A TORRE EIFFEL/ Luiz Olyntho Telles da Silva

“A grandeza da oração reside, em primeiro lugar, em não ser respondida, e em não entrar nessa troca a feiura de um comércio”.

SAINT-EXUPÉRY, Cidadela.

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Conheci a Torre Eiffel no princípio dos anos 80 e fiquei tão impressionado que ao longo dos anos voltei a visitá-la algumas vezes. O amplo jardim circundante, as fontes, os museus próximos, tudo dizia de seu valor.

Lembro-me ainda, na primeira vez, de ter tirado uma foto, apoiado em uma de suas bases, buscando seguir suas linhas em direção aos céus. Outra vez, foi em uma ensolarada manhã de um domingo outonal.

Tinha terminado de dar um passeio pelos jardins do Trocadero e começava a descer a Avenue du Président Wilson, quando fui abordado por uma jovem; queria saber se podia indicar-lhe a direção para chegar à Torre.

Imaginem, era francesa e nunca a vira de perto; morava no interior e, há seis meses, viajava semanalmente a Paris para estudar balé. Naquela manhã, roubava-se um tempo para conhecer o grande monumento.

É preciso dizer que voltei dez passos para apresentar-lhe, pessoalmente, o símbolo maior da cidade luz? Ah!

E o entardecer no último domingo de verão que aí estive?! Eu sentara em um bar da Avenue Desaix com a Avenue de Suffren, o Firmine, com uma ampla visão do Champ de Mars, para aguardar o pôr-do-sol, degustando uma pression bem fria.

Seria próximo das dezoito horas. Às vinte horas o dia continuava claro e, às vinte e uma, com a sensação de que esse dia não terminaria nunca, encomendei uma porção de carpaccio e preparei-me para jantar.

Estava informado de que a noite, nesta época do ano, e nessa região, custava a cair, mas nunca imaginara tardasse tanto.

Foi exatamente às vinte e três horas quando, num repente, como se as luzes do dia tivessem sido desligadas no interruptor, que a noite entrou e, ato contínuo, num átimo, acenderam-se as luzes da Torre Eiffel, por inteiro. Um espetáculo deslumbrante!

As obras de Eiffel, desde que o conheci, constituíram-se em um marco para mim. Nem falo da impressão que me causou o Elevador de Santa Justa, em Lisboa, do qual, embora conste, hoje se duvida de sua efetiva participação no projeto, mas suas pontes, como a Dona Maria Pia, unindo a cidade do Porto à Vila Nova de Gaia, por sobre o rio Douro, e os seus monumentos, como a estrutura da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, sempre me pareceram notáveis.

Pois outro dia, lendo um pequeno livro de Ferenc Molnár, O Poste de Vapor, quando contava que a primeira ponte, ligando Buda a Peste, por sobre o Danúbio, a Ponte Margarida, fora também um projeto dele, bem antes de ser famoso, um pequeno comentário chamou-me a atenção.

Verdade que ele diz muitas coisas interessantes aí. Ele menciona, por exemplo, para mostrar como vão se processando sua associação de ideias, Jean Giraudoux.

Seus pensamentos percorrem o fio das estruturas e Molnár lembra-se da Oração sobre a Torre Eiffel, um dos capítulos do livro Julieta no país dos homens, desse autor, onde conta que, tendo subido um dia na Torre, enquanto observava Paris, ocorreu-lhe pensar que confiança teve na lei das massas o engenheiro que construiu esta torre de ferro!

Mas o ponto que mais me tocou foi a comparação da ponte com a torre: a ponte tinha a vantagem de estar deitada! Pois foi neste momento que se formou, para mim, como uma Gestalt, a imagem que quero contar-lhes.

Precisei relatar os antecedentes para verem como sou lento, ou como pode ser lenta a formulação de certas ideias.

Pois o que percebi, naquele momento, foi que a Torre Eiffel pode ser vista assim: suas quatro grandes bases representam os quatro cantos do mundo com as mãos postas, noite e dia, em oração, voltadas aos céus.

E então compreendi que assim deveriam ser todas as orações, obras para o usufruto e deleite de todos.

 

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