Estreito de Ormuz está liberado pelo Irã e um acordo volta a ser discutido

 Nesta sexta-feira, 17 de abril, o Irã anunciou que permitirá a passagem de “todos os navios comerciais” pelo estratégico Estreito de Ormuz, após a declaração de um cessar-fogo de 10 dias entre Israel e Líbano, provocando a queda no preço do barril de petróleo. No entanto, para manter o seu discurso vencedor, o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, prometeu manter o bloqueio aos portos iranianos. A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) alertou os EUA e Israel de que enfrentarão uma resposta “lamentável” caso os ataques continuem

A trégua da guerra dos EUA e Israel contra o Irã é extremamente frágil, embora tenha registrado avanços significativos nas últimas horas. O cessar-fogo temporário, mediado pelo Paquistão e com duração inicial de duas semanas, foi estabelecido em 7 de abril para tentar encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro passado. Embora as negociações em Islamabad (Paquistão) tenham terminado sem um acordo final no dia 12 de abril devido a impasses sobre o programa nuclear, a trégua permanece em vigor.

O presidente Donald Trump afirmou nesta sexta-feira que um acordo para o fim definitivo da guerra está “muito próximo”. Mais uma de suas tantas frases. Não é possível confiar em nenhuma delas.  Sua postura reflete uma tentativa de forçar uma “realidade” de sucesso rápido, enquanto a dinâmica no Oriente Médio mostra um conflito mais profundo e incerto do que o relatado pela Casa Branca. 

A escalada de conflitos entre os EUA e o Irã tem como um dos principais alvos estratégicos a China — maior importadora de petróleo do mundo. O objetivo estadunidense é usar a pressão sobre o Irã para estrangular o fornecimento de energia a Pequim, seu principal rival econômico e geopolítico. Em 2024 e 2025, a China comprou cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã, utilizando o recurso para manter sua indústria em funcionamento a custos reduzidos, contornando sanções estadunidenses.  

O presidente chinês, Xi Jinping, recebeu, nesta quarta-feira (15), em Beijing, o chanceler russo, Sergei Lavrov. Segundo Xi Jinping, diante de um cenário internacional turbulento, a estabilidade e a previsibilidade das relações sino-russas se tornam mais valiosas. Lavrov disse que a Rússia poderá abastecer a China de petróleo. Sua declaração não é só retórica diplomática, mas aponta para um movimento estratégico mais amplo entre Rússia e China no mercado de energia.

 Trump e o tempo

O tempo é o grande inimigo de Trump.  A gestão deste conflito elevou a desaprovação militar a 66%, agravou preocupações econômicas, e corroeu o apoio, mesmo entre republicanos.  Com popularidade baixa, o presidente norte-americano enfrenta o risco de perder o controle do Congresso. Pesquisas indicam um desempenho melhor dos democratas nas eleições de meio de mandato, em 3 de novembro próximo, quando acontece a renovação de todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e de 35 das 100 cadeiras do Senado.

Com base nos desdobramentos de abril de 2026, conforme o The Gardian, a narrativa do governo Trump sobre a guerra contra o Irã apresenta conflitos significativos com a realidade observada no terreno. Enquanto Trump declara repetidamente que o conflito foi vencido e está prestes a acabar, a situação é caracterizada como uma guerra de atrito com altos custos militares e econômicos. 

A dívida nacional dos Estados Unidos ultrapassou a marca histórica de US$ 39 trilhões em março de 2026. O conflito com o Irã agravou drasticamente esse quadro, forçando o mercado de títulos públicos (Treasuries) a se ajustar a uma nova realidade de riscos fiscais e inflacionários. 

Os títulos do Tesouro norte-americano sofreram uma forte desvalorização no início do conflito, deixando de atuar como o tradicional “porto seguro”.  O mercado passou a exigir rendimentos mais altos para compensar o risco. O rendimento do título de 10 anos saltou de menos de 4% antes da guerra para picos de 4,4% em março.  Se investidores exigem mais retorno para financiar a dívida, seu custo fica mais caro.

A demanda por novos títulos enfraqueceu, conforme as esperanças de um fim rápido para a guerra diminuíram, forçando o governo a oferecer taxas maiores para conseguir financiamento. Alguns movimentos já vêm ocorrendo, com a diversificação de reservas (ouro, outras moedas). O uso geopolítico do dólar através de sanções gera cautela dos investidores.  

Se menos países compram Treasuries, o Tesouro depende mais de investidores domésticos ou do Federal Reserve.  Para atrair esses compradores sensíveis a lucro, o Tesouro é obrigado a oferecer taxas de juros maiores. Isso encarece o crédito para toda a economia americana, afetando hipotecas e empréstimos.

O bloqueio de rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, onde o Irã agiu para interromper o transporte marítimo, resultou em disparada nos preços globais do petróleo (tipo Brent superando US$ 100/barril). Isso se reflete imediatamente na gasolina nos EUA, elevando o custo de vida dos estadunidenses.

Em vários relatórios recentes, o Fundo Monetário Internacional alerta que choques geopolíticos persistentes podem reduzir o crescimento global e dos EUA em alguns décimos a até mais de um ponto percentual, dependendo da gravidade.

O sistema norte-americano sempre dependeu de confiança global e falta de alternativas comparáveis. O que está em jogo agora não é só o tamanho da dívida, mas se o mundo continua disposto a financiá-la nas mesmas condições.

O começo da operação

Em 28 de fevereiro, os EUA e Israel lançaram uma operação militar contra o Irã. Grandes cidades, incluindo Teerã, foram atingidas. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) anunciou uma operação retaliatória em larga escala, atacando Israel. Alvos americanos no Bahrein, Jordânia, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita também foram atingidos.

Em 11 de abril, o Irã e os EUA realizaram várias rodadas de negociações em Islamabad. A delegação iraniana foi liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e a delegação estadunidense, pelo vice-presidente JD Vance. Como foi posteriormente noticiado em Teerã e Washington, as partes não conseguiram chegar a um acordo sobre uma solução de longo prazo para o conflito devido a uma série de contradições.

Agora, existe a possibilidade de novas negociações. Autoridades iranianas atribuíram o fracasso das conversas a “exigências irrealistas” dos norte-americanos, mas expressaram disposição em continuar buscando uma solução diplomática para o conflito.

No entanto, os Estados Unidos e Israel podem estar explorando as negociações com o Irã para preparar um ataque terrestre contra o país, conforme o Conselho de Segurança da Rússia. Essa avaliação se baseia no fato de que “o Pentágono continua a fortalecer a presença militar dos EUA na região”, mesmo com as negociações em andamento, afirmou o porta-voz à imprensa russa. Tudo, ainda, muito instável.

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