Ao revisitar os 400 anos das Missões, o pesquisador destaca o protagonismo indígena e defende que essa história seja contada com diálogo, escuta e respeito.
Em entrevista exclusiva ao Jornal JÁ, o professor e pesquisador Edison Hüttner propõe uma revisão da história das Missões Jesuíticas que reconheça a participação e a contribuição dos povos indígenas. Ao marcar os 400 anos da fundação de São Nicolau, ele defende novas interpretações sobre o passado missioneiro, conectadas às demandas indígenas do presente.
Coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) da PUCRS, professor dos programas de pós-graduação em História e Teologia da universidade e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Hüttner pesquisa a história, a arte e a cultura indígena e missioneira.
Na conversa, ele relata descobertas que ajudam a reconstituir esse legado, como a identificação do artista guarani Gabriel Quiri como autor do sino de São Miguel e o retorno a São Nicolau de uma escultura barroca encontrada em Santa Maria. Também analisa as reduções como espaços de proteção e controle, a preservação das cosmologias indígenas e os riscos de apagar ou distorcer a memória histórica.
Ao refletir sobre os desafios da pesquisa, Hüttner destaca a importância de ouvir as comunidades, reconhecer seus saberes e ampliar sua participação na produção do conhecimento. Sua mensagem sintetiza esse compromisso: “Escutar mais que falar”.
Entrevista a Cristiano Goldschmidt
JÁ: Ao revisitar os 400 anos das Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul, quais interpretações históricas podem ser consideradas hoje insuficientes ou ultrapassadas?
Edison Hüttner: A história dos 400 anos das Missões Jesuíticas é um acontecimento vivo e contínuo. Perene. Povos nativos, jesuítas e outros personagens permanecem atuais em nossa memória, em nossa tradição histórica e em nossa cultura. Por isso mesmo, são inúmeras as interpretações, cada uma marcada pelo contexto em que surgiu, sendo necessário que entendamos esse contexto, os diálogos entre as partes envolvidas e seus desdobramentos.
Envolver-se nesse legado exige contemplar suas diversas perspectivas, dialogando juntos, tendo em vista interpretações históricas que unem aquele mundo, com seu significado, com o mundo de hoje.
Ao longo de 2026 – mas não só neste período –, quando pensamos e falamos na história dos 400 anos das missões jesuíticas no Rio Grande do Sul, referimo-nos às populações indígenas e suas etnias que pertenceram e construíram aquele mundo: Kaingang, Charruas, Guarani, Minuano. E ainda carecemos de interpretações mais positivas e realistas sobre esses povos que viveram naquele período, especialmente ao confrontarmos com a situação dos povos indígenas atuais.
Dentro desse contexto, é preciso observar, entender e valorizar profundamente a experiência da Redução de São Nicolau, fundada em 3 de maio de 1626. Afinal, este é o palco principal e articulador de significados daquele período e de seus desdobramentos. Celebramos os 400 anos das Reduções Jesuíticas no Rio Grande do Sul, não 150, nem 300, mas 400 anos, exatamente no dia 3 de maio de 2026.
Há algo de simbólico neste dia, especialmente para mim. No dia 3 de maio de 2026, estive em São Nicolau. Nesse sentido, revisar e interpretar os 400 anos das Missões Jesuíticas pressupõe: a) a compreensão da Redução de São Nicolau como pedra angular que conecta a história e a paisagem de todos os Sete Povos Missioneiros no Rio Grande do Sul; b) levar adiante o compromisso com os povos indígenas, o legado deixado pelas reduções jesuíticas, valorizando as experiências construtivas ali realizadas, mas agora inseridas em um novo contexto de necessidades contemporâneas desses povos no RS.
JÁ: Em sua trajetória – cercada de reconhecimento e respeito – como historiador e pesquisador de assuntos indígenas e missioneiros, qual ou quais foram as descobertas mais importantes e como elas aconteceram?
Edison Hüttner: As atividades de extensão universitária que realizamos junto às populações indígenas no Rio Grande do Sul, através do Núcleo de Cultura Indígena da PUCRS, desde 2003, me levaram a estudar as expressões de arte e cultura destes povos, de modo particular no contexto das reduções jesuíticas inseridas no território gaúcho.
Iniciei minhas pesquisas sobre as reduções jesuíticas de modo mais aprofundado em 2006, tendo como foco o Sino de São Miguel, datado de 1726. Então, 2026 marca também os 300 anos do maior sino missioneiro. Descobri, através da obra do jesuíta Antônio Sepp, que o sino foi criado por um índio guarani chamado Gabriel Quiri, que também era um músico muito admirado nas reduções. Atualmente, o sino está exposto no alpendre do Museu das Missões, localizado no Sítio Arqueológico São Miguel Arcanjo – RS

É o maior sino missioneiro, nunca havia sido pesado, e exatamente por esta razão, os pesquisadores divergiam quanto ao seu peso. E não havia registro da composição metálica e nem gravação dos sons emitidos pelo sino. Ao conseguirmos içá-lo para pesá-lo, a balança indicou 910 quilos. Também registramos sua história e seus sons, que agora estão disponíveis para todos ouvirem. O sino é feito de bronze, e sua composição é de 80% cobre e 20% de estanho. Mede 1 metro e 10 centímetros de altura e tem 1 metro e 15 centímetros de circunferência
Tive a satisfação de visitar diversas vezes São Nicolau, onde fui muito bem acolhido pela comunidade local e pela administração municipal ao longo dos anos. Durante essas visitas, realizei duas descobertas importantes.
Uma delas, ocorrida em 2017, quando identifiquei no município de Santa Maria (RS) uma escultura barroca jesuítico-guarani de São Nicolau. Originária do município de São Nicolau, datada entre os séculos XVII-XVIII, havia sido roubada de São Nicolau nos 1960. Depois de minha descoberta, a bela escultura retornou, em 2017, à igreja de onde havia sido levada, trazendo alegria para a população e restabelecendo um importante patrimônio histórico e cultural para a comunidade.

Em 2020, também identifiquei uma fonte de água pertencente à redução de São Nicolau. Neste local, após esta descoberta, foi projetado e criado pela Prefeitura de São Nicolau o “Projeto do Parque da Fonte Missioneira do Chafariz de São Nicolau”, em comemoração aos 400 anos das Missões. Este ano, uma equipe de arqueólogos, coordenado pela Juliana Soares, iniciou escavações no local com o objetivo de revitalizá-lo. E fui convidado a integrar essa equipe de trabalho.
JÁ: Algum outro achado documental ou evidência que tenha alterado significativamente sua compreensão sobre a relação entre os jesuítas e os povos indígenas?
Edison Hüttner: Foram muitas as descobertas registradas e documentadas ao longo desses anos. Mas, também em 2017, descobri no município de Panambi (RS) um manuscrito jesuíta raríssimo, datado do período entre 1730 – 1740, e que em breve será tombado pelo IPHAN. O Manuscrito é bilíngue, escrito em espanhol e latim. É possível identificar a escrita e a caligrafia de várias mãos, tanto de índios quanto de jesuítas. Em outras palavras, trata-se de uma produção de livro manuscrito para as escolas das reduções, com conteúdos diversos, evidenciando o alto nível de produção e de aprendizagem das populações missioneiras daquele período.



Em 2018, pesquisei um Relatório das Guerras Cisplatinas (1817-1818), elaborado pelo militar Francisco Chagas do Santos, encontrado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Esse documento registra a chegada de 43 sinos missioneiros saqueados por Chagas durante a invasão às reduções jesuítas na Argentina e no Paraguai. Os sinos foram transportados para Porto Alegre. Os padres solicitavam esses sinos para suas capelas no interior do RS. Alguns destes sinos nós identificamos em cidades como Caçapava do Sul, Candelária, São Martinho da Serra, Santa Maria e São Francisco de Assis.
Na torre da igreja de Caçapava do Sul há um sino missioneiro datado de 1732, originário da Redução da Santíssima Trindade, no Paraguai. Registramos os sons produzidos por esse sino. O único sino do período das Sete Reduções Jesuíticas que possui o nome de autoria de um índio gravado nele próprio. No sino, em alto relevo, está gravado o nome do índio guarani que o criou: Ignatius Guarepi.

JÁ: Como o senhor avalia a tensão entre o projeto evangelizador jesuítico e a preservação das cosmologias indígenas originárias?
Edison Hüttner: Importante dizer que o projeto missionário aconteceu dentro dos parâmetros de sua época, que naturalmente podem ser questionados. Durante o período das reduções jesuíticas, houve um controle rigoroso das manifestações de rituais xamânicos em espaços públicos, dentro do ambiente das capelas e das igrejas. Ao mesmo tempo, esse mundo não poderia se manter sem a expressão das crenças nativas, que continuavam a existir em configurações mais discretas e adaptadas, em espaços privados ou por meio de práticas sincréticas, envolvendo elementos indígenas e católicos.
Esse processo ocorreu no início por meio de experiências híbridas, ajustamentos e analogias. Por exemplo, o deus cristão recebe o nome de Ñandé Djára: Nosso Senhor. Os anjos: yvyrárí djá – que seriam os espíritos protetores da mitologia guarani. Foram relatados casos em que os índios cultuavam a cruz, mas com uma ave de rapina ao lado. Com o passar do tempo, inseridos naquele contexto, a maioria dos índios se tornou cristão católico. Como prova, existem registros de batismos de índios e de seu envolvimento nas celebrações e festividades religiosas nas reduções. De alguma forma, isso ainda acontece hoje nas aldeias do RS e do Brasil. Por exemplo, índios que se convertem à igreja evangélica, ou uma outra representação, mas que paralelamente preservam suas tradições religiosas e culturais.
Acredito que os povos indígenas conseguiram preservar suas cosmologias, de modo particular o mito guarani Yvy Marãe‟y (Terra sem Mal), equivalente ao Mito do Jardim do Éden e à noção de vida eterna que os jesuítas defendiam. O que mantinha o verdadeiro significado destes mitos era: a) as trocas e compartilhamentos de experiências cotidianas entre índios e jesuítas; b) alguma área fora da redução, no Abambaé (terra dos homens), que era um espaço (chácara) destinado às famílias indígenas para cultivarem sua própria sobrevivência; c) o conhecimento da astronomia guarani.
Quando Buenaventura Suarez, um astrônomo jesuíta (1679-1750), estabeleceu seu centro astronômico em São Tomé, ele utilizou ali instrumentos produzidos com materiais encontrados no local. Esse centro astronômico foi construído com a participação dos índios guarani, que também o influenciaram com sua visão de mundo, com sua astronomia. A sabedoria nativa dialogou com a obra de Buenaventura Suarez, que, em suas observações do céu, também registrou a constelação guarani de Ema (Guyra Nhandu).
JÁ: Até que ponto as reduções jesuíticas podem ser interpretadas como espaços de proteção indígena, e em que medida também representaram mecanismos de controle cultural?
Edison Hüttner: Aqui temos um ponto importante a considerar. Espanha e Portugal invadiram as terras além-mar e transformaram essas “terras descobertas” em colônias de seus reinados. Há estudos que comprovam que, naquela época, o lugar mais seguro para as populações nativas era o espaço das reduções jesuíticas. Fora deste contexto, essas populações ficavam expostas à caça, à escravização por bandeirantes, e, muitas vezes, à morte. Nesse cenário, surgiram as 30 Reduções da Província Jesuítica do Paraguai (séc. XVII-XVIII), que também funcionavam, dado o contexto da época, como forma de proteção e organização social para os povos indígenas.
Naquele período, houve diálogo entre indígenas e jesuítas sob várias perspectivas, uma delas foi a valorização da língua nativa, de modo particular o idioma guarani. Aquele mundo era bilíngue, espanhol-guarani, o que permitiu sua proteção, sua manutenção e sua divulgação. Sem essa ligação linguística, aquele mundo não teria se desenvolvido com as criações da arte e da cultura tal como as conhecemos hoje. Nessa perspectiva, é necessário observarmos o que existe no espaço em branco das linhas. E observarmos este fenômeno de uma sociedade que fez história, que escreveu sua própria história.
O modo de ser e fazer indígena fizeram parte do cotidiano das reduções jesuíticas, promovendo trocas de experiências, diálogos e influências culturais recíprocas necessárias para a vida social de então. Por exemplo, os vasos e as panelas de barro cozido feitos pelos indígenas passaram a ser pintados com um pincel das oficinas de arte ministradas pelos jesuítas. Além disso, a erva-mate, que os indígenas consumiam tradicionalmente em suas cabaças com água fervida, foi adaptada pelos jesuítas com o processo da moagem das folhas feito também pelos jesuítas, possibilitando seu consumo e comercialização em grande escala.
JÁ: O senhor identifica permanências culturais indígenas nas regiões missioneiras atuais que ainda não foram devidamente reconhecidas pela historiografia dominante?
Edison Hüttner: Penso que ainda precisamos expandir o espaço de diálogo, de compreensão, de valorização, do reconhecimento e do justo significado da história e da arte indígena do passado e do presente, seja ela produzida no contexto das reduções jesuíticas ou fora delas.
É importante reconhecermos as manifestações culturais geradas nas oficinas das reduções jesuíticas, como as peças criadas por indígenas artistas, pintores e artesãos. A arte daquele período é sempre perene e atual. Pois havia índios artistas em vários campos do saber, como o famoso Ignacio Guarepi, que fez o sino da Redução de Santíssimo Trindade, em 1732. Esse e outros mestres indígenas do passado são importantes, proporcionaram a construção de uma identidade própria. Por isso, é fundamental esse reconhecimento por todos, pelas etnias Kaingang e Guarani que vivem nas aldeias do RS.
Nessa mesma perspectiva, é necessário reconhecermos os artífices indígenas contemporâneos que criam suas obras de arte de modo artesanal em madeira, em cortiça, representando animais como corujas, capivaras e onças-pintadas. É importante também valorizarmos os balaios pintados com urucum, assim como os sons dos violões e violinos tocados nas apresentações de corais indígenas. Precisamos de mais estudos e registros, feitos pelas próprias comunidades indígenas ou por estas em diálogo com pesquisadores e historiadores sérios e comprometidos com a causa. Não sabemos, em geral, o nome dos artesãos e dos cantores, precisamos saber de todos; na maioria dos casos os vemos se apresentando ou vendendo suas obras nas esquinas e nas praças das cidades.
JÁ: Em termos metodológicos, quais desafios específicos surgem ao se tentar amplificar a voz indígena através de produções feitas majoritariamente por não-indígenas?
Edison Hüttner: Aqui temos um dado importante: as produções acadêmicas de indígenas no Rio Grande do Sul têm aumentado consideravelmente nos últimos anos, resultando em registros importantes para a configuração da identidade e da voz dos povos indígenas. Falando em metodologia de pesquisa, havendo permissão e diálogo, o primeiro passo é visitar as aldeias para o convívio e a troca de experiências. Escutar mais que falar. Um dos desafios consiste em fazer mapas da realidade atual, compreendermos os problemas e os conceitos na fonte, onde eles nascem. Qualquer pesquisa sobre o tema deve considerar, em primeiro lugar, que a voz indígena precisa ser ouvida e respeitada para sabermos onde nos situar. A partir disso, realizarmos ações conjuntas que valorizem todos os aspectos essenciais para a compreensão do que eles buscam e do que nós, como pesquisadores, buscamos. Só assim poderemos contribuir com as pesquisas sobre o tema, com o crescimento das aldeias, com a manutenção de suas culturas e, respectivamente, com a construção de estudos relevantes, creditando sempre os nomes de todos os envolvidos.
JÁ: Como o senhor enxerga o papel das missões jesuíticas dentro do contexto mais amplo da colonização ibérica na América do Sul?
Edison Hüttner: Foi realmente algo muito grande. Em 1730, a rede das 30 reduções jesuítas alcançou uma estimativa de população de mais de 145 mil pessoas, convivendo numa rede de fala bilíngue e fundando uma sociedade altamente criativa que se bastou a si mesma e forjou uma identidade cultural própria, a qual chamo de helenismo sul-americano missioneiro.
JÁ: Ao longo de suas pesquisas, houve momentos em que narrativas consagradas entraram em conflito com evidências empíricas? Como o senhor lidou com essas tensões?
Edison Hüttner: Sim. Como no exemplo do sino de São Miguel, fundido em 1726. Os autores divergiam sobre algumas informações, sobre o peso do sino, que só foi possível confirmá-lo após uma força tarefa para pesá-lo, chegando nos 910 quilos.
Outro caso muito interessante foi um registro que encontrei na obra “Comentário Eclesiástico do Rio Grande de São Pedro”, publicada por Vicente Zeferino Dias Lopes, em 1891. Nela, consta que a escultura de uma Imaculada Conceição, da época das reduções, foi levada em 1863 para a igreja matriz de São Jerônimo. Em 2015, visitei essa igreja em busca da escultura. De fato, havia lá uma escultura da Imaculada Conceição. À primeira vista, parecia ser de gesso, pois estava em ótima forma e bem pintada. No entanto, ao observar a parte de trás, notei uma área descascada no orbe que revelou um trabalho em policromia sobre a madeira.

Com autorização, realizamos uma tomografia no Instituto do Cérebro do RS, na PUCRS. Então, foi possível ver a parte oca da escultura e os detalhes do barroco missioneiro. Consultando o Livro de Fábrica da Matriz, descobri que a escultura passou por uma restauração em 1914. Era uma técnica muito usada no período, chamada de encarnação ou estofamento da imagem, que constituiu na aplicação de 1 cm de gesso sobre a escultura original da Imaculada Conceição. Nesse caso, não houve conflito entre a historiografia e a parte empírica, mas sim ajustes para elucidar o caso. O conflito estava no desenrolar da história, causado por uma restauração que apagou a verdadeira identidade de uma escultura missioneira. Essa história foi recuperada, graças à documentação histórica e à evidência empírica, que possibilitaram o resgate de seu significado original.

JÁ: De que forma nos apropriamos hoje da memória histórica e artística das Missões — seja através das políticas públicas, do turismo ou até mesmo como identidade regional — e quais riscos isso pode trazer para a sua descaracterização?
Edison Hüttner: Quando visitamos cidades como Roma ou o Egito, por exemplo, nos maravilhamos com a arquitetura e as obras de arte que lá estão preservadas. Muitas vezes, observamos a arte pela arte, por sua imagética e estética. E geralmente não nos questionamos sobre os motivos ou os princípios políticos que financiaram estas obras ou aqueles espaços, destinados hoje à visitação pública. Da mesma forma, ao visitarmos as ruínas jesuíticas ou os museus no RS destinados àquele período, observamos suas obras, parcial ou totalmente preservadas e protegidas, sem refletirmos que estas também merecem ser olhadas e consideradas pelo seu contexto histórico e pelo motivo pelas quais foram criadas. Nessa perspectiva, existem dois riscos principais: a) a não valorização desta arte, seja ela criada por indígenas ou por jesuítas, e que esta desvalorização pode diminuir ou apagar a sua importância cultural e estética para a nossa história; b) fazer interpretações equivocadas ou negativas sobre esses espaços missioneiros, que geralmente são motivadas por ausência de conhecimento ou por acesso a informações que não sejam fidedignas ao que de fato aconteceu ali. Por isso, o importante é sempre buscar fontes que possam explicar e traduzir a verdadeira história e o verdadeiro significado das reduções jesuítas.
JÁ: O senhor acredita que há um processo de romantização das Missões Jesuíticas? Se sim, quais aspectos costumam ser negligenciados nesse processo?
Edison Hüttner: No Rio Grande do Sul, em termos gerais, não tivemos uma visão romântica das missões, mas vejo sim uma perspectiva tradicionalista, no sentido folclórico, que faz elo com a cultura e a música gauchesca. Essa perspectiva divulga e credita o termo missioneiro atrelado à cruz missioneira. A figura do índio Sepé Tiaraju ganha então destaque como herói nacional e Servo de Deus, representando a resistência e a fé que marcaram toda a história da região. A perspectiva da tradição, nesse sentido, mais que romantização, acontece por falta de leitores interessados ou por leitores sem acesso a uma literatura apropriada, sem viés ideológico ou de abordagem duvidosa.
JÁ: Como as questões indígenas contemporâneas no Brasil dialogam — ou deixam de dialogar — com o legado histórico das Missões no sul do país?
Edison Hüttner: Penso que a academia, os escritores, a imprensa e os próprios indígenas contemporâneos precisam se dedicar e valorizar mais as vivências e a criação artística e intelectual dos povos indígenas que viveram no período das reduções. Arte, cultura e edificações foram produzidas em grande escala. As palavras indígenas abambaé e tupambaé conceituaram como devia ser o sistema econômico, bem como o modelo de trabalho e de propriedade das reduções jesuíticas. Diga-se de passagem, que a Guerra Guaranítica (1753-1756) provou que tanto os índios quanto os jesuítas que estavam nas reduções não queriam que as reduções fossem destruídas pelo exército espanhol e português.
JÁ: Em sua visão, quais contribuições a pesquisa histórica sobre as Missões pode oferecer ao debate atual sobre direitos territoriais indígenas?
Edison Hüttner: Vou dar um exemplo. O direito ao reconhecimento oficial da “religião” (expressões xamânicas, mitos) de cada etnia indígena, não só no Rio Grande do Sul, mas no país todo, já está presente na Constituição Federal de 1988, que em seu Artigo 231, garante: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições...”. Contudo, até o momento, nenhuma manifestação ou “religião” indígena específica foi oficialmente reconhecida em cartório no Brasil, como ocorre com outras religiões e igrejas. Se queremos realmente valorizar os direitos indígenas, não apenas os que dizem respeito aos seus territórios, mas também às suas crenças, é necessário haver um forte trabalho pelo reconhecimento oficial de suas crenças, expressões ou manifestações de fé. Esse passo, junto com a proteção dos seus territórios, garantiria proteção legal e respeito às práticas xamânicas e rituais dessas comunidades indígenas. Talvez fosse um fator a mais a contribuir contra influências, interferências e imposições externas. Com o passar do tempo, essas experiências não registradas podem acabar se perdendo.
JÁ: Considerando os 400 anos desse processo histórico, quais seriam as perguntas ainda não feitas — ou pouco exploradas — que deveriam orientar novas pesquisas?
Edison Hüttner: É importante fazermos perguntas a partir de dentro das aldeias indígenas, das instituições jesuítas e das cidades que preservam o patrimônio cultural e artístico dos Sete Povos das Missões do Rio Grande do Sul. Hoje, no estado, há uma estimativa de 38 mil indígenas, com representação de quatro etnias: Mbya Guarani, Kaingang, Xokleng e Charrua. Praticamente a mesma estimativa de indígenas que viviam nas reduções dos Sete Povos das Missões. Como as instituições municipais, estaduais e federais estão respondendo hoje às demandas e à situação desses diferentes povos indígenas nas áreas da saúde, da educação, da moradia e de valorização da sua cultura? Nesse sentido, é importante observarmos todos os índices alcançados nestas áreas no passado e no presente, não apenas para fins de registro, mas principalmente para encontrarmos as respostas necessárias que conduzam à construção de políticas públicas que de fato atendam às demandas urgentes dessas populações, e que não são poucas.
JÁ: Uma última pergunta: Qual legado intelectual e humano o senhor considera mais relevante transmitir às próximas gerações ao estudar as Missões Jesuíticas e as culturas indígenas?
Edison Hüttner: O legado mais relevante que procuro transmitir é a demonstração da própria convivência e das vivências entre índios e não índios nas reduções jesuítas. Essa vivência bastou por si só, porque deu certo, porque sobrepujou o modelo de uma nova experiência de sociedade. Acredito fortemente que se os índios e os jesuítas não tivessem sido expulsos das reduções, teríamos um novo estado bilíngue, com uma identidade nativa altamente avançada. Com certeza, esse foi o receio das autoridades coloniais espanhola e portuguesa, que agiram selvagemente para impedir esse processo de crescimento.

