“Matando a inteligência do estado, jogamos errado”, diz economista da FEE

Para o Rio Grande do Sul sair da crise não pode “jogar errado” e “matando a inteligência do estado, jogamos errado”; essa é a visão do economista Tomás Fiori, um dos quatro debatedores que participaram nesta terça-feira, 15/08, de um debate na Fundação de Economia e Estatística (FEE) em que foi apresentado o contexto e as perspectivas à economia gaúcha.
“O labirinto fiscalista, de arranjos que descambam para a guerra fiscal não tem nada de novo. É uma disputa permeada de tensões e quedas de braço. Há uma disputa política permanente, que não envolve apenas nossa racionalidade econômica, mas requer queda de braço e articulação”, completou Fiori, apontando que há uma necessidade maior do que apenas o Estado cortar gastos.
Para exemplificar seu ponto de vista, o economista lembrou que apenas com a compensação que deveria ser garantida pela Lei Kandir um montante de 8 bilhões de reais por ano deveria ser devolvido ao RS. “Não recebemos nem 10% disso. Com esse recurso garantido, não haveria necessidade de toda esta discussão, nem muito menos de pensar em desmontar estruturas importantes para o Estado”, disse.
Saindo do fundo do Poço
Traçando um panorama dos últimos anos de crise profunda, o também economista Jefferson Colombo observou que é possível já termos “chegado ao fundo do poço”. “Do ponto de vista cíclico, estamos em período de expansão. Mas é importante salientar que essa recuperação deve ser lenta e irregular”, alertou.
O pesquisador ainda destacou que há uma assimetria perversa nos riscos futuros: “as surpresas negativas, geradas nas esferas política e econômica, são mais prováveis e com maior impacto do que supostas surpresas positivas. A gente vem de uma recessão que durou 40 meses e estamos apenas começando a sair dela”.
Já a pesquisadora Cecília Hoff lembrou que a percepção de crise e de empobrecimento do Estado remonta aos anos 60. “O RS acompanha em geral o PIB nacional, com alguns descolamentos em tempos de estiagem e supersafra, mas tem especificidades, como sua formação histórica, características e localização”.
O cenário de crise voltou a abalar os setores tradicionais no Estado, como o agronegócio e produtos de exportações, a partir dos anos 90, com a entrada da concorrência da China no mercado internacional e a expansão da fronteira agrícola, principalmente no Centro Oeste do país.
Mas, Cecília acredita que não há perda de dinamismo global da economia gaúcha, e sim um rearranjo, passando de setores tradicionais como fumo e calçados, para setores que hoje crescem, o automotivo, máquinas e equipamentos, transporte e produtos de metal.
Para a pesquisadora as perspectivas de um novo ciclo de crescimento nacional incluem investimentos em infraestrutura, exploração de petróleo e gás e o agronegócio. “Se for por aí o novo ciclo, nesses três eixos o RS está bem posicionado. Resta ver quando e em que ritmo esse novo ciclo acontece”, completou.
Um secretário de Fazenda forte
O economista Liderau dos Santos Marques Jr foi taxativo em sua explanação: “A saída da crise financeira é disciplina fiscal”. E isso só será alcançado com um secretário da fazenda forte, capaz de realmente impulsionar o ajuste fiscal e buscar alternativas como maior transparência nas isenções fiscais e que não cedesse a políticas populistas.
De acordo com o economista, o RS foi um dos últimos estados a gerar superávit primário (apenas em 2004). “As metas fiscais nunca foram atingidas, mas a partir de 2011, tem início um processo maior de deterioração fiscal. Retomar a trajetória de superávits primários, observando as metas fiscais na fase de execução orçamentária é a única saída”, defendeu.
Ele ainda lembrou a necessidade de renegociação da dívida com a União, só que em parâmetros aceitáveis.
O painel “A economia gaúcha no contexto da crise”, foi promovido pela FEE em comemoração ao dia do economista, ocorrido no último domingo, 13 de agosto.
A FEE, que em 2017 completa 44 anos, está entre as fundações a serem extintas pelo Governo Estadual, é um dos órgãos que fazem parte da “inteligência” do Estado. A extinção não foi oficializada devido a um recurso na Justiça, que ainda não tomou uma decisão definitiva.

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