A irredenção da Redenção


Fraga*
Passo a passo, o maior triângulo escaleno verde da cidade está virando um saara urbano. Para perceber o que se passa, só cabisbaixando a visão.
Passo a passo, passa a população por cima de cada último centímetro quadrado de cada derradeiro trecho gramado.
Passo a passo, as mínimas áreas verdejantes, que deveriam ser espaços preservados com o mais simples paisagismo, vão ganhando perimetrais feitas por átilas calçados.
Passo a passo, aquele preguiçoso cacoete de pedestre, o de cortar caminho para não ter que controlar a ansiedade, está recortando o que resta das gramíneas.
Passo a passo, ando por lá e faço o cálculo desanimador: os pés que aparam não vão parar enquanto houver a menor chance de abreviar caminhadas, corridas, passeios, perambulações.
Passo a passo, o que era para ser intransitável recebe o trânsito incessante de sapatos, tênis, botas, coturnos, sandálias, chinelos, pés descalços.
Passo a passo, sob árvores frondosas e arbustos baixos e galhos que tentam impedir a abertura de novas trilhas, avança a desertificação daquele solo que na minha infância, logo ali nos anos 50, era um mar vegetal.
Passo a passo, numa pressa mal pressentida pelos passantes, diminuem as folhas da relva, e ninguém avalia a sua própria participação no pisoteamento desse patrimônio.
Passo a passo, as sobras do tapete do Parque Farroupilha agonizam sob solas, sem folga para a fotossíntese, sem intervalos do massacre esmagador.
Passo a passo, se torna impossível a tarefa da impassível administração municipal, de devolver à paisagem a imagem do passado.
Passo a passo, multidões avulsas rasgam rotas arenosas sobre os restantes nacos verdes, e enquanto circulam, aos pares ou em grupos, deixam no ar conceitos ecológicos e de cidadania, em contraste com o rastro insensível no chão.
Passo a passo, desvio da hipocrisia. Aqui e ali, tufos ainda não amassados se encolhem. Temem os domingos no parque.

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