Comemoração do Dia da Indústria esquece lições de Roberto Simonsen

O Dia da Indústria, celebrado em 25 de maio no Brasil, é uma homenagem a Roberto Simonsen, considerado o patrono da indústria nacional. A data foi escolhida porque Simonsen faleceu em 25 de maio de 1948. Empresário, engenheiro, historiador, professor e político, ele teve papel central na defesa da industrialização brasileira e na criação de instituições fundamentais do setor industrial. Presidiu a Confederação Nacional da Indústria e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

 Além de industrial, Simonsen foi um dos principais formuladores do pensamento econômico desenvolvimentista brasileiro, defendendo a industrialização como caminho para modernização, geração de empregos e fortalecimento da soberania nacional. Seu livro “História Econômica do Brasil” tornou-se um clássico.

Simonsen foi um dos industriais paulistas que apoiaram Getúlio Vargas após Revolução de 1930 porque via no modelo oligárquico da República Velha — dominado pela política do “café com leite” — um limite ao desenvolvimento nacional. Parte importante da elite cafeeira paulista defendia a volta do poder político concentrado nas oligarquias exportadoras, enquanto Simonsen defendia um Estado forte, industrialização e diversificação econômica. Isso ajudou a aproximar industriais emergentes do projeto varguista.

O que ocorreu nas décadas seguintes foi uma grande transformação estrutural da economia brasileira. Entre 1930 e os anos 1980, o Brasil implantou a siderurgia, petroquímica, engenharia pesada, indústria de bens de capital e empresas estatais estratégicas.  Nesse período, a participação da indústria de transformação chegou perto de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro nos anos 1980. O país deixou de ser essencialmente agroexportador.

O Rio Grande do Sul chegou a ter uma participação industrial proporcionalmente maior do que a média brasileira. Em determinados períodos, especialmente entre os anos 1970 e 1980, a indústria representava algo próximo ou acima de 30% da economia gaúcha, geralmente usando a metodologia “Indústria total”, que inclui indústria de transformação, construção civil, eletricidade e gás, água e saneamento e indústria extrativa (mineração e petróleo).

O estado gaúcho foi um dos estados mais industrializados do Brasil fora de São Paulo, com forte presença nos setores metalmecânico, calçados, máquinas agrícolas, alimentos processados, petroquímica, móveis e implementos industriais. Período da Industrialização por Substituição de Importações (ISI)

Hoje, os dados oficiais mostram uma redução importante. A indústria representa atualmente cerca de 21,3% do PIB brasileiro. Só a indústria de transformação, cerca de 10,8% do PIB, respondendo por praticamente metade de toda a atividade industrial do País.

Consenso de Washington

Para entender a desindustrialização do Brasil é preciso voltar ao Sistema de Bretton Woods, concebido pelos Estados Unidos (EUA) no final da Segunda Guerra Mundial para estabilizar as transações financeiras globais e defender seus interesses. Os dois pilares principais foram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). No início dos anos 1970, o Sistema entra em crise quando os EUA tiveram que abandonar a taxa de câmbio fixa lastreada em ouro, mas tanto o FMI quanto o BIRD não apenas sobreviveram como também se tornaram ainda mais influentes e universais no final do século XX.

As duas instituições forjaram o chamado “Consenso de Washington” – uma lista de princípios fundamentalistas de mercado (liberalização do comércio e das finanças, privatização radical, medidas agressivas contra a inflação, arrocho salarial e os déficits orçamentários), que provocou uma brutal concentração de renda no mundo. Tornou-se um dos motores da globalização na virada do século.

A partir do final dos anos 1980 e principalmente nos anos 1990, o Brasil seguiu essa receita, com a implantação do neoliberalismo e vários fatores mudaram o cenário econômico. A principal característica do governo do presidente Fernando Collor de Mello (1990/92) foi a ruptura rápida com o modelo nacional-desenvolvimentista que o Brasil havia seguido desde Getúlio Vargas.

Produtos estrangeiros passaram a entrar no Brasil com preços muito menores, como automóveis, eletrônicos, máquinas, computadores e bens de consumo. Isso encerrou a chamada “reserva de mercado” provocando um abalo pesado na indústria brasileira.

Já o presidente Fernando Henrique Cardoso (1995/ 2002) aprofundou e consolidou a abertura econômica iniciada por Fernando Collor. Um dos traços mais marcantes foram as privatizações de grandes estatais federais, especialmente em telecomunicações, siderurgia, mineração, energia e ferrovias. Os casos mais emblemáticos foram as privatizações da Companhia Vale do Rio Doce e do sistema Telebras. A indústria brasileira continuou descendo a ladeira.

Entre os governos do interino Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019–2022), a Operação Lava Jato, que deveria investigar a corrupção, conduzida por uma força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) em conjunto com a Polícia Federal (PF), acabou provocando efeitos desastrosos a Petrobras e atingiu diretamente as maiores construtoras e empresas de engenharia que executavam obras da estatal, as indústrias de construção pesada. O setor de engenharia brasileiro perdeu capacidade global. Antes da Lava Jato, as empresas brasileiras executavam obras em mais de 30 países.

No Rio Grande do Sul, o Polo Naval na cidade de Rio Grande naufragou após o golpe parlamentar que derrubou a presidenta Dilma Rousseff (PT) e possibilitou a ascensão de Michel Temer (MDB) à presidência da República e após a eleição de Jair Bolsonaro, deixando literalmente a ver navios milhares de trabalhadores, que vieram de todo o Brasil. 

Antes do esvaziamento da indústria naval, o Polo Naval de Rio Grande possuía uma carteira que previa investimentos diretos superiores a US$ 5 bilhões focados na infraestrutura dos estaleiros e nos programas de renovação de frotas voltados à exploração do pré-sal, que foram drasticamente cortados após as mudanças de governo. Sem a recuperação desses fatos históricos não é possível entender a desindustrialização do Brasil.

Educação para não repetir erros

O Sistema Fiergs promoveu, na segunda-feira (25), uma edição especial do INDX – um encontro dos industriais com quem impulsiona o desenvolvimento – em comemoração ao Dia da Indústria. Ao lado dos presidentes do Conselho de Administração da Gerdau, Jorge Gerdau, e emérito do Grupo RBS, Jayme Sirotsky, o presidente do Sistema Fiergs, Claudio Bier, destacou a importância da educação para o desenvolvimento do setor produtivo, o programa HOB – Hands-on Bot. Claro que a educação é fundamental, mas desperdiçaram uma oportunidade de debater também as razões da desindustrialização do País.

A educação é a principal ferramenta que a humanidade possui para não repetir os erros históricos, promover o pensamento crítico e construir uma sociedade mais justa e inovadora. Por que o verdadeiro debate não acontece? Porque envolve conflito ideológico entre a proteção industrial e a liberalização econômica, financeirização, estado mínimo, etc.. É praticamente a continuação moderna do antigo debate entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin sobre o modelo de desenvolvimento brasileiro. 

Ajude a manter este espaço livre de publicidades invasivas

Faça uma contribuição via PIX no valor que você quiser ou utilize um valor pré-definido

R$
1,00
R$
2,00
R$
5,00
R$
?,??

Visite nossa loja e adquira uma das nossas publicações, com frete GRÁTIS. Aproveite!