geraldo hasse
Aos 115 anos, passa por “um momento desafiador” o grupo Gerdau, o maior complexo siderometalúrgico brasileiro, com vendas de 17 milhões de toneladas de aço no ano passado.
Hoje com maior faturamento no exterior, o grupo gaúcho publicou há uma semana o balanço referente ao exercício de 2015, depois de adiar por quase um mês sua divulgação.
Os dados principais são: receitas líquidas de R$ 43,6 bilhões, prejuízo de R$ 5 bi, endividamento líquido de R$ 20,9 bi e patrimônio líquido de R$ 30,4 bilhões – todos maiores do que no exercício anterior.
Considerando a conjuntura econômica, são resultados “compatíveis” com a gravidade da crise que assola a economia brasileira.
Aliás, o balanço fala explicitamente no “momento desafiador do mercado do aço”, afetado por “uma grande vulnerabilidade”.
Mas o que chama a atenção é que, fora a provisão de R$ 2 bilhões para passivos tributários, cíveis, trabalhistas e ambientais, o grupo não fez nenhuma reserva para atender seu outro grande desafio: a Operação Zelotes, que investiga a compra de favores por grandes empresas junto a membros do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) do Ministério da Fazenda.
Foi por causa da Operação Zelotes que o grupo atrasou a divulgação do balanço (no dia 25 de fevereiro passado a Polícia Federal esteve na sede da empresa em Porto Alegre, ouviu dirigentes e recolheu documentos).
Numa das notas explicativas que calçam o balanço, o Gerdau explica que não provisionou recursos para atender a eventuais multas decorrentes da Operação Zelotes porque considera impossível prever valores e prazos em caso de um desfecho negativo do caso.
Além disso, também acha possível ganhar as contendas. Em seu espaço no final do balanço, a auditora contábil PricewaterhouseCoopers parece discordar dessa orientação.
Ao comentá-la, assinala: “Nossa opinião não está modificada em relação a esse tema”. O comentário é assinado pelo contador Adriano Machado.
Para se defender nesse rumoroso “affair”, além de “colaborar com as autoridades”, o Conselho de Administração do grupo constituiu uma comissão especial que se sobrepôs às assessorias externas contratadas para operar junto ao CARF.
De qualquer forma, o grupo reduziu em 35% os investimentos previstos para 2016, sinalizando que a saída para o risco Zelotes pode estar num aperto dos cintos que faça sobrar dinheiro no caixa.
Como empresa de capital aberto, o Gerdau não tem como esconder o que se passa. A marcha dos acontecimentos pode ser acompanhada no site ri.gerdau.com (relações com investidores), onde o grupo publica os chamados “fatos relevantes” que dizem respeito ao seu desempenho ou que afetam sua imagem corporativa.
Dos três últimos esclarecimentos, dois se referem explicitamente à Operação Zelotes. O outro é um reflexo indireto das tais investigações na cotação de papeis (ADR) do grupo na bolsa de valores de Nova York.
No esclarecimento mais contundente, publicado em 29 de fevereiro passado, a empresa afirma sobre seu envolvimento na Operação Zelotes: “Ao contrário do que tem sido cogitado no noticiário, não se trata de sonegação – declaração falsa ou omissão com a intenção de eximir-se de tributos eventualmente devidos – e sim do exercício legítimo de direito pelas empresas da Gerdau, respaldado expressamente nas leis e na jurisprudência”.
Em outro item, a empresa esclarece que não fez pagamentos indevidos a intermediários contratados para atuar no CARF: “Nenhuma importância foi paga ou repassada aos escritórios externos do caso específico e os contratos foram rescindidos quando o nome dos prestadores de serviço investigados foram veiculados na imprensa por suspeitas de ações ilícitas”.
Finalmente, afirma que não autorizou a prática de ilegalidades: “A empresa jamais concedeu qualquer autorização para que seu nome fosse utilizado em pretensas negociações ilegais, repelindo veementemente qualquer atitude que tenha ocorrido com esse fim”.

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