Jornal GGN – Ontem o GGN publicou uma informação que consta no relatório da última pesquisa Datafolha, indicando que o instituto nunca usou as pedaladas fiscais para saber do povo se Dilma Rousseff merecia sofrer o impeachment. O que o Datafolha usava como justa causa era a Lava Jato: perguntava se a corrupção entre empresários, agentes públicos e políticos era motivo para afastar a atual presidente. Esse dado nunca foi explicitado por Folha e talvez justifique o desinteresse do jornal quanto à fragilidade da tese de que Dilma cometeu crime fiscal [leia maisaqui].
Agora, descobre-se que a Folha escondeu mais uma pergunta importante de seus eleitores, cujo resultado renderia a seguinte manchete: 62% dos brasileiros apoiam novas eleições. Ao invés disso, Folha reportou, no domingo (17), que 50% preferem Michel Temer no poder.
Como se já não bastasse a manipulação da pergunta que foi escolhida por Folha para legitimar Temer (o entrevistado do Datafolha só teve duas alternativas à pergunta “O que é melhor para o País: Dilma voltar ou Temer ficar”), o relatório divulgado ontem também havia passado por censura. Não constavam as perguntas que retratavam com menos parcialidade a atual crise política. O conteúdo só veio à tona após o Tijolaço encontrar os dados no servidor do Datafolha e o jornal ser pressionado pela imprensa a explicar a fraude.
O que a Folha escondeu dos leitores?

O Datafolha perguntou, a pedido da Folha (foi o jornal que selecionou as perguntas): “Uma situação em que poderia haver novas eleições presidenciais no Brasil seria em caso de renúncia de Dilma e Temer a seus cargos. Você é a favor ou contra Temer e Dilma renunciaem para a convocação de novas eleições para a Presidência ainda neste ano?”
Aqui, 62% disseram ser a favor, 30% contra, 4% indiferente e 4%, que não sabem.
Segundo o El País, Sérgio D’ávila, editor-executivo da Folha, disse que deixou de publicar essa informação porque não exergou relevância nela. “(…) é prerrogativa da Redação escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa. O resultado da questão sobre a dupla renúncia de Dilma e Temer não nos pareceu especialmente noticioso, por praticamente repetir a tendência de pesquisa anterior e pela mudança no atual cenário político, em que essa possibilidade não é mais levada em conta.”
Se a renúncia de Temer e Dilma não é mais levada em conta, por que a Folha inseriu essa pergunta no questionário levado às ruas entre 14 e 15 de julho?
Outra dúvida foi levantada por Fernando Brito, do Tijolaço: “Sérgio D’Ávila não diz, porém, que este arquivo [o relatório do Datafolha] está sendo linkado somente agora, depois que veio a público, no início da noite [de quarta, 20], por este blog e por outros, o arquivo escondido nos servidores do Datafolha. Mais de duas horas depois de revelado o escândalo é que isso foi feito”.
Segundo o novo relatório, a realização de uma nova eleição tem mais apelo entre os jovens de 16 a 24 anos (68% favoráveis) e na faixa de 25 a 34 anos (também 68%). Entre aqueles que consideram o governo Temer ótimo ou bom, 50% são a favor de nova eleição, e 44%, contra.
Sobre o impeachment
O Datafolha também aferiu, sem o interesse noticioso do jornal, se o processo de impeachment de Dilma corria, na visão dos entrevistados, respeitando as regras democráticas e a Constituição. Aqui, 49% disseram que sim, outra parcela de 37% disse que não, e 14% não souberam avaliar.

O líder do PT no Senado, Humberto Costa, disse que é “evidente que esses dados divulgados em pesquisas de opinião estão distorcidos, manipulados, com a finalidade de favorecer Temer e os setores que o apoiam. (…) É uma forma de tentar convencer os senadores de que a opinião pública está com o golpista e que, em razão disso, seus votos devem ser contra Dilma. Mas, a partir dessas denúncias, estamos vendo que nada é mais irreal do que essa tese.”
Dilma precisa do apoio de 28 senadores para vencer o impeachment na votação final, que deve ocorrer na segunda quinzena de agosto. O Planalto e a equipe da presidente afastada trabalham para conquistar o apoio dos senadores. Pela primeira votação (admissibilidade do impeachment) no Senado, Dilma precisa conquistar seis votos além dos 22 que já tinha. O senador Randolfe Rodigues (Rede) disse, na semana passada, que Dilma tem um universo de 9 senadores indecisos para trabalhar, e que 6 deles já estariam “inclinados” a ajudá-la. Mas a vitória da presidente está associada justamente à ideia de voltar ao poder e propôr, com consentimento do Congresso e do povo, novas eleições.
Autor: comite
Folha escondeu que 62% querem novas eleições por não ver "relevância"
Greenwald acusa Folha de SP de fraude em pesquisa

Glenn Greenwald | Foto: AP Photo/Kin Cheung
O premiado jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que mora no Rio de Janeiro, publicou em sua coluna no site The Intercept uma análise fria e sem filtros dos dados da pesquisa divulgada pela Folha de São Paulo neste final de semana, referentes a opinião dos brasileiros em relação à situação política e econômica brasileira.
Greenwald acusa a Folha de SP de distorcer os dados e critica a manipulação editorial dos resultados.
Confira o artigo completo aqui.
Conjuntura política e cena vindoura
Róber Iturriet Avila – Doutor em Economia, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística.
Dilma Rousseff sofreu uma derrota enorme e não tem como retomar seu governo. Ainda que o Ministério Público Federal proponha o arquivamento das ações de “crimes de responsabilidade”. Houve, na verdade, uma derrubada do poder de uma classe por outra. As “classes populares” que vinham perdendo espaço dentro do próprio governo Dilma foram completamente desalojadas. Tal alteração foi viabilizada por uma série de descontentamentos da opinião pública, não cabe aqui detalhar profundamente. No congresso nacional, os conservadores, os milionários e seus representantes estão com maioria absoluta. A população, adormecida e paulatinamente emburrecida, naturalizou o processo.
Em pouco mais de dois meses o governo Temer mostrou claramente a que veio: privatizações, perda de direitos sociais e trabalhistas, enxugamento do Estado, ou seja, das políticas públicas como saúde, educação e assistência social. O salário mínimo pode ter uma variação negativa em 2017 após mais de 20 anos crescendo. O governo propôs congelamento de gastos (ou seja, de serviços públicos) para os próximos 20 anos. Foi proposta a elevação da idade mínima de aposentadoria para 70 anos a partir de 2036. Como descalabro final, em forma de chacota, aparece uma notícia de jornadas de trabalho de 80 horas semanais. E é claro, tudo isso ao tempo em que é abafada toda a bandalheira que existe no Brasil desde 1500, alterando as leis anticorrupção e colocando engavetadores nos postos-chaves.
Tudo leva a crer que após a derrubada definitiva, essa aliança entre os conservadores, os financistas, os milionários, grupos evangélicos e midiáticos destruirá também o que restará de povo no poder: a constituição de 1988. Eles querem tornar o País mais “competitivo” (lucrativo!) e atropelar a distribuição de renda feita pelo Estado, viabilizar terceirizações em massa, a qual reduzirá de forma rápida o salário médio. Ampliar a jornada de trabalho e jogar a aposentadoria para o além-túmulo. Sucatear e precarizar as políticas públicas que restarem com um congelamento por 20 anos consecutivos.
Na cena internacional, um claro alinhamento aos Estados Unidos e um afastamento dos BRICS e dos países da América Latina. Em paralelo, a intenção de privatizar o petróleo do pré-sal, reduzindo ou restringindo ao máximo os repasses desses recursos a fins sociais. Todo esse processo apequenou o Brasil no cenário externo, a tal ponto de ser visto como uma região sem civilidade e sem respeito à democracia, “a Turquia não é um país da América Latina” para ter um golpe de Estado.
O projeto de lei “escola sem partido” é uma tentativa de ideologizar as crianças desde sempre, como já são, mas agora sem permitir o contraditório e o acesso a outras interpretações da realidade que não as hegemônicas. Banir visões que contestam o que está posto e criticam a organização social, política e econômica. Isso é uma restrição de liberdade de expressão em lei! Eles querem robôs que não pensam!
A notícia de sexta-feira, de um professor universitário expulso de forma sumária do Brasil por ter sido condenado na França é no mínimo estranhíssima. Podemos estar assistindo o início da perda de direitos civis no Brasil.
Temo que os dias à frente sejam mais cinzas.
Parte superior do formulárioDesmonte do Estado ameaça as próximas gerações
Eduardo Maretti
Da RBA
A Plataforma Política Social e o Le Monde Diplomatique Brasil promoveram na noite de segunda (18), em São Paulo, o seminário “Austeridade Contra a Cidadania: O Desmonte do Estado Social”, em que se discutiu a conjuntura política do país com o governo interino de Michel Temer e as implicações de sua política na sociedade. Participaram do debate o ex-ministro da Saúde (2007 a 2010) José Gomes Temporão e os economistas Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e Sérgio Haddad. A mediação foi do também economista Eduardo Fagnani, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Segundo os analistas, o país passa por grave momento político-institucional e a supressão de direitos e conquistas ameaça seriamente as próximas gerações. Temporão falou da gravidade do cenário a partir da visão do governo interino, segundo a qual é preciso diminuir os gastos com saúde, de acordo com o princípio de que “não cabe no orçamento”. No Brasil, 52% dos gastos com saúde são de origem privada, enquanto 48% vêm do setor público. Na Inglaterra, 85% dos gastos são públicos.
“Deveríamos estar como a Inglaterra. Para isso, deveríamos ampliar os gastos públicos, mas vai-se diminuir. O setor conservador vê a saúde como um gasto. A distorção que já existe vai ser ampliada se as propostas do governo forem implementadas”, disse Temporão.
Ele lembrou que o ministro interino, Ricardo Barros, propõe “planos de saúde baratinhos para desafogar o SUS”. “Não satisfeito, disse que a maioria dos pacientes imaginam que estão doentes. Enquanto isso, para usufruir de um plano de saúde do Senado, basta exercer o mandato por 180 dias. O país vive um sistema de castas.”
Na sexta-feira (15), Barros disse que o brasileiro tem uma cultura de fazer exames desnecessariamente e que a maioria dos pacientes “imagina” doenças, aumentando os gastos públicos.
Temporão destacou ainda a agenda liderada por parlamentares da bancada BBB (bala, boi e bíblia) no Congresso. Hoje, há cerca de cinco dezenas de projetos de lei que buscam destruir os direitos alcançados e impedir a conquista de novos. Ele citou propostas “pelo porte de armas, restrições ainda maiores sobre a legislação medieval que temos sobre o aborto, aniquilação do SUS, revisão da Lei Maria da Penha, aprovação de ‘Escola sem Partido’”, entre outras. “É uma agenda muito preocupante da direita ou extrema-direita”, afirmou.
Na educação, as perspectivas não são menos sombrias, segundo a palestra de Sérgio Haddad. Segundo ele, o país volta a uma aliança já conhecida no Ministério da Educação, formada pelo PSDB e DEM.
A privatização volta a ser uma diretriz de Estado, o que pode ser observado em textos publicados pela imprensa. Ele mencionou artigo de Alexandre Schneider, ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, na gestão de Gilberto Kassab, que, na semana passada afirmou no jornal Folha de S. Paulo: “Chegou o momento de discutir com a sociedade brasileira a cobrança de mensalidade nas universidades públicas”.
Por trás dessa sugestão, a ideia é desmontar um sistema educacional sistêmico e universal, “focando” em uma área em detrimento do todo. No caso, a justificativa de cobrar mensalidades na universidade pública seria a de que o Estado precisa ter dinheiro para o ensino básico. “Essa lógica que predominou no governo Fernando Henrique Cardoso deve se impor em época de restrição orçamentária. Vamos viver um tempo de ‘focalização’ e se pode ver isso nos debates colocados na mídia” disse Haddad. “Estamos vendo uma crescente presença do setor privado nas estruturas que definem as políticas de educação.”
Ao lado das questões econômicas, há hoje no país a preocupante escalada censória e ideológica, simbolizada pela proposta Escola sem Partido, que se alastra por legislativos municipais, estaduais e federal. Fora todas as consequências na educação, “o ministério e as secretarias contarão com organismos de delação”, disse Haddad, em referência ao artigo 8° do PLS 193/2016, que tramita no Senado, e prevê: “O ministério e as secretarias de Educação contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento desta lei, assegurado o anonimato”.
Economia
Já Sérgio Gobetti, do Ipea, teceu uma série de críticas à condução da política econômica não apenas pelo governo Dilma Rousseff, mas também pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, o Brasil é um dos poucos países do mundo que não tributam dividendos para acionistas que recebem transferências de lucros, e os governos petistas não enfrentaram a situação. “Passamos 12 anos de governo sem enfrentar isso e nem mesmo colocar no debate.”
De acordo com Gobetti, o grupo dos muito ricos do país é formado por 70 mil pessoas que receberam, em média, R$ 4 milhões, cada um, por ano, e pagaram 6% sobre esse valor. O grupo de pessoas da alta classe média, formado por quem ganha de R$ 200 mil a R$ 300 mil por ano, desembolsa 12% em média. “A alta classe média vive de salários, que é tributado pelo Imposto de Renda, enquanto os muito ricos vivem de aplicações financeiras ou de dividendos. Isso é algo escandaloso.”
Segundo os dados disponíveis, esses 70 mil contribuintes concentram pouco menos de 25% da riqueza no país. “Não existe paralelo no mundo de países que disponibilizam estatísticas como essas”, disse Gobetti.
Ele criticou também algumas políticas econômicas e opções dos governos petistas, como “a obsessão em não fazer nada que contrariasse o mercado”. Um dos equívocos, segundo ele, foi a desoneração da folha, pela qual o governo pretendeu incentivar o crescimento. “A desoneração começou na indústria, se estendeu para o turismo, aos hotéis, bares e restaurantes, comércio varejista e construção civil. A cereja do bolo foram os meios de comunicação. A Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV), comandada pela Rede Globo, foi lá, pediu e levou.”
Segundo Gobetti, a desoneração da folha, que o governo decidiu fazer em 2011, quando a indústria estava muito fragilizada, principalmente pela concorrência chinesa, custou R$ 25 bilhões por ano para o governo.Afinal, o que é o Brasil?
Paulo Timm – Economista
A pergunta é meio poética – senão patética – e foi Drummond quem a formulou, indiretamente, num poema quando se indagava:
“Os brasileiros, por acaso, existem?”
Tempos depois Renato Russo a lançava de novo no seu famoso
“Que país é este?”,
de tanta repercussão nos anos 80/90.
Na verdade, o tema é pertinente e tem acompanhado os grandes intérpretes do país desde os proféticos sermões do Padre Vieira, em meados do Século XVII , passando pelo cético José Bonifácio, o Patriarca da Independência, dois séculos depois. Não vou entrar em detalhes sobre cada uma dessas abordagens, muitas delas já clássicas, mesmo com eventuais reparos, como as dos autores citados mais as obras modernas de Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr, Gilberto Freire, Celso Furtado e Raimundo Faoro, dentre outros. Apenas chamar a atenção sobre alguns pontos que roçam a conjuntura levando-nos a refletir sobre os próximos anos.
Começo pela demografia. Contrariamente ao México, que tinha uma população nativa em torno de 10 milhões de nativos – ou o dobro disso (?) – , grande parte reunida em habitats urbanos, quando o colonizador chegou, o Brasil teria, no máximo 6 milhões de índios dispersos em aldeias ao longo de um imenso território. Destes, metade, segundo Vieira, teria sido dizimada no primeiro século da colonização. Com os que restaram, mais os escravos trazidos da África e pouquíssimos brancos, num total pouco maior de 3 milhões de pessoas, chegamos à Independência, em 1822. Naquela época Porto Alegre, recém elevada a cidade, tinha apenas 5 mil habitantes. O Rio Grande um portal de solidões. Com isso iniciamos a construção da Nação brasileira. Em 1900 já éramos pouco mais de 14 milhões. No ano 2000 chegávamos a perto de 200 milhões, 85% vivendo em grandes cidades. Um espetáculo. Só para comparar, o México tinha 122 milhões em 2013. Como realizamos este verdadeiro milagre de multiplicação de almas? Com o Brasil : Uma sociedade extremamente autoritária e segregacionista, mas que, apesar de tudo, consegue isto que o Darcy Ribeiro chamava de incrível fazimento de gentes, à base da farinha de pau, comendo daí o pão que o diabo amassou. Nele entraram impulsos de forte crescimento vegetativo e de capturação de alguns fluxos imigratórios, sobretudo de São Paulo para o sul, o que nos tornou muito diferentes do resto. Não incorporamos nenhum território ou povo colonizado. Fizemo-nos. Mestiços. Bastardos. Tropicanos.
Dois momentos contribuíram decisivamente para este salto demográfico, ambos ligados ao desempenho da economia: 1. o grande surto do café, que deixou no seu rastro a ocupação do Vale do Paraíba e dos vales a oeste de São Paulo, além da vigorosa infraestrutura urbana de sustentação do comércio deste produto, tanto no Rio de Janeiro como entre Santos e a cidade de São Paulo; e 2. O longo período de substituição de importações que assegurou uma taxa continuada de crescimento do PIB entre 1932 e início dos anos 80 na ordem de 6,5% ao ano, transformando-nos numa das mais sofisticadas estruturas industriais do planeta, responsável por nos colocar entre as 10 maiores economias do mundo.
Estes processos econômicos permitiram a organização, no primeiro momento oligárquica, no segundo, dita populista, quase sempre autoritária, do Estado brasileiro, com o que assegurou-se a “ordem e o progresso” indispensáveis à sua legitimação. Nem o capitalismo, muito menos a democracia, como nos ensinam vários estudiosos, nascem e se desenvolvem graças aos elevados valores do humanismo implícito na filosofia que os sustenta. Quase sempre são frutos de rupturas institucionais, revoluções e até guerras. Nosso capitalismo e nossa democracia emergiram das violências vividas pela Nação no século XX, no meio das quais erguemos clamores de mudança e de liberdade, quase sempre sufocados.
Foi, contudo, no meio deste processo que se estratificou a sociedade brasileira, nas entranhas de uma modernização autoritária que formou gerentes e administradores com a função de cumprir o destino de um país prometido sempre para o futuro, embora de presente dinâmico mas seletivo. Com uma economia diversificada, uma estrutura de ocupação do espaço também dispersa, criamos uma classe média vigorosa, ao longo do século XX, como, talvez, nenhum outro país da América Latina o tenha feito. A dinâmica inter- setorial da economia, porém, não exigiu que esta classe média acompanhasse os modelos mais orgânicos do capitalismo central, onde à produção em massa seguia-se um consumo interno também em grande escala. No primeiro surto de expansão, nossa economia era primário exportadora e, no limite, realizou a transição da mão de obra escrava para o trabalho assalariado, do qual emanará, na decadência do café uma sociedade mais diversificada. No segundo surto, mais longo, o produto final da substituição de importações dificilmente era acessível aos próprios trabalhadores, mantendo-os à margem de sua expansão.
Temos , assim, uma elite econômica globalmente articulada e altamente concentrada, em torno de 10.000 famílias, assentadas em 250 conglomerados multinacionais, grandes empresas de serviços, sobretudo bancos, engenharia e comércio, ao que se soma o complexo do agrobusiness, dificilmente chegando esse número a 0.5% da população total do país, uma classe média poderosa, com nível de renda e informação internacional, que lhe segue os passos, não inferior a 40 milhões de pessoas, que correspondem aliás, aos usuários de Planos de Saúde (!), e o “povo em geral”, mais da metade da população, dos quais 80 milhões ganham até R$ 500 reais por mês, 8 milhões nem isso, estão na miséria absoluta, 28 milhões ganham salário mínimo, outro tanto pensões com este valor. E fim. Saímos, na Era Petista do Mapa da Fome, mas continuamos com outras fomes…
O resultado deste processo projetou-se no nosso sistema político, já viciado na origem colonial, pela outorga a cidadãos leais à Coroa Portuguesa o privilégio do exercício das funções públicas. Isto rompeu-se , claro, com a Independência, mas moldou-se às exigências da Boa Sociedade escravocrata criando as bases do coronelismo que viria a dominar a vida pública do país mesmo sob a República. Vargas, depois de 30 rompeu o modelo coronelista vinculado à propriedade da terra, mas o substitui por outro ligado ao próprio Estado, que , por sua vez tratou de criar os laços para sua perpetuidade nas respectivas regiões.
A consequência foi um arcabouço institucional formal, sobreposto à própria cidadania, aliás, só maciçamente presente no processo eleitoral depois da Constituição de 88. A exceção a esta regra foi o antigo PTB, de base urbana, com epicentro no Rio de Janeiro e uma sólida ramificação no Rio Grande do Sul, por razões peculiares deste Estado, de resto, berço de Vargas. No resto do Brasil, o mundo político se dividia entre a velha oligarquia rural oriunda ainda do período colonial, com suas práticas descritas por Vitor Nunes Leal em “Coronelismo, Enxada e Voto”, geralmente ligada a UDN e uma nova oligarquia, pós 30 , resultante das intervenções de Vargas nos Estados e que se identificava com uma vaga ideologia modernizante que lhe correspondia. Esta, porém, nunca aderiu ao PTB. Ficou leal, à margem. Acabou, em 64 apoiando o golpe militar, mas optou por ficar no MDB, do “Partido do Não”, até por incompatibilidades pessoais com os oligarcas da ARENA. Na abertura política esta gente toda desembarcaria no PMDB, dando-lhe uma rara vertebração nacional e expressiva capacidade de representação.
Com a Constituição de 88, aliada à nova configuração das populações mal acomodadas nos subúrbios das grandes metrópoles, com baixos salários e péssima oferta de serviços públicos, criou-se uma novo horizonte de massas na vida pública do país. O povo começou a votar e se organizar para ser votado. O PT soube recolher esta realidade e construir-se hegemonicamente sobre a sociedade brasileira nas eleições de 2002. Tinha, porém, pela frente a dura tarefa de associar esta hegemonia à governabilidade, contando, para tanto com o universo político disponível, com grande fragmentação de partidos e com a sombra do PMDB sobre seu Governo. Funcionou tudo muito bem, durante um tempo. Até que a crise econômica trouxesse no seu bojo a verdadeira realidade: um país com uma imensa maioria de gente muito pobre aglomerada nos arredores das grandes metrópoles, sem definições claras no campo do desenvolvimento econômico, numa economia global cada vez mais competitiva e financeirizada, com um Estado depauperado pelo pagamento de juros. Foi o que bastou para a desestabilização.
Cumpre , agora, saber o que fazer? Quais os cenários disponíveis até o final do ano? Quais as perspectivas da esquerda e do PT nas próximas eleições municipais? Como retomar as iniciativas políticas num cenário marcado pelo divórcio com um aliado estratégico de grande poder político e eleitoral e grande afastamento da classe média? Como reorganizar o espaço da esquerda e seus novos protagonistas diante do colapso do PT, cuja profundidade ainda é insondável? Como proceder, enfim, diante da mudança eventual da conjuntura, já advertida com a eliminação de Eduardo Cunha do comando do Centrão e, certamente, mais acentuada depois do desfecho do impeachment, para a reconstrução da esperança num futuro democrático?Escola sem partido
Gilmar Zampieri
Professor de filosofia
Já foi dito e escrito tanto sobre a escola sem partido que, talvez, nada mais pode ser dito de novo. Mas a forma de dizer nunca se repete e por isso, por que não, cada um tentar livremente dizer da sua forma?
Minha percepção é de que esse tema pode ser dito em 5 pontos:
1-Dos propositores: Quem propõe o debate e até possíveis leis inibindo, coibindo e punindo professores que, supostamente doutrinam seus alunos, são pessoas bem conhecidas na cena pública brasileira, alguns são vereadores e/ou deputados, que têm em sua biografia posições marcadamente conservadoras e de direita. O que eles entendem por doutrinação é o que os outros fazem, no caso, os professores com perfil mais progressista e de esquerda. Não há nenhum intelectual ou professor de esquerda e progressista que veio à público para endossar o discurso dos propositores da Escola sem partido. Isso significa que a proposição é um caça às bruxas (professores/as de esquerda, no caso) como tantas vezes aconteceu na história.
2-Doutrinação: O que seria propriamente a doutrinação a ser evitada? Claro, a doutrinação seria ensinar Marx; ensinar que a ditadura foi nefasta para o Brasil; ensinar que os colonizadores que vieram para o Brasil cometeram genocídio e que a escravidão foi uma barbárie cometida pelos europeus, brancos, ricos contra os negros; ensinar que a mulher é vítima de uma história de machismo patriarcal; ensinar que Fernando Henrique Cardoso comprou a reeleição e que a Dilma está sendo vítima de um golpe e que esse golpe não é nenhuma novidade, pois as elites brasileiras sempre a ele recorrem quando seus privilégios estão ameaçados etc, etc…
3-Ideologia: É fato que a doutrinação deve ser evitada, mas seriam os casos acima elencados, doutrinação? Não seriam tão somente pontos de vista legítimos de serem ensinados e debatidos, se for o caso? Em questões polêmicas será possível não tomar partido e defender uma perspectiva ideológica, mantendo saudavelmente uma posição firme, mas dialogal com quem pensa diferentemente? Se um professor de perfil conservador ensinar e debater esses temas, não tomará uma posição ideológica favorável a um ponto e crítico ao ponto contrário? E isso não é saudável e intrínseco ao ato mesmo do conhecimento que sempre será limitado pelo lugar social, político e ideológico do intérprete? A questão, me parece, não é de ideologia, que todos têm e não há como pretender neutralidade, mas de postura dialogal, aberta e crítica exigida por qualquer mestre no ensinar.

4-Liberdade de pensamento e expressão: O maior perigo para uma sociedade democrática não são os professores que se posicionam ideologicamente frente aos fatos e acontecimentos, mas são os que pretendem regular e legislar, proibindo antecipadamente a expressão do livre pensamento. A contradição é flagrante. Logo os defensores do livre mercado são os que pretendem regular, coibir e punir o livre pensamento? O regulador, não deve ser a lei, mas só pode ser o interlocutor, o estudante, que sabe distinguir posições embasadas em razões, de posições dogmáticas que exigem adesão acrítica. Mas isso vale tanto para um lado quanto para o outro do espectro ideológico. E os estudantes não são bobos, não são passivos e coitadinhos que se deixam levar pela ideologia do professor. Só quem nunca entrou numa sala de aula pode pensar que é possível doutrinar os jovens de hoje…
5-Bom senso: A sala de aula não é um lugar para cerceamento do pensamento e tabus previamente definidos. Os professores não são imbecis, idiotas e irresponsáveis que não sabem o lugar que ocupam no processo da formação das subjetividades e do conhecimento. Os professores são preparados para serem professores, diferentemente de alguns políticos que sequer são preparados para serem políticos e pretendem regulamentar e cercear a liberdade de pensamento de professores. Deixem os professores em paz! Eles não são crianças que precisam de uma lei externa que os punem em caso de desvio ou transgressão do bom senso no ato de ensinar. Somos adultos e responsáveis. E suficientemente sabedores do papel de orientadores-facilitadores-problematizadores na construção do conhecimento, e não doutrinadores. O resto é devaneio de aprendizes do fascismo…Carta aberta a Gilmar Mendes: o senhor deveria aprender com a juíza americana que pediu desculpas por se meter em política.
por: Paulo Nogueira, jornalista. Editor do site Diário do Centro do Mundo.
Ela falou sobre política e teve que pedir desculpas para a sociedade.
Esta é mais uma da série de cartas abertas aos golpistas. No futuro, é possível que elas sejam reunidas num livro.
Caro ministro Gilmar:
O senhor desonra a Justiça. É a pior espécie de juiz que pode existir: aquele que se move por razões políticas. Sabemos antecipadamente qual será seu voto quando se trata de um tema político. Isto, em si, é uma afronta à dignidade da Justiça.
O senhor sabe, ou deveria saber, que no mundo civilizado sua conduta é intolerável.
Há um caso exemplar em curso nos Estados Unidos. Uma juíza da Suprema Corte, Ruth Bader Ginsburg, fez alguns comentários sobre o candidato à presidência Donald Trump.
Chamou-o de “enganador”, e acusou-o de ter um ego enorme.
Caro Gilmar: são elogios perto das coisas que o senhor fala de Lula e do PT sem nenhuma cerimônia e nenhum pudor.
Pois as palavras da ministra geraram uma tempestade política entre os americanos. Trump disse que ela deveria renunciar. Especialistas em ética se ergueram contra a ministra. Editoriais de jornais condenaram-na energicamente.
Repare, aqui, a diferença, caro Gilmar: nenhum jornal jamais publicou um editorial que reprovasse as barbaridades que o senhor pronuncia sistematicamente contra o PT.
Isso mostra a aliança que existe entre as grandes companhias de mídia e alguns juízes do STF. Eu diria: as duas partes se merecem.
A juíza americana, diante da repercussão de suas afirmações, recuou humildemente. Lamentou ter-se pronunciado em algo que não lhe cabe — política. “Juízes devem evitar falar sobre política. No futuro, terei mais cuidado.”

Juízes que atuam como políticos rebaixam, ao mesmo tempo, a política e a Justiça. É o seu caso, ministro Gilmar.
A péssima imagem do Poder Judiciário perante a sociedade deriva, em boa parte, do senhor. Mais recentemente, é verdade, outro juiz deu uma contribuição milionária para a desmoralização da Justiça, Sérgio Moro, com sua fixação em punir petistas e apenas petistas.
E antes de vocês dois, não podemos esquecer, tivemos Joaquim Barbosa, a quem a mídia proporcionou holofotes em doses extraordinárias em troca do massacre do PT no julgamento do Mensalão.
Caro Gilmar: insisto no ponto de que as declarações da ministra Rute foram nada perto do que o senhor fala todos os dias.
Nos Estados Unidos, um juiz como o senhor não existiria. A opinião pública não tolera a intromissão de juízes nos debates políticos.
Caro Gilmar: o senhor não é apenas um mau juiz. É também um golpista.
Confio que, no futuro, comentários políticos de juízes provoquem no Brasil o mesmo tipo de indignação que existe nos Estados Unidos e em outros países socialmente avançados. Quem quer fazer política deve se submeter às urnas.
O senhor é o retrato togado de um país explorado abjetamente por um plutocracia sem limites em sua ganância portentosa.
Sinceramente.
Paulo
Artigo publicado originalmente no site http://www.diariodocentrodomundo.com.br/Nota de repúdio à criminalização de estudantes – Instituto de Psicologia da UFRGS
Nós, docentes, discentes e técnicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vimos a público manifestar nosso repúdio à criminalização dos estudantes de escolas públicas que, lutando por melhores condições para uma educação digna, ocuparam, no dia 15 de junho, o prédio da Secretaria da Fazenda do Estado, sofrendo ação violenta e arbitrária do governo do Estado do Rio Grande do Sul, através da sua Brigada Militar. Entre esses estudantes, uma aluna de nosso curso de Psicologia foi também alvo dessa violência.
Repudiamos a criminalização de um movimento que, nascido da realidade de extrema penúria das escolas do ensino básico, tem gerado experiências de cidadania, coletividade e solidariedade entre os estudantes e junto à comunidade que os apoia. Docentes, técnicos e estudantes deste Instituto têm se feito presentes no apoio a esse movimento, através da doação de alimentos e realização de oficinas e rodas de conversa junto às escolas ocupadas. Entendemos tratar-se de um momento ímpar de aprendizagens e de responsabilidade com uma realidade social que nos toca. Os estudantes das escolas públicas do país têm hoje assento nesta Universidade, e nossa comunidade acadêmica tem o compromisso político de zelar por essa conquista.
É inadmissível o uso de violência contra estudantes em um protesto pacífico. É inadmissível a sua retirada truculenta do prédio, sem margem de negociação. É inadmissível levá-los, arbitrariamente, às delegacias e aos presídios. É inaceitável a sua incriminação.
Não podemos tolerar que nossas crianças e jovens – a quem nos cabe educar e proteger – sigam sendo o alvo preferencial de nossas polícias. Que eles sejam alvo do investimento em educação, saúde, cultura, assistência social, trabalho, habitação. Chamamos à responsabilidade o Governo do Estado do Rio Grande do Sul para buscar soluções negociadas aos conflitos que se apresentam, com a revogação do indiciamento dos envolvidos e sem mais violação de direitos.
Porto Alegre, 13 de julho de 2016.
https://www.change.org/p/n%C3%A3o-%C3%A0-criminaliza%C3%A7%C3%A3o-dos-estudantesViralatismo e entreguismo midiático e as TVs internacionais
Bruno Lima Rocha – Professor de Ciência Política e de Relações Internacionais
O Brasil vive um momento de governo interino ou golpista – entendo que é um golpe branco, midiático e semi-parlamentarista – onde o papel da mídia foi preponderante junto aos estamentos do aparelho judiciário, do Ministério Público e policial (delegados federais). Como é sabido hoje, o Projeto Pontes, iniciativa da representação diplomática dos Estados Unidos (EUA), tentando – e conseguindo – se aproximar de elementos-chave da Justiça Federal, do Ministério Público Federal e policiais federais (com ênfase em delegados) e centrando o trabalho em Curitiba conforme revelado pelo Wikileaks (ver link: https://wikileaks.org/plusd/cables/09BRASILIA1282_a.html), o que caracteriza uma nítida tentativa de ingerência dos EUA em nossa política doméstica, resultou no processo de afastamento da presidenta eleita.
Associado a isso, a produção de comunicação mediada, forçando os conglomerados de comunicação a entrarem em sintonia com as operações, incluindo a narrativa de folhetim e o clima de incerteza permanente sobre os tomadores de decisão do país, fez o peso político da hegemonia interna transitar de uma frágil governabilidade de centro-esquerda com aliados oligárquicos, conservadores e mercenários, para um discurso difuso, udenista e que tomava Sérgio Moro como herói vivo, redentor do país. Ponto para a ação diplomática e os enlaces sociais da inteligência dos EUA, mesmo que atuando de forma indireta e dentro dos limites da lei existente.
A exposição seletiva e a punição discricionária têm como pilar um alinhamento do imaginário coletivo do brasileiro médio – de classe média alta e alta – com o ideário dos Estados Unidos. Esta projeção de representações coletivas, como se estivéssemos fazendo política no Brasil a partir das posições estadunidenses, vem reforçada com a enorme exposição aos canais por assinatura via satélite e a própria internet. A força dos conglomerados de mídia, e especificamente a pauta dos debates marcada pela Globonews, reforçam tanto o viralatismo (complexo de inferioridade da elite brasileira) como o entreguismo (entrega de nosso patrimônio estratégico ao capital transnacional).
Os embates midiáticos e a guerra de versões em temas da política nacional se tornaram uma constante. Ao contrário do que possa interpretar uma leitura rasteira ou vulgar das relações de força, a mídia opera sobre o senso comum sendo item fundamental para a chamada guerra de 4ª geração. Nosso país é, visivelmente, alvo de uma operação muito bem orquestrada, onde incide a ação de mídia e marketing digital, coadunadas com a “cobertura” dos grandes veículos de comunicação aberta, em especial os três maiores conglomerados: O Globo, Estadão e Folha.
A cultura do luxo, o universo individual marcado por bens de consumo embalados em suporte simbólico estadunidense e a mundialização roubaram corações e mentes, reforçando estereótipos e terminando por brincar com a apropriação cultural. Imitamos quem nos domina sem mimetizar a oposição interna dos próprios sistemas simbólicos e culturais desafiando o dominador em seu próprio território. Este constructo pode arranhar a hipótese do porque a presença de Barack Hussein Obama não ter convertido em um amplo movimento de autoestima africana no Brasil.
O novo arranjo geopolítico do planeta não tem estrutura midiática de suporte
Em termos de projeção de poder dos BRICS – o bloco informal composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – a guerra midiática é sofrível, sendo devastadora a ação dos grupos de mídia pró-EUA. A inteligência é uma arma de uso permanente das embaixadas com interesses em países com possibilidade de acúmulo de força no Sistema Internacional (SI). De forma indireta e através da ampliação das redes cibernéticas, as TVs internacionais via satélite se tornam uma ferramenta comum – como o ato de presença clássico dos grupos operacionais -, agindo sobre amplos setores da sociedade e, em última análise, agindo de acordo com o governo do país que a apoia, ou ao menos reforçando a política de um relevante setor político deste país.
Logo, a intenção das TVs internacionais é tentar abrir cunhas e vínculos diretos com importantes setores de audiência de nossos países – no caso, latino-americanos – atuando diretamente na formação de escolhas e influências. Na área de inteligência, tais operações estão na rubrica de operações psicológicas, psicossociais na tradição brasileira, também conhecidas como de tipo “corações e mentes”. No caso brasileiro, a situação é paradoxal. Influencia mais uma rede em inglês, como a CNN, do que redes que transmitem em castelhano, como a RT em espanhol.

O desafio é abissal, pois a mentalidade mediana do país – a que hegemoniza o consenso forjado em termos políticos e culturais – nos coloca de costas para os países vizinhos latino-americanos, assim como de costas ao Oceano Atlântico, logo, distante da África, mesmo dos países de língua portuguesa, como Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial e São Tomé e Príncipe. Enfim, quanto mais distantes da América Latina e dos países africanos, mais distantes ficaremos de nós mesmos, reforçando o dominante (EUA), dentro do universo simbólico daqui, gerando assim uma dupla ou tripla lealdade, associando a defesa da maioria como usurpação de um limitado poder concedido pela democracia representativa.
As TVs dos países dos BRICS, assim como suas mídias complementares, não obtiveram êxito em fortalecer tanto a resistência contra o golpe e menos ainda uma agenda do contra-golpe. Infelizmente, ao não penetrarem na sociedade brasileira, tais canais não chegam a fazer nenhum dano severo ao imperialismo cultural e jornalístico.Vivendo na caverna de Platão
Marília Veríssimo Veronese – Professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UNISINOS.
Acho que todos os leitores e leitoras do Jornal Já conhecem o mito/alegoria da caverna de Platão. Dicotomias platônicas à parte, ele servirá aqui como uma metáfora para a leitura do nosso tempo. Na clássica obra “A República”, o filósofo grego (428 aC. – 347 aC.) descreve uma caverna onde prisioneiros – desde o nascimento – viam apenas sombras projetadas pela luz de uma enorme fogueira, na entrada da caverna. As sombras eram os personagens do seu mundo; eram tudo que eles conheciam e com elas se relacionavam em seu universo simbólico. Um deles, porém, conseguiu escapar da prisão cavernosa e, cego a princípio com tanta luz, acabou com ela se acostumando e enxergando as coisas, as pessoas, os animais, as cores, o movimento, a diversidade… voltou correndo para contar aos ex-companheiros o que havia lá no mundo “real”, animado com o teor e o potencial de suas bombásticas revelações!
Coitado! Ridicularizado a princípio, depois ameaçado – e como insistisse na declaração que eles viviam na ignorância e havia muitas coisas para além de seu mundo -, acabou morto pelos prisioneiros da caverna. Pois eu sustento que hoje boa parte dos cidadãos brasileiros está vivendo na caverna de Platão. As sombras projetadas são as “verdades” e o “real” produzidos pelos mais diversos agentes (no sentido de “ter agência”, agir, fazer, realizar); estes são geralmente midiáticos, e sua versão do “real” é legitimada como sendo a expressão exata da verdade. Se alguém questiona veículos midiáticos considerados “de referência”, “consagrados” – ou até mesmo boatos amalucados que circulam nas redes sociais – é defenestrado tal qual o sujeito que saiu da caverna e voltou para contar o que viu.
Tive um exemplo, há uns três anos atrás, quando circulou um hoax que utilizava uma imagem de um prédio público no interior de São Paulo – uma escola técnica pertencente à USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz) – dizendo que era a fazenda do filho do Lula e tinha sido adquirida com dinheiro público. Tratava-se de um prédio luxuoso, que passava por uma fazenda de alto luxo. Logo saíram os desmentidos, o site e-farsas colocou o link da escola e viu-se que era apenas uma mentira inventada por algum mentecapto. Contudo, a versão factual pouco importou para quem difundia o boato. A sombra bruxuleante na parede da caverna à brazileira já havia se espalhado e era tomada como a mais certa e comprovada realidade. Uma pessoa que era meu contato no Facebook divulgou a postagem, que foi comentada imediatamente por uma legião de “pessoas de bem”, indignadas com os desmandos do “lulo-petismo”. De boa vontade (juro!), postei nos comentários que se tratava de um hoax, acrescentei o site da escola e esclarecimentos diversos sobre a falsidade do boato1. Fui “xingada” de epítetos muito pouco amigáveis, e que se eu não ia ajudar a divulgar, pelo menos que não atrapalhasse. Bloqueei aquela gente louca e me perguntei: estarei tendo o mesmo destino do habitante que fugiu da caverna?
Muitas outras situações vieram a provar que sim. Hoax passaram a ser “notícias” da mais profunda veracidade, boatos mentirosos motivaram decisões em câmaras de vereadores – vide situação bem recente que ocorreu na cidade de Feira de Santana, na Bahia (distante 100 km de Salvador, mais ou menos). Cidade esta que visitei em março deste ano e que tem uma universidade federal com um corpo docente extremamente qualificado, que tive oportunidade de conhecer durante um congresso ali realizado. Lamentavelmente, os vereadores do simpático município não lhes fazem jus. Esses nobres representantes municipais utilizaram a tribuna da Câmara para protestar contra um projeto de lei – inexistente! – que seria de autoria do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) para retirar “textos considerados homofóbicos da Bíblia”. O boato na internet dizia que ele pretendia alterar a Bíblia… e os vereadores acreditaram!!!

Quem é mais bitolado: esses “nobres” políticos (eleitos pela população!) ou os habitantes da imaginária caverna de Platão? Decida você mesmo, caro/a leitor/a! Quem deu início à discussão foi o vereador Edvaldo Lima (PP), que cogitou dar entrada em uma moção de repúdio contra o deputado federal. Na tribuna, ele criticou duramente o “projeto para alterar a bíblia”2. Meu último texto aqui foi sobre a tragicomédia brasileira. Pois é, ela continua firme, a desenrolar-se diante de nossos olhos incrédulos, talvez desde o ano de 1500 dC.
E não só no campo da política que as sombras projetadas nas paredes criam realidades e autorias indevidas. Um texto que circulou muito há algum tempo atrás, atribuído a Luis Fernando Verissimo, dizia lá pelas tantas que “dar é bom pra caramba”. Alguém que já tenha lido uma linha do que LFV escreve acha mesmo que ele escreveria isso!? Pois mesmo assim, lá passava o texto de mão em mão, com elogios ao autor por ser tão certeiro em suas assertivas sobre relacionamentos amorosos. Verificando sem dificuldade na internet, logo se descobria que o texto era de uma blogueira que escrevia na revista TPM, mas depois que caiu na rede, virou peixe sem mãe nem pai definidos. Por que as pessoas não verificam aquilo que postam?
E por que, ao verem que não é verdade, não admitem o erro e procuram a versão mais próxima da realidade? Talvez porque um Hampty-dumpty3 arquetípico tenha morada dentro de todos nós. O personagem utilizado por Lewis Carrol, no livro “Alice através do espelho”, dizia para Alice que dava às palavras o sentido que ele queria dar. Pouco importa a legitimidade desse sentido, o que importa é que ele era o dono do sentido, e assim manipulava-o à vontade.
Parte da imprensa faz exatamente isso, como ilustra bem o excelente documentário de Jorge Furtado, “Mercado de noticias”. Uma vez que a falsa versão, sem nenhuma verificação mais séria e responsável passa a circular e ser apropriada pela miríade incrivelmente variada de receptores…, pronto, está feito: a sombra da caverna não é mais questionada. Quem ousar fazê-lo sofrerá as consequências. Ela se impõe porque simplesmente é. E a força desse ser tem um poder incrível de mobilização das subjetividades. Não se trata simplesmente de “formar opinião”, mas sim de conformar subjetividades, modos de ser/estar no mundo, ideias e afetos diversos, dentre eles o ódio e o preconceito. Ou seja, se trata de produzir sujeitos, de produção de subjetividade no sentido de Deleuze e Guattari, autores conhecidos não só na filosofia como nos demais campos das humanidades e das ciências sociais. Quem não é desses campos deveria procurar conhecê-los, compreendê-los.

Seja por sedimentação – martelar certo conteúdo dia após dia, durante anos, para solidificar um determinado viés da percepção de alguma coisa –, seja por fratura – “opa, parem tudo, não é nada daquilo, vejam só!”, através de uma “notícia” (na verdade interpretação viesada de algo) que dá novo sentido ao mundo, a parcela hegemônica da mídia brasileira não para. Simplesmente não para: ela age diuturnamente. Utiliza todas as ferramentas disponíveis da comunicação para produzir e sustentar seus interesses e a visão de mundo que defende.
É dessa forma que o “mensalão” vira o maior escândalo de corrupção de toda a história do Brasil. Sabemos que isso não é verdade, pois ao comparar o estrago feito por todos os lamentáveis escândalos de corrupção das últimas décadas, temos que ele ocupa um “modesto” décimo lugar. Vejamos:
Os dez maiores crimes de corrupção do Brasil4Top Crime/Escândalo Ano Rombo 10º Mensalão 2005 R$ 55 milhões 9º Operação Sanguessuga 2006 R$ 140 milhões 8º Sudam 2001 R$ 214 milhões 7º Operação Navalha 2007 R$ 610 milhões 6º Anões do Orçamento 1993 R$ 800 milhões 5º TRT/SP 1999 R$ 923 milhões 4º Banco Marka 1999 R$ 1,8 bilhões 3º Vampiros da Saúde 1998 R$ 2,4 bilhões 2º Banestado 2003 R$ 42 bilhões 1º Privataria Tucana 1997 R$ 100 bilhões E entender isso não tem nada a ver com defender os corruptos envolvidos no esquema do mensalão, que, aliás, eram oriundos de vários partidos políticos e de grandes corporações privadas. Cadeia neles! Agora, por que só neles?! Por que tanta seletividade? Ao querer que se diga a verdade dos fatos, não se está defendendo este ou aquele partido político. Apenas se quer refletir sobre a informação verdadeira em termos factuais! Entretanto, se a gente tenta argumentar com alguém que incorporou profundamente a inverdade em seus afetos e “certezas”, pode esquecer. Agressões e insultos- ou uma resistência obstinada – serão a resposta, jamais a reflexão crítica diante de fatos objetivos. Sim, porque o fato objetivo existe! Apesar de eu estar mais para Guattari do que para Durkheim (!), eu acredito que há uma factualidade em andamento que, embora contraditória e muitas vezes ambígua, possui uma concretude e uma existência que se desenrola objetivamente. Que pode ser demonstrada e provada, utilizando-se esses fatos e os dados decorrentes deles de forma objetiva.
O que a mídia faz é atribuir sentidos a esses fatos; o sentido que ela quer dar. É o Humpty-dumpty em ação. São os regimes de luz de Deleuze: onde a gente joga luz, ali há existência. O que se deixa no escuro, invisível, ali não há existência! Assim eu produzo a realidade do jeito que eu quiser, manipulando as luzes (acabo de ter um rompante de autoritarismo agudo, meu próprio Humpty-dumpty emergindo?).
Concluo que todos nós, homens e mulheres contemporâneos, estamos à mercê de nosso próprio personagem autoritário e manipulador, introjetado. A mercê das sombras das nossas cavernas de Platão existenciais. O que poderá fazer a diferença é o esforço consciente de nos informarmos em várias fontes, de refletirmos criticamente, de forçarmos o pensamento a pensar – e buscar- mais e melhor diversidade de análise do mundo, correndo sempre para fora da caverna e vendo a pluralidade que existe para além dela.
1 http://www.e-farsas.com/filho-de-lula-compra-fazenda-avaliada-em-47-milhoes-de-reais.html
2 http://g1.globo.com/bahia/noticia/2016/07/vereadores-repudiam-pl-inexistente-de-jean-wyllys-para-mudar-biblia.html
3 “When I use a word,” Humpty Dumpty said in rather a scornful tone, “it means just what I choose it to mean — neither more nor less.”. “The question is,” said Alice, “whether you can make words mean so many different things.”. “The question is,” said Humpty Dumpty, “which is to be master— that’s all.” (Through the Looking Glass, by Lewis Carroll). Disponível em: http://definitionsinsemantics.blogspot.com.br/2012/03/humpty-dumpty-principle-in-definitions.html
4 http://www.endodontiaclinica.odo.br/os-10-maiores-escandalos-de-corrupcao-do-brasil/






