Há 30 anos, a última entrevista de Josué Guimarães

Um entardecer de verão em 1986. A entrevista com Josué Guimarães transcorre tão descontraída que vira um bate-papo e acaba sem que se abordem todos os assuntos. Marca-se então uma outra conversa para completar eventuais lacunas.
Não foi possível. Dia 23 de março, o escritor gaúcho morre de câncer, aos 65 anos.
O JÁ publicou em seu número 4 a última entrevista do escritor, incompleta. Os entrevistadores eram Carlos Stein, Enéas de Souza, Joaquim felizardo, Sérgius Gonzaga e Voltaire Schilling, velhos amigos de Josué.
Reproduzimos abaixo os principais trechos desse encontro.
Quem é Josué Guimarães?
Um confuso geral. Faço tudo com dúvidas, tenho dúvidas permanentes. Não muito nas coisas que estão por aí. Acho que sempre trabalhei em instituições democráticas, principalmente jornal e revista. Sempre lutei por aquilo que achava justo, isso prejudicou, me atrasou a vida tremendamente.
Militou em algum partido político?
Certa época me aproximei do Partido Comunista, mas não consigo ser do PC. Agora não sei, mas antigamente era muito limitado, muito comandado. Então nunca quis ser do PC. Acho o pessoal sensacional, admiro, mas não consigo participar. Olho para o PDT do Brizola e acho um desastre. A ala do PDS é outro desastre. O PMDB também é um saco de gatos. Tem pessoal de esquerda e até de extrema direita. Quer dizer, o quadro político hoje no Brasil está muito confuso.
E a Nova Republica?
Não acredito em República Nova nem em Nova República. Os homens são os mesmos. É só dar uma olhada: o presidente da República, José Sarney, era o presidente do PDS. Depois vem o Marco Maciel, o Aureliano Chaves, o Toniquinho Malvadeza (apelido de Antonio Carlos Magalhães, o ACM).
Então, a gente vai ver… na verdade eles fizeram uma confusão com a frente democrática, frente liberal, de propósito. Quando viram que o carro ia quebrar pularam pra outro galho… Por isso quando falam em Nova República; sou muito cético.

Retrato do autor ilustrou a conversa nas páginas internas do JÁ | Reprodução
Retrato do autor ilustrou a conversa nas páginas internas do JÁ | Reprodução

Curso Superior?
Nunca consegui terminar um curso superior. Fiz dois anos vestibular para medicina e não consegui. Fiz para jornalismo e passei. Cursei um ano. Naquela época já tinha quatro filhos, tinha que viajar, me virar, ganhar dinheiro. Então viajava de Rio para São Paulo, Pernambuco. Depois ia para a Argentina, Uruguai. Por isso não tive tempo de sentar, tirar um curso. Trabalho em jornal desde os 18 anos, de maneira que, no momento de englobar tudo, chego à conclusão de não ter feito quase nada. Nem sobre isso eu tenho certeza.
Jornalista, escritor, homem de negócios?
Sempre fui essencialmente jornalista. Não o que se compreende hoje como jornalista, que é muito diferente. Hoje o jornalista é obrigado a fazer uma matéria sobre tal coisa. Faz e vai embora. Nós antigamente fazíamos tudo em jornal. Exerci todas as funções dentro de um jornal. Fui diagramador, colunista, cronista, editorialista, repórter, redator, redator-chefe, diretor. Fui tudo. A gente entrava às nove da manhã e saía as duas ou três da madrugada. Realmente era um negócio fantástico esse trabalho.
E o escritor? O sujeito só escritor, quando escreve?
Não sou escritor desde 1980, quando lancei “Camilo Mortágua”. De lá para cá não fiz mais nada. Com os infantis, tenho 26 livros publicados. Mas isto é coisa do passado. Hoje não tenho um conto na gaveta. Não escrevo há mais de um ano.
Por que?
Primeiro pela saúde. Sofria de angina, terminei sendo operado. Depois que saí desta operação tive problemas nos olhos e não posso escrever nem ler. É um negócio muito frustrante…
Origem, família?
Meu pai era telegrafista, minha mãe, auxiliar de telegrafista. Naquele tempo os telegrafistas iam passando de município para município. Nasci em São Jerônimo e com seis meses saí. Passei rapidamente por Porto Alegre e fui para Rosário do Sul. Lá fiquei até 1930. Na revolução de 1930 meu pai fugiu para Rivera, na fronteira com Livramento. Aconteceram, então, episódios muito chatos em casa, com agressões à minha mãe. Quando meu pai voltou houve uma certa anistia e ele foi transferido para Porto Alegre, como empregado de baixa categoria.
Infância?
Dizia minha mãe que eu só fui falar aos três anos. Até achavam que eu seria mudo… Tive uma infância muito pobre. A minha mãe tinha que dividir o leite entre oito filhos. A gente morava em Rosário e a vacas passavam pela porta, mas leite não havia. Tenho uma irmã que não gosta que eu diga isso. Ela diz que não faltava nada, mas faltava quase tudo. Tínhamos estritamente o necessário para viver.
Religião?
Eu me criei dentro do espírito religioso muito intenso. Meu pai era pastor leigo e tinha um pouco mais de vício que um pastor normal. O que ele não sabia tinha que inventar, dar as cores locais. Nós fazíamos as orações antes de qualquer refeição, ao deitar e, às vezes, quando era noite de tempestade ele fazia uma oração coletiva na varanda. Fui criado dentro desse espírito. Me revoltou um pouco. Senti, em um determinado momento, que queria me desligar de tudo aquilo. Hoje reconheço nos protestantes uma certa democracia, certa compreensão.
Leitura, autores?
No primeiro ano ginasial no Cruzeiro do Sul, em 1934, fundei o Grêmio Literário Humberto de Campos, aí já tem um nome. Lia também José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Machado de Assis, inclusive fazíamos peças dos textos do Machado de Assis. Li Jorge Amado, depois descobri os autores franceses. Todo e qualquer autor francês eu lia.

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