Está com o ministro André Mendonça, no STF, outra bomba relacionada ao Caso Master: a delação premiada de João Carlos Mansur, fundador e ex-dono da Reag Investimentos. Ele assinou o acordo de delação com a Procuradoria-Geral da República (PGR) no início de setembro.
É a primeira “colaboração premiada” firmada no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga os crimes de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Mansur comandava o “braço previdenciário” do esquema de fraudes do Master. Segundo a PF, Mansur testou seu esquema no projeto do Cais Mauá, em Porto Alegre.
Ele entregou à PGR 17 anexos detalhando como fundos administrados pela Reag eram utilizados de forma sistemática para retirar e desviar recursos, ocultar patrimônio e enviar dinheiro para o exterior.
Mansur já revelou que os fundos da Reag serviram para camuflar o pagamento de propinas de Daniel Vorcaro a autoridades públicas. Nomes de políticos também foram mencionados nos anexos.
Segundo as investigações, Mansur comprometeu-se a apontar a localização de até R$ 20 bilhões em ativos escondidos por Vorcaro (como imóveis e direitos creditórios) em nome de laranjas e offshores.
Como parte do acordo firmado com a PGR, João Carlos Mansur se comprometeu a pagar uma multa de R$ 40 milhões, valor equivalente ao que ele teria recebido da Reag enquanto comandava a instituição.
Nos bastidores do mercado financeiro, a assinatura do acordo provocou apreensão, dada a capilaridade da Reag e o potencial de atingir, com novas revelações, outros grandes executivos, gestores e agentes públicos.
Menos de uma semana após a prisão de Mansur, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag Trust por “graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional” e determinou o congelamento total de bens de seus diretores.
O dinheiro dos institutos de previdência municipais lesados, estimado em mais de R$ 20 bilhões, entrou na massa de ativos que a Justiça tenta reaver por meio de bloqueios judiciais e dos acordos de delação premiada.
A Reag foi concessionária do Cais Mauá em Porto Alegre, de onde sumiram R$ 130 milhões aplicados por vários institutos de previdência de servidores municipais ( Regimes Própros de Previdência Social, RPPS).
O Fundo de Investimento em Participações, criado por Mansur para gerir os recursos arrecadados para a reconstrução do Cais Mauá é apontado pela Polícia Federal (PF) como o “laboratório” ou ensaio geral do grande esquema de fraudes financeiras que mais tarde culminou na Operação Compliance Zero e na queda do Banco Master.
Auditorias revelaram que, dos R$ 130 milhões investidos no projeto de revitalização do Cais Mauá, pelo menos R$ 40 milhões foram consumidos em “despesas operacionais” de empresas ligadas ao grupo, sem que um único tijolo fosse assentado na orla do Guaíba.
O restante evaporou por meio de uma cadeia de fundos estruturados.
Em dezembro de 2025, uma controvertida decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) absolveu 10 acusados de fraude relacionados ao FIP Cais Mauá.
O Instituto de Previdência do Estado do RS foi um dos maiores investidores institucionais fisgados pelo consórcio, com R$ 17 milhões. Quando as irregularidades começaram a vir à tona, o órgão tentou reaver os aportes judicialmente, mas os recursos já haviam sido pulverizados.
O fundo dos servidores municipais de Palmas, no Estado do Tocantins, foi outro que sofreu um desfalque gigantesco em aplicações temerárias. A CPI realizada pela Câmara Municipal revelou que R$ 30 milhões do dinheiro da previdência da capital do Tocantins foram direcionados especificamente para o FIP Cais Mauá.
O dinheiro sumiu de duas formas: R$ 40 milhões foram queimados em “despesas operacionais” fictícias das empresas do consórcio, e os R$ 90 milhões restantes foram drenados ao longo dos anos por meio de cobranças abusivas de taxas de administração e desvalorização forçada de ativos. O patrimônio do fundo terminou zerado.
O modelo testado em Porto Alegre espalhou-se pelo país. Gestoras ligadas ao esquema (incluindo a estrutura sob influência da Reag e do Banco Master) captaram ativos de uma centena de fundos de previdencia de municípois em vários estados.
O acordo de colaboração premiada assinado por João Carlos Mansur com a PGR serve exatamente como o fio condutor para tentar rastrear o destino final desses recursos.
Como funcionava o esquema no Cais Mauá
A fraude que dilapidou os R$ 130 milhões do Cais Mauá foi meticulosamente desenhada no mercado de capitais para enganar os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). O golpe estruturado pelas gestoras investigadas funcionava em quatro etapas fundamentais:
[Dinheiro dos Servidores (RPPS)]
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[Fundo Cais Mauá (FIP)] ───► (Sem obras reais: R$ 40 mi queimados em “taxas”)
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[Compromissos de Compra Fictícios] ───► [Empresas de Fachada (“Papéis Podres”)]
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[Dreno / Contas no Exterior]
Os operadores criavam um Fundo de Investimento em Participações (FIP) com um propósito aparentemente nobre, como a revitalização do Cais Mauá em Porto Alegre. O projeto possuía apelo político, licença pública e ampla divulgação midiática, o que gerava uma falsa sensação de segurança.
Agentes financeiros com trânsito livre em prefeituras do interior ofereciam o investimento aos conselhos de previdência municipais. Eles prometiam rentabilidades muito acima do mercado e apresentavam falsos relatórios de baixo risco. Em alguns casos investigados pela PF, agentes públicos recebiam propina (rebate) para aprovar a compra das cotas do fundo.
A gestora usava o dinheiro para adquirir debêntures, notas promissórias ou ações de empresas de fachada criadas pelo próprio grupo financeiro (os chamados “papéis podres”). Essas empresas não tinham faturamento, patrimônio real ou funcionários.
Conforme o dinheiro saía do fundo para comprar esses títulos sem valor, o patrimônio do FIP Cais Mauá despencava de forma forçada. Paralelamente, cobranças abusivas de taxas de administração e consultorias fantasmas “derretiam” o saldo. Quando os municípios tentavam resgatar o dinheiro, o valor das cotas já estava zerado.
Após o colapso do consórcio gerido pelas empresas investigadas, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul e o BNDES estruturaram um novo modelo de concessão. Em fevereiro de 2024, um novo leilão foi realizado e vencido pelo Consórcio Pulsa RS. No entanto, o projeto sofreu novos e severos reveses em 2026.
Após sucessivos adiamentos motivados pela necessidade de revisar projetos econômicos pós-enchentes de 2024, o Governo Gaúcho anunciou o cancelamento definitivo da concessão com o Consórcio Pulsa RS. O grupo não conseguiu cumprir 8 das 10 exigências de documentação e garantias financeiras no prazo estipulado.
A catástrofe climática de maio de 2024 mudou completamente as regras do jogo. Nenhum grande consórcio aceitou assinar contratos de 30 anos sem que os estudos de engenharia e proteção contra cheias fossem totalmente refeitos.
Sem uma concessionária única, lideranças do município e do Estado defendem em 2026 que o Cais Mauá não seja mais concedido em um bloco só. A tendência em discussão é o fatiamento da concessão por armazéns ou blocos menores, repetindo o modelo comercial que deu certo num trecho já concedido para o Cais Embarcadero.

