Algumas Notas de Política – contribuições à leitura do contemporâneo

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Sonia Mara M. Ogiba*
Perplexos pelo avanço nos últimos tempos na política brasileira de movimentos conservadores de direita, nos campos da cultura e da educação, movimentos esses movidos por uma onda crescente de ódio e intolerância para com as diferenças de toda ordem, e pela recusa de valores históricos, somos instados a dar um lugar para nossa angústia pela via da palavra, e do pensamento. Por que as palavras e o pensamento?
As palavras são nossas “metralhadoras”, como já nos transmitiram escritores e poetas, em todas as épocas, lembrando apenas dois, Mallarmé, no século XIX, ou Pier Paolo Pasolini, no século XX.
Pasolini, nascido em 1922 e morto em 1975, está próximo dos que buscaram não se deixar cegar pelas luzes e holofotes dos movimentos contemporâneos de cunho fascista, crescentes não somente no Brasil, no Mundo, mas em escala planetária. É inevitável não se lembrar de Pasolini, poeta, romancista, italiano. Além de crítico de arte e de literatura, foi jornalista, teatrólogo, cineasta. Sua Italietta (Italinha, no diminutivo carinhoso), nos últimos anos de sua vida, era uma Itália anacrônica, provinciana, racista, discriminatória. Ele por ser alguém que lê o seu tempo com uma agudeza critica impressionante está entre aqueles que são tidos como diagnosticadores dos tempos que viriam. Soube como poucos “identificar os sinais de mudanças no mundo e buscar respostas novas, na condição de homem, artista e pensador”.
E o pensamento? Bem, evocaremos Hanna Arendt, na leitura que faz George Didi-Huberman, para lembrar com ela a necessidade de que a atividade do pensamento seja diagonal em relação ao passado e ao futuro. Ao situar o pensamento enquanto força diagonal, e não como fechamento sobre si mesmo, esse não se separa da ação, da potencia da contestação, sendo sua direção determinada pelo passado e pelo futuro.
Ainda na leitura realizada por Didi-Huberman, podemos encontrar em sua tocante obra chamada Sobrevivência dos Vaga-lumes, uma tal resistência do pensamento, como também dos signos e das imagens a isto que Walter Benjamin refletiu acerca da “destruição da experiência” na Modernidade. Destruição que não significa destruição simplesmente, diz Didi-Huberman, mas uma paradoxal ressurgência, e que Hanna Arendt parece ter expressado magnificamente em “Da humanidade em tempos sombrios”, um elogio a Gotthold E. Lessing, poeta, dramaturgo e filósofo alemão no século XVIII, ao afirmar que “essa liberdade de fazer aparecerem os povos apesar de tudo, apesar das censuras do reino e das luzes ofuscantes da glória”.
Mas é também na associação feita com Sigmund Freud, em sua Traumdeutung – A interpretação dos sonhos, de 1900, que Didi-Huberman ilustra, quer a não “destruição da experiência”, quer a “força diagonal” do pensamento, em sua faculdade de fazer aparecer o desejo como o indestrutível por excelência. Nas palavras freudianas: “esse futuro, presente para o sonhador, é modelado, pelo desejo indestrutível, à imagem do passado”.
É, pois, essa faculdade de fazermos aparecer o desejo como indestrutível, nas palavras de Didi-Huberman, e de nos imbuir diuturnamente de um espírito diagnosticador do nosso tempo, na esteira dos pensadores que mencionamos acima (e de muitos outros, pois exemplos não faltariam em todas as culturas e épocas), que podemos observar se erguerem em nossas sociedades contemporâneas, movimentos de reação e de resistência ao avanço dos assim chamados regimes políticos de exceção, aos ataques a democracia e aos direitos humanos, a emergência da discriminação social e cultural, aos fundamentalismos, e as explicitas tentativas de se rasgar a Constituição Brasileira nos últimos acontecimentos do mês de abril do corrente ano.
No entendimento do filósofo italiano Giorgio Agamben, em Meios sem fim – notas sobre a política, ensaios do ano de 1995, portanto, reflexões de quase três décadas atrás, está para ser realizada diante dos nossos olhos, onde quer que seja, a “grande transformação” na direção do Estado espetacular integrado, já apontado por Guy Deboard, nos anos de 1967, e ao “capital-parlamentarismo”, proposto por Alain Badiou, vindo a constituir o estágio extremo da forma-Estado.
Agamben que faz o alerta acima, ainda nesse ensaio de 1995 avança na compreensão de que “a política contemporânea é esse experimento devastador, que desarticula e esvazia em todo o planeta instituições e crenças, ideologias e religiões, identidades e comunidades, para voltar depois a repropor a sua forma definitiva nulificada”.
Buscamos em outro ensaio do mesmo pensador, ensaio dos anos de 2006-2007, chamado de O que é o contemporâneo?, algo que a nosso juízo tem potência para fazer operar em nós todos que acreditamos naquela força diagonal do pensamento e na indestrutível força do desejo, antes mencionada, uma terceira força que a essas se entrelaça, a do “sentido de uma ação”, ainda na esteira de Hanna Arendt. Esse sentido “só é revelado quando o próprio agir (…) se tornou história narrável”.
Vejamos essa terceira força – a do sentido do nosso agir – na reflexão que faz Giorgio Agamben no ensaio O que é o contemporâneo?:
“(…) Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente. Mas o que significa “ver as trevas”, “perceber o escuro”?
Eis, então, uma exigência da nossa atualidade: Instrumentalizar-nos na percepção do escuro do nosso tempo. De que maneira? Reflete Agamben: exercitando nosso olhar na escuridão, mergulhando a pena nas trevas do presente. Um agir, certamente, na linha do que Hanna Arendt aponta, ou seja, quando nosso próprio agir se torna história narrável.
Acrescentaríamos, ainda, que esse mergulhar a pena nas trevas do presente, implica também um “pensar” com os ouvidos, em virtude de que aí ressoam “vozes da humanidade”.
Assim, seguindo na diretriz que nos sugerem Agamben e Didi-Huberman, nos recortes que fizemos uso nesse texto estamos na urgência de um “fixar o olhar” no nosso tempo – experimentação que Agamben vê no gesto e na escrita do poeta, em um desenvolvimento minucioso que faz no ensaio O que é o Contemporâneo? tendo por mote o poema de Osip Mandelstam – Vek (O século), do ano de 1923 –, como um modo de agir no presente para que apareçam as palavras, e as imagens, em suas ressonâncias com a temporalidade impura do desejo. Ou ainda, interrogar as “Luzes do poder versus lampejos dos contrapoderes”, como em Didi-Huberman, inspirado na “pequena luz” (lucciola) dos pirilampos, dos vaga-lumes.
* Professora da UFRGS, Membro da APPOA – Associação Psicanalítica de Porto Alegre e do Instituto APPOA – clinica, pesquisa e intervenção

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