Ecos de 1923: A última guerra dos gaúchos em mostra de três documentários na Cinemateca Paulo Amorim

Em três programas de 70 minutos, os filmes abordam a história do Rio Grande do Sul.

O cineasta Henrique de Freitas Lima tem criado, ao longo de seus 40 anos de carreira, filmes de ficção ou documentários que contam a história do sul do Brasil, seja ela ambientada nas cidades, no campo, ou com enfoque na vida e obra dos artistas que aqui habitam.

Em Ecos de 1923 – A Última Guerra dos Gaúchos, Henrique e equipe produziram o mais ambicioso e impressionante material audiovisual sobre a história do Rio Grande do Sul jamais feito, com importância fundamental também para o Brasil.

Por dois anos, de 2023, ano em que a Revolução Libertadora completou seu centenário, a 2025, quando se completou a entrega da 1ª etapa do projeto Os Caudilhos, o cineasta e sua equipe se debruçaram a produzir em nove municípios gaúchos, e no Uruguai, os três filmes de longa metragem que poderão ser apreciados em uma mostra na Cinemateca Paulo Amorim, de 9 a 11 de junho, acompanhados por um ciclo de debates com especialistas sobre o assunto.

A Ponte do Rio Ibirapuitã, em Alegrete, palco de Batalha em 1923. Reprodução

Abordando a Revolução de 1923 e focados nos acontecimentos em alguns dos principais palcos do conflito, os municípios de Pedras Altas, Camaquã, Caçapava do Sul, São Gabriel, Rosário do Sul, Alegrete, São Francisco de Assis, Santana do Livramento e Uruguaiana, os filmes aliam depoimentos de especialistas a farto material de arquivo obtido em inúmeros acervos no Brasil e no Uruguai com tratamento moderno e narrativa envolvente. Todos os filmes, fruto da colaboração com produtores locais de cada um dos municípios e realizados com recursos federais da LPG Lei Paulo Gustavo e PNAB Política Nacional Aldir Blanc, estrearam suas versões locais de 30 minutos com grande repercussão em 2024 e 2025 nas cidades que viabilizaram a produção. 

Na mostra, serão exibidos três programas de 70 minutos de duração: Ecos de 1923 – Parte I, Parte II e Parte III.

Na impactante abertura, que traz a contextualização da Revolução de 1923, e que leva o espectador ao cerne do conflito, destaca-se na trilha a clássica canção Sabe Moço, de Francisco (Chico) Alves, com novo arranjo de Sérgio Rojas e a interpretação de Vitor Hugo.

Beraldo Figueiredo, historiador de São Gabriel. Reprodução

Após as projeções, haverá debates mediados pelo historiador Günter Axt com alguns dos principais nomes que participaram do projeto e participação do público.

Terça-feira, 9 de junho – Parte I

A deflagração do conflito: contexto, adesão e consciência política

– Uruguaiana, São Gabriel e Caçapava do Sul –

Com os debatedores Miguel do Espírito Santo e João Aloísio Degrazia

Apresenta o contexto, os personagens históricos e o motivo da guerra, abordando Uruguaiana com a construção do ambiente político, rivalidades, articulações e tensão pré-guerra; São Gabriel com ênfase no aprofundamento humano e simbólico, a cidade como corpo que reage à guerra. Aqui a Revolução deixa de ser apenas estrutura e passa a ser experiência vivida; e Caçapava do Sul, que em tom mais reflexivo e conceitual, funciona como uma espécie de epílogo filosófico do primeiro ato.

 Fazenda da Figueira, em Camaquã. Reprodução

Quarta-feira, 10 de junho – Parte II

O corpo da guerra: trauma, violência, cicatriz

– Camaquã, São Francisco de Assis e Rosário do Sul –

Com os debatedores Coralio Cabeda e Fernando Azambuja

Mergulha no núcleo trágico da Revolução. Aqui o espectador não observa mais a história — ele a atravessa. Camaquã abre o segundo dia com impacto direto: bombardeio aéreo, coluna de Zeca Netto, memória oral. Funciona como o “portão do inferno” do segundo ato. São Francisco de Assis aprofunda o trauma psicológico. O próprio título interno – o dia seguinte que nunca acabou – desloca o foco da batalha para a ferida que permanece no tempo. Opera quase como cinema de luto. Rosário do Sul fecha com a maior densidade trágica: degolas, participação das mulheres, resquícios físicos da guerra, pacto, repercussão nacional. É o ponto mais alto de tensão emocional de toda a mostra.

Quinta feira, 11 de junho – Parte III

Elaboração simbólica: memória, política, conciliação e legado

– Alegrete, Livramento e Pedras Altas –

Com os debatedores Marcos Hernandez e Rodrigo Aguiar

Transforma trauma em compreensão. Leva o espectador da dor para o significado. Alegrete começa o dia com estrutura mais coral, múltiplas histórias, lembranças, personagens locais. Santana do Livramento traz densidade política novamente, mas agora com mais sofisticação: fronteira, influência uruguaia, assassinatos, ascensão de Flores da Cunha. O conflito retorna, mas agora filtrado pela complexidade histórica. Pedras Altas fecha a mostra com perfeição simbólica. O castelo, o pacto, Assis Brasil, o gesto de conciliação. Dramaturgicamente, é um epílogo natural: onde antes havia guerra, agora há assinatura; onde havia sangue, agora há papel; onde havia ruptura, agora há memória organizada.

Leonel Gomez, compositor de Santana do Livramento. Reprodução

ECOS DE 1923 – Mostra de filmes de Henrique de Freitas Lima / Cinematográfica Pampeana

Dias 9, 10 e 11 de junho, às 19h

Cinemateca Paulo Amorim – Casa de Cultura Mario Quintana

Rua dos Andradas, 736

Entrada franca

 Marcas da Batalha de 1923 na praça de São Francisco de Assis. Reprodução 

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