A virada do carvão

ELMAR BONES
Não tiveram repercussão os calorosos aplausos que o governador Ivo Sartori arrancou de um seleto público que lotou o auditório Mercosul da Fiergs, esta semana. No entanto, havia ali uma manchete.
Eram 120 convidados – prefeitos, empresários, representantes de investidores e fornecedores de tecnologia da Alemanha, Estados Unidos, Japão e China – reunidos num seminário sobre as perspectivas da economia do carvão, no Rio Grande do Sul.
“Estamos aqui criando um ponto de partida para um futuro diferente”, discursou Sartori. Quando disse que a lei, que havia assinado pouco antes, é prova de que faz um “governo de parcerias”, o público aplaudiu de pé.
A lei que Sartori sancionou naquela quarta-feira, na abertura do seminário na Fiergs, cria o Pró Carvão um amplo programa de estímulos para formar dois polos carboquímicos no Rio Grande do Sul.
É uma lei que andou rápido. Saiu do Palácio Piratini com data de 15 de setembro, tramitou trinta e nove dias. Na sessão de 24 de outubro, estava aprovada, inclusive com votos da oposição.
Sartori fez questão de esperar mais de um mês para sancioná-la perante aquele público seleto, na Fiergs.
O Rio Grande do Sul tem mais de 90% das jazidas de carvão mineral do Brasil, que está entre os 15 países com as maiores reservas no mundo.
Estima-se que no subsolo da região carbonífera no sudoeste gaúcho há uma energia enterrada equivalente a três vezes e meia o potencial de petróleo no pré-sal.
Mas o carvão é um insumo marginal mesmo na economia gaúcha, praticamente banido dos projetos de desenvolvimento, acossado por um estigma ambiental secular. No Estado pioneiro do ambientalismo no país, o carvão tem sido o vilão número um.
O desafio que Sartori abraçou é o de inverter essa equação e colocar o carvão como base de um grande ciclo de desenvolvimento sustentável, através da carboquímica.
Sartori disse que o governo faz estudos desde 2015, quando lançou o Plano Estadual de Energia. É força de expressão.
A carboquímica entrou nas prioridades do governo estadual este ano, depois que a Copelmi apresentou o projeto de uma planta para extrair gás do carvão e viabilizar um conjunto de indústrias químicas, num complexo capaz de alavancar mais de quatro bilhões de dólares em investimentos.
Foi a partir daí que se materializou a viagem que o governo promoveu ao Japão e à China, onde Sartori conheceu plantas e indústrias semelhantes ao que se pretende fazer aqui.
A viagem consolidou a percepção do governador de que estava diante de uma grande oportunidade. Um polo carboquímico significa a quebra de um tabu secular que envolve a exploração da grande riqueza mineral dos gaúchos, o carvão.
A Copelmi tem 120 anos de experiência na mineração de carvão no Rio Grande do Sul. Tem concessão para explorar reservas de 200 milhões de toneladas do melhor carvão encontrado no sub-solo gaúcho, na região do baixo jacuí, a 60 quilômetros de Porto Alegre. Além de indice menor de cinzas, o carvão do Jacuí pode ser minerado a céu aberto.
Desde 2012, a empresa trabalha num projeto para o aproveitamento sustentável dessas jazidas, que as novas tecnologias tornaram viável nas últimas décadas.
Em vez de queimar o carvão para gerar energia, enfrentando restrições ambientais cada vez maiores, extrair o gás que pode tanto ser queimado, quanto transformado em matérias-primas de larga utilização, inclusive na petroquímica.
Já com alguns parceiros internacionais acertados, a Copelmi agora tenta atrair investidores e fornecedores de tecnologia.
Na lei sancionada por Sartori estão previstos dois complexos carboquímicos.
O que está previsto no projeto da Copelmi já tem cronograma e trabalha com a perspectiva de dar início às obras em dois anos.
O outro, junto a Candiota, chamado Complexo da Campanha, é uma aposta no futuro, uma miragem por enquanto.
Apoiada amplamente pelo empresariado, a política de estímulo à  carboquímica tem voto inclusive de políticos de oposição, representantes da região carbonífera, deprimida pela decadência do carvão e sem alternativa até agora.
Não por acaso, os prefeitos dos municípios onde estão as reservas eram os mais entusiasmados a bater palmas para Sartori no seminário da Fiergs.

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