Encerrado na sexta-feira (15) no Centro de Convenções de Floripa com uma festiva distribuição de prêmios de reconhecimento a figuras do mundo apícola, o 25º Congresso Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura (Conbrapi) provou que a cadeia de negócios do mel adquiriu dimensão equivalente à de outros ramos da agroindústria exportadora baseada na agricultura familiar – frangos, porcos e sucos, entre outros.
Desde que incorporou a lógica capitalista, a partir do início do século XXI, o setor apícola construiu uma pirâmide econômica em cujo topo se movem algumas poucas empresas exportadoras responsáveis por receitas anuais da ordem US$ 100 milhões graças à venda de 35 mil toneladas de mel orgânico para os Estados Unidos, Europa e Japão (o Brasil é o quarto no ranking de exportação liderado pela China, que produz 450 mil toneladas/ano).
Na rede de negócios montados a partir do resultado do trabalho das abelhas, os mais bem remunerados são os exportadores, seguidos pelos operadores de entrepostos de matéria-prima, os comerciantes, os transportadores e os técnicos agrícolas que orientam e assistem a base da pirâmide constituída por cerca de 100 mil apicultores, alguns grandes, a maioria médios e pequenos, uns autônomos, muitos unidos em associações ou cooperativas que tiram das abelhas uma renda complementar.
Em outros patamares da pirâmide apícola se acomodam as fábricas de equipamentos e de embalagens usados. É um universo em expansão. Sem dúvida, o velho hobby de agricultores e de aposentados do funcionalismo civil e militar mudou de patamar, tornando-se um negócio cujo maior benefício é invisível – a polinização responsável pela manutenção da flora nativa e de lavouras e pomares comerciais.
Sem as abelhas, a preservação da natureza estaria comprometida. Por isso, a apicultura profissional ou amadora (incluindo as abelhas nativas, que não possuem ferrão nem veneno) é considerada aliada da agricultura e parceira do ambientalismo.
Não por acaso, os temas predominam em cursos e palestras no 25º Congresso foram os de sempre: a sanidade das abelhas, a produtividade dos apiários e o fortalecimento da meliponicultura, que vem crescendo como hobby, especialmente de mulheres e jovens.

Segundo o engenheiro florestal Edier Rodrigo de Andrade (foto), que mantém um meliponário em Blumenau, uma colônia de abelhas jataí (a espécie mais comum no Brasil) produz em média 1 kg por ano, dependendo da região. Comprado no atacado por 180 reais, um quilo desse mel costuma ser vendido como substância medicinal em pequenos frascos, multiplicando várias vezes o valor original. É esse um dos nichos mais movimentados do mercado dos derivados do mel.
No evento de Floripa, armaram-se dezenas de bancas e lojinhas dispostas a vender desde bebidas como o hidromel até cosméticos preparados com mel, própolis e até apitoxina, o veneno da Apis melífera.

O decano dessa especialidade é Celio Silva (foto), bioquímico de 82 anos que esteve ativo durante os três dias do congresso na lojinha da Prodapys instalada numa esquina do pavilhão de expositores. Um dos pioneiros da exportação de mel em contêineres — num contêiner de 20 pés cabem 67 tambores de 200 litros –, Silva já passou o negócio principal da família aos filhos Jamilton, Tarciano e Lisandro, que tocam a Apisnativa, baseada em Araranguá, SC, onde a Prodapys começou em 1991. Apaixonado pela bioquímica, o fundador do grupo Prodapys é um pregador da apiterapia, à qual se devotou a partir do momento em que há 40 anos trouxe de Cuba para trabalhar na Prodapys uma veterinária chamada Ana, hoje vivendo no México.
Tal como acontece na Apisnativa/Prodapys, a segunda geração também assumiu a direção de outras duas exportadoras presentes no 25º Congresso. A Mel Brasil, com sede em Timóteo, MG, que capta mel em todo o país e exporta pelo porto do Rio, já está nas mãos dos irmãos Augusto e Gustavo Delfim, cujo pai Carlos, 70 anos, trocou as abelhas pela pecuária bovina. Há pouco mais de dois anos, ele contrataram como gerente de compras o agrônomo Thomaz Araujo Castro, responsável por um cadastro de 4 mil fornecedores de pequeno a grande porte (60 a 600 tambores/ano). Para a captação do mel, opera uma frota de 12 caminhões que viajam para as principais regiões apícolas (onde mantém depósitos) carregando 300 tambores vazios nas idas e 100 tambores cheios na volta para a processadora em Timóteo.
Outra grande exportadora, também presente no congresso, é a Minamel, fundada em Içara, SC, por Agenor Castagna, atual presidente da FAASC. Há quatro anos, a Minamel fundiu-se com a Supermel, fundada em Maringá pelo agrônomo Carlos Roberto Domingues, de 66 anos, que se atirou na apicultura aos 18 anos, após ouvir (como estudante) uma palestra do agrônomo paulista Warwick Kerr, introdutor da abelha africana no Brasil (em 1956). As duas empresas fizeram as primeiras exportações em 2001 — um contêiner cada uma. Segundo Domingues, que já abriu espaço na firma para o filho, a produção nacional de mel, estimada em 70 mil toneladas/ano, tende a continuar crescendo graças à conquista e manutenção de grandes mercados consumidores de mel orgânico, livre de substâncias químicas estranhas à atividade das abelhas. Domingues envia amostras de mel para análise bioquímica na Alemanha. A resposta volta em 12 dias. Se for constatado indício de veneno agrícola como o glifosato ou de pólen transgênico em uma amostra, a carga correspondente é devolvida ao produtor. “Nós temos condições de fazer análises no Brasil”, diz ele, “mas optamos pela análise fora para evitar controvérsias”.
FLORIANÓPOLIS: CAPITAL DA APICULTURA
Com cerca de 2500 participantes, foi a quarta vez que Floripa reuniu o pessoal do mel de todo o Brasil. Antes, no final do século XX, a capital catarinense hospedou os congressos de 2000, de 1984 e o de 1970 – o primeiro, quando a cidade ganhara fama graças à Cidade das Abelhas, centro de pesquisas apícolas fundado em 1967 e colocado nas mãos do técnico agrícola Helmuth Wiese (1926-2002), um dos fundadores da Confederação Brasileira de Apicultura (1968) e que presidiu o congresso mundial de apicultura realizado em 1989 no Rio. (No Rio Grande do Sul, que lidera a produção nacional de mel, o Conbrapi foi realizado apenas duas vezes: em 1992 em Candelária e em 2012 em Gramado).
A Cidade das Abelhas não existe mais como centro de pesquisa, mas sua área de 20 hectares no bairro Saco Grande virou um parque ecológico da Universidade Federal de Santa Catarina, cujo gestor é o agrônomo Ricardo Jaluski, diretor técnico do Federação Apícola do Estado (Faasc), organizadora do 25 º Congresso, em parceria com a CBA e órgãos da Secretaria da Agricultura, sobretudo a Epagri, empresa estadual de pesquisa e extensão rural (1700 funcionários) que a partir de 1991 assumiu e levou para o interior do estado o que se fez originalmente na Cidade das Abelhas. No final do século XX, a burocracia havia transformado a Cidade das Abelhas num organismo praticamente inoperante. Além de escrever livros sobre o manejo das abelhas, Helmuth Wiese incentivou a polinização dos pomares de macieiras no planalto catarinense – desde os anos 70, os apicultores são pagos para colocar colmeias nos pomares, operação que dura três semanas no início da primavera. Sem as abelhas, as macieiras produzem muito pouco. Com isso, Wiese produziu uma dupla revolução: fortaleceu a pomicultura no Sul do Brasil e deu asas à apicultura migratória, que sustenta boa parte da produção nacional de mel.
