A eleição e os numes tutelares da República

É unanimidade entre observadores políticos que esta eleição decidirá os rumos do Brasil pelas próximas décadas.

E como marchamos, então, para um dia assim tão decisivo?

Temos clareza suficiente para uma escolha ponderada, para um voto consciente naqueles que conduzirão o pais ao rumo que desejamos?

Fiquemos na eleição principal, para a Presidência da República.

A referência mais à mão para entender o que está acontecendo, são as pesquisas, apesar de tudo. Todas indicam uma estranha polarização – de um lado um candidato que tem uma trajetória de líder, desde as bases sindicais, e está no terceiro mandato de presidente, postulando a reeleição. Tem reconhecimento internacional como nenhum presidente brasileiro teve até agora.

De outro, a candidatura de um político obscuro, sem biografia, que fez carreira à sombra do pai, com práticas de rachadinhas e homenagens a milicianos em seu mirrado currículo parlamentar.

Sua candidatura era improvável e, se a imprensa tivesse feito as matérias que deveria quando seu nome foi cogitado, ela provavelmente nem se criaria. Mas era conveniente, para manter no ar o discurso da polarização Lula-Bolsonaro e todos foram coniventes.

Em tese, o conceito de polarização política envolve dois polos com certa equivalência em força ou poder, mas era estratégico manter uma narrativa que reduz Lula ao anti-bolsonarismo, enquanto se criavam condições para uma “terceira via”, que as pesquisas já apontavam como expectativa de mais de 40% do eleitorado.           

Por razões que os cientistas políticos haverão de explicar, o nome da terceira via não se materializou e o candidato que era um “chapéu na cadeira” da oposição, ocupou o lugar e aí está aparecendo nas pesquisas como uma opção real para traçar os rumos que o Brasil tomará pelos próximos 30 anos.  

Em 1985, na véspera da eleição indireta que marcou o fim da ditadura, em entrevista coletiva Tancredo Neves falou como vencedor e um repórter provocou: “E se o Paulo Maluf vencer amanhã dr. Tancredo, como vai ser?” Ele não hesitou: “Os numes tutelares da República não permitirão”.

De fato, ele ganhou. Não governou, mas o regime civil se consolidou e cá estamos, tentando avançar. Confio que eles, os numes tutelares da República, estejam mais vigilantes do que nunca neste domingo.