Autor: Sérgio Lagranha

  • Brasil vai emitir títulos públicos em moeda chinesa

    Brasil vai emitir títulos públicos em moeda chinesa

    Durante a 4ª reunião do Grupo de Trabalho de Cooperação Estratégica Financeira China–Brasil, realizada na terça-feira, 9, em Pequim, o presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, e do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, oficializaram as discussões sobre o incentivo à emissão de Panda Bonds pelo Brasil, a facilitação de contas em moedas locais e a ampliação do uso de acordos de swap cambial.

    Na plataforma X, o Consulado-Geral da China no Rio de Janeiro deu boas-vindas à emissão de Panda Bonds — títulos de dívida soberana emitidos pelo governo brasileiro no mercado chinês. “Esperamos que mais empresas brasileiras de alta qualidade também participem dessas emissões, ampliando os canais de financiamento e a conexão entre os dois mercados.”

    O governo brasileiro planeja anunciar ainda neste mês uma captação de recursos no mercado financeiro da China por meio da emissão de títulos públicos em yuan, a moeda chinesa, conforme informação divulgada pela agência Reuters. O secretário-executivo do ministério da Fazenda, Dario Durigan, irá liderar uma delegação à China no final de junho, quando deverá ser anunciada a primeira emissão soberana de títulos do governo denominados em yuan.

    O objetivo é ampliar os canais de financiamento, reduzir a dependência do dólar e acessar novos investidores na China. No ano passado, o Brasil já foi o principal destino dos investimentos chineses no mundo, recebendo US$ 6,1 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões) em novos projetos e negócios, segundo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

    Até o momento, não foram anunciados o valor da emissão, prazo dos títulos, taxa de juros, cronograma de colocação e quais bancos coordenarão a operação.  Esses detalhes deverão surgir durante ou após a visita oficial à China.

     Os Panda Bonds são títulos de dívida emitidos por governos ou empresas estrangeiras no mercado financeiro doméstico chinês e denominados em yuan (renminbi). Em vez de captar recursos em dólares, o emissor toma empréstimos diretamente junto a investidores chineses na moeda chinesa.

    A emissão faz parte de uma estratégia mais ampla do Tesouro Nacional brasileiro de diversificação das fontes de financiamento externo. O governo já realizou, em abril de 2026, sua primeira emissão de títulos em euros desde 2014, captando € 5 bilhões. Agora busca ampliar essa diversificação para o yuan.

    O movimento tem mais importância estratégica do que financeira imediata porque sinaliza uma inserção do Brasil em uma arquitetura financeira mais multipolar, na qual dólar, euro e yuan coexistem como fontes de captação, além de criar uma referência para futuras emissões de empresas brasileiras em yuan.

    O mercado de títulos Panda expandiu-se consideravelmente nos últimos anos, à medida que a China promove maior uso de sua moeda nas finanças globais. A entrada planejada do Brasil o posiciona como o primeiro grande país soberano da América Latina a explorar esse mercado. Outros países, incluindo vários na Europa e na Ásia, já testaram o terreno.

    Um aspecto particularmente interessante é que essa emissão ocorre ao mesmo tempo em que Brasil e China discutem ampliação de investimentos em minerais críticos, infraestrutura verde, mercado de carbono e mecanismos de financiamento sustentável, temas que estarão na agenda da comitiva de Durigan em Pequim e Xangai.

    Reservas brasileiras

    No contexto da emissão dos futuros Panda Bonds, um estoque de reservas acima de US$ 370 bilhões dá ao Brasil uma posição relativamente confortável para diversificar suas fontes de financiamento sem comprometer sua segurança externa.

    O que os dados mais recentes mostram é que o Brasil vem promovendo uma diversificação gradual das reservas, mas não um abandono dos ativos estadunidenses. O Banco Central informou no Relatório de Gestão das Reservas Internacionais de março de 2026 que 72% das reservas internacionais brasileiras estavam aplicadas em ativos denominados em dólar ao final de 2025, o menor percentual da série recente do BC.  Ao mesmo tempo, o ouro ganhou espaço e passou a representar 7,19% das reservas, tornando-se o segundo maior ativo na carteira.

    Sem alarde, o Brasil vem reduzindo gradualmente sua exposição a títulos do governo norte-americano (US Treasuries) e aumentando a proporção de ouro nas reservas internacionais. O volume de ouro passou de 129,6 para 172,4 toneladas, após o Banco Central adquirir cerca de 42,8 toneladas entre setembro e novembro de 2025, elevando suas reservas e consolidando o país na liderança do ranking na América Latina. Em valor, essa parcela subiu de cerca de US$ 11,7 bilhões para US$ 23,3 bilhões.

    Esse movimento está alinhado com uma tendência global de diversificação de reservas observada em vários bancos centrais, que têm aumentado posições em ouro diante de incertezas econômicas e geopolíticas. Em 2025, muitos bancos centrais compraram ouro como parte dessa estratégia, reduzindo gradualmente a dependência de dólar e de títulos públicos dos Estados Unidos (EUA).

    Os dados do sistema TIC (Treasury International Capital) do Departamento do Tesouro dos EUA mostram que o Brasil ainda continua entre os grandes detentores estrangeiros de títulos de dívida pública emitidos pelo governo dos Estados Unidos, embora sua posição tenha diminuído nos últimos anos em relação aos picos observados anteriormente.

    Essa estrutura foi criada no final da Segunda Guerra Mundial, com os títulos do Tesouro dos EUA sendo usados pelos bancos centrais da maioria dos países como seu principal ativo de reserva. Atualmente, o mercado desses títulos, avaliado em US$ 30 trilhões, é o maior do mundo.

    No entanto, já existe um movimento nos últimos 25 anos de diversificação das reservas internacionais. O dólar estadunidense representava cerca de 72% das reservas mundiais de todos os bancos centrais do mundo, em 2001, medida normalmente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), base COFER, e caiu para cerca de 56%, em 2025, o nível mais baixo em 30 anos. Pela primeira vez, desde 1996, o valor do ouro nas reservas dos bancos centrais superou o dos Treasuries.

    Isso mostra uma menor dependência do dólar, mas não o fim dele. O que os números deixam claro é que apesar do yuan chinês ainda ser limitado e o ouro não funcionar bem para pagamentos cotidianos, o mundo caminha resoluto para um sistema multipolar.

  • Trump relança agenda tarifária e inclui Pix em disputa comercial

    Trump relança agenda tarifária e inclui Pix em disputa comercial

    A investigação do escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) propôs uma nova rodada de tarifas abrangentes sobre importações de mais de 60 economias, incluindo Brasil, China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e a União Europeia. O principal objetivo é reconstruir a agenda tarifária do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, em bases legais mais sólidas, após a Suprema Corte ter derrubado suas medidas anteriores de emergência em fevereiro passado. Para atingir esse objetivo, a nova proposta utiliza a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um instrumento juridicamente mais robusto e que já foi usado no passado para impor tarifas à China.

    A proposta diferencia países que já adotaram algumas medidas de combate ao trabalho forçado daqueles considerados menos alinhados. Alguns receberiam tarifas menores (10%) e outros maiores (12,5%). Isso cria incentivos para que governos adaptem suas legislações aos padrões exigidos por Washington.

    Para o Brasil, a questão tem um componente adicional. Além de estar entre os países sujeitos à investigação sobre trabalho forçado, o governo Trump abriu outras frentes de disputa comercial envolvendo o comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais desleais, aplicação de medidas anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

    O Pix não faz parte diretamente da investigação sobre trabalho infantil ou trabalho forçado. Porém, ele aparece em uma frente paralela das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, relacionada a serviços financeiros, meios de pagamento e economia digital. Do ponto de vista dos EUA — especialmente de setores ligados a grandes empresas estadunidenses de pagamentos — o Pix representa algo muito maior do que um simples sistema de transferências instantâneas.

    O Pix, desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, tornou-se um dos sistemas de pagamentos instantâneos mais bem-sucedidos do mundo. Ele é gratuito e reduz significativamente a dependência de cartões de crédito e débito, TEDs e DOCs, que são intermediários financeiros privados. Isso afetou modelos de negócio de poderosas empresas internacionais como Visa, Mastercard e outras operadoras que tradicionalmente obtêm receitas com taxas de transação.

    E há uma dimensão geopolítica ainda maior, porque o Brasil participa dos Brics, que discutem há anos integração financeira, pagamentos transfronteiriços,redução de custos de liquidação internacional e menor dependência do dólar em algumas operações. O Pix, por si só, não ameaça a posição do dólar, mas se no futuro sistemas semelhantes forem conectados entre países dos Brics ou outras economias emergentes, eles poderiam reduzir parte da dependência das infraestruturas financeiras dominadas pelos EUA.

    A Visa e a Mastercard não divulgam seus faturamentos isolados para o mercado brasileiro. Em 2025, o setor de cartões movimentou R$ 4,5 trilhões no Brasil. Globalmente, a Visa registrou receita de aproximadamente US$ 40 bilhões, enquanto a Mastercard reportou receita líquida de cerca de US$ 32,8 bilhões.  O controle das duas companhias está nas mãos dos fundos de investimentos Vanguard e BlackRock.

    Busca de soluções

    A assessoria de imprensa do USTR divulgou que o Representante Comercial dos EUA, embaixador Jamieson Greer, propôs medidas corretivas para consulta pública, enquanto os Estados Unidos continuam a dialogar intensamente com o Brasil em busca de soluções para as preocupações estadunidenses. “Iniciei esta investigação ao abrigo da Secção 301 a pedido do presidente Trump para abordar preocupações antigas e generalizadas dos EUA relativamente a certas políticas e práticas comerciais do Brasil. Ao longo do último ano, o presidente Trump e eu tivemos várias reuniões construtivas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu gabinete, que se intensificaram nas últimas semanas”, afirmou Greer. “Contudo, continuamos a ter divergências substanciais na resolução das questões identificadas nesta investigação. Aguardo com expectativa a continuação do diálogo com o Governo brasileiro, antes do prazo legal de 15 de julho de 2026 para a tomada de medidas corretivas.”

    A agência de comércio solicitou comentários sobre as tarifas propostas, que ainda não estão em vigor, até 1º de julho, com uma audiência pública marcada para 6 de julho. O USTR tem até 15 de julho para tomar “medidas de resposta” no âmbito da investigação da Seção 301.

    A proposta do USTR ainda está em fase de consulta pública, mas já representa uma nova frente da política comercial do governo Trump. Os primeiros afetados seriam os próprios importadores dos EUA. Empresas estadunidenses que compram produtos brasileiros, chineses e de outros países passariam a pagar tarifas adicionais na entrada das mercadorias. Parte desse custo seria absorvida pelas empresas, reduzindo margens de lucro. Outra parte seria repassada aos consumidores, elevando preços finais.

    Reorganização do comércio mundial

    Do ponto de vista geopolítico, a nova investigação do escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos faz parte de uma estratégia mais ampla do governo norte-americano para reorganizar o comércio mundial em torno de seus interesses econômicos e estratégicos.

    Além de reconstruir a política tarifária após derrotas judiciais, outro objetivo é pressionar a reorganização das cadeias globais de suprimentos. Trump costuma usar tarifas como instrumento de negociação. Ao ameaçar parceiros comerciais importantes, inclusive aliados, ele aumenta sua capacidade de exigir concessões em temas diversos.

    Obviamente também a intenção é conter a influência econômica da China. Embora a medida atinja dezenas de países, a China continua sendo o alvo principal da estratégia comercial do governo Trump. O objetivo é dificultar que empresas chinesas utilizem outros países para acessar o mercado estadunidense.

    Falta legitimidade

    O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, disse na quinta-feira (4) ter demonstrado às autoridades norte-americanas que os argumentos apresentados pelos Estados Unidos para impor tarifas sobre produtos brasileiros “não são legítimos”.

    Vieira confirmou ter se reunido com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, em meio a um encontro ministerial da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris.  O chanceler brasileiro informou ter enfatizado que os resultados de duas investigações do governo dos EUA sobre supostas práticas comerciais desleais foram divulgados antes do prazo acordado pelos presidentes dos dois países, em encontro bilateral realizado em maio.

    “Demos todas as informações necessárias. O que nós esperamos é que isso tudo seja levado em conta e que fique comprovado que não há por que sermos objeto de tarifas, porque todos os argumentos apresentados nós provamos que não são legítimos”, afirmou Vieira.  

    Com Agência Brasil, Agência Reuters, AP News e The Guardian

  • Comemoração do Dia da Indústria esquece lições de Roberto Simonsen

    Comemoração do Dia da Indústria esquece lições de Roberto Simonsen

    O Dia da Indústria, celebrado em 25 de maio no Brasil, é uma homenagem a Roberto Simonsen, considerado o patrono da indústria nacional. A data foi escolhida porque Simonsen faleceu em 25 de maio de 1948. Empresário, engenheiro, historiador, professor e político, ele teve papel central na defesa da industrialização brasileira e na criação de instituições fundamentais do setor industrial. Presidiu a Confederação Nacional da Indústria e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

     Além de industrial, Simonsen foi um dos principais formuladores do pensamento econômico desenvolvimentista brasileiro, defendendo a industrialização como caminho para modernização, geração de empregos e fortalecimento da soberania nacional. Seu livro “História Econômica do Brasil” tornou-se um clássico.

    Simonsen foi um dos industriais paulistas que apoiaram Getúlio Vargas após Revolução de 1930 porque via no modelo oligárquico da República Velha — dominado pela política do “café com leite” — um limite ao desenvolvimento nacional. Parte importante da elite cafeeira paulista defendia a volta do poder político concentrado nas oligarquias exportadoras, enquanto Simonsen defendia um Estado forte, industrialização e diversificação econômica. Isso ajudou a aproximar industriais emergentes do projeto varguista.

    O que ocorreu nas décadas seguintes foi uma grande transformação estrutural da economia brasileira. Entre 1930 e os anos 1980, o Brasil implantou a siderurgia, petroquímica, engenharia pesada, indústria de bens de capital e empresas estatais estratégicas.  Nesse período, a participação da indústria de transformação chegou perto de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro nos anos 1980. O país deixou de ser essencialmente agroexportador.

    O Rio Grande do Sul chegou a ter uma participação industrial proporcionalmente maior do que a média brasileira. Em determinados períodos, especialmente entre os anos 1970 e 1980, a indústria representava algo próximo ou acima de 30% da economia gaúcha, geralmente usando a metodologia “Indústria total”, que inclui indústria de transformação, construção civil, eletricidade e gás, água e saneamento e indústria extrativa (mineração e petróleo).

    O estado gaúcho foi um dos estados mais industrializados do Brasil fora de São Paulo, com forte presença nos setores metalmecânico, calçados, máquinas agrícolas, alimentos processados, petroquímica, móveis e implementos industriais. Período da Industrialização por Substituição de Importações (ISI)

    Hoje, os dados oficiais mostram uma redução importante. A indústria representa atualmente cerca de 21,3% do PIB brasileiro. Só a indústria de transformação, cerca de 10,8% do PIB, respondendo por praticamente metade de toda a atividade industrial do País.

    Consenso de Washington

    Para entender a desindustrialização do Brasil é preciso voltar ao Sistema de Bretton Woods, concebido pelos Estados Unidos (EUA) no final da Segunda Guerra Mundial para estabilizar as transações financeiras globais e defender seus interesses. Os dois pilares principais foram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). No início dos anos 1970, o Sistema entra em crise quando os EUA tiveram que abandonar a taxa de câmbio fixa lastreada em ouro, mas tanto o FMI quanto o BIRD não apenas sobreviveram como também se tornaram ainda mais influentes e universais no final do século XX.

    As duas instituições forjaram o chamado “Consenso de Washington” – uma lista de princípios fundamentalistas de mercado (liberalização do comércio e das finanças, privatização radical, medidas agressivas contra a inflação, arrocho salarial e os déficits orçamentários), que provocou uma brutal concentração de renda no mundo. Tornou-se um dos motores da globalização na virada do século.

    A partir do final dos anos 1980 e principalmente nos anos 1990, o Brasil seguiu essa receita, com a implantação do neoliberalismo e vários fatores mudaram o cenário econômico. A principal característica do governo do presidente Fernando Collor de Mello (1990/92) foi a ruptura rápida com o modelo nacional-desenvolvimentista que o Brasil havia seguido desde Getúlio Vargas.

    Produtos estrangeiros passaram a entrar no Brasil com preços muito menores, como automóveis, eletrônicos, máquinas, computadores e bens de consumo. Isso encerrou a chamada “reserva de mercado” provocando um abalo pesado na indústria brasileira.

    Já o presidente Fernando Henrique Cardoso (1995/ 2002) aprofundou e consolidou a abertura econômica iniciada por Fernando Collor. Um dos traços mais marcantes foram as privatizações de grandes estatais federais, especialmente em telecomunicações, siderurgia, mineração, energia e ferrovias. Os casos mais emblemáticos foram as privatizações da Companhia Vale do Rio Doce e do sistema Telebras. A indústria brasileira continuou descendo a ladeira.

    Entre os governos do interino Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019–2022), a Operação Lava Jato, que deveria investigar a corrupção, conduzida por uma força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) em conjunto com a Polícia Federal (PF), acabou provocando efeitos desastrosos a Petrobras e atingiu diretamente as maiores construtoras e empresas de engenharia que executavam obras da estatal, as indústrias de construção pesada. O setor de engenharia brasileiro perdeu capacidade global. Antes da Lava Jato, as empresas brasileiras executavam obras em mais de 30 países.

    No Rio Grande do Sul, o Polo Naval na cidade de Rio Grande naufragou após o golpe parlamentar que derrubou a presidenta Dilma Rousseff (PT) e possibilitou a ascensão de Michel Temer (MDB) à presidência da República e após a eleição de Jair Bolsonaro, deixando literalmente a ver navios milhares de trabalhadores, que vieram de todo o Brasil. 

    Antes do esvaziamento da indústria naval, o Polo Naval de Rio Grande possuía uma carteira que previa investimentos diretos superiores a US$ 5 bilhões focados na infraestrutura dos estaleiros e nos programas de renovação de frotas voltados à exploração do pré-sal, que foram drasticamente cortados após as mudanças de governo. Sem a recuperação desses fatos históricos não é possível entender a desindustrialização do Brasil.

    Educação para não repetir erros

    O Sistema Fiergs promoveu, na segunda-feira (25), uma edição especial do INDX – um encontro dos industriais com quem impulsiona o desenvolvimento – em comemoração ao Dia da Indústria. Ao lado dos presidentes do Conselho de Administração da Gerdau, Jorge Gerdau, e emérito do Grupo RBS, Jayme Sirotsky, o presidente do Sistema Fiergs, Claudio Bier, destacou a importância da educação para o desenvolvimento do setor produtivo, o programa HOB – Hands-on Bot. Claro que a educação é fundamental, mas desperdiçaram uma oportunidade de debater também as razões da desindustrialização do País.

    A educação é a principal ferramenta que a humanidade possui para não repetir os erros históricos, promover o pensamento crítico e construir uma sociedade mais justa e inovadora. Por que o verdadeiro debate não acontece? Porque envolve conflito ideológico entre a proteção industrial e a liberalização econômica, financeirização, estado mínimo, etc.. É praticamente a continuação moderna do antigo debate entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin sobre o modelo de desenvolvimento brasileiro. 

  • Xi Jinping e Putin promovem uma ordem mundial multipolar

    Xi Jinping e Putin promovem uma ordem mundial multipolar

    O encontro do presidente chinês, Xi Jinping, com o presidente russo, Vladimir Putin, no Grande Salão do Povo, em Pequim, na quarta-feira, 20, uma semana depois da visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou claro diferenças expressivas nos resultados de ambas as reuniões.

    Enquanto Trump saiu de mãos abanando, sem nenhum acordo comercial oficial anunciado durante a cúpula, Xi e Putin afirmaram que o atual cenário geopolítico demonstra que o poder global deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados Unidos, como ocorreu após o fim da União Soviética em 1991, passando a se distribuir entre diferentes blocos regionais, nos quais China e Rússia desempenham papéis centrais.

    Xi Jinping propõe que a China e a Rússia busquem uma coordenação internacional de maior qualidade e trabalhem juntas para reformar e aprimorar a governança global.  Os dois lados devem reforçar ainda mais a coordenação e a cooperação em estruturas como a Organização das Nações Unidas (ONU). Atualmente, o aumento da competição entre Estados Unidos, China e Rússia impede consensos, especialmente no Conselho de Segurança. Quando essas potências entram em conflito, qualquer decisão relevante é bloqueada por vetos.

    Xi destacou esforços conjuntos para salvaguardar firmemente a ordem internacional do pós-guerra e a autoridade do direito internacional, unir o Sul Global e orientar a reforma do sistema de governança global na direção certa.

    Ao destacar que a cooperação entre Rússia e China é um fator de estabilidade em um cenário internacional instável, Putin afirmou que a Rússia seguirá ampliando a coordenação multilateral com a China e apoiará a realização da Reunião de Líderes Econômicos da APEC (em inglês, Asia-Pacific Economic Cooperation). O próximo encontro, a 33ª Cúpula, está previsto para os dias 18 e 19 de novembro de 2026, em Shenzhen, na China, que ocupa a presidência rotativa do bloco neste ano.

    Putin também falou em elevar conjuntamente o status e a influência da Organização de Cooperação de Xangai, fortalecer a unidade e a coordenação dentro do mecanismo Brics, defender a autoridade da ONU, promover a diversidade das civilizações e impulsionar uma ordem internacional mais justa e equitativa.

    Este ano marca o 30º aniversário do estabelecimento da parceria estratégica de coordenação China-Rússia e o 25º aniversário da assinatura do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável China-Rússia. “Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e importantes e grandes países do mundo, China e Rússia devem adotar uma perspectiva estratégica e de longo prazo, impulsionar o desenvolvimento e a revitalização de nossos respectivos países por meio de uma coordenação estratégica abrangente de qualidade ainda mais elevada e trabalhar para tornar o sistema de governança global mais justo e equitativo”, disse Xi.

    É importante entender, como afirma Ladislav Zemánek, pesquisador não residente do Instituto China-CEE, em seu artigo “Eis como Putin e Xi podem salvar o Ocidente de si mesmo”, a parceria Rússia-China não é uma cruzada contra o Ocidente. “É uma revolta contra a unipolaridade – contra a ideia de que uma civilização, uma ideologia e um modelo político devam dominar o planeta indefinidamente. Moscou e Pequim não estão tentando destruir o sistema internacional. Estão construindo alternativas a uma ordem monopolizada por décadas pelo poder liberal ocidental.”

    Rublos e yuans

    A Rússia e a China já atacaram um ponto fundamental para o fortalecimento do mundo multipolar e praticamente eliminaram as moedas ocidentais do comércio bilateral, com quase todas as transações agora realizadas em rublos e yuans. Moscou afirma que a transição reduziu a dependência da infraestrutura financeira “pouco amigável” baseada em dólares e euros, tornando o comércio entre os dois países mais resistente à pressão externa e às sanções.

    A campanha de sanções sem precedentes liderada pelos EUA contra Moscou devido ao conflito na Ucrânia forçou a Rússia e outros membros do Brics a buscar formas alternativas de comércio. Os principais bancos da Rússia foram banidos completamente do sistema de pagamento internacional SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), em 2022, como parte das restrições. O sistema SWIFT é uma rede global de comunicação financeira que facilita transações internacionais entre bancos, sob controle dos Estados Unidos.

    Esse movimento está alinhado com uma tendência global de diversificação lenta, mas irreversível, das reservas de vários bancos centrais, que têm aumentado posições em ouro diante de incertezas econômicas e geopolíticas. Em 2025, muitos bancos centrais compraram ouro como parte dessa estratégia, reduzindo gradualmente a dependência de dólar e de títulos públicos dos Estados Unidos.

    Projetos bilaterais

    Durante a visita de Putin, China e Rússia emitiram uma declaração conjunta sobre a preconização de um mundo multipolar e de novo tipo de relações internacionais. As duas partes também firmaram 20 acordos de cooperação em diversas áreas. Ambos os governos afirmam que sua crescente rede de projetos bilaterais e cooperação multilateral visa proteger suas economias da pressão externa e promover uma ordem mundial   mais “multipolar”.

    Apesar das restrições ocidentais, a China expandiu o comércio de energia com a Rússia, tornando-se a principal compradora de petróleo russo. Moscou agora está entre os principais fornecedores de petróleo bruto, gás natural canalizado, GNL e carvão para Pequim.

    Moscou e Pequim estão expandindo a cooperação nos setores de manufatura e alta tecnologia, incluindo aviação, energia nuclear, economia digital e projetos conjuntos de inovação. Um acordo recentemente atualizado sobre a promoção e proteção mútua de investimentos também fortaleceu o arcabouço legal para a cooperação de longo prazo.

    Segundo o Fundo Russo de Investimento Direto, mais de 90 projetos conjuntos, avaliados em cerca de 18 trilhões de rublos (US$ 253 bilhões), estão sendo implementados atualmente pela comissão bilateral de investimentos em diversos setores, incluindo infraestrutura, energia e logística.

    Além do comércio e da indústria, Moscou e Pequim estão expandindo a cooperação em turismo, educação e desenvolvimento regional. Xi e Putin inauguraram o programa “Anos da Educação China-Rússia”, um acordo para intensificar a cooperação educacional bilateral. As iniciativas incluem o intercâmbio de estudantes, a formação conjunta de talentos em ciências de ponta e tecnologia, e a criação do Instituto de Estudos de Inovação.

    Acordos de isenção de visto e novas rotas aéreas impulsionaram o turismo e as viagens de negócios, enquanto universidades e autoridades regionais continuam a aprofundar iniciativas conjuntas de pesquisa, investimento e negócios transfronteiriços.

    Com agências de notícias RT, Global Times e Xinhua 

  • Cúpula que pode redefinir comércio, tecnologia e poder

    Cúpula que pode redefinir comércio, tecnologia e poder

    O presidente dos Estados Unidos (EUA) Donald Trump deixou a China nesta sexta-feira, 15, após uma cúpula entre as duas maiores potências mundiais acompanhada com muita atenção pelo mundo todo, afirmando que “acordos comerciais fantásticos” foram fechados. No entanto, nenhum acordo comercial oficial foi anunciado durante a cúpula.

    O discurso do presidente chinês Xi Jinping seguiu outro caminho, destacando “que estabilidade estratégica construtiva” significa estabilidade positiva com a cooperação como pilar, estabilidade saudável com competição dentro de limites adequados, estabilidade constante com diferenças administráveis ​​e estabilidade duradoura com paz previsível.

    No Grande Salão do Povo, Xi Jinping levantou três questões fundamentais sobre as relações China-EUA: “Podem a China e os EUA superar a Armadilha de Tucídides — que se refere ao alto risco de conflito quando uma potência emergente ameaça uma potência estabelecida — e criar um paradigma para as relações entre grandes potências? Podemos enfrentar juntos os desafios globais e proporcionar maior estabilidade ao mundo? Podemos construir juntos um futuro brilhante para as nossas relações bilaterais, no interesse do bem-estar dos dois povos e do futuro da humanidade? Estas são as questões vitais para a história, para o mundo e para os povos”, disse Xi. 

     O professor da Escola de Relações Internacionais da Universidade Renmin, da China, especialista em assuntos americanos, Jin Canrong, fez uma análise lúcida ao site de notícias chinês Guancha: “Desde o ano passado, as relações sino-estadunidense sofreram mudanças — o pensamento da China mudou e ela começou a ‘tomar medidas’. Especificamente, estamos ‘confrontando’ os Estados Unidos em quatro áreas: tarifas, indústria, tecnologia e militar.”

    Segundo ele, a visita de Trump ocorreu em um contexto de intensa competição estratégica entre a China e os EUA, que passou de uma disputa defensiva estratégica para um impasse estratégico. “Portanto, uma característica marcante dessa visita foi a relativa igualdade entre os dois países. Anteriormente, os EUA sempre adotavam uma postura condescendente; desta vez, a situação é diferente, pois a China ganhou poder e está disposta a usá-lo. É justamente por causa dessa base de igualdade que já vimos resultados neste ano.”

    O presidente Xi Jinping, conforme Canrong, propôs um conceito muito bom, com o objetivo de definir o novo posicionamento das relações China-EUA como uma relação estratégica construtiva e estável. “O presidente Trump também concordou com essa formulação. Podemos afirmar isso agora porque a realidade é essa: temos a força e ousamos usá-la. As relações China-EUA entraram, portanto, em um período de relativo equilíbrio.”

    Essa nova realidade ficou muito clara quando ao se reunir com Trump na quinta-feira, 14, em Pequim, Xi disse que salvaguardar a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan é o maior denominador comum entre a China e os EUA.  Observando que a questão de Taiwan é o assunto mais importante nas relações China-EUA, Xi disse a Trump que, se for tratada adequadamente, a relação bilateral alcançará estabilidade geral.

     Caso contrário, os dois países terão confrontos e até conflitos, colocando toda a relação em grande risco, disse Xi, enfatizando que a “independência de Taiwan” e a paz no Estreito são tão irreconciliáveis ​​quanto fogo e água, segundo a agência de notícias Xinhua.

    Silêncio dos chineses

    Durante toda a visita à China, o presidente dos EUA tentou mostrar que grandes negócios estavam sendo fechados, o que não era real.  Trump afirmou, por exemplo, que a China concordou em encomendar 200 jatos da Boeing, o que poderia impulsionar os negócios da fabricante estadunidense em um dos maiores mercados de aviação do mundo. No entanto, o lado chinês não fez nenhum anúncio sobre um possível acordo para a compra de aeronaves da Boeing.

    Quando questionado especificamente, após a saída de Trump de Pequim, sobre a existência de algum acordo para a compra de aeronaves, Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, desconversou: “Ambos os lados devem implementar conjuntamente o importante consenso alcançado pelos dois chefes de Estado e injetar mais estabilidade na cooperação econômica e comercial entre a China e os EUA, bem como na economia mundial”, disse ele.

    Antes da visita, circulavam expectativas muito maiores, com a possível compra de cerca de 500 Boeing 737 MAX. Por isso o anúncio de “apenas” 200 aviões decepcionaram investidores, e as ações da Boeing caíram após a entrevista de Trump.

    Os clientes chineses têm encomendas pendentes de quase 500 jatos, mas da europeia Airbus, afirmou a Cirium, especializada em dados, análises e pesquisa para o setor de aviação. Detalhe importante: ao contrário da Boeing, a Airbus cedeu à pressão chinesa e monta seu jato de corredor único A320 em Tianjin desde 2008. 

    A demanda chinesa é gigantesca. Segundo uma estimativa da Cirium, um em cada sete aviões em uso atualmente voa na China. A Boeing prevê que a frota de jatos da China dobrará nos próximos 20 anos, chegando a quase 10 mil aeronaves.

    Semicondutores

    O futuro da Nvidia na China permanece incerto e altamente complexo após a cúpula Trump-Xi esta semana. A Nvidia projeta os chips mais avançados para processamento gráfico e aprendizado de máquina, sendo a principal fornecedora para Inteligência Artificial (IA) generativa e data centers.

    A situação da Nvidia no mercado chinês é marcada por um impasse crítico, caracterizado por restrições dos EUA, alta demanda reprimida e esforços diplomáticos de alto nível para destravar as vendas. Apesar do CEO da Nvidia, Jensen Huang, que nasceu em Taiwan, e emigrou para os Estados Unidos aos 9 anos de idade, ter participado da cúpula com o presidente Trump e de relatos indicarem a aprovação dos EUA para a venda de chips H200 para cerca de 10 grandes empresas chinesas, a realidade operacional é de travamento.

    O CEO admitiu uma queda drástica na participação da Nvidia no mercado chinês de hardware de IA devido às sanções de exportação impostas desde 2022. O mercado chinês de IA é considerado estratégico para a Nvidia e representa uma oportunidade de cerca de US$ 50 bilhões para a empresa, segundo Huang. Antes das restrições estadunidenses, a China representava cerca de 13% da receita da Nvidia.

    A China quer reduzir a dependência da Nvidia, criar um ecossistema próprio de chips e substituir GPUs (Unidade de Processamento Gráfico), estadunidenses por chips nacionais. A dificuldade é que os chips da Nvidia continuam sendo considerados superiores em treinamento de IA, ecossistema de software CUDA – plataforma de computação paralela e modelo de programação da Nvidia – e eficiência para grandes modelos.

    Um cenário possível que parece emergir após a visita de Trump é que a Nvidia venderá chips selecionados para a China, sob forte supervisão dos EUA, sem transferir o núcleo da tecnologia, enquanto a China acelera sua substituição tecnológica doméstica.

    O mundo caminha para uma economia mais fragmentada, mas EUA e China ainda são interdependentes e ambos tentam evitar um choque econômico sistêmico. A principal consequência global dessas negociações é justamente uma tentativa de estabilizar parcialmente a economia mundial sem encerrar a disputa estratégica entre as duas potências.

  • Minerais críticos: Posição do Brasil  fica entre o desejável e o possível

    Minerais críticos: Posição do Brasil fica entre o desejável e o possível

    Na coletiva de imprensa após o encontro esta semana com o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o Brasil está aberto a discutir parcerias na área de minerais críticos e terras raras, mas enfatizou que o país quer deixar de ser apenas exportador de matéria-prima e avançar na industrialização e agregação de valor. Ele vinculou a questão dos minerais críticos à soberania nacional e ao desenvolvimento industrial brasileiro.

    A posição do governo brasileiro é usar o interesse internacional — especialmente de EUA, União Europeia e China para atrair capital, desenvolver tecnologia nacional, criar refinarias e processamento interno e fortalecer a indústria de baterias, defesa e transição energética.  Na prática, Lula sinalizou uma abertura pragmática aos EUA num setor considerado hoje estratégico na disputa geopolítica global, principalmente por causa das terras raras, do lítio, da grafita, níquel e do nióbio brasileiro.

    O encontro ocorreu no contexto da aprovação pela Câmara dos Deputados do PL 2780/2024, também esta semana, que cria a Política Nacional para Minerais Críticos e Estratégicos, com incentivos governamentais a projetos de processamento e transformação realizados no país. Esses minerais são considerados cruciais na produção de tecnologias como smartphones, carros elétricos e sistemas militares.

    De autoria do deputado Zé Silva (União-MG) e outros, o Projeto de Lei 2780/24 foi aprovado na forma do substitutivo do relator, deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP). Agora, a proposta será enviada ao Senado.

    Fundo Garantidor

    Entre outras medidas, o texto cria o Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM) com aporte de R$ 2 bilhões da União para garantir empreendimentos e atividades vinculados à produção de minerais críticos e estratégicos. Também está previsto um programa específico que beneficia a transformação de minerais críticos e estratégicos no próprio país, com incentivos federais de R$ 5 bilhões em créditos fiscais ao longo de cinco anos.

    O Fundo Garantidor ajuda o Brasil a ganhar capacidade financeira e industrial sobre os minerais críticos, mas sozinho não garante o controle nacional sobre esses recursos. Ele é mais um instrumento de política industrial e financiamento estratégico do que um mecanismo direto de soberania mineral.

    Concretamente, reduz o risco para financiamentos de projetos minerais; facilita crédito para mineração, beneficiamento e industrialização; permite que empresas brasileiras tenham mais acesso a capital; ajuda a desenvolver processamento interno de terras raras, lítio, grafita e outros minerais e cria estímulo para verticalização industrial no Brasil.

    O ponto central é que o Fundo Garantidor não cria monopólio estatal, não nacionaliza reservas e não impede automaticamente controle estrangeiro de empresas mineradoras. Ou seja, empresas estrangeiras continuam podendo operar no Brasil.

    Os fundos internacionais podem continuar comprando participação em mineradoras e as exportações seguem permitidas. Não há, no texto atual, veto geral à aquisição estrangeira de ativos minerais.

    O que fortalece parcialmente o controle brasileiro é o conjunto da política, com o incentivo à industrialização interna. O PL favorece empresas que beneficiem, processem e transformem minerais no Brasil. Isso reduz o modelo tradicional de exportar minério bruto.

    O Comitê de Minerais Críticos e Estratégicos poderá definir minerais sensíveis, estabelecer diretrizes, monitorar cadeias produtivas, exigir informações sobre exportações e beneficiários finais. O substitutivo aprovado prevê obrigação de informar o volume exportado, destino, beneficiário final, cadeia societária e o grau de processamento do minério. Esse ponto é importante geopoliticamente porque permite ao Estado saber quem efetivamente controla a cadeia mineral.

    Limites importantes

    Hoje o Brasil ainda depende de capital estrangeiro, de tecnologia externa, de processamento chinês, de equipamentos importados e de financiamento internacional. Por isso, muitos analistas consideram que o Fundo Garantidor aumenta a capacidade de coordenação do Estado brasileiro, mas ainda não configura uma política forte de soberania mineral nos moldes da China.

    A China controla cotas de exportação, domina o refino global, restringe investimentos, mantém empresas estatais gigantes e usa política industrial centralizada. Por isso, o Projeto de Lei brasileiro é mais próximo de um modelo de “capitalismo estratégico com incentivos públicos” e não de controle estatal direto.

    O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras, figurando entre as maiores reservas do mundo (atrás da China e em nível semelhante ao Vietnã), e ainda assim responde por menos de 1% da produção global. Os fatores principais são a falta do domínio tecnológico no processamento, inexistência de cadeia industrial no Brasil, licenciamento e investimentos ainda limitados e mercado global altamente concentrado.

    Terrabras mais distante

    Pelo jeito, os projetos da Câmara dos Deputados que criam a estatal Terras Raras Brasileiras S.A. (Terrabras), para atuar em minerais críticos, estão ficando para trás. Esses projetos defendem que o Brasil precisa de uma empresa pública para garantir controle estratégico sobre terras raras e outros minerais críticos, atuando desde a pesquisa até o beneficiamento e comercialização.

    A China gostou do posicionamento do presidente Lula em Washington. Em matéria no Global Times, especialistas chineses observaram que as declarações de Lula ocorreram em um contexto no qual o pequeno círculo dos EUA vem atacando as políticas chinesas de terras raras, usando a “redução de riscos” como pretexto para pressionar por uma reestruturação da cadeia de suprimentos que exclui a China.

    “A postura de Lula destacou a determinação do Brasil em resistir à pressão dos EUA e manter sua autonomia estratégica. Em vez de aderir a uma aliança exclusiva liderada pelos EUA para terras raras, o Brasil está se posicionando como um ator industrial independente, alavancando suas vantagens em recursos naturais para ir além de seu papel tradicional como exportador passivo de matéria-prima”, disse Zhang Xiaorong, diretor do Instituto de Pesquisa em Tecnologia de Ponta, com sede em Pequim.

  • Copom reduz taxa de juros, pero no mucho

    Copom reduz taxa de juros, pero no mucho

    O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual, de 14,75% para 14,50%, segundo corte iniciado na reunião de março. A desculpa por uma redução tão pífia é o ambiente externo, que permanece incerto, em função da indefinição a respeito da duração, extensão, e desdobramentos dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. “Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities”, diz a nota do BC.

    Em relação ao cenário doméstico, continua a nota, “o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação.”

    E complementa: “as expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,9% e 4,0%, respectivamente”. É necessário esclarecer que o relatório semanal Focus, apresenta as expectativas de agentes do mercado, como bancos e financeiras, para os principais indicadores da economia brasileira, inclusive taxa de juros. É divulgado como algo inquestionável pela grande mídia corporativa, quando na realidade é uma projeção de um setor que tem interesse direto naqueles números.

    Para o BC, não importa que nos últimos 12 meses o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 4,14%. Como os títulos públicos, especialmente o Tesouro Selic (pós-fixado), acompanham a variação da taxa Selic de 14,50% ao ano, o ganho real dos investidores – bancos, grandes fortunas – chega a 10,36 pontos percentuais acima da inflação. O Brasil está entre os três países do mundo que melhor remunera os investidores de seus títulos.  A desculpa é sempre o perigo da inflação.

    A inflação e sua meta futura são usadas para manter a taxa de juros nas alturas. No Brasil, o sistema de metas de inflação foi adotado em 1999, no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em um contexto de instabilidade econômica e transição para o câmbio flutuante. Em 2024, já no governo Lula, a meta de inflação foi estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 3,0%, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos, resultando em um limite de até 4,5%.        

    A consequência de uma meta tão baixa é que o Banco Central é forçado a adotar uma política monetária contracionista, elevando a taxa Selic para frear o consumo e o investimento, o que aumenta o custo da dívida pública e desacelera o crescimento econômico.

    Os garrotes são alinhados criteriosamente. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por não ter maioria no Congresso, enfrenta bloqueio de recursos do governo federal para investimentos porque é obrigado a adequar os gastos públicos às regras fiscais estabelecidas por lei, como o arcabouço fiscal e a meta de resultado primário.

    Ao juntar as medidas de um Congresso conservador com a taxa de juros nas alturas por pressão de um sistema financeiro apoiado pela mídia corporativa, um mercado consumidor interno forte fica prejudicado, com crédito caro dificultando investimentos e empregos com salários melhores. A razão é muito simples: mercado interno forte distribui renda e a elite brasileira historicamente nunca aceitou reduzir seus ganhos bilionários.

    Concentração de renda

    Tem uma história por trás da escolha de aumentar a taxa de juros com a desculpa de conter a inflação. Em agosto de 1979, a política econômica do então presidente dos Estados Unidos (EUA), Jimmy Carter, estava caótica. O dólar estava se enfraquecendo novamente e a inflação subia na esteira de sucessivos choques nos preços do petróleo. Carter nomeou uma lenda das finanças norte-americana, o economista Paul Volcker assumiu a presidência do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA.  Ele presidiu o BC estadunidense de 1979 a 1987 e serviu aos presidentes de John F. Kennedy a Barack Obama.

    Entre 1979 e 1982, Volcker implementou uma mudança radical: a taxa de juros passou a desempenhar um papel muito mais central. Apesar de manter o discurso de metas monetárias no início, o Fed passou a aceitar grandes flutuações nas taxas de juros como consequência do controle da oferta de dinheiro.

    No início da década de 1980, o uso da taxa de juros como instrumento primário de combate à inflação ficou evidente. Pós-1982, o Fed abandonou de vez as metas monetárias explícitas e passou a mirar diretamente a inflação via taxa de juros, modelo que prevalece até hoje.

    A partir de Volcker (e consolidando-se nos anos 1990), a política monetária global passou a girar em torno de metas de inflação com controle via taxa de juros de curto prazo. Na prática, os juros altos esfriam a economia para controlar a inflação, enquanto juros baixos estimulam crédito, consumo e crescimento.

    Pode-se argumentar que o uso da taxa de juros como instrumento central da política monetária, especialmente quando desacompanhado de políticas fiscais, industriais e sociais compensatórias, contribuiu para uma concentração brutal de renda no mundo, o que aconteceu a partir dos anos 1990.

    Por isso, a gestão do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em relação à taxa Selic é muito semelhante à de Campos Neto, que ocupou o mesmo cargo durante o governo Bolsonaro. O economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira chamou Galípolo de “traidor” ao avaliar que ele se aproximou do mercado financeiro e frustrou as expectativas de mudança na política monetária, mantendo juros elevados. No entanto, o tema é bem mais complexo.

  • Minerais críticos: como controlar da mineração ao refino

    Minerais críticos: como controlar da mineração ao refino

    A venda anunciada esta semana da empresa brasileira Serra Verde, que atua com mineração de terras raras, pela empresa USA Rare Earth (USAR), mineradora norte-americana, em negociação equivalente a cerca de US$ 2,8 bilhões, provocou um rebuliço no setor de mineração nacional.

    Serra Verde opera a mina de Pela Ema, em Minaçu (GO), a única mina de argilas iônicas ativa do Brasil, em produção desde 2024. É também a única produtora das quatro terras raras pesadas mais críticas e valiosas fora da Ásia: Disprosio (Dy), Térbio (Tb) e Ítrio (Y). Os materiais são usados para fabricação de ímãs permanentes utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs, drones, e aparelhos de ar-condicionado de alta eficiência.

    Os Estados Unidos (EUA) classificam esses minerais como critical minerals para segurança nacional. Após a guerra comercial iniciada no governo Donald Trump, Washington passou a incentivar o processamento doméstico e criar acordos com Austrália, Canadá e Brasil, e financiar plantas de separação fora da China. Serra Verde virou peça de segurança econômica dos EUA. Ao mesmo tempo, pode virar um ponto de inflexão para o Brasil, se usar o projeto como alavanca de política industrial.

    O Brasil pode reagir a venda se entender que está perdendo controle sobre recurso estratégico ou que a produção será totalmente exportada (há indícios disso no acordo). A venda deve passar pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e vai precisar de anuência da Agência Nacional de Mineração (direitos minerários).

    Durante o I Fórum de Alto Nível CELAC-África, realizado em março passado em Bogotá, Colômbia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desabafou: “Neste plenário todo mundo tem a experiência que seu país já foi saqueado em tudo que é ouro que tinha, em tudo que é prata que tinha, em tudo que é diamante que tinha e tudo que é minério que tinha. Depois de levarem tudo que a gente tinha, agora eles querem ser donos dos minerais críticos e das terras raras que nós temos.”

    O que está em discussão não é só política mineral interna, mas geopolítica pura e o Brasil entrou nesse tabuleiro. Hoje existe uma disputa direta, principalmente entre China e Estados Unidos, pelo controle de cadeias de terras raras – um grupo específico de 17 elementos químicos com propriedades magnéticas e luminescentes únicas. Já os minerais críticos são definidos por importância estratégica (transição energética, defesa, tecnologia) e risco de suprimento (produção concentrada em poucos países). Incluem o lítio, cobalto, níquel, grafite, nióbio, tungstênio e também terras raras.

    Nova economia industrial e tecnológica

    Esses minerais são essenciais para carros elétricos, baterias, defesa (mísseis, radares), energia renovável, semicondutores e inteligência artificial. Ou seja, pilares da chamada nova economia industrial e tecnológica.

    O Serviço Geológico do Brasil informa que o País é o maior detentor global de reservas de nióbio (94%) – com 16 milhões de toneladas. Segundo o Sumário Mineral da Agência Nacional de Mineração, o Brasil está entre os maiores detentores mundiais de grafita, com cerca de 199,3 milhões de toneladas de reservas em 2024. No caso das terras raras, o país possui aproximadamente 21 milhões de toneladas, figurando também entre os principais detentores globais, embora sua participação percentual nas reservas mundiais varie conforme a fonte.

    O paradoxo brasileiro é possuir cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras, figurando entre as maiores reservas do mundo (atrás da China e em nível semelhante ao Vietnã), e ainda assim responder por menos de 1% da produção global.

    Os fatores principais desse paradoxo são a falta do domínio tecnológico no processamento, inexistência de cadeia industrial no Brasil, licenciamento e investimentos ainda limitados e mercado global altamente concentrado.

    Risco de repetir modelo colonial

    O ponto mais sensível de toda essa agenda é o risco real do Brasil repetir uma versão moderna do modelo colonial. Historicamente exporta matéria-prima e importa produtos de alto valor. Agora, com minerais críticos, o risco é exportar terras raras concentradas e importar ímãs permanentes – que são componentes magnéticos de altíssima potência amplamente usados em motores de carros elétricos e turbinas eólicas -, baterias e tecnologia militar e eletrônica.

    Enquanto a China domina a mineração, refino e tecnologia industrial, o Brasil exporta minério bruto, não domina refino nem tecnologia. Um dos gargalos está no refino já que a separação de terras raras é complexa e altamente poluente.

     Outro gargalo está na metalurgia avançada – campo estratégico e em rápida evolução -, focado na separação, purificação e produção de metais de alta tecnologia.  E na indústria final, com a produção de ímãs, baterias e semicondutores. O Brasil é forte só no começo da cadeia.

    Terrabras, controle estratégico

    Para que o Brasil vire uma potência industrial de minerais críticos existem discussões em diferentes fóruns. A ideia de criar a Terras Raras Brasileiras S.A. (Terrabras) surgiu no Projeto de Lei apresentado por Pedro Uczai (PT‑SC), que cria a estatal para atuar em minerais críticos. Já o PL 1733/2026, de Rodrigo Rollemberg (PSB‑DF), autoriza a criação da Terrabras com modelo híbrido (participação estatal e privada).

    Esses projetos defendem que o Brasil precisa de uma empresa pública para garantir controle estratégico sobre terras raras e outros minerais críticos, atuando desde a pesquisa até o beneficiamento e comercialização.

    Segundo o jornal O Globo, o presidente Lula decidiu não apoiar projetos que proponham a criação de uma nova estatal para atuar na exploração de minerais críticos no País. O tema foi discutido em reunião realizada nesta quarta-feira (22) no Palácio da Alvorada, convocada pelo próprio presidente, com a participação de diversos ministros. Oficialmente, nada foi divulgado.

    No Congresso está em discussão também o Projeto de Lei 2.210/2021, que cria uma política focada na cadeia produtiva de terras raras (minerais críticos), com instrumentos como incentivo tecnológico, financiamento e prioridade regulatória. Uma lei voltada à industrialização e inovação em minerais estratégicos.

    Ele faz parte de um conjunto maior de projetos, como o PL 2.780/2024, uma proposta da Frente Parlamentar da Mineração Sustentável, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Essa Frente é formada majoritariamente por deputados federais da centro-direita, do Podemos, União Brasil, Solidariedade e Progressista.

    O Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), que foi criado em 2022, define diretrizes estratégicas, com foco em minerais críticos. É formado por representantes de 18 ministérios sob a presidência do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.  O objetivo é aprovar o Plano Nacional de Mineração (PNM) 2026-2050. Porém, em 2026 o Ministério de Minas e Energia ainda está recebendo contribuições públicas sobre a minuta do plano.

    O PNM tende a tratar minerais críticos como recurso estratégico nacional, base para indústria tecnológica, parte da transição energética e elemento de soberania econômica. A cadeia produtiva desejada é mineração → refino → óxidos → ligas → ímãs → produtos industriais.

    O setor privado brasileiro defende agregação de valor, incentivos fiscais e segurança jurídica. Parte quer exportação rápida (modelo antigo) e parte quer industrialização (modelo novo).

  • Abertura do Estreito de Ormuz dura um dia e volta o controle rigoroso

    Abertura do Estreito de Ormuz dura um dia e volta o controle rigoroso

     Nesta sexta-feira, 17 de abril, o Irã anunciou que permitiria a passagem de “todos os navios comerciais” pelo estratégico Estreito de Ormuz, onde passam 20% da produção global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL), após a declaração de um cessar-fogo de 10 dias entre Israel e Líbano. Já no sábado o Irã voltou a impor um controle rigoroso no Estreiro. Os militares disseram que reforçariam o controle sobre a hidrovia até que os Estados Unidos (EUA) encerrem o bloqueio aos portos iranianos. Um serviço de monitoramento marítimo da Marinha Britânica informou que dois navios foram atingidos, um por disparos de um helicóptero de ataque e outro por um projétil não identificado.

    Para manter o seu discurso vencedor, o presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu na sexta-feira manter o bloqueio aos portos iranianos. Após o novo bloqueio, Trump advertiu durante um evento na Casa Branca “que o Irã não pode chantagear Washington com suas mudanças de posição”, mas afirmou que ainda há perspectivas boas para um acordo.

    Mais uma de suas tantas frases. Não é possível confiar em nenhuma delas.  Sua postura reflete uma tentativa de forçar uma “realidade” de sucesso rápido, enquanto a dinâmica no Oriente Médio mostra um conflito mais profundo e incerto do que o relatado pela Casa Branca. 

    A trégua da guerra dos EUA e Israel contra o Irã é extremamente frágil, embora tenha registrado avanços significativos na sexta-feira. O cessar-fogo temporário, mediado pelo Paquistão e com duração inicial de duas semanas, foi estabelecido em 7 de abril para tentar encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro passado. Embora as negociações em Islamabad (Paquistão) tenham terminado sem um acordo final no dia 12 de abril devido a impasses sobre o programa nuclear, a trégua permanece em vigor.

    A escalada de conflitos entre os EUA e o Irã tem como um dos principais alvos estratégicos a China — maior importadora de petróleo do mundo. O objetivo estadunidense é usar a pressão sobre o Irã para estrangular o fornecimento de energia a Pequim, seu principal rival econômico e geopolítico. Em 2024 e 2025, a China comprou cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã, utilizando o recurso para manter sua indústria em funcionamento a custos reduzidos, contornando sanções estadunidenses.  

    O presidente chinês, Xi Jinping, recebeu, nesta quarta-feira (15), em Beijing, o chanceler russo, Sergei Lavrov. Segundo Xi Jinping, diante de um cenário internacional turbulento, a estabilidade e a previsibilidade das relações sino-russas se tornam mais valiosas. Lavrov disse que a Rússia poderá abastecer a China de petróleo. Sua declaração não é só retórica diplomática, mas aponta para um movimento estratégico mais amplo entre Rússia e China no mercado de energia.

     Trump e o tempo

    O tempo é o grande inimigo de Trump.  A gestão deste conflito elevou a desaprovação militar a 66%, agravou preocupações econômicas, e corroeu o apoio, mesmo entre republicanos, seu partido.  Com popularidade baixa, o presidente norte-americano enfrenta o risco de perder o controle do Congresso. Pesquisas indicam um desempenho melhor dos democratas nas eleições de meio de mandato, em 3 de novembro próximo, quando acontece a renovação de todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e de 35 das 100 cadeiras do Senado.

    Com base nos desdobramentos de abril de 2026, conforme o The Gardian, a narrativa do governo Trump sobre a guerra contra o Irã apresenta conflitos significativos com a realidade observada no terreno. Enquanto Trump declara repetidamente que o conflito foi vencido e está prestes a acabar, a situação é caracterizada como uma guerra de atrito com altos custos militares e econômicos. 

    A dívida nacional dos Estados Unidos ultrapassou a marca histórica de US$ 39 trilhões em março de 2026. O conflito com o Irã agravou drasticamente esse quadro, forçando o mercado de títulos públicos (Treasuries) a se ajustar a uma nova realidade de riscos fiscais e inflacionários. 

    Os títulos do Tesouro norte-americano sofreram uma forte desvalorização no início do conflito, deixando de atuar como o tradicional “porto seguro”.  O mercado passou a exigir rendimentos mais altos para compensar o risco. O rendimento do título de 10 anos saltou de menos de 4% antes da guerra para picos de 4,4% em março.  Se investidores exigem mais retorno para financiar a dívida, seu custo fica mais caro.

    A demanda por novos títulos enfraqueceu, conforme as esperanças de um fim rápido para a guerra diminuíram, forçando o governo a oferecer taxas maiores para conseguir financiamento. Alguns movimentos já vêm ocorrendo, com a diversificação de reservas (ouro, outras moedas). O uso geopolítico do dólar através de sanções gera cautela dos investidores.  

    Se menos países compram Treasuries, o Tesouro depende mais de investidores domésticos ou do Federal Reserve, o banco central norte-americano.  Para atrair esses compradores sensíveis a lucro, o Tesouro é obrigado a oferecer taxas de juros maiores. Isso encarece o crédito para toda a economia americana, afetando hipotecas e empréstimos.

    O bloqueio de rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, onde o Irã agiu para interromper o transporte marítimo, resultou em disparada nos preços globais do petróleo (tipo Brent superando US$ 100/barril). Isso se reflete imediatamente na gasolina nos EUA, elevando o custo de vida dos estadunidenses.

    Em vários relatórios recentes, o Fundo Monetário Internacional alerta que choques geopolíticos persistentes podem reduzir o crescimento global e dos EUA em alguns décimos a até mais de um ponto percentual, dependendo da gravidade.

    O sistema norte-americano sempre dependeu de confiança global e falta de alternativas comparáveis. O que está em jogo agora não é só o tamanho da dívida, mas se o mundo continua disposto a financiá-la nas mesmas condições.

    O começo da operação

    Em 28 de fevereiro, os EUA e Israel lançaram uma operação militar contra o Irã. Grandes cidades, incluindo Teerã, foram atingidas. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) anunciou uma operação retaliatória em larga escala, atacando Israel. Alvos estadunidenses no Bahrein, Jordânia, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita também foram atingidos.

    Em 11 de abril, o Irã e os EUA realizaram várias rodadas de negociações em Islamabad. A delegação iraniana foi liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e a delegação estadunidense, pelo vice-presidente JD Vance. Como foi posteriormente noticiado em Teerã e Washington, as partes não conseguiram chegar a um acordo sobre uma solução de longo prazo para o conflito devido a uma série de contradições. Autoridades iranianas atribuíram o fracasso das conversas a “exigências irrealistas” dos norte-americanos, mas expressaram disposição em continuar buscando uma solução diplomática para o conflito.

    No entanto, os EUA e Israel podem estar explorando as negociações com o Irã para preparar um ataque terrestre contra o país, conforme o Conselho de Segurança da Rússia. Essa avaliação se baseia no fato de que “o Pentágono continua a fortalecer a presença militar dos EUA na região”, mesmo com as negociações em andamento, afirmou o porta-voz à imprensa russa. Tudo, ainda, muito instável.

  • Controle do Estreito de Ormuz é a arma mais poderosa do Irã

    Controle do Estreito de Ormuz é a arma mais poderosa do Irã

    Neste momento, a situação no Estreito de Ormuz é definida por uma reabertura frágil e sob forte restrição iraniana, após um duvidoso cessar-fogo de duas semanas, anunciado na noite de terça-feira, 7 de abril, por Irã e os Estados Unidos (EUA), com intermediação do Paquistão. O acordo não foi seguido por Israel, que bombardeou o Líbano matando mais de 300 pessoas, o que provocou de novo a drástica redução do tráfego comercial como resposta à agressão.  

    Após o início do conflito, o Irã declarou que tem controle militar do Estreito e decide quem pode ou não atravessar. Na prática, surgiram três situações: navios de países considerados aliados podem passar, depois de negociar previamente com autoridades iranianas.

    Já os navios de países adversários estão proibidos de atravessar, como o caso de embarcações ligadas aos EUA ou Israel. A terceira situação envolve os poucos navios comerciais neutros que aceitam pagar e receber autorização para atravessar com “passagem segura”.

    Alguns navios de grande porte pagam até US$ 2 milhões em criptomoedas ou iuan para contornar sanções internacionais do Departamento do Tesouro dos EUA. As transações são processadas por intermediários e janelas de câmbio na Ilha Qeshm, visando transferir fundos rapidamente para riais (moeda iraniana) ou contas no exterior, evitando o sistema SWIFT – um mecanismo de transferências financeiras interbancárias mundiais controlado pelos EUA. Há proposta de cobrança permanente de cerca de US$ 1 por barril de petróleo transportado.

    O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima vital entre o Irã (norte) e Omã/Emirados Árabes Unidos (sul), conectando o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. É crucial por escoar cerca de 20% do petróleo mundial e 20% do gás natural liquefeito, sendo um ponto de estrangulamento energético global essencial. 

    A guerra dos EUA e Israel contra o Irã, no Oriente Médio, iniciado em fevereiro/março, não apenas gera tensões geopolíticas, mas também coloca em risco a dominância e a estabilidade da moeda dos Estados Unidos no cenário financeiro global. O ponto fundamental é o controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz, que aumenta a volatilidade nos mercados financeiros, questionando a eficácia do dólar como “porto seguro” em tempos de crise.

    Semelhanças entre Ormuz e a crise do Canal de Suez

    O que está acontecendo no Estreito de Ormuz e as consequências sobre o poder do petrodólar tem certas semelhanças com a crise do Canal Suez (situado no Egito, que conecta o mar Mediterrâneo ao mar Vermelho, ligando a Europa com o Oceano Índico), em 1956, que sepultou a libra esterlina como principal moeda de reserva e troca do mundo.

    A Crise de Suez é frequentemente considerada por historiadores como o momento simbólico que marcou o fim do Reino Unido como grande potência imperial global, processo que começou em Bretton Woods, EUA, no final da Segunda Guerra Mundial. Não foi apenas um conflito militar, mas uma crise financeira, diplomática e estratégica que mostrou que Londres já não podia agir independentemente das superpotências da União Soviética e dos EUA.

    Na época, o governo britânico era o maior acionista da Companhia do Canal de Suez, detendo 44% das ações, enquanto particulares franceses detinham os 50% restantes. O canal movimentava 100 milhões de toneladas de carga anualmente, das quais três quintos eram petróleo do Oriente Médio destinado à Europa Ocidental. Mais de 40 países utilizavam o canal, que gerava uma receita anual de aproximadamente US$ 100 milhões, com um lucro líquido de cerca de US$ 30 milhões por ano, dos quais 44% iam para bancos e empresas britânicas.

    Gamal Abdel Nasser – militar e político nacionalista egípcio, presidente de seu país de 1954 até sua morte em 1970 – deu origem a uma série de reformas pensando na nacionalização das riquezas egípcias e disseminação do panarabismo, total integração política e produtiva do mundo árabe. O capitão tornou o petróleo um bem nacional, expulsou empresas estrangeiras e aumentou o atrito com Israel.

    Na diplomacia, passou a defender o não-alinhamento, ou seja, a neutralidade na polarização da Guerra Fria, ao mesmo tempo em que apelou para um apoio forte da União Soviética (URSS).  Em julho de 1956, Nasser nacionalizou a Companhia do Canal de Suez.

    Em resposta, o Reino Unido, a França e Israel firmaram um acordo secreto para invadir o Egito e retomar o controle da via. A invasão começou em 29 de outubro de 1956. Embora militarmente bem-sucedida em curto prazo, a operação foi um desastre político para os britânicos. Durou nove dias, até 7 de novembro.

    A URSS não participou militarmente da guerra, mas teve um papel político e estratégico decisivo para forçar o fim do conflito. Apoiou fortemente o governo de Nasser, incluindo defesa do Egito na Organização das Nações Unidas (ONU), condenação da invasão anglo-francesa e israelense e pressão diplomática internacional para cessar-fogo. Esse posicionamento ajudou a transformar a crise em um conflito global da Guerra Fria.

    Curiosamente, EUA e URSS acabaram pressionando os mesmos países aliados do Ocidente (Reino Unido e França) a recuar. O governo do presidente dos EUA Dwight Eisenhower criticou a invasão por não ter sido informado sobre o plano secreto e considerou uma aventura colonial que atrapalha a política de contenção da Guerra Fria contra a URSS. Em vez de apoiar o aliado, Washington decidiu usar o poder econômico para forçar o fim da guerra.

    Os EUA ameaçaram vender suas reservas em libras esterlinas. Uma venda massiva da moeda por um governo estrangeiro teria causado uma desvalorização imediata e catastrófica. Os estadunidenses instruíram seus representantes no Fundo Monetário Internacional (FMI) a vetar qualquer empréstimo de emergência solicitado pelo Reino Unido.

    Isso também marca o fim de uma era antiga: a Grã-Bretanha, outrora uma superpotência econômica, teve que depender de um parceiro mais poderoso, ou seja, os EUA, que lançaram “discretamente” uma “guerra cambial” contra a Grã-Bretanha, conseguindo, em última instância, eliminar a influência britânica no Canal de Suez.

    Embora a Grã-Bretanha tenha vivenciado 14 crises da libra entre 1947 e 1972, a crise de 1956 foi particularmente singular. Pela primeira vez, a Grã-Bretanha sentiu o impacto das guerras cambiais, despertando de seu sonho secular de continuar uma grande potência, sendo reconhecida sua verdadeira posição internacional. Esse episódio mostrou ao mundo que o Reino Unido não tinha mais poder financeiro global.

    Os EUA não apenas concretizaram seus interesses no Oriente Médio e controlaram países da Europa Ocidental, como também obtiveram enormes lucros com o petróleo, atingindo múltiplos objetivos simultaneamente. Ormuz será o Suez às avessas?