Mercado quer redução dos investimentos em bem-estar social

Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

A matéria do jornal inglês Financial Times, publicada nesta semana, “Lula enfrenta um acerto de contas fiscal após o colapso dos mercados brasileiros” (Lula faces a fiscal reckoning after Brazil’s market rout), é exemplar ao mostrar como a mídia corporativa do Ocidente só aceita a receita neoliberal de redução drástica do papel do Estado na economia e de investimentos em áreas sociais, provocando concentração de renda.

Naturalmente, a reeleição à presidência da República de Luiz Inácio Lula da Silva provocou uma reação negativa no mercado financeiro, que esperava a vitória de Bolsonaro e seu “tesouraço”, que previa um ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões anuais em despesas públicas a partir de 2027. O jornal sustenta que a recuperação da confiança dos investidores dependerá de medidas fiscais concretas, e não apenas de declarações do governo.

Esse mesmo conteúdo já foi publicado diversas vezes pela mídia corporativa brasileira. É uma prévia do que o presidente Lula vai enfrentar no seu quarto mandato, depois de uma vitória épica do povo brasileiro contra o fascismo.

Já no pregão seguinte, dia 27, houve uma recuperação parcial: a Bolsa subiu cerca de 1%, o real se valorizou e os juros futuros recuaram. O Índice Bovespa na quinta-feira, 29, mostrava perdas bem mais moderadas do que nas sessões anteriores. Os investidores seguem ajustando as carteiras após o resultado da eleição presidencial. A reação inicial não deve ser confundida com uma tendência econômica consolidada.

A queda dos ativos financeiros nos primeiros dias após a vitória de Lula foi usada pela mídia corporativa como forma de pressão aos rumos da política econômica do governo. Na verdade, o que aconteceu simplesmente reflete os ajustes pela aposta em Bolsonaro, que garantiria o ganho aos investidores.

O ex-governador Tarso Genro (PT) publicou em suas redes sociais “que a razão da queda da Bolsa é que a Faria Lima queria o miliciano do esquema Vorcaro no poder. Porque este ligaria a globalização financeira ‘legal’, regulada em protocolos internacionais, com a ‘globalização’ financeira do crime organizado, do qual a Faria Lima também se aproveita”.  

O Financial Times destaca que as medidas anunciadas durante a campanha eleitoral podem representar aproximadamente R$ 298 bilhões em despesas neste ano, segundo estimativas da Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado. Esse número já foi divulgado exaustivamente pela mídia corporativa brasileira. O governo contesta os cálculos e afirma que todas as medidas adotadas estão dentro do orçamento.

Nacional-desenvolvimentismo

Como a mídia corporativa brasileira, o Financial Times também passa ao largo do programa econômico de Lula, com uma orientação nacional-desenvolvimentista. O governo Lula promete investimento público através da ampliação de infraestrutura e continuidade do Novo PAC; política industrial com o fortalecimento da indústria nacional por meio da Nova Indústria Brasil;  mais crédito com a utilização de bancos públicos, especialmente o BNDES, para financiar investimentos de longo prazo; controle dos nossos recursos naturais; tecnologia através do incentivo à inovação, à digitalização e ao desenvolvimento de capacidades industriais nacionais; valorização do mercado interno, da renda do trabalho e das políticas sociais para sustentar o consumo.

O plano de Lula também prevê a manutenção do arcabouço fiscal. Portanto, não propõe simplesmente abandonar as regras fiscais e financiar qualquer despesa por meio do aumento do endividamento. Não podemos esquecer que o governo federal precisará do Centrão no Congresso para enfrentar o PL.

A matéria identifica elementos fundamentais para uma eventual recuperação da confiança dos investidores, um plano fiscal quantificado, uma equipe econômica considerada confiável, principalmente o ministro da Fazenda, como um sinal importante sobre a orientação econômica do novo mandato. Claro, seguindo os interesses do mercado.

Esse ponto é delicado para o presidente Lula. O governador reeleito no Piauí, Rafael Fonteles, é um nome que desponta na mídia corporativa como possível ministro da Fazenda. Já teve conversas com alguns figurões da Faria Lima, informa O Globo.

Perspectiva dos investidores 

A crítica a reportagem do Financial Times é que apresenta a crise principalmente pela perspectiva dos investidores e dos gestores de recursos financeiros. Essa perspectiva é relevante, mas não esgota o debate sobre a política econômica brasileira. Reduzir despesas não é a única maneira de melhorar as contas públicas.

O resultado fiscal pode melhorar por diferentes caminhos: crescimento econômico, aumento da arrecadação, revisão de benefícios tributários, redução de determinadas despesas e mudanças nas condições de financiamento da dívida.

Essas alternativas têm efeitos diferentes sobre a distribuição de renda, o investimento e o crescimento econômico. A própria reportagem reconhece a importância de melhorar a arrecadação, embora dê grande destaque à necessidade de cortar gastos.

Isso não significa que os problemas fiscais sejam imaginários. Significa que é preciso separar os desequilíbrios efetivos das contas públicas da reação dos investidores a uma mudança nas expectativas políticas.

O Financial Times argumenta que a expansão fiscal do governo contribuiu para a manutenção de juros elevados. Essa é a interpretação dos analistas ouvidos pelo jornal, não uma demonstração de que a política fiscal seja a única causa dos juros brasileiros.

O pagamento de juros transfere recursos do orçamento público aos detentores de títulos da dívida, entre os quais estão instituições financeiras, fundos de investimento, fundos de pensão e outros investidores. Esse custo pode limitar a capacidade de financiar infraestrutura, saúde, educação e políticas industriais.

Por outro lado, reduzir os juros sem considerar as expectativas econômicas e as condições monetárias também pode produzir problemas. O desafio é compreender os fatores que mantêm as taxas brasileiras elevadas e avaliar como reduzi-las de forma sustentável.

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