A geometria como pensamento: Rubem Valentim no MAM Rio

A obra de Valentim não se oferece como imagem de impacto imediato, mas como estrutura que exige permanência do olhar.

Por Cristiano Goldschmidt

A exposição Rubem Valentim: a ordem do sensível, em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, não se apresenta como simples revisão de carreira, embora cumpra também esse papel com notável rigor. O que ela organiza, de modo mais profundo, é um campo de fricção entre duas leituras frequentemente empobrecidas quando tratam do artista: de um lado, a filiação à abstração geométrica brasileira; de outro, a persistência de um vocabulário simbólico de matriz afro-brasileira que não se deixa reduzir a ilustração cultural. A primeira sala já indica esse equilíbrio delicado. Não há efeito de entrada espetacular, mas uma espécie de contenção luminosa, quase como se as obras exigissem silêncio antes de qualquer interpretação.

A curadoria de Raquel Barreto e Phelipe Rezende opera com uma inteligência expositiva que recusa a pedagogia excessiva. Em vez de conduzir o visitante por uma narrativa linear ou ilustrativa, o percurso se estrutura como uma série de aproximações sucessivas, em que cada núcleo de obras reorganiza a percepção do anterior. Há uma lógica de montagem que não busca esclarecer de imediato, mas fazer com que o olhar se habitue a uma gramática própria. Em certos momentos, essa construção produz a impressão de que a obra de Valentim não evolui no sentido convencional, mas se desdobra por acumulação interna, como sistemas que se reconfiguram sem abandonar seus princípios estruturais.

É difícil sustentar, diante desse conjunto, a leitura simplificada que aproxima Valentim apenas do concretismo ou do vocabulário construtivo internacional. Embora essa dimensão esteja presente, ela aparece sempre atravessada por outra ordem de determinação, mais densa e menos facilmente classificável. Os signos que estruturam sua obra — formas axiais, emblemas sintéticos, referências a sistemas simbólicos afro-religiosos — não funcionam como citações externas, mas como operadores internos de sentido. Eles não são aplicados sobre a forma; são constitutivos dela. Nesse sentido, a geometria em Valentim não é um princípio neutro de organização, mas um campo tensionado por uma carga simbólica que reorganiza sua própria lógica.

Talvez seja justamente nesse ponto que a exposição alcança sua maior força interpretativa: ao tornar visível que não há oposição simples entre construção formal e densidade simbólica. O que se apresenta é um pensamento visual em que essas duas dimensões coexistem de maneira inseparável. Em diversas pinturas, a estrutura geométrica funciona como um sistema de contenção e, ao mesmo tempo, como campo de irradiação simbólica. A repetição de formas não produz estagnação, mas variação controlada, como se cada elemento carregasse uma pequena diferença interna que impede qualquer leitura definitiva.

Na experiência concreta da visita, há um momento em que essa lógica deixa de ser apenas intelectual e passa a afetar a percepção corporal do espectador. Diante de obras de maior escala, percebe-se que o corpo não é exterior ao sistema visual, mas parte dele. A frontalidade das composições, a estabilidade dos eixos e a precisão das proporções criam uma espécie de gravidade própria, que organiza o olhar e o impede de se dispersar. Não se trata de impacto imediato, mas de uma forma de retenção progressiva, em que o tempo de observação se torna componente essencial da obra.

As pinturas, nesse contexto, revelam um rigor que não deve ser confundido com rigidez. Valentim trabalha com estruturas de forte organização interna — simetrias, grades implícitas, eixos verticais e horizontais —, mas sempre introduz pequenas variações que deslocam o sistema sem rompê-lo. A cor desempenha papel decisivo nesse processo. Em vez de paleta expansiva, há uma economia cromática que intensifica as relações entre os elementos. Pretos densos, brancos cortantes, vermelhos e verdes pontuais funcionam como vetores de orientação visual, quase como marcas de um sistema de leitura que não se oferece de forma imediata.

Esses princípios se prolongam de maneira particularmente interessante nas esculturas e relevos, que ampliam a lógica pictórica para o espaço tridimensional. Em vez de modelagem contínua, Valentim constrói estruturas a partir de planos justapostos, cortes precisos e encaixes que produzem uma sensação de montagem consciente. São formas verticais que evocam certa monumentalidade, mas sem recorrer a naturalismo ou narrativa figurativa. O que se impõe é a lógica construtiva: cada elemento parece existir em função de uma ordem interna que organiza o conjunto como sistema.

Essas obras tridimensionais instauram também uma relação específica com o espaço expositivo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A arquitetura aberta, marcada por planos amplos e circulação fluida, não funciona como mero suporte neutro, mas como campo de ativação das peças. As esculturas respondem a esse ambiente com uma presença que reorganiza a percepção do entorno, criando eixos de orientação que atravessam o espaço. O visitante não apenas observa os objetos, mas se vê implicado em um sistema espacial que se constrói à medida que é percorrido.

A curadoria de Raquel Barreto e Phelipe Rezende reforça essa dimensão ao evitar compartimentações rígidas entre pintura, relevo e escultura. Em vez disso, estabelece um percurso em que essas categorias se tornam porosas, permitindo que o visitante perceba continuidades estruturais entre suportes distintos. Essa escolha não simplifica a obra de Valentim; ao contrário, evidencia sua coerência interna, na qual diferentes meios são mobilizados para investigar problemas semelhantes de organização formal e simbólica.

Outro aspecto relevante da exposição é a maneira como ela trata a repetição. Em Valentim, repetir não significa reiterar o mesmo, mas explorar variações mínimas dentro de um sistema relativamente estável. Essa operação se torna visível quando obras de diferentes períodos são colocadas em diálogo: o que muda não é o vocabulário, mas a intensidade das relações internas. Pequenos deslocamentos de cor, ajustes de proporção ou reorganizações dos eixos produzem efeitos significativos, revelando uma obra que se constrói mais por refinamento contínuo do que por rupturas.

Esse regime de variação controlada também se relaciona a uma forma específica de temporalidade. A obra de Valentim não se oferece como imagem de impacto imediato, mas como estrutura que exige permanência do olhar. A cada retorno, novos vínculos se estabelecem entre os elementos, como se a obra estivesse sempre ligeiramente à frente da leitura que dela se faz. Essa defasagem produtiva entre ver e compreender é um dos aspectos mais consistentes da experiência proposta pela exposição.

Em termos mais amplos, pode-se dizer que Rubem Valentim: a ordem do sensível apresenta um artista que constrói um sistema visual em que forma e pensamento não se separam. A geometria, longe de funcionar como abstração autônoma, é atravessada por camadas simbólicas que lhe conferem densidade histórica e cultural. O resultado não é síntese harmoniosa, mas um campo de tensão permanente, no qual diferentes regimes de sentido coexistem sem se anular. Ao final do percurso, o que permanece não é uma interpretação fechada, mas a sensação de ter sido exposto a um modo de organização do visível que resiste a leituras simplificadoras. Valentim aparece aqui como alguém que transforma a forma em pensamento e o pensamento em forma, sem hierarquia entre ambos. E talvez seja precisamente nessa recusa de separação que sua obra encontra sua força mais persistente: a de sustentar, no interior da geometria, uma complexidade que continua operando mesmo depois que o olhar se afasta.