Temas centrais como dívida pública, taxa de juros, equilíbrio fiscal e o papel do Estado — seja seu fortalecimento ou redução — ajudam a esclarecer aquele eleitor indeciso como cada candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição, e Flávio Bolsonaro (PL), pretende atuar caso seja eleito.
O presidente Lula quer fortalecer a capacidade de planejamento e indução do Estado como o motor principal do desenvolvimento socioeconômico e soberano do país. Já Flávio Bolsonaro propõe a redução do Estado através de privatizações e concessões, menor necessidade de capital público, com o setor privado assumindo a maior parcela do investimento.
Diante de um cenário histórico de desigualdade e carências estruturais do Brasil, setores de menor renda dependem exclusivamente de redes públicas universalizadas, como o SUS para saúde e as redes estaduais e municipais para o ensino básico. A redução de verbas ou a privatização dessas áreas vai restringir o acesso a direitos básicos.
Sem programas de transferência de renda (como o Bolsa Família) e uma tributação progressiva coordenada pelo Estado, os mecanismos de mercado tendem a perpetuar a disparidade entre as classes sociais com o agravamento da concentração de renda.
Lula propõe manter a regra de reajustes do salário mínimo com aumentos reais para trabalhadores, aposentados e beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Já Bolsonaro ameaça desvincular o piso das aposentadorias e do BPC dos reajustes reais do salário mínimo.
Petróleo e terras raras
Tem, ainda, questões que envolvem diretamente a soberania nacional. Bolsonaro promete privatizar 95% das empresas estatais brasileiras. A campanha de Flávio já sinalizou que vê com bons olhos a venda de ativos da Petrobras. Defende também que o Brasil deve “estabelecer parcerias estratégicas” com os Estados Unidos para a exploração e o processamento de minerais críticos e terras raras.
Em 16 de setembro passado, o presidente Lula sancionou a lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, vinculando o setor diretamente à soberania nacional e ao desenvolvimento da cadeia produtiva no país. Prometeu uma Petrobras mais forte, recuperando refinarias e voltando a atuar na distribuição de combustíveis, com o governo tendo mais condições de controlar os preços dos combustíveis nas bombas e, consequentemente, a inflação.
O alinhamento de Bolsonaro aos Estados Unidos (EUA) é de submissão, no momento que o governo do presidente dos Estados Unidos Donald Trump estabelece a National Security Strategy (NSS 2025), a Estratégia de Segurança Nacional do país. A NSS 2025 reafirma uma versão modernizada da Doutrina Monroe, com um “Corolário Trump” que coloca o Hemisfério Ocidental, que inclui as Américas do Sul, Central e do Norte, como prioridade central para os EUA. Como prioridade entenda-se controle de suas riquezas.
A preocupação estadunidense tem uma causa: O Brasil liderou o ranking global de aportes da China em 2025, somando US$ 6,1 bilhões (um aumento de 45% em relação a 2024), segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), envolvendo 52 projetos, distribuídos por 20 dos nossos 27 estados. Isso corresponde a 11% de todo o capital chinês investido no exterior, à frente dos Estados Unidos. Os números mostram a importância econômica e geopolítica da China na América do Sul, chamada de “Quintal dos Estados Unidos”.
Dívida e juros
O “Tesouraço” é o termo utilizado por Bolsonaro e por sua equipe econômica para batizar o plano de redução de gastos públicos e enxugamento da máquina estatal. O programa diz expressamente que pretende obter superávits primários, reformular as regras fiscais e estabilizar a dívida “no menor prazo possível” e assim reduzir a taxa básica de juros. Para conseguir o superávit necessário, o governo precisará cortar despesas ou aumentar receitas. E é justamente aí que o programa de Bolsonaro é menos explícito.
Seu projeto é semelhante ao que provocou recessão e forte retração econômica na Argentina no mandato do presidente Javier Milei. Essa situação de miséria decorre diretamente da aplicação de um plano de “choque fiscal” radical que Milei gritava aos quatro ventos com uma motosserra não mão como se fosse uma metralhadora.
Equilíbrio fiscal
Já o programa de Lula também reconhece a necessidade de equilíbrio fiscal, mas procura combinar isso com investimentos públicos, em infraestrutura, reindustrialização, mais crédito e política industrial. Lula defende que o Estado deva utilizar bancos públicos, como Caixa Econômica, Banco do Brasil e Bndes, para alavancar investimentos e capacidade produtiva, que provoquem crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e redução da dívida.
O que é preciso levar em conta é que os juros representam aproximadamente 93% do déficit nominal, que inclui a inflação. Ou seja, o problema não é apenas o déficit primário, quando os gastos do governo superam a sua arrecadação, pois a conta de juros é enorme. E os juros elevados não apenas aumentam o déficit do ano, mas também o estoque da dívida, sobre o qual incidirão juros posteriormente. Isso cria uma dinâmica de efeito bola de neve.
Mesmo que o governo consiga um resultado primário de 0% do PIB, na tentativa de equilibrar suas contas, a dívida pública ainda pode continuar crescendo em relação ao PIB. Simplesmente porque o governo estaria pagando muito mais juros do que o crescimento da economia consegue “diluir”. Portanto, zerar o déficit não é suficiente.
Além disso, provocará uma enorme transferência de recursos do orçamento para os detentores de títulos públicos, que são em sua imensa maioria bancos e grandes fortunas. Ou seja, mesmo fazendo um enorme esforço fiscal para produzir superávit primário, o governo ainda precisa se financiar porque os juros são maiores que o superávit.
Se a taxa real de juros permanecer muito elevada, o esforço fiscal necessário será enorme. Por exemplo, com um PIB nominal de aproximadamente 5% ao ano e juros nominais médios da dívida de 10%. O diferencial é aproximadamente cinco pontos percentuais. Com dívida de 82,5% do PIB, esses números exigem um superávit primário próximo de 4% do PIB, cerca de R$ 532 bilhões, apenas para estabilizar a dívida. O que exige, na prática, conter despesas correntes e frequentemente sacrificar investimentos públicos para gerar economia de caixa, com um risco real de provocar um processo recessivo semelhante ao que acontece na Argentina.
E é exatamente aqui que a discussão deixa de ser apenas “gasto público versus austeridade”, como defende Bolsonaro. Ela passa a ser qual combinação de juros, crescimento, superávit primário e distribuição da renda permitirá estabilizar a dívida sem estrangular o investimento e o crescimento, exatamente o projeto nacional desenvolvimentista de Lula.


