
Por Cristiano Goldschmidt
Há algo de profundamente revelador no fato de Donald Trump desejar celebrar seus oitenta anos e os duzentos e cinquenta anos da independência dos Estados Unidos por meio de uma luta de UFC na Casa Branca. Não se trata apenas de uma escolha excêntrica. Tampouco de uma simples estratégia de comunicação voltada ao entretenimento. O episódio adquire significado mais amplo quando observado como sintoma de uma época na qual o espetáculo substitui o símbolo, a exibição ocupa o lugar da reflexão e a política se converte em uma extensão da indústria do entretenimento.
A Casa Branca não é apenas uma residência oficial. Ela constitui um espaço carregado de densidade histórica, um cenário que sintetiza valores republicanos, conflitos democráticos, decisões de alcance planetário e a memória institucional de uma das nações mais influentes do mundo moderno. Por isso, transformá-la em palco para um evento de combate televisionado significa deslocar o centro de gravidade da política para a lógica do show. O gesto possui um caráter quase alegórico: a substituição da palavra pelo golpe, da deliberação pela excitação, do pensamento pela descarga emocional instantânea.
Naturalmente, não há nada de condenável no UFC enquanto prática esportiva. O problema reside no símbolo escolhido. Cada sociedade celebra aquilo que considera digno de reverência. Quando uma nação decide homenagear sua própria trajetória histórica por meio de um espetáculo de combate, é inevitável perguntar se o objetivo da celebração é recordar ideias, princípios e valores ou simplesmente produzir imagens impactantes destinadas ao consumo imediato.
Talvez seja justamente por isso que a iniciativa pareça tão coerente com a trajetória pública de Trump. Ao longo de décadas, sua figura foi construída menos como a de um estadista e mais como a de um personagem excêntrico, frequentemente questionado por seus comportamentos públicos e por suas decisões muitas vezes arbitrárias. Sua linguagem sempre privilegiou a simplificação extrema dos problemas, a teatralização dos conflitos e a construção de inimigos. O debate racional cede espaço à provocação. A argumentação é substituída pelo slogan. A complexidade desaparece sob o peso da performance.
A breguice, entretanto, não deve ser entendida apenas como uma questão estética. Ela possui uma dimensão filosófica mais profunda. O brega nasce quando a aparência se emancipa completamente da substância, quando o valor passa a ser medido pela capacidade de produzir impacto imediato, quando a visibilidade deixa de ser consequência do mérito e se transforma em seu substituto. Nesse sentido, a breguice é uma forma de empobrecimento simbólico: um estado cultural no qual tudo precisa ser amplificado, exagerado e espetacularizado para adquirir significado.
Sob essa perspectiva, Donald Trump talvez seja uma das figuras mais emblemáticas produzidas pela cultura contemporânea. Sua trajetória pública sempre esteve associada à ostentação sem sutileza, à exibição da riqueza como espetáculo e à construção permanente de uma persona que parece incapaz de distinguir reconhecimento de notoriedade. Os interiores excessivamente dourados de suas propriedades, a obsessão por marcas de luxo ostensivas, a necessidade recorrente de exaltar sua suposta genialidade, a fixação quase caricatural pelo tamanho das multidões presentes em seus eventos e o uso constante de superlativos para definir a si mesmo revelam uma personalidade cuja relação com o poder passa inevitavelmente pela encenação.
Não por acaso, mesmo antes da política, Trump já se apresentava como uma espécie de personagem. Sua entrada definitiva na política apenas transferiu para as instituições democráticas os mecanismos narrativos que haviam sido aperfeiçoados durante décadas no universo dos negócios, da televisão e da cultura das celebridades. O governante tornou-se celebridade; a celebridade tornou-se governante. E a política passou a ser conduzida segundo os critérios do entretenimento.
Não faltam exemplos dessa lógica. Desde a transformação de comícios em eventos de culto à personalidade até a obsessão pública pelo tamanho das multidões que compareciam a seus atos; desde a adoção sistemática de apelidos depreciativos para adversários políticos até a necessidade constante de ocupar o centro das atenções; desde a tentativa de promover grandes desfiles militares inspirados em demonstrações de força até a conversão de praticamente qualquer debate institucional em uma disputa pessoal. Em todos esses casos, percebe-se a mesma tendência: a substituição da política enquanto espaço de deliberação pela política enquanto espetáculo.
Essa transformação, contudo, não pode ser compreendida isoladamente. Ela encontra raízes em características mais amplas da cultura norte-americana contemporânea. Embora os Estados Unidos tenham produzido alguns dos maiores cientistas, escritores, filósofos e pesquisadores da modernidade, também desenvolveram uma poderosa tradição popular de anti-intelectualismo, amplamente estudada por historiadores e sociólogos. Em determinados segmentos da sociedade, o conhecimento especializado passou a ser visto com desconfiança, a complexidade intelectual passou a ser confundida com elitismo e a ignorância, paradoxalmente, começou a ser apresentada como prova de autenticidade.
O sucesso de Trump não pode ser separado desse contexto. Em uma sociedade onde parcela significativa da população demonstra reduzido interesse por línguas estrangeiras, história mundial, geografia internacional ou experiências culturais externas ao universo norte-americano, discursos simplificadores encontram terreno fértil. O excepcionalismo americano — a crença de que os Estados Unidos ocupam uma posição singular na história humana — frequentemente produz uma curiosa combinação de autoconfiança e provincianismo cultural. O mundo inteiro é observado, mas nem sempre compreendido. As demais culturas são consumidas como espetáculo, mas raramente estudadas em profundidade.
É importante ressaltar que tal diagnóstico não se aplica indistintamente à totalidade da sociedade estadunidense. Contudo, ele ajuda a compreender por que determinadas narrativas encontram tanta receptividade. Quando o horizonte intelectual se estreita, cresce a atração por respostas fáceis para problemas complexos. Quando a reflexão é substituída pela emoção, líderes performáticos adquirem enorme vantagem política. Quando a identidade nacional passa a ser celebrada mais como afirmação de superioridade do que como responsabilidade histórica, a retórica grandiloquente torna-se mais eficaz do que a argumentação racional.
Trump surgiu precisamente nesse ambiente. Em vez de desafiar essas tendências, transformou-as em identidade política. Sua retórica nacionalista, a linguagem simplificada, a exaltação permanente da força, a admiração por demonstrações ostensivas de poder e a dificuldade em lidar com nuances refletem impulsos que já estavam presentes no imaginário político de parte da sociedade norte-americana. Nesse sentido, ele funciona menos como uma anomalia e mais como um espelho ampliado.
A relação do trumpismo com a cultura armamentista oferece um exemplo particularmente eloquente. Ao longo de décadas, setores importantes da política estadunidense passaram a tratar armas não apenas como instrumentos ou direitos constitucionais, mas como símbolos identitários. O debate sobre segurança pública frequentemente foi substituído por uma retórica emocional na qual a demonstração de força assume dimensão quase ritual. Nessa lógica, a política deixa de ser compreendida como negociação democrática e aproxima-se cada vez mais da exibição permanente de poder.
A própria fascinação de Trump por desfiles militares, armamentos, demonstrações públicas de força e eventos concebidos para exibir poder físico revela uma concepção bastante rudimentar de grandeza nacional. Civilizações verdadeiramente maduras costumam celebrar seus escritores, seus cientistas, seus filósofos, suas conquistas culturais e seus avanços civilizatórios. Já sociedades dominadas pela lógica do espetáculo tendem a confundir força com grandeza e visibilidade com relevância histórica.
Talvez seja justamente por isso que a ideia de uma luta de UFC na Casa Branca pareça tão simbolicamente adequada ao trumpismo. Não porque o esporte possua qualquer indignidade intrínseca, mas porque ele oferece a metáfora perfeita para uma visão de mundo que reduz conflitos complexos a confrontos binários, transforma adversários em inimigos e substitui a argumentação pelo impacto emocional.
O aspecto verdadeiramente constrangedor da proposta não está no UFC. Está no fato de que uma data destinada a rememorar debates iluministas sobre liberdade, representação política, cidadania e limites do poder estatal seja convertida em espetáculo midiático concebido para gerar manchetes, audiência e excitação coletiva. A independência dos Estados Unidos foi resultado de debates filosóficos, formulações jurídicas e reflexões profundas sobre soberania e direitos. Entre seus protagonistas encontravam-se homens profundamente influenciados pelo pensamento iluminista europeu. Há algo de ironicamente melancólico em imaginar essa herança intelectual sendo homenageada por meio de um evento cuja principal finalidade é produzir impacto visual.
Talvez a proposta diga menos sobre a independência dos Estados Unidos do que sobre o estado atual de sua imaginação política. Talvez revele uma época em que a visibilidade triunfa sobre o significado. E talvez, sobretudo, exponha a transformação do poder em entretenimento, fenômeno que encontra em Donald Trump não sua causa exclusiva, mas sua representação mais exuberante, mais caricatural e mais ostensivamente brega.
Porque a verdadeira breguice não consiste em um excesso de cores, em um gosto duvidoso pela decoração dourada ou em declarações espalhafatosas. A verdadeira breguice consiste em não perceber a diferença entre notoriedade e grandeza, entre espetáculo e história, entre celebridade e estadista. E poucas figuras públicas contemporâneas encarnam essa confusão com tanta intensidade quanto Donald Trump.
