No dia 31 de março de 1964, o coronel Alfeu de Alcântara Monteiro festejou seu aniversário no quartel, de prontidão por conta do golpe militar em andamento. Ele fez 42 anos naquele dia.
Tinha 21 quando ingressou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Longa distância havia percorrido desde Itaqui (RS), onde nascera.
Fez a Escola da Aeronáutica e, quando o país voltou à democracia, em 1946, depois da ditadura de Getúlio Vargas,ele foi promovido a tenente aviador. Serviu nas bases de Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro.
Era capitão, na Base Aérea de Natal, quando chegaram ao Brasil os primeiros bombardeiros B-25, remanescentes de II Guerra Mundial.
Tornou-se um dos primeiros instrutores para esses aviões na aeronáutica brasileira. Era considerado um exemplo de militar dedicado e ciente de suas responsabilidades. Sua folha de serviços era “repleta de elogios”, com registros em boletins.
Em agosto 1961, quando se deu a “Campanha da Legalidade”, servia no QG da 5ª. Zona Aérea, em Canoas (RS). Era coronel.
Legalista, posicionou-se a favor da posse de João Goulart, o vice que deveria assumir com a renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961.
Quando o general Orlando Geisel mandou bombardear o Palácio Piratini, para calar o governador Leonel Brizola, Alfeu colocou-se à frente dos tenentes e sargento, que impediram a decolagem dos aviões com as bombas. Ficou marcado para sempre.

Alfeu Alcântara Monteiro, em 1964
Naquele 31 de março de 1964, ele não pode fazer mais que um brinde com guaraná reunindo uns poucos colegas no cassino dos oficiais. A Base Aérea estava em prontidão desde cedo.
Quando se confirmou que era mesmo um golpe contra o governo, novamente os sub-oficiais e sargentos tomaram a Base Aérea. O comandante se retirou e o coronel Alfeu assumiu o comando disposto a defender a constituição.
Na noite de 1º de abril, uma informação chegou à base: um comando golpista ia sequestrar o presidente na pista do aeroporto Salgado Filho, onde ele iria desembarcar de madrugada.
Alfeu convocou voluntários, trinta se apresentaram. “Fomos em jipes, percorremos a pista de ponta a ponta e, depois, ficamos posicionados nas cabeceiras, armados de metralhadoras”, lembrou o então tenente-coronel Avelino Iost, que comandou a operação, em depoimento à revista JÁ, em 2014, aos 88 anos.

Avelino escreveu um livro sobre “a guerra de 1961” na Base Aérea de Canoas e diz que ali foi selada a sorte de Alfeu. “Ele ficou assinalado de morte, todos nós, mas ele é o que não podia escapar”.
Na manhã do dia 2 de abril, em 1964, quando o presidente Goulart decidiu não resistir, o coronel Alfeu mandou recolher o armamento do arsenal, relaxou a prontidão e ficou à espera de novo comando.

Na tarde de 4 de abril , o presidente João Goulart desembarcava na base aérea de Pando, no Uruguai, onde se buscou asilo. No mesmo dia, pousou na Base Aérea de Canoas, o avião com o novo comandante, brigadeiro Nelson Lavanére Wanderley, e uma escolta de oficiais chefiados pelo coronel-aviador Roberto Hipólito da Costa.
O coronel Hipólito era um “linha dura”, autor de um plano frustrado para derrubar o avião de João Goulart meses antes do golpe. “Já em 1952, o coronel Hipólito fora denunciado por torturar presos políticos. Sargentos da Base Aérea de Natal levaram um dossiê ao general Arthur Carnaúba”, registra Avelino Iost numa compilação que fez dos fatos daquele período. No relatório dos sargentos consta a demonstração que Hipólito da Costa fez de seus dotes como atirador: enfiou uma lata na cabeça do sargento Eneas de Oliveira Filho e atirou, furando a lata pouco acima do cranio do sargento.
Avelino Iost conhecia um dos oficiais que vieram com o coronel Hipólito: “Ele me disse que, na saída do Rio, ouviu que disseram ao Hipólito: Você vai para segurar o Alcântara… Segurar na bala.”, conta Avelino Iost.
* * *
Avelino acabara de fazer um lanche no cassino dos oficiais, quando Alfeu Alcântara Monteiro entrou, por volta das oito horas da noite de 4 de abril de 1964.
“Estava com o uniforme de passeio completo, quepe inclusive, me disse que tinha sido chamado ao QG”.
No cafezinho, conversaram sobre o que poderia acontecer com todos eles, os vencidos. “Ele me disse que estava tranquilo… O máximo que poderia nos acontecer era uma transferência para Belém ou outro lugar remoto… Defendemos a lei, ele disse.”
Se despediram na saída do cassino. Avelino ainda ficou um tempo por ali. Pouco depois, quando atravessava o pátio, ouviu os estampidos vindos do QG. “Primeiro, vários disparos de arma pesada, provavelmente metralhadora. Em seguida, dois de calibre menor, 32 certamente”, lembra Avelino.
Ele estava a menos de 100 metros do local do crime, no primeiro andar do prédio do QG da 5ª Zona Aérea, na sala do comandante. Viu, em seguida, correrias e ouviu o coronel Pirro de Andrade gritar de uma sacada: “O Hipólito arrancou o fígado do Alfeu à bala, agora vamos fuzilar os comunistas”.
Em seguida, Avelino foi cercado por cinco oficiais e levado ao alojamento. Os sub-oficiais e sargentos considerados comunistas, desarmados, estavam confinados. Na manhã seguinte sairiam todos presos para o Rio de Janeiro.
O que se passou na sala do comando da 5ª zona Aérea naquela noite até hoje não foi devidamente esclarecido, segundo o avogado Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos. “O certo é que ele foi a primeira vítima do golpe”.: Alfeu foi atingido por trás, por balas de grosso calibre. Nunca ficou claro se foram duas ou mais balas de calibre 45 que o atingiram. O brigadeiro Lavanére também foi ferido.
A nota oficial emitida dois dias depois, fala em dois tiros e dá a entender que ele atirou primeiro.
Diz a nota que a “lamentável ocorrência que se deu devido à indisciplina do tenente-coronel, que não acatou a voz de prisão. Houve troca de tiros. Os ferimentos recebidos pelo Excelentíssimo Brigadeiro Comandante são de natureza leve, encontrando-se hospitalizado, em pleno exercício do comando. O mesmo não aconteceu entretanto com o tenente-coronel Alfeu de Alcântara Monteiro, cujo falecimento lamentamos informar”.
Na sala do comando, na hora do crime, além dos envolvidos, havia só o coronel Pereira Pinto, escolhido por Lavanére para assumir o comando e que confirmou a versão oficial.
Todas as demais pessoas que não estavam diretamente na cena do crime, mas estavam próximas dos fatos, discordam dessa versão. Nenhuma delas foi ouvida no inquérito.
Avelino, pelo que ouviu e pelo que averiguou conversando com outros colegas, entre eles o enfermeiro Onéas Rech, que recolheu Alfeu agonizante, reconstituiu a seguinte cena:
“O coronel Hipólito, armado de metralhadora, ficou na sala do ajudante de ordens, junto ao gabinete do comandante. Ele ficou com a porta entreaberta, Alfeu entrou e se postou diante da mesa do comandante, de costas para essa porta. Assim que se apresentou recebeu voz de prisão e aí…”.
A discussão que se seguiu foi ouvida por outras pessoas que estavam no prédio. “Muitos militares presentes no prédio do comando ouviram os gritos”, contou o ex-sargento Nei Moura Calixto, também preso no dia seguinte e levado para o Rio.
Segundo Calixto, quando o comandante disse a Alfeu que ele e todos os rebelados estavam presos, ele reagiu gritando: “Retira essa ordem. Retira essa ordem. É ilegal! Eu estava defendendo a autoridade legítima, eleito pelo povo. Tu não podes me prender”.
Avelino registra em suas memórias: “Com a reação do Alfeu, o Hipólito entrou da sala atirando. O Alceu, mesmo ferido, ainda sacou o revólver e deu dois tiros atingindo de raspão o brigadeiro. Foram os últimos estampidos que ouvi, de pequeno calibre. O enfermeiro me disse que as balas arrancaram um pedaço assim do lado do Alfeu”.
O Inquérito Policial Militar que investigou a morte do coronel concluiu, um mês depois, que Alfeu “foi abatido com dois tiros, morto no ato de atentar contra a vida de um superior”.
Encaminhado à Justiça Militar em 15 de junho, o inquérito teve sentença em novembro de 1964. O coronel Hipólito da Costa foi absolvido e, pouco depois, promovido a general.
O brigadeiro Lavenére tornou-se ministro da Aeronáutica 16 dias depois do crime. Morreu em 1985, aos 78 anos, e no ano seguinte passou a ser o patrono do Correio Aéreo Nacional.
Alfeu de Alcântara Monteiro é nome de rua no bairro de Tremembé, em São Paulo.

“Com a reação do Alfeu, o Hipólito entrou na sala atirando. O Alfeu, mesmo ferido, ainda sacou o revólver e deu dois tiros atingindo de raspão o brigadeiro”.


Deixe uma resposta