Voltada para a fábrica de 25 bilhões Barra do Ribeiro vive dias de incerteza

Por Ramiro Sanchez/@outroangulofoto
| Foto: Ramiro Sanchez/@outroangulofoto

Numa caminhada pelo centro de Barra do Ribeiro é possível andar dois quarteirões, quinta-feira às duas da tarde, sem encontrar uma só pessoa.

Mas as aparências enganam na pacata cidade de 12 mil habitantes, de casas baixas e ruas silenciosas, defronte a Porto Alegre, na outra margem do Guaiba.

Basta bater numa porta e puxar conversa para perceber que Barra do Ribeiro está em ebulição:  um negócio de R$ 25 bilhões incendeia o imaginário dos barrenses.    

“Maior investimento da história do Rio Grande do Sul’, todos repetem. E sabem os  números de cór: 13 mil empregos na obra durante três anos, quatro mil na operação regular, 900 caminhões por dia com toras de eucalipto, bilhões de dólares de exportações de celulose por ano.  

O dono do restaurante que oferece buffet livre com churrasco a 40 reais no centro de Barra do Ribeiro faz um cálculo: “Treze mil trabalhadores, duas refeições para cada um, são 26 mil refeições por dia, um milhão por dia”   

O secretário de Desenvolvimento, Everton Antunes estima que 1.200 empresas se instalaram ou estão se instalando na cidade desde que o empreendimento foi oficialmente anunciado há dois anos. Dois mil prédios estão projetados – casas, galpões, edifícios para comércio e moradia.

A maior empresa do município, a Tecnoplan, que tem 700 empregados e produz mudas para plantios florestais, vinculados à indústria de celulose, vai aos poucos sendo superada por grandes negócios imobiliários. Uma única empresa já aprovou loteamento para seis mil terrenos.

As grandes marcas regionais – Colombo, Quero-Quero, Benoit, Becker – já exibem seus logotipos em fachadas coloridas nas ruas principais.

As pousadas, que sempre viveram do veraneio, estão todas lotadas.  

“Terreno aqui virou ouro”, diz o secretário de Desenvolvimento do Município, Everton Antunes. O preço dos terrenos triplicou – um lote de 300 metros quadrados num dos novos loteamentos não sai por menos de R$ 250 mil e, conforme a localização, pode chegar a R$ 1 milhão. Ele prevê “um  novo desenho” da cidade, com o aumento da população.

É tradição em Barra do Ribeiro o carro de som que percorre as ruas comunicando o “passamento” de figuras ilustres da cidade. “Deus me livre, morrer e não ser anunciado no alto-falante”, brinca o secretário. Agora, segundo ele, a principal atividade do carro de som é percorrer as ruas anunciando empregos.

 Na unidade do Sine, por exemplo, há oferta de vagas para 130 cozinheiras por conta das empresas, inclusive de outros Estados, que se preparam para fornecer alimentação para os trabalhadores da fábrica. Cursos do Sesi e do Senai formam trabalhadores. A prefeitura pensa até em uma escola de gastronomia. “Somos a estrela da coroa”, diz o secretário Everton.

Mas Barra do Ribeiro vive em sobressalto desde março. Uma ação civil pública, ajuizada pelo ministério público federal, pede a suspensão do licenciamento ambiental para que sejam consultadas as comunidades indígenas ou quilombolas afetadas pelo projeto e considera insuficientes os dados apresentados sobre o impacto hídrico da operação industrial.  

A empresa, a chilena CMPC, uma das maiores “papeleiras” do mundo,  argumenta que se for cumprir as exigências o projeto perderá a oportunidade e pode ser transferido para outro lugar. Um diretor da empresa chegou a mencionar o Paraguai.

A justiça federal não mandou parar o processo de licenciamento, mas a incerteza quase paralisa Barra do Ribeiro. “Nem é bom pensar” diz Jorge Wurdig. editor do Novo Tempo, o jornal da cidade. “Seria um retrocesso sem nome”, diz ele referindo-se à hipótese de não sair o projeto. Mas não está pessimista: “No ponto que chegou, não tem volta”.

Na revenda cheia de carros na rua principal, o gerente não esconde a ansiedade: “Toda essa expectativa, agora estão tão dizendo que não sai mais”. Ele partilha da opinião corrente na comunidade, de que as exigências do Miniestério Público “são coisas absurdas”.  Neto do fundador, ele toca o negócio com o pai e diz que está preparado para levar adiante, mesmo sem a fábrica.

Aos 53 anos, o secretário Antunes, nascido em D. Feliciano, tem 40 anos de Barra do Ribeiro e se considera um “barrense”. “A gente não quer acreditar”, diz ele sobre a possibilidade de transferir o projeto para outro país, como a empresa ameaçou. Ele não discute a questão ambiental, acha que há exagero quanto aos impactos. “Eles são confiáveis, usam a melhor tecnologia”, garante. “Não conheço ninguém que seja contra”, diz ele, abrindo o casaco para mostrar a camiseta da campanha pela fábrica. Mas há protestos? “Aqui, andaram umas mocinhas gravando vídeos na beira do rio, falando com pescadores, muitos nem pescadores são, a gente conhece”, minimiza.

Um comitê, formado por professores e técnicos ligados a universidades e entidades de proteção ambiental, publicou um relatório apontando os riscos de contaminação da água devolvida ao rio, num volume equivalente ao consumo diário de toda a população de Porto Alege. Produtos químicos renitentes, usados no processo de branqueamento da celulose, podem representar risco à saúde pública, já que toda a água potável de Porto Alegre e região é captada no Guaíba.  

A ação ajuizada em março, paralisou tudo em Barra do Ribeiro. O suspense agravou-se quando representantes da empresa passaram a falar na hipótese de transferir o projeto, até para outro país. As preocupações ambientais, se existiam, dissolveram-se.  “Desconheço quem não quer a fábrica”, diz o secretário. Ele acredita no que os diretores da empresa afirmam que a água devolvida ao Guaiba no ciclo industrial será mais limpa do que entrou. Garante que beberia um copo dessa água.

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