O Largo Glênio Peres, no coração histórico de Porto Alegre foi isolado por cercas metálicas de dois metros de altura, nesta sexta-feira, 11/09, para o comício de Lula, candidato à reeleição.
Para entrar na área cercada tinha que se submeter a extensas filas e passar por uma rigorosa revista. Nem “tampa de plástico rígida” podia entrar.
A delimitação do local e o controle da entrada não são novidades (*). São exigências do protocolo de segurança para eventos públicos com a presença do presidente da República.
A entrada foi liberada às 17 horas. Bem antes das 19h, hora prevista para o início do evento, todo o largo estava superlotado. Ficou do lado de fora uma dispersa multidão que ocupava todos os espaços no entorno.

Oito partidos ( PT, PDT, PSB, PCdoB, PV, PSOL, Rede e Avante) formam a frente de esquerda que apoia Lula no Rio Grande do Sul e sustenta a candidatura de Juliana Brizola/Edegar Pretto para o governo do Estado.
A presença maciça era de moradores de Porto Alegre, mas os ônibus e carros estacionados na região do evento indicavam a vinda de muitas delegações do interior do Estado.
O público “interno”, na parte cercada do largo, era atento e disciplinado, cantando, agitando bandeiras e gritando slogans ao ritmo dos videos projetados no telão
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Fora da cerca, uma massa agitada, ruidosa, com tambores, chocalhos, buzinas, apitos, gritos, bebendo cerveja, cachaça, comendo churrasquinho no palito
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As dezenas de ambulantes em carrinhos, trailers e barracas, ou com a mercadoria simplesmente estendida na calçada ofereciam de tudo, de botons e bandeiras do PT a uísque importado. Espremendo-se entre os grupos compactos os cabos eleitorais distribuíam folhetos, santinhos e adesivos dos candidatos do “time de Lula”.
Do lado de dentro aplausos no ritmo dos discursos e ovações aos oradores mais prestigiados, como Olívio Dutra. Fora, com o alarido era quase impossível ouvir o que falavam ao microfone.
A coordenação da campanha estimou em 28 mil o pessoas público total do comício. A estimativa foi contestada pelos opositores, mas ela não é incoerente.
O Largo Glenio Peres tem uma área de mais de 6 mil metros quadrados. Numa densidade alta, de quatro pessoas por metro quadrado, seriam 25 mil, somente na área cercada. Visivelmente, no entorno do lago havia mais de cinco mil pessoas.
Além do número, há uma avaliação qualitativa. Ali estava um núcleo expressivo da militância lulista, sua fração mais decidida e em seu especto mais amplo.
Estavam ali ao final de um dia chuvoso, com alertas de temporais, num ambiente molhado, sob neblina e garoa, com poças dágua no chão.
Lula só apareceu às 19h30. Em seu discurso prometeu intensificar as políticas de proteção às mulheres, citou o Pacto Contra o Feminicídio, em sua gestão, e prometeu aprimorar as políticas de cuidado e atenção básica para mulheres. Citou o combate à inflação e o avanço da extrema direita como as principais dificuldades de seu terceiro mandato na Presidência. Destacou os avanços das políticas sociais, com programas como o “Pé de Meia” e o controle dos preços dos alimentos. Tocou na questão da soberania e garantiu que já disse a Donald Trump que “ele não pode mexer com as nossas eleições, pois se ele fizer isso ele vai perder”.
Sem referir a crise institucional que tem seu epicentro no STF, Lula citou o caso do Banco Master, o maior escândalo financeiro da história do país, estopim da crise. Disse que Daniel Vorcaro, o criador do Master, “virou banqueiro no governo de Bolsonaro” e que, em seu governo, “ele foi preso”.
O pronunciamento de Lula foi precedido pelo discurso da primeira dama, Janja da Silva, que se dirigiu mais às mulheres. Sobre Lula disse que “um homem que tira 33 milhões de pessoas da fome só pode ser tocado por Deus”.
Antes dele falaram os candidatos da frente de esquerda ao Palácio Piratini, Juliana Brizola e Edegar Pretto, e ao Senado, Manuela d’Ávila e Paulo Pimenta. Falaram também os ex-governadores Olivio Dutra e Tarso Genro e o senador Paulo Paim.
Os discursos mais voltados para a militância ressaltaram a importância de motivar jovens e idosos a votar, evitando grandes índices de abstenção como nas eleições de 2022. Foi a primeira vez que Lula veio ao Rio Grande do Sul, nesta campanha, talvez a última antes do pleito dia 4 de outubro.
O comício mereceu cobertura burocrática por parte da imprensa e no dia seguinte já estava esquecido. As pesquisas na reta final mostrarão seus efeitos no ânimo da militância e do eleitor.
Incidente
O incidente mais grave registrado no evento envolveu o deputado estadual Leonel Radde (PT) que reagiu às provocações de um opositor. O parlamentar registrou um Boletim de Ocorrência após identificar um suposto “agente provocador” infiltrado na mobilização, ato que culminou em agressão física contra um de seus assessores nas imediações do evento.
O balanço da Brigada Militar indicou que o evento transcorreu sem distúrbios, mas com focos isolados de atrito. As forças de segurança registraram discussões acaloradas, xingamentos e pequenos empurra-empurras entre apoiadores e opositores nas barreiras de isolamento montadas fora do cercado principal.
A polícia registrou queixas pontuais de perdas e furtos de pequenos objetos (como celulares e documentos) nos arredores do Mercado Público e paradas de ônibus.
(*) Desde a campanha de 2022, o esquema de segurança em torno do presidente foi severamente reforçado. Os comícios de grande porte em praças e avenidas abertas pelo país (como os realizados na Praça da Estação em Belo Horizonte ou no Vale do Anhangabaú em São Paulo) passaram a exigir o isolamento do perímetro.
A instalação das grades serve para criar pontos de revista obrigatórios com detectores de metal (pórticos), impedindo que pessoas entrem na área central do evento portando objetos perigosos. Até mesmo na própria capital gaúcha esse formato não é inédito. Embora em campanhas passadas os comícios no Largo Glênio Peres fossem tradicionalmente abertos e fluidos, a dinâmica de segurança nacional de chefes de Estado acabou transformando o cercamento completo em uma exigência obrigatória para qualquer evento de rua.

