Autor: Sérgio Lagranha

  • Guerra contra Irã derruba títulos da dívida dos EUA

    Guerra contra Irã derruba títulos da dívida dos EUA

    A guerra dos Estados Unidos (EUA) e Israel contra o Irã provocou forte volatilidade no mercado financeiro. Bancos centrais de vários países — principalmente exportadores de petróleo do Oriente Médio — cortaram de forma drástica as reservas de Treasuries (títulos do Tesouro dos EUA) que mantêm no Federal Reserve (Fed, o banco central estadunidense) de Nova York para obter liquidez.

    As reservas caíram ao menor nível desde 2012, à medida que os países venderam papéis do governo dos EUA para sustentar suas economias e moedas na esteira da guerra. Segundo o Financial Times, o valor dos Treasuries – mantidos sob custódia do Fed de Nova York por bancos centrais estrangeiros, mas também governos e instituições internacionais – teve redução de US$ 82 bilhões desde 25 de fevereiro, de um total que está em US$ 2,7 trilhões no início de abril, conforme dados do Fed.

    Esse valor é observado com muita atenção pelos analistas porque ele indica se bancos centrais estrangeiros estão comprando ou vendendo títulos dos EUA, o que pode afetar diretamente o dólar e as taxas de juros globais.

    Essa estrutura foi criada no final da Segunda Guerra Mundial, com os títulos do Tesouro dos EUA sendo usados pelos bancos centrais da maioria dos países como seu principal ativo de reserva. O mercado desses títulos, avaliado em US$ 30 trilhões, é o maior do mundo.

    No entanto, já existe um movimento nos últimos 25 anos de diversificação das reservas internacionais. O dólar estadunidense representava cerca de 72% das reservas mundiais em 2001 e caiu para cerca de 56%, em 2025, o nível mais baixo em 30 anos. Os bancos centrais vêm comprando ouro em grande escala e reduzindo participação relativa em títulos estadunidenses.  Pela primeira vez, desde 1996, o valor do ouro nas reservas dos bancos centrais superou o dos Treasuries.

    Isso mostra uma menor dependência do dólar, mas não o fim dele. O que os números deixam claro é que apesar do yuan chinês ainda ser limitado e o ouro não funcionar bem para pagamentos cotidianos, o mundo caminha para um sistema multipolar.

    O petrodólar

    Na reunião de Bretton Woods, EUA, em 1º de julho de 1944, com a aproximação do final de Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos conduziram as negociações para a construção de uma nova ordem mundial e, ao longo desta, definiram sua moeda nacional, o dólar, como o padrão de referência internacional. A libra, moeda do Reino Unido, perdeu espaço.  

    A dolarização da economia mundial deu seu passo inicial ao término das negociações na Conferência de Yalta (4 a 11 de fevereiro de 1945), quando o presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt, se encontrou com o fundador do Reino da Arábia Saudita, rei Abn Saud, três dias depois, em 14 de fevereiro, no navio militar USS Quincy, próximo ao canal de Suez. Aprofundaram os termos de um acordo de 1936, em que se definia a inserção exclusiva das petroleiras dos Estados Unidos dentro do reino, em troca da proteção militar norte-americana.  

    O que se garantiu foi a cotação em dólares do petróleo exportado a partir do território que, de fato, se transformou no novo centro de gravidade da produção mundial. Grande parte dos países, que possuíam necessidades de importação de petróleo, foram compelidos a aderir ao dólar. Assim, tal movimento acabou por obrigar esses países a “precificarem” em dólares seus produtos de exportação de modo a viabilizar seu abastecimento de petróleo e seu comércio exterior em geral. Anos depois, outros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) seguiram o exemplo e consolidaram o petrodólar.

     O petróleo passou a ser vendido internacionalmente em dólares e os países produtores investiram os dólares recebidos em títulos do Tesouro dos EUA. Isso permitiu aos Estados Unidos, de lá para cá, financiar grandes déficits externos, emitir dívida em sua própria moeda e manter os juros internos mais baixos.

    Muitos economistas dizem que a maior ameaça ao dólar não é o yuan chinês, mas a própria dívida pública dos EUA, que já ultrapassa US$ 38 trilhões.

    O belicismo no Oriente Médio acontece muito porque o petrodólar está em crise, afetando o comércio global de energia. Alguns países estão tentando reduzir a dependência do dólar. A China compra boa parte do petróleo em sua moeda, yuan, e a Rússia passou a vender energia sem usar dólar após as sanções ocidentais. Hoje, a Saudi Aramco, estatal saudita, diversificou suas parcerias, e a China se tornou o maior comprador de petróleo do reino, superando os EUA.

    Em relação aos países integrantes do bloco econômico Brics, que estavam usando moedas nacionais no final de 2025, os dados disponíveis mostram uma média geral superior a 65%, com casos bilaterais ultrapassando 95%, refletindo um processo de integração financeira em ritmos distintos entre os países do grupo.

    Estreito de Ormuz

    O controle do Estreito de Ormuz pelo Irã, vital para o transporte marítimo, é mais uma dificuldade para o petrodólar. Desde que a guerra começou, há um mês, houve uma explosão dos preços da energia, que desestabilizou as finanças de países que dependem da importação de petróleo.

    O pedágio pago em petroyuan cobrado pelo Irã aos petroleiros que têm licença para atravessar pelo Estreito de Ormuz, passam ao largo do petrodólar, do sistema SWIFT – um mecanismo de transferências financeiras interbancárias mundiais controlado pelos EUA – e das sanções estadunidenses. Já existem informações que o parlamento iraniano poderá legalizar a cobrança como compensação de segurança, ou seja, monetizar o Estreito de Ormuz para pagar os danos da guerra.

  • Guerra no Oriente Médio expõe erros na venda de ativos Petrobras (Parte III) 

    Guerra no Oriente Médio expõe erros na venda de ativos Petrobras (Parte III) 

    A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, no Oriente Médio, continua escalando e o ambiente de incerteza já traz uma pressão de preços em cadeia devido alta de combustíveis. Uma operação conjunta envolvendo Polícia Federal, Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) foi deflagrada nesta sexta-feira (27) em 11 estados e no Distrito Federal, para averiguar postos de combustíveis suspeitos de praticarem aumentos irregulares na venda do produto.

    O Brasil hoje produz mais petróleo do que consome.  Mas produzir petróleo não significa produzir combustíveis suficientes, porque para isso é necessário refiná-lo. O parque de refinarias brasileiro cresceu muito pouco nas últimas décadas. A capacidade de refino do Brasil ficou praticamente estagnada desde os anos 1980–1990. Projetos que ampliariam o refino foram cancelados ou reduzidos por ações da Lava Jato e pelos governos do interino Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019–2022).

    Entre 2014 e 2021, a Operação Lava Jato, que deveria investigar a corrupção, conduzida por uma força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) em conjunto com a Polícia Federal (PF), acabou provocando efeitos desastrosos a Petrobras e atingiu diretamente as maiores construtoras e empresas de engenharia que executavam obras da estatal. O setor de engenharia brasileiro perdeu capacidade global. Antes da Lava Jato, as empresas brasileiras executavam obras em mais de 30 países.

    Entre 2019 e 2023, decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) mudaram bastante o cenário, além da divulgação de mensagens (Vaza Jato) que sugeriam conluio entre o então juiz Sérgio Moro e os procuradores, violando o devido processo legal. Multas bilionárias negociadas pelo Ministério Público foram questionadas. Parte dos acordos foi revista ou redirecionada. Por exemplo, o fundo bilionário que seria gerido pela Lava Jato com dinheiro da Petrobras, foi barrado pelo STF. O valor era de cerca de R$ 2,66 bilhões, 80% de uma multa imposta à companhia por órgãos estadunidenses. Afinal, quais interesses a Lava Jato defendia?

    Ainda no governo de Dilma Rousseff (2011-2016), com operações iniciadas em 2014, a refinaria Abreu e Lima (Rnest), situada no Complexo Industrial Portuário de Suape, foi alvo da Lava Jato por suposto prejuízo aos cofres públicos, mas a Justiça concluiu, em 2021, que não houve lesão ao Estado com o empreendimento. O projeto original previa uma segunda unidade, mas foi descartada em 2015.

    Durante o governo de Jair Bolsonaro, a Petrobras adotou uma política de desinvestimento no refino. O plano previa vender oito das 13 refinarias da estatal, o que representaria cerca de 50% da capacidade de refino do Brasil (aprox. 1,1 milhão de barris/dia). A ideia era reduzir a presença dominante da Petrobras no refino e estimular concorrência privada no mercado de combustíveis.

    Efetivamente duas foram vendidas. A refinaria Landulpho Alves (Bahia), em 2021, ao fundo soberano Mubadala Investment Company, de Abu Dhabi, rebatizada refinaria de Mataripe, pelo valor de US$ 1,6 bilhão. A estatal estimou que o valor justo da refinaria seria US$ 3 bilhões.

    A outra venda foi da Refinaria Isaac Sabbá (Amazonas) – vendida para o grupo Atem, conglomerado empresarial do Amazonas controlado pelos irmãos Miquéias e Naidson Atem. A venda foi fechada por US$ 189,5 milhões, valor do contrato assinado em agosto de 2021, enquanto o valor de avaliação estimado por estudos independentes variava entre US$ 279 milhões e US$ 365 milhões.

    Em 2022, a estatal vendeu por US$ 41,6 milhões, a SIX (Unidade de Industrialização do Xisto) à empresa canadense Forbes Resources Brazil Holding S.A. (F&M Brazil), pertencente ao grupo Forbes & Manhattan Resources Inc..

    Refinarias “Premium”

    Também havia o projeto das refinarias “premium” de petróleo previstas para o Maranhão e o Ceará, voltadas para abastecer o mercado interno. A refinaria Premium I (Maranhão), em Bacabeira, seria a maior do país, com capacidade para processar 600 mil barris de óleo por dia. A refinaria Premium II (Ceará), no Complexo do Pecém. teria capacidade de refino de 300 mil barris de óleo por dia.

    A Petrobras não prevê retomar as obras das refinarias premium porque sua estratégia atual prioriza ampliar e concluir projetos já existentes, otimizar custos e focar em investimentos com maior retorno comprovado — especialmente em refino já em operação, petroquímica e transição energética.

    Em relação aos fertilizantes, os governos Temer e Bolsonaro desativaram, arrendaram ou venderam ativos inacabados, o que na prática significou a saída quase total da estatal do setor, aumentando a dependência externa. Com o fechamento e arrendamento das unidades, o Brasil perdeu mais de 2 milhões de toneladas/ano de ureia, 1,4 milhão de toneladas/ano de amônia. Isso equivale a quase toda a produção nacional. Um impacto no agronegócio brasileiro.

    Retomada dos investimentos

    Em 2023, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assume a Presidência da República e retoma o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), que prevê reduzir a dependência externa de 85% para 45% até 2050, reativar unidades existentes e incentivar produção de nitrogenados, fosfatados e potássicos.

    O presidente Lula também muda a direção da Petrobras, que revisou o acordo com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) que previa as vendas e cancelou oficialmente o plano de privatização de cinco refinarias, incluindo Abreu e Lima, Repar e Refap.

    O Plano de Negócios 2025–2029 da Petrobras prioriza US$ 111 bilhões em investimentos, concentrados em ampliação de refinarias já operacionais (como a Rnest) e modernização de unidades existentes (como Reduc, no RJ).

    O projeto do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí (RJ), foi anunciado em 2006, último ano do primeiro governo Lula, dentro de um grande plano de expansão do refino da Petrobras para reduzir importações de derivados. O projeto original previa uma grande refinaria de petróleo pesado com capacidade de até 330 mil barris/dia integrada a um polo petroquímico (produção de plásticos e resinas). Nos governos Temer e Bolsonaro o Comperj foi praticamente abandonado.

    No anúncio de seu plano estratégico para o período 2024-2028, a Petrobras confirmou que vai retomar as obras do Comperj. Agora, Petrobras transformou o empreendimento em um complexo voltado ao gás natural e lubrificantes, chamado Polo GasLub Itaboraí.

    Em 2024, o governo Lula e a Petrobras anunciaram a retomada da expansão da Refinaria Abreu e Lima, dentro do plano de aumentar a capacidade de refino do país. O foco é concluir o chamado “Trem 2”, uma segunda linha de processamento que estava parada havia anos, com investimento total estimado para concluir a expansão de R$ 12 bilhões. Isso deve aumentar principalmente a produção de diesel S-10, reduzindo importações.

  • Guerra no Oriente Médio expõe erros na venda de ativos Petrobras (Parte II) 

    Guerra no Oriente Médio expõe erros na venda de ativos Petrobras (Parte II) 

    A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, no Oriente Médio, está escalando, com ataques no Golfo Pérsico que ameaçam causar danos de longo prazo a importantes instalações de energia. O preço do barril de petróleo Brent já está próximo dos US$ 120,00 e pode chegar a US$ 150,00. O mundo enfrenta a maior ameaça energética de sua história devido à guerra com o Irã, alerta o chefe da AIE (Agência Internacional de Energia).

    É importante recuperar a história para entender a importância da Petrobras para a autonomia econômica do Brasil. Em 2000, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), houve uma forte abertura do capital da Petrobras nas bolsas do Brasil e dos Estados Unidos, incluindo a listagem na New York Stock Exchange (NYSE), processo pelo qual uma empresa atende aos rigorosos critérios financeiros e de governança da bolsa para ter suas ações negociadas no maior mercado de capitais do mundo.

    Naquele momento, o governo brasileiro tinha cerca de 84% das ações com direito a voto da Petrobras e aproximadamente 53% do capital total da empresa. Após a grande oferta internacional, o governo passou a ter cerca de 56% das ações com direito a voto, mantendo o controle, mas sua participação no capital total caiu para cerca de 33%.

    Isso criou a estrutura que existe até hoje de controle estatal garantido pela maioria das ações ordinárias (com voto) e, ao mesmo tempo, grande participação privada passando a deter a maior parte do capital econômico da empresa, tornando-a uma sociedade de economia mista com grande participação estrangeira. Em fevereiro passado, investidores não-brasileiros detinham cerca de 46,37% do capital total da Petrobras, capturando parte dos lucros da empresa e remetendo seus dividendos para fora do país.

    Durante o governo de Jair Bolsonaro os dividendos pagos pela Petrobras foram de R$ 101,4 bilhões, em 2021, e R$ 222,6 bilhões, em 2022. A partir de 2023, já no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cai para R$ 94,4 bilhões, R$ 73,9 (2024) e R$ 41,2 até o terceiro trimestre de 2025. Números divulgados pela Petrobras.

    O fato de a Petrobras ter ações negociadas na NYSE limita bastante a possibilidade de segurar artificialmente os preços dos combustíveis em momentos de crise como o atual. Não impede totalmente, mas cria restrições legais, financeiras e de governança.

    Se o governo usar a empresa para subsidiar combustíveis, acionistas podem alegar prejuízo. A Petrobras já enfrentou isso depois da política de controle de preços no governo Dilma Rousseff (PT). Entre 2014 e 2018 ocorreram ações coletivas de investidores nos EUA, com acusações de perdas causadas por decisões políticas A empresa acabou pagando acordo bilionário a investidores estrangeiros. Esse precedente faz a Petrobras ter mais cautela hoje.

    A partir de 2023, a solução encontrada pela Petrobras, no governo Lula, foi a política de preços flexíveis. A Petrobras abandonou o modelo rígido de paridade internacional e adotou uma política que considera custo de produção no Brasil, preço internacional do petróleo e custo de importação de combustíveis. Ou seja, tenta evitar repasses imediatos de choques externos, mas sem criar grandes distorções.

    Pré-sal

    Em 2006, a descoberta do pré-sal brasileiro criou a expectativa de que o País se tornaria plenamente autossuficiente em combustíveis fósseis. De fato, o Brasil se tornou autossuficiente em produção de petróleo bruto, mas não em derivados (diesel, GLP, querosene etc.). Isso ocorreu por decisões políticas durante os governos Temer e Bolsonaro, que prejudicaram enormemente a economia brasileira.

    Em 2010, pelo pré‑sal ser considerado estratégico e a Petrobras ter tecnologia mais avançada para operar em águas ultra profundas, o governo Lula aprovou a Lei nº 12.351/2010, que criou o regime de partilha do pré‑sal, que estabelecia duas regras diferentes, mas complementares.

    A Petrobras atuava como operadora única dos campos do pré-sal, que significava ser a empresa responsável pela condução e execução, direta ou indireta, de todas as atividades de exploração, avaliação, desenvolvimento e produção. Em resumo, controlar a operação, mesmo que outras empresas fossem sócias.

    Segunda regra: nos consórcios formados para explorar cada área, a Petrobras deveria ter pelo menos 30% de participação. Os outros 70% poderiam ser divididos entre empresas privadas e estrangeiras.  Assim, a Petrobras sempre operava o campo (100% da operação), mas não precisava ser dona de 100% do projeto — apenas de 30% ou mais.

    Em outubro de 2016, um mês após o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff, início do governo do interino Michel Temer (MDB – 2016/2018) aconteceu outro ataque à autonomia da Petrobras. O Congresso aprovou o projeto de Lei 4567/16, do senador José Serra (PSDB). Esse projeto foi posteriormente sancionado por Temer em 29 de novembro de 2016, convertendo‑se na Lei nº 13.365/2016, que simplesmente retirou essas duas obrigatoriedades por pressão das petroleiras internacionais. A Petrobras não é mais obrigada a ser operadora única, nem a ter o mínimo de 30%.

    O governo Temer promoveu uma reformulação profunda no marco regulatório do petróleo no Brasil, acelerando leilões e abrindo o pré-sal para empresas internacionais, como Shell, ExxonMobil, Chevron, Statoil (Equinor) e British Petroleum, que arremataram áreas importantes.

    Cessão Onerosa

    Voltando a 2010, o governo Lula precisava aumentar o capital da Petrobras para investir no pré-sal, manter o controle estatal da empresa e evitar depender totalmente do mercado financeiro internacional. Então foi feito um arranjo: a União entregou à Petrobras o direito de produzir até cinco bilhões de barris de óleo equivalente (BOE) – unidade de medida usada na indústria de petróleo e gás – em áreas do pré-sal ainda não licitadas. Em troca, a Petrobras pagou cerca de US$ 42 bilhões à União.

    Esse pagamento foi feito principalmente com ações, na grande capitalização da empresa em 2010. O petróleo no subsolo virou capital para fortalecer a Petrobras. Esse contrato ficou conhecido como Cessão Onerosa.

    Quando os campos começaram a ser mais bem avaliados (principalmente Búzios, Atapu, Sépia e Itapu), descobriu-se que as reservas eram muito maiores que os cinco bilhões de barris previstos. Então surgiu o chamado “excedente da cessão onerosa”. Cinco bilhões pertenciam ao contrato da Petrobras e o que estivesse acima disso voltaria a ser da União.

    No governo de Michel Temer iniciaram as negociações sobre a revisão da cessão onerosa e estruturado juridicamente o caminho para o leilão do excedente, retirando das mãos da União. Em 2019, em seu primeiro ano de governo, Jair Bolsonaro finalizou o golpe à Petrobras ao decidir licitar o “excedente da cessão onerosa” por meio da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

    A Petrobras manteve direito de preferência para ser operadora, mas o petróleo excedente passou a ser explorado em consórcios com petroleiras internacionais. A Petrobras não perdeu os campos, mas passou a dividir a participação.

    A Petrobras não tinha por que dividir com petroleiras internacionais os campos do excedente (principalmente Búzios), entre os mais produtivos do mundo. A estatal já dominava a tecnologia e dividir participação significou reduzir a parcela da renda petrolífera futura do Brasil no lugar de maior faturamento no longo prazo.

    Continua…

  • Guerra no Oriente Médio expõe erros na venda de ativos Petrobras (Parte I)  

    Guerra no Oriente Médio expõe erros na venda de ativos Petrobras (Parte I)  

    A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, no Oriente Médio, está provocando uma instabilidade no preço internacional do petróleo. O controle do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, pelo Irã, por onde passa cerca de 20% do petróleo do mundo, levou ao aumento de 70% nos preços do gás natural liquefeito (GNL) e o barril de petróleo Brent opera em patamares acima de US$ 100,00.

    Segundo dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP), em 2025, o Brasil produziu 3,770 milhões de barris de petróleo por dia, um recorde histórico.  O País tem 19 refinarias que produzem diversos tipos de subprodutos de petróleo. Dessas unidades, 10 são da Petrobras.

    Em 2025, o valor total aproximado das exportações de petróleo bruto e derivados do Brasil ficou entre US$ 55–70 bilhões. Com o barril por volta de U$ 100,00, a receita adicional anual aproximada pode ficar entre US$ 20–22 bilhões. Portanto, os reflexos da guerra do Oriente Médio deveriam ser limitados. Não é o que acontece.

    A perda do controle da Petrobras na distribuição provocou agora um aumento de preços dos combustíveis nas bombas, com reflexos na inflação. O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto presidencial nesta quinta-feira (12) zerando as alíquotas do PIS e do Cofins sobre a importação e comercialização do diesel. Além disso, assinou medida provisória (MP) com subvenção ao diesel para produtores e importadores.​​As medidas foram anunciadas em caráter temporário – até dia 31 de dezembro deste ano. 

    A subvenção aos produtores e importadores será condicionada a uma comprovação de que o valor foi transferido para os consumidores finais. Para compensar a perda na arrecadação e incentivar o refino de petróleo no Brasil, o governo passará a cobrar uma alíquota de 12% sobre a exportação de petróleo.

    Foi publicado ainda um segundo decreto, esse em caráter permanente, com medidas de fiscalização e transparência para combater o aumento abusivo dos preços dos combustíveis para fins de especulação.

    Venda da BR Distribuidora

    A venda da distribuidora da Petrobras — a antiga BR Distribuidora, hoje chamada Vibra Energia — ocorreu em etapas entre 2017 (governo Temer) e 2021 (governo Bolsonaro). O processo é polêmico porque envolveu perda do controle estatal de um setor estratégico (a distribuição de combustíveis) e levantou críticas sobre preço, modelo de venda e impactos para a Petrobras.

    A BR era a maior distribuidora de combustíveis do Brasil, cerca de 30% do mercado nacional, quase oito mil postos de combustíveis, com atuação em aeroportos e grandes consumidores industriais. Ela era o braço de venda direta da Petrobras ao consumidor.

    Em 2017 (governo Temer), a Petrobras abriu o capital da distribuidora e vendeu cerca de 29% das ações, continuando como controladora. Em 2019, já no governo Bolsonaro, a Petrobras vendeu mais 30% das ações em bolsa, caindo a participação da estatal de 71% para cerca de 37%, perdendo o controle. O valor arrecadado foi de cerca de R$ 9,6 bilhões.

    Em 2021, ainda no governo Bolsonaro, a Petrobras vendeu o restante da participação (37,5%) pelo valor de R$ 11,3 bilhões.  Com isso, a Petrobras saiu completamente da empresa distribuidora. Não houve um único comprador. As ações foram compradas por fundos internacionais, bancos, investidores institucionais e fundos de investimento. A BlackRock, por exemplo, detém cerca de 5,2%. Ou seja, foi uma privatização via mercado financeiro.

    O processo só foi possível porque o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 2019, que subsidiárias de estatais podem ser vendidas sem aprovação do Congresso. Isso abriu caminho para várias vendas de ativos da Petrobras.

    O preço foi considerado baixo por economistas e sindicatos do setor, além de não ter sentido entregar uma distribuidora estatal lucrativa. A BR era líder de mercado, com um lucro de cerca de R$ 3,9 bilhões em 2020. Para críticos, vender o controle por cerca de R$ 20 bilhões no total foi um escândalo.

    Antes, a Petrobras controlava toda a cadeia, da produção de petróleo, refino e distribuição. Depois da venda, a Petrobras perdeu a rede própria de postos e logística final. Com a BR estatal, o governo podia influenciar margens da distribuição e reduzir impactos de alta internacional. Sem ela, o preço final depende mais do mercado.

    Importação de derivados

    Mesmo sendo um grande produtor de petróleo, o Brasil ainda importa alguns derivados importantes, principalmente por limitações da capacidade de refino. Importa cerca de 20% a 30% do diesel que consome. Em 2025, as importações chegaram a 17,3 bilhões de litros, recorde histórico. Isso ocorre porque a demanda é enorme (transporte rodoviário e agronegócio) e o parque de refinarias não produz diesel suficiente. O diesel é o maior gargalo da segurança energética brasileira.

    Em relação à gasolina a dependência é pequena, com importação de menos de 5% a cerca de 8% do total consumido. A mistura de etanol na gasolina (30%) reduz ainda mais a necessidade de importação.

    O Brasil ainda importa uma parte relevante do gás de cozinha (GLP), geralmente entre 20% e 30% do consumo, porque a produção nas refinarias e no gás natural não cobre toda a demanda. Também há alguma importação de cerca de 17% do querosene de aviação.

    Esses gargalos resultam de decisões nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro de fracionar a Petrobras. Os dois governos optaram por venda de ativos como refinarias, gasodutos, distribuidoras, petroquímica e fertilizantes.

    Além disso, teve a Operação Lava Jato, um conjunto de investigações liderado pela Polícia Federal, com atuação central e contínua do Ministério Público Federal (MPF), que atingiu em cheio a estatal.

    Continua…

  • Qual o país queremos nos próximos anos

    O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, em 2025, cresceu 2,3%, frente ao ano anterior. Em valores correntes, totalizou R$ 12,7 trilhões e o PIB per capita chegou a R$ 59.687,49, com avanço real de 1,9% frente ao ano anterior.  A taxa de investimento foi de 16,8% do PIB, contra 16,9% em 2024. A taxa de poupança, por sua vez, ficou em 14,4% ante 14,1% em 2024.

    Em cada análise dos números do PIB brasileiro a mídia corporativa encontra problemas. O Globo: “O que os números divulgados pelo IBGE revelam é que o resultado só não foi pior porque o consumo do governo acelerou no segundo semestre”.

    Podemos analisar de outra forma: O País ficou na 6ª posição dentre as principais economias do G20 (que inclui países desenvolvidos e emergentes), superando o desempenho de algumas economias grandes, como os Estados Unidos.

    Além da análise dos números, a discussão necessária neste momento de tantas incertezas é qual país queremos nos próximos anos. A base do modelo brasileiro entre 1930 e 1980 foi que o desenvolvimento exige política industrial, planejamento estatal e substituição de importações, com o PIB crescendo próximo dos 7% ao ano. O País saiu de uma economia agrária à industrial.

    Na década de 1990 e início dos anos 2000, foi o período de maior intensidade do neoliberalismo. Essa fase foi marcada pela abertura econômica, privatizações, desregulamentação e redução da intervenção estatal na economia.  A indústria de transformação caiu de 32,1% do PIB em 1986 para 19,7% do PIB em 1998, queda de 12 pontos percentuais, conforme o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). Em 2024, desceu a ladeira para 14,4% do PIB.

    Os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010, 2023) caracterizam-se por alianças amplas, equilibrando a dominação econômica com a gestão social, sem promover um confronto direto com as frações hegemônicas do capital.

    Indústria ou commodities

    O mundo capitalista continua dividido em dois pólos, o Centro com países industrializados que produzem bens manufaturados e tecnologia, controlam finanças e inovação e exportam produtos de alto valor agregado. Já a periferia é composta por países exportadores de produtos primários, especializados em commodities, baixa complexidade tecnológica e importam bens industriais.

    O economista Celso Furtado já argumentava em seu livro clássico Formação Econômica do Brasil, que o subdesenvolvimento não é uma etapa atrasada do desenvolvimento. E explicava: “O subdesenvolvimento é uma estrutura própria, produzida historicamente pela inserção dependente da periferia no sistema mundial”. Ou seja, o Brasil não está “atrasado”, mas foi estruturado para cumprir um papel específico na divisão internacional do trabalho.

    O Brasil continua numa posição periférica ou o agronegócio altamente tecnológico já rompeu parcialmente essa lógica? Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) escancaram uma realidade. Em 2025, os desempenhos da Agropecuária (11,7%), da Indústria (1,4%) e dos Serviços (1,8%).  O agro teve um crescimento excepcional, com aumento relevante na produção de grãos, especialmente soja, milho e algodão.  

    Só que não podemos esquecer que a Lei Complementar 87/1996, conhecida como Lei Kandir, trouxe para os estados brasileiros a desoneração das exportações de produtos primários e semielaborados em relação ao principal imposto estadual, o ICMS. Um impacto no federalismo fiscal brasileiro. A lei beneficiou diretamente o agronegócio e o setor extrativista mineral, enquanto reduziu a base de arrecadação dos estados, contribuindo para o aumento de suas dívidas. Uma queda abrupta e acentuada dessa arrecadação.

    Em 2025, a receita total do Rio Grande do Sul foi de  R$ 69,6 bilhões. Só o ICMS arrecadou aproximadamente R$ 50,8 bilhões em 2024. Isso significa algo entre 70% e 73% da receita tributária própria do Estado, sem esquecer que 25% do ICMS arrecadado precisa ser repassado aos municípios. Estado e municípios afetados.

    Nova Indústria Brasil

    O projeto “Nova Indústria Brasil” (NIB), lançado pelo governo Lula em 2024, foi desenhado com o objetivo de reverter a desindustrialização precoce, aumentar a competitividade nacional e impulsionar o desenvolvimento tecnológico até 2033. No entanto, a indústria enfrenta dificuldades relacionadas a juros elevados, que encarecem o capital e limitam investimentos, um problema crônico da economia brasileira.

    A taxa Selic (juros básicos da economia) continua em 15% ao ano há nove meses. Nos últimos 12 meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a 4,44%. Portanto o ganho real (descontada a inflação) para os bancos e fundos de investimentos é de incríveis 10,56 pontos percentuais, entre os três maiores do mundo. Como investir em produção com um ganho financeiro neste nível? O PIB é afetado drasticamente.

    Além disso, a Selic em 15% ao ano pressiona o endividamento e reduz os investimentos do governo. No acumulado em doze meses, tendo como referência janeiro, só os juros nominais da dívida pública brasileira alcançaram R$1,086 trilhão, 8% do PIB. Esse valor é mais do que o dobro de todo o orçamento anual da Saúde e Educação somados.

    A Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) encerrou 2025 em R$ 8,309 trilhões, ante R$ 6,966 trilhões, ao término de 2024. Portanto, praticamente bancos e grandes fortunas nacionais se beneficiam de cerca de 96% do total da dívida via títulos públicos. A composição dos detentores da Dívida Pública Federal interna foi dominada por Instituições financeiras: 32,88% do estoque; Fundos de pensão: 22,76% e Fundos de investimentos: 20,79%.

    Como o banco pode ganhar 15% sem risco algum emprestando ao governo, ele só libera crédito ao público acima disso, para compensar o risco de inadimplência, custos administrativos e lucro. Por isso, taxas de empréstimo pessoal, cheque especial, cartão de crédito e crédito rotativo ficam muito acima de 15% — frequentemente até mais de 100% ao ano.

    Por todos esses benefícios, temos parte substancial de nossa elite que luta com todas suas forças para manter a financeirização dominando a economia. Desta forma, a renda continua concentrada e nosso mercado interno não se desenvolve. É só observar o lobby das entidades empresariais no Congresso, que discute o fim da escala de trabalho 6×1. E ainda tem os penduricalhos….

    Com Agência Brasil, Banco Central e Ministério da Fazenda



  • Corrida pelas terras raras movimenta economia mundial

    Corrida pelas terras raras movimenta economia mundial

    Durante a visita do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, que ocorreu entre os dias 18 e 22 de fevereiro, os dois países avançaram em memorandos e negociações para cooperação em minerais críticos e terras raras, investimentos em mineração, pesquisa tecnológica e aplicações de inteligência artificial nesses setores. Esse acordo é considerado estratégico porque conecta recursos naturais do Brasil com a tecnologia industrial da Índia.

    Em declaração à imprensa realizada em Nova Delhi, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, informou aos jornalistas que o acordo é “um grande passo para os dois países em direção a construir cadeias de suprimento resilientes”. O objetivo é criar cadeias de suprimento mais seguras e menos dependentes de grandes potências, especialmente em tecnologias estratégicas.

    Ao lado de Modi, o presidente Lula destacou que a assinatura desse acordo coloca a tecnologia a serviço do desenvolvimento inclusivo. “É notável a evolução indiana em setores de ponta, como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração especial. Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje”, falou Lula.

    Fontes oficiais recentes, como o Serviço Geológico do Brasil e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, têm mencionado que o Brasil possui números próximos a 23% ou superiores das reservas globais conhecidas de terras raras, a segunda maior do mundo. O gargalo nacional não é o minério — é a química fina e a escala industrial.

    O paradoxo brasileiro é possuir cerca de 23% das reservas mundiais (perdendo apenas para a China, com cerca de 48%), mas responder por menos de 1% da produção global. A atuação do Departamento de Transformação e Tecnologia Mineral, integrado à Secretaria Nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (SNGM) do governo federal é crucial para aumentar a posição do país na extração e processamento, que ainda é considerada baixa (décima posição em 2025) diante do seu potencial geológico.  

    O processamento de terras raras é essencial para transição energética, economia digital, indústria de defesa, indústria automotiva, telecomunicações, semicondutores e inteligência artificial. Ou seja, é um pilar da chamada nova economia industrial e tecnológica.

    O Serviço Geológico do Brasil informa que o País é o maior detentor global de reservas de nióbio (94%) – com 16 milhões de toneladas. No ranking global, é o segundo maior em reservas de grafita, com 74 milhões de toneladas (26%), e de terras raras, com 21 milhões de toneladas (23%).

    Resíduos tóxicos e radioativos

    O problema é que as terras raras não aparecem isoladas na natureza. Estão misturadas entre si, quimicamente muito semelhantes. Muitas vezes vêm associadas a tório e urânio, materiais radioativos, provocando centenas de etapas de extração por solvente. Grandes volumes de ácidos fortes, alto consumo de água e energia, além de tratamento de resíduos tóxicos e radioativos. Portanto, é uma indústria química pesada, não apenas mineração.

    O processamento gera lama ácida contaminada, resíduos radioativos de baixa intensidade, risco de contaminação de aquíferos e alto passivo ambiental se mal gerido. Foi exatamente por causa desses impactos que muitos países reduziram ou abandonaram o refino nas décadas de 1980 e 1990.

    No mesmo período, a China, com forte subsídio estatal, buscou o domínio da tecnologia de separação química. Assim, passou a controlar mais de 80% do refino global, concentrando o elo mais estratégico da cadeia. Hoje, mesmo que um país extraia o minério, muitas vezes precisa enviá-lo à China para refino.

    Política mineral

    O presidente Lula participou da primeira reunião do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), que foi criado em 2022, em outubro de 2025, para definir diretrizes estratégicas, com foco em minerais críticos e terras raras. O órgão foi idealizado para planejar políticas de exploração mineral, que atualmente são fonte de tensão entre a China e os Estados Unidos.

    O Conselho será formado por representantes de 18 ministérios sob a presidência do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Na reunião de abertura, ao lado de Lula, Silveira destacou o papel do conselho, que será equivalente ao papel exercido pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). O objetivo é aprovar o Plano Nacional de Mineração (PNM) 2026-2050. Porém, em 2026 o Ministério de Minas e Energia ainda está recebendo contribuições públicas sobre a minuta do plano.

    O Plano Nacional de Mineração tende a tratar terras raras como recurso estratégico nacional, base para indústria tecnológica, parte da transição energética e elemento de soberania econômica. Isso está alinhado com a política recente do governo brasileiro e com acordos internacionais (como os com a Índia). A cadeia produtiva desejada é mineração → refino → óxidos → ligas → ímãs → produtos industriais. Hoje, o Brasil atua basicamente na primeira etapa.

    Estados Unidos de olho

    A agência de notícias Reuters informou que o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, anunciou planos para lançar um estoque estratégico de minerais críticos, apoiado por um financiamento inicial de US$ 10 bilhões do Banco de Exportação e Importação dos EUA.

    Os EUA classificam esses minerais como critical minerals para segurança nacional. Após a guerra comercial iniciada no governo Donald Trump, Washington passou a incentivar o processamento doméstico e criar acordos com Austrália, Canadá e Brasil. Financiar plantas de separação fora da China. 

    Após relatos de que os EUA estão criando um bloco comercial para minerais críticos e coordenando preços mínimos, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que o governo chinês se opõe a qualquer país que estabeleça blocos exclusivos para perturbar a ordem econômica e comercial internacional. 

    O secretário de Estado Adjunto para Assuntos Econômicos, Energéticos e Comerciais dos EUA, Caleb Orr, declarou em fevereiro que os EUA têm interesse em apoiar e financiar o refino e processamento de minerais críticos no Brasil, considerando-o um parceiro estratégico, desde que os projetos façam sentido econômico. 

    Com Agência Brasil e Global Times

  • A retomada do projeto Cais Mauá  (Parte II)

    A retomada do projeto Cais Mauá (Parte II)

    O Cais Mauá, no Centro Histórico de Porto Alegre, foi concedido por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul ao Consórcio Pulsa RS, que venceu o leilão em fevereiro de 2024 e retoma o projeto agora.

    Como concessionário, o Pulsa RS terá obrigações contratuais que incluem, entre outros, a revitalização do patrimônio histórico (armazéns tombados, pórtico central e docas) e destinação de áreas e armazéns para eventos culturais e sociais do Estado por período determinado, conforme regras do edital e atender exigências técnicas, ambientais e de urbanismo durante todo o prazo da concessão, 30 anos.

    Em matérias do Grupo RBS e posts e comunicações ligadas à revitalização do Cais Mauá a Opus Entretenimento aparece citada como uma das empresas envolvidas na parte de eventos e entretenimento dentro do Cais, especialmente em áreas como programação cultural, atrações e possivelmente execução de atividades artísticas.

    No entanto, até o momento não há publicação oficial do contrato de concessão do Cais Mauá (que ainda está em fase de assinatura ou finalização entre Governo do RS e Pulsa RS) que especifique formalmente um “contrato direto” entre Opus e o governo ou entre Opus e Pulsa RS.

    O projeto foi concebido como um complexo com usos empresariais, culturais, turísticos e de entretenimento. O concessionário tem direito de gerar receitas com comércio, serviços, eventos e atividades privadas. Isso inclui shows, festivais, eventos corporativos, feiras, congressos e experiências culturais privadas. Essas atividades são consideradas essenciais para viabilizar o modelo econômico da concessão.

    A presença da Opus no projeto deverá ser como parceira de eventos/entretenimento, possivelmente contratada pelo próprio consórcio ou por parceiros envolvidos na execução dos espaços para produzir, organizar e gerenciar atividades culturais, shows, feiras ou programação aberta ao público no Cais. Pode-se dizer que é um movimento do Pulsa RS em favor de poderosas famílias gaúchas ganharem dinheiro no Cais Mauá.

    A Opus Entretenimento é controlada por três holdings/empresas de participações (Abcjk, Castelli e K & Z). Empresas de participações — também chamadas de holdings (ou holdings não-financeiras) — são sociedades cuja principal atividade não é produzir bens ou serviços diretamente, mas sim deter participações societárias em outras empresas e administrar esses investimentos.

    Essas três empresas não são produtoras de eventos por si só — elas são veículos jurídicos criados para deter, gerir e organizar a participação societária e o controle da Opus Entretenimento e outras empresas relacionadas do mesmo grupo econômico.

    Por trás das três holdings (Abcjk, Castelli e K & Z) que controlam a Opus Entretenimento está a família Zaffari, uma das mais influentes do sul do Brasil, conhecida por controlar o Grupo Zaffari (rede de supermercados e Bourbon Shopping), Bourbon Hotéis e Bourbon Shopping centers. Lucas Santos Zaffari é o CEO da Opus Entretenimento, sócio indireto via holdings. Herdeiro e membro da família controladora do Grupo Zaffari. Ele representa a nova geração empresarial da família no setor de entretenimento.

    Airton Alberto Zaffari é figura central no controle indireto via holding, sócio da Castelli Administração e Participações. Integrante da família Zaffari, ligado historicamente ao Grupo Zaffari e seus braços empresariais. A Castelli é um dos principais veículos societários da família.

    Carlos Eduardo Konrath é outro controlador importante. Sócio e executivo histórico da Opus, fundador e principal operador do negócio artístico. Responsável pelo desenvolvimento da empresa como produtora nacional. Ele representa o núcleo operacional e artístico, enquanto os Zaffari representam o núcleo financeiro e patrimonial. Estrutura típica de sociedade entre operador e investidor.

    O Grupo Zaffari tem um faturamento anual estimado entre R$ 8 bilhões a R$ 12 bilhões, através de dezenas de shopping centers, centenas de supermercados e grande patrimônio imobiliário. Significa que a Opus tem suporte indireto de um grupo com enorme capacidade financeira.

    A Opus nasceu em Porto Alegre, 1976, fundada por Carlos Eduardo Konrath, inicialmente como uma empresa pequena de produção de espetáculos, com atuação concentrada no sul do Brasil. Tornou-se uma das maiores empresas do setor no Brasil através de um modelo híbrido muito específico, baseado em três pilares: gestão de casas de espetáculo, produção de shows e aliança com grandes grupos patrimoniais.

    A empresa cresceu muito ao se associar ao Grupo Zaffari, que permitiu à Opus operar casas dentro de shoppings, como Teatro Bourbon Country (Porto Alegre), Teatro do Bourbon Shopping São Paulo, Teatro RioMar Recife, Teatro RioMar Fortaleza, Teatro Bradesco (SP), Teatro Opus Frei Caneca (SP). Essa parceria deu acesso a infraestrutura já pronta, público de alta renda e financiamento indireto. Deixou de ser regional e tornou-se nacional.

    A Opus não divulga balanço público, mas com base em ativos operacionais a estimativa conservadora do valor da empresa fica entre R$ 200 milhões e R$ 600 milhões. O faturamento anual estimado fica R$ 20 milhões a R$ 50 milhões por ano, podendo variar conforme número de shows.

    O Muro da Mauá

    A decisão sobre o Muro da Mauá – estrutura de contenção em concreto armado, de 2.647 metros de extensão, localizada entre o Cais Mauá e a Avenida Mauá – impacta diretamente o valor imobiliário do Cais porque mexe em três variáveis centrais de qualquer projeto chamado de waterfront, que visa a requalificação urbana de áreas costeiras ou fluviais: vista, risco e percepção de segurança jurídica.

    A questão do Muro da Mauá virou o ponto mais sensível do projeto após a enchente histórica de maio de 2024 em Porto Alegre. O debate hoje não é mais apenas urbanístico, mas sobretudo hidráulico, climático e político.

    A revitalização do Cais Mauá arrasta-se por décadas e, após 2024, o desafio é ainda maior. Propostas de substituição do muro por estruturas móveis ou sistemas mais altos estão sendo discutidas, mas exigem investimentos elevados. O futuro do cais depende de soluções de engenharia que integrem o patrimônio histórico com a convivência com o Guaíba, sem o isolamento que o muro atual proporciona. 

    Estamos falando de uma área premium na orla de Porto Alegre, às margens do Guaíba. Em projetos desse tipo, a vista para a água pode ser a principal capacidade de gerar fluxo de caixa futuro consistente e crescente, mas o risco de enchente pode anular esse ganho. No entanto, o muro protege o Centro Histórico e mantém a água na área do Cais Mauá, onde ficam os armazéns, áreas de lazer e as futuras nove torres comerciais, expostas ao nível do Guaíba. Em maio de 2024, o nível do Guaíba superou 5,35 metros.

    Construído na década de 1970, o Muro da Mauá faz parte do Sistema de Proteção Contra Cheias de Porto Alegre, operando de forma integrada com 14 comportas, mais de 20 casas de bombas (geralmente citadas entre 19 e 23) e 68 km de diques que se estendem pela cidade, incluindo áreas ao norte próximas à Fiergs, formando um anel de vedação, conforme a Prefeitura.

    Após 2024, derrubar o muro sem substituição técnica robusta virou politicamente inviável. No momento, qualquer intervenção precisa passar por estudo hidráulico detalhado, ser validada por órgãos técnicos estaduais e federais, considerar cenário climático extremo e integrar sistema de bombas e drenagem urbana. A decisão deixou de ser apenas estética. O Pulsa RS precisa equilibrar a viabilidade econômica do projeto, segurança hídrica e aceitação pública.

  • A retomada do projeto Cais Mauá (Parte I)

    A retomada do projeto Cais Mauá (Parte I)

    Entre o final de abril e maio de 2024, expressivos acumulados de chuva deixaram o Centro Histórico de Porto Alegre embaixo d’água e o projeto imobiliário Cais Mauá foi engavetado. Agora, o governo do Estado e o Consórcio Pulsa RS, grupo vencedor do leilão realizado há dois anos, anunciam que o contrato de revitalização do Cais Mauá será retomado.

    O projeto de concessão e requalificação do Cais Mauá é uma das maiores intervenções urbanas planejadas para a área central da cidade. Ele envolve a concessão à iniciativa privada por 30 anos para transformar o antigo porto em um complexo urbano multifuncional, com usos culturais, comerciais, turísticos e principalmente imobiliários. A área total é de cerca de 181 mil m², com extensão de aproximadamente 3,2 km ao longo do Guaíba. Localizado entre a Usina do Gasômetro e o Cais Navegantes, região central e histórica de Porto Alegre.

    O Consórcio Pulsa RS é formado por duas empresas: a Spar Participações e Desenvolvimento Imobiliário, com sede em Porto Alegre, tendo como sócios Aline da Silva Gil Stein e Sérgio Luís Fernando Stein; e a Credlar Empreendimentos Imobiliários Ltda, com sede em Praia Grande (SP). Os sócios são Sergio Fernandes Leal e Carlos Ribeiro Leal.

    A força econômica da Spar e da Credlar é muito desigual. A Credlar Empreendimentos Imobiliários, criada em 2004, é uma empresa média, com atuação consolidada, capital social de R$ 21 milhões, faturamento anual estimado entre R$ 50 milhões e R$ 100 milhões por ano. Mais de 30 empreendimentos entregues, com uma estrutura de cerca de 13 a 16 filiais e Sociedades de Propósito Específico (SPEs) ligadas a projetos imobiliários. Empresa de porte médio no setor imobiliário brasileiro, com atuação principalmente na Baixada Santista e Grande São Paulo.

    Enquanto a Spar Participações e Desenvolvimento Imobiliário, criada em 2013, com sede em Porto Alegre, é uma empresa pequena, com faturamento anual muito baixo, estimado entre R$ 130 mil e R$ 360 mil. Uma boutique imobiliária, não uma grande incorporadora, provavelmente voltada a gestão de ativos, projetos e articulação imobiliária — não construção em grande escala.

    Na prática, isso sugere que a Credlar é o braço financeiro e construtor principal e a Spar é a articuladora local e estruturadora técnica do projeto. Por isso, Sérgio Stein é a liderança do consórcio (arquiteto e diretor-executivo da Spar) na comunicação pública do projeto.

    A composição do consórcio deve ser ampliada com outras empresas parceiras que ainda poderão ser anunciadas dependendo da homologação e da criação da SPE que será responsável pela execução da concessão.

    O dinheiro

    O projeto não é financiado principalmente pela Spar ou Credlar com dinheiro próprio. Ele é financiado por ativos públicos transferidos, crédito bancário público e privado e valorização imobiliária futura. O projeto depende fundamentalmente da valorização imobiliária da área, que corre risco com a possibilidade de acontecer uma nova enchente na área lindeira ao Guaíba.

    O financiamento do Consórcio Pulsa RS  não vem de um único banco específico já anunciado. O principal “financiador indireto” é o próprio Estado, via ativos imobiliários. O governo está financiando parte relevante do projeto transferindo terrenos públicos valorizados, que poderão ser explorados pelo consórcio.

    O consórcio ofereceu uma contraprestação pública de cerca de R$ 144,8 milhões, baseada na transferência dos terrenos das docas.  Esse valor corresponde à avaliação oficial dos terrenos, que serão transferidos ao Consórcio Pulsa RS e poderão ser usados para incorporação imobiliária.

    Em projetos comparáveis no Brasil, terrenos de orla urbana central frequentemente atingem valores implícitos muito maiores após rezoneamento e incorporação. O valor econômico real dos três terrenos, após a transferência condicionada à execução das obras pode ficar entre R$ 225 milhões e R$ 675 milhões, conforme cálculos do mercado. Pode gerar um valor geral de vendas entre R$ 1,5 bilhão a R$ 2,25 bilhões.

    Esses terrenos se tornam o principal ativo econômico do consórcio. Na prática, isso funciona como um “capital inicial”. O consórcio “ganha” terras públicas valiosas e usa esse ativo para gerar receita e obter financiamento.

    No projeto atual do Cais Mauá o número exato e a altura definitiva das torres ainda dependem de licenciamentos municipais, conforme o andamento do Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU) e demais etapas de aprovação. Porém, com base nos estudos apresentados no leilão e nas diretrizes urbanísticas divulgadas, é possível prever até nove torres, localizadas na área mais próxima da Rodoviária e do trecho norte do cais, setor com menor restrição patrimonial.

    Essas torres são classificadas como torres comerciais (principalmente escritórios), hotel e possível corporativo multiuso. As diretrizes indicam torres com aproximadamente 20 a 35 andares.

    O Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) foi contratado pelo governo do Rio Grande do Sul para estruturar o projeto de concessão do Cais Mauá. Atuou como modelador técnico, econômico e jurídico, definindo o formato da concessão, estudos de viabilidade econômico-financeira, matriz de riscos e estimativas de investimento. O banco também pode atuar como financiador parcial das obras.

    O Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) participou diretamente da elaboração e acompanhamento do projeto. Costuma financiar projetos e infraestrutura urbanas. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal também podem atuar como financiadores.

    Os financiadores indiretos são o Governo do RS, via transferência de terrenos, investidores imobiliários futuros e compradores de imóveis. O Consórcio Pulsa RS é responsável por investir cerca de R$ 353,3 milhões, com o detalhe fundamental, ao longo da concessão de 30 anos.

    Esse valor inclui R$ 210 milhões, valor mínimo que o Consórcio Pulsa RS deve investir diretamente na recuperação e implantação do projeto. Envolve a restauração dos armazéns históricos, obras de infraestrutura urbana, requalificação de espaços públicos, adaptação para uso cultural, comercial e turístico e implantação inicial de equipamentos e serviços. Esse é o chamado CAPEX (Capital Expenditure) — investimento em obras e implantação. É um compromisso contratual obrigatório.

    Os R$ 143 milhões adicionais são referentes a OPEX (custos operacionais), como manutenção dos espaços públicos, conservação dos armazéns, operação e gestão da área, serviços urbanos (limpeza, segurança, conservação), reinvestimentos ao longo dos 30 anos.

    À medida que as metas de investimento forem cumpridas, o Estado transfere a propriedade de três terrenos específicos na área ao consórcio. Essa transferência funciona como contraprestação pública e foi o elemento central da proposta vencedora.

    Continua…

     

  • Governo federal libera Usina do Gasômetro para exploração privada

    Governo federal libera Usina do Gasômetro para exploração privada

    A portaria publicada pelo governo federal esta semana autoriza a cessão de uso da Usina do Gasômetro — um imóvel histórico e cultural cuja titularidade é da União — para a Prefeitura de Porto Alegre pelo prazo de 21 anos, com possibilidade de renovação por mais 21 anos, totalizando até 42 anos.

    O prefeito Sebastião Melo (MDB) pode retomar o plano de concessão da Usina do Gasômetro à iniciativa privada, para que explore economicamente toda a área interna da usina, com exceção da chaminé e do entorno do prédio. Isso é possível dentro de um regime de cessão com condições especiais, respeitando a legislação que veda a exploração econômica em imóveis cedidos gratuitamente.

    A finalidade, conforme o documento, é preservar o imóvel como patrimônio histórico e cultural, além de possibilitar sua utilização e exploração segundo critérios legais.  

    A Secretaria do Patrimônio da União (SPU), vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação, condiciona a cessão à realização de reforma da chaminé da Usina do Gasômetro — estimada em mais de R$ 4 milhões — como contrapartida pela prefeitura.

    A portaria determina que o município preserve a Usina como patrimônio histórico e cultural, reativando o espaço em até quatro anos. O imóvel está fechado desde 2017, mesmo com as obras de revitalização finalizadas.

    O objetivo da SPU com essa portaria é formalizar e regularizar a utilização, de forma que se mantenham a preservação, a segurança jurídica e o uso cultural e social do espaço, conciliando isso com atividades de caráter econômico por meio de editais públicos.

    Histórico petista

    A Usina do Gasômetro é parte importante da história do PT na administração de Porto Alegre. Em 1991, Olívio Dutra, primeiro prefeito de Porto Alegre eleito pelo PT, abre a Usina como centro cultural administrado pela Secretaria da Cultura. Muitos eventos do Fórum Social Mundial, criado em 2001 em Porto Alegre, que envolveu movimentos sociais e sociedade civil, foram realizados nas suas dependências.

    Com as administrações petistas o local passa a abrigar exposições, espetáculos, oficinas e outras manifestações artísticas. Valoriza-se a chaminé de 117 metros de altura, um símbolo icônico da cidade, situado às margens do Lago Guaíba. Um ponto turístico importante, especialmente por seu famoso pôr do sol.

    Privatização branca?

    Com esse histórico, naturalmente surgiram várias críticas à portaria do governo federal. Embora a propriedade siga sendo da União, uma cessão tão longa se aproxima, na prática, de uma transferência definitiva. Críticos argumentam que isso esvazia o controle público federal sobre um bem simbólico nacional.

    A possibilidade de renovação automática por mais 21 anos tende a gerar disputas. Quem avalia o cumprimento das obrigações? Quais critérios objetivos justificam a renovação? Sem métricas claras, o processo vira político, não técnico.

    A cessão de 21 anos, prorrogados por mais 21, pode provocar uma fragilidade do controle ao longo do tempo. Governos municipais mudam, assim como as prioridades. A União tem poucos instrumentos ágeis para intervir rapidamente se o uso cultural for descaracterizado — geralmente só atua quando o problema já está consolidado.

    A autorização para exploração econômica é central para a viabilidade financeira, mas pode deslocar o foco da cultura para eventos rentáveis, reduzir espaço para produções experimentais, comunitárias ou gratuitas. O risco é a Usina virar espaço de eventos premium com verniz cultural.

    Programação cara, ingressos elevados ou concessões elitizadas podem afastar públicos populares, romper o vínculo histórico da Usina com a cidade. Isso pode gerar desgaste político e contestação social.

    Eventos fechados, cercamentos temporários frequentes e restrições de acesso podem transformar um símbolo público em quase-clube privado. Esse é um ponto sensível em Porto Alegre, dada a centralidade da Usina na paisagem da orla.

  • Corrida ao ouro pelos bancos centrais atinge o dólar

    Corrida ao ouro pelos bancos centrais atinge o dólar

    O ouro subiu aproximadamente 64% a 66% em 2025, fechando o ano cotado acima de US$ 4.500 por onça-troy, marcando um dos seus melhores desempenhos em décadas. Em janeiro superou a marca de US$ 5 mil por onça-troy, renovando suas máximas históricas, com o aumento das tensões geopolíticas impulsionando a demanda por ativos seguros.

    Sem alarde, o Brasil vem reduzindo gradualmente sua exposição a títulos norte-americanos (US Treasuries) e aumentando a proporção de ouro nas reservas internacionais.  Comprou 42,8 toneladas de ouro físico entre setembro e novembro de 2025.  O volume de ouro passou de 129,6 t para 172,4 t no período. Em valor, essa parcela subiu de cerca de US$ 11,7 bilhões para US$ 23,3 bilhões.

    A participação do ouro nas reservas totais brasileiras passou de 3,6% para 6,5%. Isso indica um movimento claro de diversificação, aumentando o peso do ouro dentro das reservas e diminuição da parcela de títulos estadunidenses, embora essas movimentações possam refletir mercado secundário e ajustes gerais de reservas, e não um swap direto por ouro divulgado oficialmente.

    Esse movimento está alinhado com uma tendência global de diversificação de reservas observada em vários bancos centrais, que têm aumentado posições em ouro diante de incertezas econômicas e geopolíticas. Em 2025, muitos bancos centrais compraram ouro como parte dessa estratégia, reduzindo gradualmente a dependência de dólar e de títulos públicos dos Estados Unidos (EUA).

    Como surge o poder do dólar

    A Conferência de Bretton Woods, realizada em julho de 1944 nos EUA, reuniu 44 nações para estruturar a economia mundial pós-Segunda Guerra. O encontro estabeleceu o dólar estadunidense como moeda de reserva global atrelada ao ouro.

     Na década de 1960, o sistema de Bretton Woods ainda estava em vigor. O dólar era lastreado em ouro e as outras moedas eram lastreadas no dólar. Os EUA financiavam seus déficits comerciais e gastos militares (como os da Guerra do Vietnã) emitindo dólares e, crucialmente, títulos do Tesouro norte-americano. Como os outros países precisavam de dólares para reservas, eles compravam esses títulos, financiando a dívida americana a taxas de juros baixas.

    Em 1971, os EUA abandonam a indexação do dólar ao ouro, pondo assim fim ao acordo de Bretton Woods. Surgia uma nova moeda totalmente fiduciária, sem lastros no ouro e com a possibilidade de emissão via decreto. A moeda fiduciária sem lastro é apenas baseada na confiança do mercado.

     Em 1974, o governo norte-americano conseguiu orientar o comércio de petróleo para dólares, começando com a Arábia Saudita e logo depois estendendo-se a todos os integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Assim, surge o petrodólar.

     O Consenso de Washington aprofundou a globalização liderada pelos EUA ao longo da década de 1990, integrando mercados emergentes ao sistema financeiro internacional centrado no dólar. As reformas foram para aumentar a demanda global por dólares, expandir seu uso em transações privadas e reservas oficiais e principalmente reforçar a capacidade dos EUA de financiar seus déficits com moeda própria.

     Como principal moeda de reserva e de troca internacional, a demanda constante por dólares permite que os EUA emitam dívida (títulos do Tesouro) e moeda para pagar importações e déficits sem risco imediato de insolvência, ao contrário de outras nações. Dessa forma, a dívida pública dos EUA foi aumentando e atingiu um recorde histórico, ultrapassando US$ 38 trilhões em outubro de 2025. 

    Para se ter uma ideia do que isso representa, a dívida pública bruta que o Brasil paga os juros religiosamente encerrou 2025 em aproximadamente R$ 8,6 trilhões, o que representa cerca de 83,6% do Produto Interno Bruto (PIB). 

    Tendo consolidado tão grande poder sobre o sistema financeiro global, os EUA puderam utilizar o dólar como uma arma geopolítica aberta, com sanções para impor sua vontade a outros países, tanto direta quanto indiretamente. Isso foi feito por meio de ações ou ameaças de cortar à vontade indivíduos, entidades e até países visados. Essas medidas foram genuinamente eficazes, porque estar na lista de bloqueio do dólar estadunidense significa perder negócios de compra e venda em praticamente todo o Ocidente e não apenas no mercado norte-americano.  

    Mundo multipolar em expansão

    Em 2022 ocorre uma reação à campanha de sanções sem precedentes liderada pelos EUA contra Moscou devido ao conflito na Ucrânia, que forçou a Rússia e outros membros do Brics a buscar formas alternativas de comércio.

    Nos primeiros dias de 2024, o Irã e a Rússia saíram oficialmente do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, em inglês) do Ocidente para um mecanismo de transferências interbancárias diretas. Em agosto de 2024, o primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin informava que mais de 95% dos acordos mútuos entre a Rússia e seu maior parceiro comercial, a China, já eram realizados usando o rublo ou o yuan.

    Com a multipolaridade crescente na última década, os países integrantes do Brics – formado por 11 membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã –  passaram a estimular o uso de suas moedas nacionais em transações internas, visando reduzir a dependência do dólar e aumentar a autonomia financeira. A Arábia Saudita tem explorado ativamente a possibilidade de vender parte do seu petróleo à China em iuanes, em vez de usar estritamente o dólar estadunidense. 

    A iniciativa de desdolarização é um passo concreto para proteger os países do bloco contra sanções unilaterais dos EUA e garantir maior autonomia monetária e financeira, especialmente relevante no contexto atual de constantes ameaças protecionistas. O castelo de cartas do dólar começa vagarosamente a desmoronar. 

    No final de 2024, os países integrantes do bloco econômico Brics estavam usando moedas nacionais em 65% dos acordos comerciais mútuos e o percentual continua aumentando. Em um discurso na cúpula do Brics em Kazan, outubro de 2024, o presidente russo Vladimir Putin alertou que o uso político do dólar por Washington por meio de sanções e negação de acesso dos países ao sistema financeiro ocidental foi um “grande erro” que os forçará “a procurar outras alternativas, que é o que está acontecendo”.

    A participação do dólar estadunidense nas reservas cambiais globais caiu para o menor nível em três décadas no segundo trimestre de 2025, informou o Fundo Monetário Internacional (FMI).  A participação das reservas em dólares americanos diminuiu para 56,92% no terceiro trimestre de 2025, em comparação com 57,08% no segundo trimestre de 2025.  É a menor proporção desde 1995.

    Com menos reservas em dólar, os bancos centrais compram menos títulos públicos norte-americanos e o Tesouro precisa oferecer juros maiores. Assim, o custo da dívida pública sobe e juros altos provocam pressão fiscal e recessão.

    O poder das sanções dos EUA depende do dólar. O custo político de sancionar aumenta, e a dissuasão diminui. Menor centralidade do dólar implica em menos liquidez global em Wall Street, menor vantagem competitiva dos bancos estadunidenses e mais concorrência financeira (Xangai, Dubai, Singapura). Com mais países usando moedas locais e sistemas alternativos e acordos bilaterais.