O encontro do presidente chinês, Xi Jinping, com o presidente russo, Vladimir Putin, no Grande Salão do Povo, em Pequim, na quarta-feira, 20, uma semana depois da visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou claro diferenças expressivas nos resultados de ambas as reuniões.
Enquanto Trump saiu de mãos abanando, sem nenhum acordo comercial oficial anunciado durante a cúpula, Xi e Putin afirmaram que o atual cenário geopolítico demonstra que o poder global deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados Unidos, como ocorreu após o fim da União Soviética em 1991, passando a se distribuir entre diferentes blocos regionais, nos quais China e Rússia desempenham papéis centrais.
Xi Jinping propõe que a China e a Rússia busquem uma coordenação internacional de maior qualidade e trabalhem juntas para reformar e aprimorar a governança global. Os dois lados devem reforçar ainda mais a coordenação e a cooperação em estruturas como a Organização das Nações Unidas (ONU). Atualmente, o aumento da competição entre Estados Unidos, China e Rússia impede consensos, especialmente no Conselho de Segurança. Quando essas potências entram em conflito, qualquer decisão relevante é bloqueada por vetos.
Xi destacou esforços conjuntos para salvaguardar firmemente a ordem internacional do pós-guerra e a autoridade do direito internacional, unir o Sul Global e orientar a reforma do sistema de governança global na direção certa.
Ao destacar que a cooperação entre Rússia e China é um fator de estabilidade em um cenário internacional instável, Putin afirmou que a Rússia seguirá ampliando a coordenação multilateral com a China e apoiará a realização da Reunião de Líderes Econômicos da APEC (em inglês, Asia-Pacific Economic Cooperation). O próximo encontro, a 33ª Cúpula, está previsto para os dias 18 e 19 de novembro de 2026, em Shenzhen, na China, que ocupa a presidência rotativa do bloco neste ano.
Putin também falou em elevar conjuntamente o status e a influência da Organização de Cooperação de Xangai, fortalecer a unidade e a coordenação dentro do mecanismo Brics, defender a autoridade da ONU, promover a diversidade das civilizações e impulsionar uma ordem internacional mais justa e equitativa.
Este ano marca o 30º aniversário do estabelecimento da parceria estratégica de coordenação China-Rússia e o 25º aniversário da assinatura do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável China-Rússia. “Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e importantes e grandes países do mundo, China e Rússia devem adotar uma perspectiva estratégica e de longo prazo, impulsionar o desenvolvimento e a revitalização de nossos respectivos países por meio de uma coordenação estratégica abrangente de qualidade ainda mais elevada e trabalhar para tornar o sistema de governança global mais justo e equitativo”, disse Xi.
É importante entender, como afirma Ladislav Zemánek, pesquisador não residente do Instituto China-CEE, em seu artigo “Eis como Putin e Xi podem salvar o Ocidente de si mesmo”, a parceria Rússia-China não é uma cruzada contra o Ocidente. “É uma revolta contra a unipolaridade – contra a ideia de que uma civilização, uma ideologia e um modelo político devam dominar o planeta indefinidamente. Moscou e Pequim não estão tentando destruir o sistema internacional. Estão construindo alternativas a uma ordem monopolizada por décadas pelo poder liberal ocidental.”
Rublos e yuans
A Rússia e a China já atacaram um ponto fundamental para o fortalecimento do mundo multipolar e praticamente eliminaram as moedas ocidentais do comércio bilateral, com quase todas as transações agora realizadas em rublos e yuans. Moscou afirma que a transição reduziu a dependência da infraestrutura financeira “pouco amigável” baseada em dólares e euros, tornando o comércio entre os dois países mais resistente à pressão externa e às sanções.
A campanha de sanções sem precedentes liderada pelos EUA contra Moscou devido ao conflito na Ucrânia forçou a Rússia e outros membros do Brics a buscar formas alternativas de comércio. Os principais bancos da Rússia foram banidos completamente do sistema de pagamento internacional SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), em 2022, como parte das restrições. O sistema SWIFT é uma rede global de comunicação financeira que facilita transações internacionais entre bancos, sob controle dos Estados Unidos.
Esse movimento está alinhado com uma tendência global de diversificação lenta, mas irreversível, das reservas de vários bancos centrais, que têm aumentado posições em ouro diante de incertezas econômicas e geopolíticas. Em 2025, muitos bancos centrais compraram ouro como parte dessa estratégia, reduzindo gradualmente a dependência de dólar e de títulos públicos dos Estados Unidos.
Projetos bilaterais
Durante a visita de Putin, China e Rússia emitiram uma declaração conjunta sobre a preconização de um mundo multipolar e de novo tipo de relações internacionais. As duas partes também firmaram 20 acordos de cooperação em diversas áreas. Ambos os governos afirmam que sua crescente rede de projetos bilaterais e cooperação multilateral visa proteger suas economias da pressão externa e promover uma ordem mundial mais “multipolar”.
Apesar das restrições ocidentais, a China expandiu o comércio de energia com a Rússia, tornando-se a principal compradora de petróleo russo. Moscou agora está entre os principais fornecedores de petróleo bruto, gás natural canalizado, GNL e carvão para Pequim.
Moscou e Pequim estão expandindo a cooperação nos setores de manufatura e alta tecnologia, incluindo aviação, energia nuclear, economia digital e projetos conjuntos de inovação. Um acordo recentemente atualizado sobre a promoção e proteção mútua de investimentos também fortaleceu o arcabouço legal para a cooperação de longo prazo.
Segundo o Fundo Russo de Investimento Direto, mais de 90 projetos conjuntos, avaliados em cerca de 18 trilhões de rublos (US$ 253 bilhões), estão sendo implementados atualmente pela comissão bilateral de investimentos em diversos setores, incluindo infraestrutura, energia e logística.
Além do comércio e da indústria, Moscou e Pequim estão expandindo a cooperação em turismo, educação e desenvolvimento regional. Xi e Putin inauguraram o programa “Anos da Educação China-Rússia”, um acordo para intensificar a cooperação educacional bilateral. As iniciativas incluem o intercâmbio de estudantes, a formação conjunta de talentos em ciências de ponta e tecnologia, e a criação do Instituto de Estudos de Inovação.
Acordos de isenção de visto e novas rotas aéreas impulsionaram o turismo e as viagens de negócios, enquanto universidades e autoridades regionais continuam a aprofundar iniciativas conjuntas de pesquisa, investimento e negócios transfronteiriços.
Com agências de notícias RT, Global Times e Xinhua


