, “a gente se diverte enquanto vai mostrando nosso trabalho”. São momentos em que se misturam emoção e bom humor, sem lágrimas nem baixarias, como nas boas casa do ramo. Tudo leve, lindo e solto com deve ter sido em outras casas mais antigas de famílias musicais (Caymmi, Gil e Velloso).

Eles falam da casa de veraneio na praia do Laranjal, na Lagoa dos Patos, em Pelotas, ponto de encontro familiar nos finais de ano. A casa foi construída pelo imigrante uruguaio Miguel Ramil, cuja sensibilidade como marceneiro transparece no vitral mostrado na abertura do show – é tipo um logo familiar. Num painel no fundo do palco, aparecem folhas e galhos do salso chorão do jardim, imagem fotográfica também usada em show solo de Vitor Ramil. Em alguns momentos, um áudio passeia trechos de cantorias caseiras da matriarca Dalva (1926-2024), a antena musical da família a quem os filhos e netos quiseram homenagear neste espetáculo ao mesmo tempo singelo e grandioso.  

Sem dúvida, a mescla de gerações veio em boa hora. A ascensão dos jovens está permitindo que, na alternância dos versos e das vozes, os veteranos possam descansar as cordas vocais calejadas após tantos anos de estrada. Ainda assim, o vocal coletivo é tão intenso que a Casa Ramil poderia reduzir o volume da engenharia de som, aparentemente desnecessária nos solos da gurizada.Sem desfazer da potência do macharedo que a cerca, postada no fundo do palco, Gutcha Ramil é uma revelação: toca flauta e rabeca em algumas canções, mas seu forte é a percussão, do pandeiro ao bombo leguero. E a voz, um brado de fera. Segundo o líder Kleiton, a sobrinha (filha da mana Kátia e irmã de Thiago Ramil) está madura para gravar um trabalho solo. “Merece”, como se diz em Pelotas. (Geraldo Hasse)

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