Guerras pelo petróleo: Irã ocupa posição estratégica (Parte I)

O conflito dos Estados Unidos (EUA) e Israel contra o Irã, em vez de definir um vencedor claro, parece redesenhar as regras do jogo global, com impactos profundos que vão além do controle direto do petróleo. Acontece que este embate não é simplesmente sobre “quem fica com o petróleo”, mas sobre quem controla as rotas por onde ele passa. E aí, o Irã tem uma poderosa arma assimétrica que é o Estreito de Ormuz.

O Irã controla a margem norte do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo do mundo. No atual conflito, o Irã fechou essa rota, transformando o que era uma ameaça em um bloqueio real. Isso causou um choque imediato nos mercados, com o preço do barril de petróleo disparando em alguns momentos para mais de US$ 100.

Pode-se argumentar que há uma continuidade estratégica dos Estados Unidos desde os anos 1970, quando sua prioridade foi garantir que o petróleo mundial circulasse dentro de um sistema financeiro baseado no dólar. Hoje, além dessa preocupação, existe a de impedir que a China consolide um sistema alternativo de comércio, financiamento e energia capaz de reduzir a influência estadunidense.

Nas últimas duas décadas, a China tornou-se o maior importador mundial de petróleo. Pequim passou a comprar petróleo de países sancionados pelos EUA e pagar parte dessas compras em yuan ou moedas locais. A estratégia de aquisição de petróleo bruto da China é de diversificação, que engloba contratos estáveis ​​de longo prazo com fornecedores tradicionais do Oriente Médio, como a Arábia Saudita, bem como com países sancionados, como a Rússia e o Irã.

Os principais países fornecedores são relativamente estáveis, como Rússia, Arábia Saudita, Iraque, Malásia e Brasil. Em 2025, os 15 principais parceiros comerciais da China forneceram aproximadamente 94% do petróleo bruto importado.

Rússia, Irã e Venezuela, os três países sancionados pelos Estados Unidos, representaram aproximadamente um terço das importações chinesas de petróleo bruto em 2024. A Rússia foi o maior fornecedor individual da China, com importações atingindo 100,72 milhões de toneladas em 2025, representando 17,4%.

As ações dos EUA seguem um padrão geoeconômico claro, com o objetivo de desmontar a rede de suprimentos de petróleo “barato e sancionado” que abastece a economia chinesa. A estratégia não é sobre tomar posse física do petróleo para suas próprias reservas, já que são o maior produtor mundial, mas sim sobre controlar os fluxos e os mecanismos financeiros dessa commodity para usá-la como arma geopolítica.

Por isso, o Irã é a peça-chave que falta neste tabuleiro. Os EUA tentam bloquear petroleiros iranianos na entrada do Estreito de Ormuz, estendendo-se por áreas do Golfo de Omã e do Mar Arábico, por onde passam cerca de 55% do petróleo importado pela China.

Mesmo assim, petroleiros com óleo do Irã continuam driblando o bloqueio naval dos EUA e entregando a commodity na China por meio de frotas fantasmas, táticas de ocultação e até mesmo brechas diplomáticas temporárias.

Fúria Econômica

O Tesouro dos EUA intensificou a “Operation Economic Fury” (Operação Fúria Econômica), por meio de uma série de sanções específicas, mirando diretamente as refinarias independentes chinesas (as “teapot refineries”), que são as maiores compradoras de petróleo iraniano, com o objetivo de sufocar esse comércio. Ao contrário de iniciativas anteriores, esta operação concentra-se em desmantelar as redes financeiras e logísticas que sustentam o comércio de petróleo iraniano, em vez de apenas sancionar empresas individuais.

De modo geral, a “Operação Fúria Econômica” realmente aumentou os custos e a complexidade do comércio de petróleo entre a China e o Irã, impondo pressão operacional a algumas refinarias chinesas. No entanto, seu objetivo principal — a interrupção total das exportações de petróleo iraniano — não foi alcançado.

A China invocou pela primeira vez uma lei contra o cumprimento de sanções estrangeiras que considera ilegítimas, intensificando a reação à decisão dos EUA de sancionar refinarias chinesas por comprarem petróleo iraniano. Também os sistemas independentes de liquidação financeira da China serviram como mecanismos de proteção eficazes, permitindo que o petróleo bruto iraniano continuasse a fluir para o mercado chinês, embora a custos mais elevados e por meio de canais mais discretos.

Como proteção, a China construiu uma enorme reserva de petróleo (mais de 1,4 bilhão de barris) nos últimos anos, o que lhe dá um colchão de segurança para aguentar a pressão e não ceder imediatamente às exigências dos EUA. O país está acelerando sua transição para energias renováveis e veículos elétricos para diminuir sua dependência de importações.

Corredor internacional

O Irã ocupa uma posição central na interseção entre energia, transporte e segurança regional. Por isso, qualquer mudança profunda em seu posicionamento internacional — seja uma aproximação maior com o Ocidente, seja um agravamento dos conflitos na região — teria impactos relevantes sobre os interesses de vários membros dos BRICS, especialmente China, Rússia e Índia.

Possui uma das maiores reservas mundiais de petróleo e gás natural e é um elo geográfico difícil de substituir. Ele conecta Rússia ao Oceano Índico; Ásia Central ao Golfo Pérsico; China ao Oriente Médio e Índia à Rússia através do chamado Corredor Internacional Norte-Sul (INSTC).

A região do Irã é de grande importância estratégica para a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), a Nova Rota da Seda da China, atuando como um elo geográfico crucial e um parceiro fundamental para a concretização dos objetivos da iniciativa na Eurásia. Também serve como porta de entrada natural para a Europa e o Cáucaso.

Para a China, isso se traduz em oportunidades concretas para criar rotas terrestres alternativas, que reduzem a dependência de pontos de estrangulamento marítimos, como o Estreito de Malaca, no sudeste da Ásia, entre a Malásia e ilha indonésia de Sumatra. Iniciativas como a ferrovia que liga a China ao Irã através do Afeganistão e o trem de carga “Qom-Yiwu West” demonstram o esforço para estabelecer uma conectividade que encurta prazos de entrega em comparação ao transporte marítimo tradicional.

Sistemas paralelos

A China e a Rússia, por necessidade e estratégia, estão criando sistemas financeiros e acordos energéticos paralelos para se proteger de um sistema dominado pelos EUA. Portanto, a aceleração de uma nova ordem multipolar já é uma realidade. Para os EUA, a preservação da influência sobre os fluxos globais de energia e a arquitetura financeira internacional se tornou um elemento central da competição estratégica com a China.

Para entender a importância do controle sobre a produção de petróleo do Oriente Médio é preciso analisar dois números: o volume de produção sob influência direta estadunidense e a produção da região que foi retirada do mercado devido ao conflito contra o Irã. O controle sobre a produção do Oriente Médio se manifesta mais pela capacidade de garantir o fluxo do que pela posse direta dos poços.

O conflito e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz tiraram de circulação uma quantidade massiva de petróleo. Em abril de 2026, a produção de países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e EAU foi reduzida em impressionantes 10,5 milhões de barris por dia. Antes do fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, a produção combinada de petróleo bruto da Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos (EAU) era de aproximadamente 20–21 milhões de barris por dia, conforme Agência Internacional de Energia (IEA).

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