Autor: Análise & Opinião

  • A Lei Áurea libertou os corpos, mas preservou as correntes

    Nossa herança africana ocupa um lugar ambíguo demais: é
    simultaneamente origem de orgulho cultural e alvo histórico de exclusão social.

    Por Cristiano Goldschmidt

    Há datas que permanecem suspensas sobre um país como uma pergunta sem resposta definitiva. O 13 de maio de 1888 é uma dessas anomalias históricas: um acontecimento oficialmente encerrado, mas moralmente inconcluso. A assinatura da Lei Áurea costuma ser apresentada como ponto final de uma era de brutalidade; no entanto, quanto mais observo a formação brasileira, mais me parece que aquela assinatura inaugurou outra espécie de arquitetura de exclusão — menos visível, talvez, porém mais sofisticada e duradoura.

    O Brasil aboliu a escravidão sem abolir a estrutura mental que a sustentava.

    Existe algo de profundamente desconcertante nessa constatação. Porque ela destrói a fantasia confortável de que sociedades se regeneram através de decretos. A história raramente funciona assim. Instituições mudam mais rápido do que imaginários coletivos. Leis podem ser promulgadas numa tarde; civilizações levam séculos para desaprender suas crueldades.

    Talvez seja precisamente por isso que o 13 de maio provoque um mal-estar tão singular na consciência nacional. A data não permite comemorações puras. Há sempre alguma coisa que resiste ao tom festivo, como se o próprio passado recusasse ser encerrado com solenidade oficial. E talvez recuse mesmo. Afinal, a escravidão brasileira não foi apenas um sistema econômico: foi uma pedagogia social da desigualdade. Ela ensinou o país a naturalizar hierarquias humanas, a transformar privilégios em paisagem e violência em hábito administrativo.

    Ainda hoje percebo como o Brasil possui uma estranha intimidade com a assimetria. Há uma familiaridade quase estética com o abismo social. O luxo e a precariedade convivem aqui sem escândalo verdadeiro, separados por poucos metros, como se a desigualdade tivesse adquirido estatuto de fenômeno natural, semelhante ao clima ou ao relevo. Essa normalização talvez seja uma das heranças mais profundas da escravidão: ela não moldou apenas a economia nacional; moldou a percepção moral da realidade.

    E, no entanto, — talvez resida aí o aspecto mais complexo da experiência brasileira — foi exatamente sob esse regime de desumanização que floresceu uma das culturas mais sofisticadas do mundo moderno.

    Há uma contradição vertiginosa no Brasil. O país construiu parte decisiva de sua identidade estética a partir daquilo que tentou destruir. A música brasileira, a linguagem corporal, os ritmos, as culinárias, as formas de religiosidade e a própria ideia de brasilidade foram profundamente atravessadas pela experiência africana. Isso significa que a nação se tornou culturalmente dependente daquilo que politicamente marginalizou.

    Poucas tragédias históricas produziram um paradoxo tão intenso.

    Às vezes tenho a impressão de que o Brasil jamais resolveu verdadeiramente sua relação com a herança africana porque ela ocupa um lugar ambíguo demais: é simultaneamente origem de orgulho cultural e alvo histórico de exclusão social. O país exalta o samba enquanto suspeita dos corpos que o inventaram. Celebra a capoeira como patrimônio enquanto continua tratando certos jovens negros como ameaça presumida. Consome a estética negra, mas frequentemente teme sua presença política.

    Essa duplicidade talvez revele algo mais profundo sobre o funcionamento das sociedades modernas. Elas possuem enorme capacidade de absorver culturalmente aquilo que recusam humanamente. Transformam resistência em entretenimento, dor histórica em símbolo turístico, memória em decoração simbólica desprovida de consequência ética.

    É impossível pensar o 13 de maio sem perceber esse mecanismo.

    Porque a abolição brasileira carregou consigo uma violência peculiar: concedeu liberdade formal sem produzir pertencimento real. Milhões de pessoas deixaram juridicamente de ser propriedade sem que lhes fosse oferecida qualquer arquitetura concreta de cidadania. Nenhuma reforma estrutural acompanhou o gesto abolicionista. Nenhuma redistribuição significativa de terra. Nenhum projeto consistente de educação pública. Nenhuma tentativa séria de integração econômica.

    A liberdade chegou desacompanhada de mundo.

    Essa talvez seja uma das definições mais brutais de abandono histórico.

    E é curioso perceber como o imaginário nacional preferiu durante décadas concentrar sua atenção quase exclusivamente na figura da Princesa Isabel, como se a história da abolição pudesse ser reduzida ao gesto benevolente de uma personagem imperial. Sempre desconfio de narrativas excessivamente personalistas quando se trata de processos históricos complexos. Elas costumam funcionar como mecanismos de simplificação moral. Produzem heróis providenciais e eliminam tensões estruturais.

    A escravidão brasileira não terminou apenas porque uma princesa decidiu encerrá-la. Ela terminou também porque havia rebeliões, fugas, quilombos, imprensa abolicionista, pressão internacional, crise econômica, articulação intelectual e sobretudo porque existia uma massa humana que jamais aceitou plenamente sua condição de objeto.

    Talvez uma das maiores distorções da memória histórica brasileira tenha sido apagar o protagonismo da resistência negra no próprio processo de abolição. Existe uma tendência recorrente de representar pessoas escravizadas apenas como vítimas passivas da História, quando na verdade elas produziram continuamente formas de enfrentamento — abertas ou subterrâneas, organizadas ou fragmentárias.

    Quilombos não eram apenas esconderijos. Eram experiências radicais de imaginação política.

    A existência de comunidades autônomas negras em pleno sistema escravocrata talvez contenha uma das reflexões mais impressionantes sobre liberdade em toda a história brasileira. Porque liberdade, nesses casos, não surgia como abstração filosófica iluminista nem como concessão estatal; surgia como necessidade existencial concreta. Era construída clandestinamente, em territórios improvisados, através da recusa obstinada à lógica da propriedade humana.

    Há algo profundamente filosófico nisso: a liberdade humana frequentemente nasce antes de possuir reconhecimento jurídico. Ela começa como insubmissão interior.

    E talvez seja precisamente esse elemento que torna a cultura afro-brasileira tão poderosa. Ela não representa apenas contribuição estética; representa sobrevivência simbólica. Cada manifestação cultural preservada apesar da violência histórica carrega consigo uma espécie de desafio metafísico lançado contra a tentativa de apagamento.

    O que sobrevive depois da opressão?

    Essa pergunta atravessa silenciosamente o Brasil inteiro.

    Ela está nos terreiros que resistiram à perseguição policial e religiosa. Está na permanência de ritmos que atravessaram séculos. Está na linguagem cotidiana impregnada de heranças africanas muitas vezes invisíveis para quem as utiliza. Está até mesmo na maneira brasileira de compreender corpo, festa, musicalidade e convivência coletiva.

    Talvez toda cultura seja, no fundo, uma forma de memória que se recusa a morrer.

    Mas existe também outro aspecto do 13 de maio que me inquieta: a facilidade com que sociedades transformam marcos históricos em álibis morais. Como se abolir oficialmente a escravidão bastasse para absolver o país de suas continuidades estruturais. O problema das consciências nacionais é que elas frequentemente preferem cerimônias simbólicas a transformações reais.

    O Brasil gosta de datas. Gosta de monumentos, homenagens, discursos públicos. Mas raramente demonstra o mesmo entusiasmo diante de mudanças profundas capazes de alterar distribuições concretas de poder. Talvez porque mudanças reais custem privilégios reais.

    Por isso o debate sobre memória histórica costuma gerar tanto desconforto. Ele obriga a sociedade a reconhecer que o passado não passou inteiramente. Obriga a admitir que desigualdades contemporâneas não surgiram espontaneamente nem resultam exclusivamente de fracassos individuais. Há uma arquitetura histórica sustentando o presente.

    E isso possui consequências éticas inevitáveis.

    Nenhuma nação pode compreender sua própria formação ignorando os mecanismos sobre os quais ergueu sua prosperidade. No caso brasileiro, essa prosperidade foi construída durante séculos através da exploração sistemática de corpos negros. Não reconhecer essa evidência produz uma espécie de amnésia moral coletiva — e povos amnésicos tornam-se incapazes de compreender a si mesmos.

    Mas também não acredito que a memória deva servir apenas ao ressentimento. Existe uma diferença importante entre consciência histórica e aprisionamento histórico. O objetivo de revisitar o passado não deveria ser cultivar culpa estéril, e sim ampliar lucidez.

    Lucidez talvez seja a palavra central.

    Porque o 13 de maio exige precisamente isso: lucidez suficiente para reconhecer simultaneamente o horror da escravidão, a insuficiência da abolição e a extraordinária potência cultural produzida por aqueles que sobreviveram ao sistema.

    É um equilíbrio difícil. Muitas narrativas caem ou na romantização conciliatória ou na visão puramente trágica da experiência brasileira. Nenhuma delas me satisfaz inteiramente. O Brasil não é apenas violência histórica, mas também não é apenas miscigenação festiva. É uma civilização construída sobre tensões permanentes entre exclusão e invenção, brutalidade e sofisticação cultural.

    Talvez por isso o país produza sentimentos tão contraditórios em quem tenta compreendê-lo seriamente.

    Há momentos em que o Brasil parece moralmente exausto de si mesmo. Em outros, parece revelar uma vitalidade cultural quase inexplicável. E suspeito que essas duas dimensões estejam conectadas. Parte da criatividade brasileira nasceu justamente da necessidade histórica de reinventar existência sob condições adversas.

    Transformar dor em linguagem talvez seja uma das operações mais humanas que existem.

    Quando penso no 13 de maio, não vejo exatamente uma celebração nacional. Vejo antes uma espécie de espelho incômodo colocado diante do país. Um espelho que revela não apenas aquilo que fomos, mas aquilo que ainda toleramos ser.

    E talvez o verdadeiro sentido dessa data esteja menos na ideia de conclusão do que na ideia de responsabilidade.

    Porque liberdade não é um acontecimento encerrado no tempo. Liberdade é manutenção contínua da dignidade humana contra todas as formas — antigas ou sofisticadas — de desumanização.

    O restante é apenas cerimônia.

    ————

    *Ilustração: reprodução da litografia Jogar Capoëra (ou Dança da Guerra), um dos primeiros registros visuais da prática da capoeira no país, do alemão Johann Moritz Rugendas, que viajou pelo Brasil no século XIX.

  • Maternidade e Alteridade: reflexões sobre origem, vínculo e responsabilidade

    A noção contemporânea de maternidade tem se ampliado. Hoje, reconhece-se que o cuidado e a formação não são prerrogativas exclusivas da mãe biológica

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    O Dia das Mães, frequentemente envolto em sentimentalismo previsível, merece uma abordagem que ultrapasse o gesto automático da homenagem e se aproxime de uma reflexão mais rigorosa sobre o significado da maternidade na experiência humana. Trata-se de uma ocasião que, embora socialmente instituída, toca em dimensões profundas da existência: a origem, o cuidado, a formação moral e a transmissão simbólica entre gerações.

    A maternidade não é apenas um dado biológico, ainda que dele se origine. Reduzi-la a esse aspecto seria ignorar a complexidade das relações humanas e a construção histórica do papel materno. Em diferentes épocas e culturas, ser mãe assumiu contornos diversos, ora exaltado como missão sagrada, ora instrumentalizado como função social. Essa oscilação revela que a maternidade é, antes de tudo, uma categoria interpretativa — um modo de compreender o vínculo entre aquele que gera e aquele que é lançado ao mundo.

    Do ponto de vista filosófico, a mãe ocupa uma posição singular: ela é, simultaneamente, origem e mediação. Origem, porque é o primeiro contato do indivíduo com a vida; mediação, porque é através dela que o recém-nascido começa a decifrar o mundo. Nesse sentido, a figura materna pode ser entendida como o primeiro “outro” com quem o sujeito se relaciona, inaugurando o campo da alteridade. Essa relação primordial, marcada por dependência e progressiva separação, estrutura não apenas a dimensão afetiva, mas também a capacidade de reconhecimento do outro enquanto sujeito.

    Entretanto, idealizar a maternidade como um espaço exclusivamente de ternura é incorrer em simplificação. A experiência materna é atravessada por tensões: entre cuidado e autonomia, proteção e liberdade, presença e ausência. A mãe que cuida também é aquela que precisa, em determinado momento, permitir o afastamento. Esse paradoxo não é um defeito, mas um elemento constitutivo da relação. Educar, nesse contexto, é introduzir limites e, ao mesmo tempo, preparar para a ausência desses limites — um exercício delicado que exige discernimento e responsabilidade.

    Há ainda uma dimensão ética na maternidade que merece atenção. Ser mãe implica tomar decisões que afetam profundamente a formação de outro ser humano. Não se trata apenas de prover sustento ou afeto, mas de participar ativamente da construção de um caráter. Nesse sentido, a maternidade é uma prática moral contínua, na qual valores são transmitidos menos por discursos e mais por exemplos cotidianos. A coerência entre o que se diz e o que se faz torna-se, portanto, um critério central.

    Nesse contexto, o Dia das Mães pode ser interpretado como um momento de reconhecimento que transcende o plano material. Reconhecer não é apenas presentear, mas tornar visível aquilo que, na rotina, tende a ser naturalizado ou silenciado. O cuidado materno, por sua constância, frequentemente se torna invisível aos olhos de quem dele se beneficia. A data, portanto, oferece a oportunidade de interromper a automatização das relações e explicitar o valor de gestos que sustentam a vida cotidiana.

    Isso não significa, contudo, que tal reconhecimento deva ser mediado pelo consumo. A transformação de datas simbólicas em eventos comerciais revela uma tendência contemporânea de substituir significados por objetos. Presentear pode ser um gesto legítimo, mas não esgota — e nem deveria esgotar — o sentido da celebração. Reduzir o Dia das Mães à aquisição de bens é empobrecer sua dimensão ética e afetiva, deslocando o foco da relação para a mercadoria.

    Há, nesse ponto, uma distinção relevante entre valor e preço. O valor da maternidade, enquanto experiência formadora e vínculo duradouro, não pode ser quantificado ou traduzido em equivalentes materiais. O preço, por sua vez, pertence à lógica do mercado, que opera por substituições e equivalências. Confundir esses dois planos implica aceitar que aquilo que é essencial possa ser representado por aquilo que é acessório — uma inversão que merece ser questionada.

    Assim, talvez o gesto mais significativo nesse dia não seja o mais dispendioso, mas o mais autêntico. Um tempo dedicado, uma escuta atenta ou mesmo uma palavra cuidadosamente escolhida podem carregar um peso simbólico maior do que qualquer objeto. Trata-se de restituir à relação seu caráter humano, recusando a ideia de que o afeto precise de mediação para se expressar de forma válida.

    No entanto, é necessário reconhecer que a maternidade não deve ser romantizada como destino obrigatório. A escolha de não ser mãe também constitui uma posição legítima dentro de uma sociedade que se pretende plural. Ao desvincular a identidade feminina da obrigação materna, abre-se espaço para uma compreensão mais livre e autêntica da experiência individual. Valorizar o Dia das Mães não deve significar reforçar expectativas normativas, mas reconhecer, com sobriedade, a relevância daqueles vínculos que efetivamente se constituem.

    Além disso, a noção contemporânea de maternidade tem se ampliado. Hoje, reconhece-se que o cuidado e a formação não são prerrogativas exclusivas da mãe biológica. Famílias adotivas, arranjos diversos e até figuras substitutas desempenham papéis maternos fundamentais. Essa ampliação não dilui o conceito, mas o enriquece, ao enfatizar que o essencial não está na origem genética, mas na qualidade do vínculo estabelecido.

    Celebrar o Dia das Mães, portanto, pode ser mais do que repetir gestos convencionais. Pode ser uma oportunidade para refletir sobre o que significa cuidar, formar e transmitir. Pode ser também um momento para reconhecer as ambiguidades e desafios que acompanham essa experiência, sem reduzi-la a idealizações simplistas.

    Talvez o aspecto mais significativo da maternidade seja sua dimensão temporal. A mãe não apenas dá a vida, mas participa da sua continuidade, acompanhando — ainda que à distância — o desenvolvimento daquele que um dia dependeu integralmente dela. Esse vínculo, que resiste às transformações do tempo, revela algo fundamental sobre a condição humana: a impossibilidade de uma autonomia absoluta. Somos, em alguma medida, sempre devedores de um cuidado inicial que não escolhemos, mas que nos constitui.

    Assim, o Dia das Mães pode ser compreendido menos como uma celebração pontual e mais como um convite à consciência. Consciência da origem, da responsabilidade e da interdependência que define a vida em sociedade. Ao deslocar o foco do sentimentalismo para a reflexão, talvez se torne possível atribuir a essa data um significado mais duradouro e intelectualmente honesto.

    • Ilustração: A lição difícil (1884), reprodução de óleo sobre tela de William Bouguereau (1825-1905)

  • Do conforto à frustração: a falência do transporte por aplicativo

    O poder público, que deveria atuar como mediador e garantidor de padrões mínimos, parece operar em ritmo lento ou, em alguns casos, simplesmente se omitir.

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A promessa, no começo, parecia quase irrecusável. Quem viveu aquele momento lembra bem da sensação de finalmente ter encontrado uma alternativa ao transporte caro e, muitas vezes, ineficiente das grandes cidades. Eu mesmo, como tantos outros, passei a depender desses aplicativos com a confiança de que estava fazendo uma escolha mais prática e econômica. Mas, com o passar do tempo, essa percepção foi se desgastando. Hoje, abrir o aplicativo já não traz a mesma tranquilidade — vem acompanhado de uma certa desconfiança, quase como quem sabe que pode pagar caro por algo que talvez não valha.

    As tarifas, aliás, se tornaram um dos maiores símbolos dessa frustração. É difícil não estranhar quando uma corrida em uma categoria básica, supostamente acessível, custa o equivalente — ou até mais — do que opções mais confortáveis ofereciam no passado. E o mais incômodo não é apenas o valor em si, mas a sensação de falta de lógica e transparência. Em horários comuns, sem chuva, sem trânsito extraordinário, os preços ainda assim disparam. O consumidor, sem muitas alternativas viáveis, acaba refém de um sistema que já não entrega aquilo que um dia prometeu.

    E a qualidade, de fato, tornou-se uma loteria. Carros sujos, com mau cheiro, bancos desgastados, ar-condicionado inexistente ou quebrado — esses elementos passaram a fazer parte da experiência cotidiana de muitos usuários. Em casos mais graves, há veículos em condições claramente inadequadas para circulação, o que levanta não apenas uma questão de conforto, mas de segurança. A sensação é de abandono: paga-se mais, recebe-se menos.

    Curiosamente, em meio a esse cenário, ainda surgem exceções que evidenciam como o serviço poderia — e deveria — funcionar. No final do ano passado, em São Paulo, ao sair de um hotel rumo à Pinacoteca do Estado de São Paulo, optei justamente pela categoria de menor preço. A motorista, conduzindo um carro simples, fez questão de ligar o ar-condicionado desde o início. Comentou, com naturalidade, que a pequena economia não compensava o desconforto do passageiro. Mais do que isso, incentivou que usuários avaliassem mal sempre que se sentissem prejudicados ou não contemplados pelo serviço contratado. Segundo ela, apenas com esse tipo de retorno consistente as plataformas seriam pressionadas a ter mais rigor na aprovação de veículos e motoristas. Foi um momento breve, mas revelador: mostrou que o problema não é apenas estrutural, mas também de postura — e que ainda há quem entenda o básico de uma prestação de serviço.

    Parte desse problema está diretamente ligada à ausência de fiscalização efetiva. O poder público, que deveria atuar como mediador e garantidor de padrões mínimos, parece operar em ritmo lento ou, em alguns casos, simplesmente se omitir. Essa lacuna regulatória cria um ambiente propício para abusos: tarifas dinâmicas pouco transparentes, falta de controle sobre as condições dos veículos e ausência de mecanismos eficientes de responsabilização. Sem regras claras e fiscalização consistente, o mercado tende a pender para o lado mais forte — e quem perde é o usuário.

    É importante reconhecer que, para muitos motoristas, dirigir por aplicativo é mais do que uma escolha: é uma necessidade. Trata-se de uma fonte de renda essencial, que sustenta famílias inteiras em um contexto econômico frequentemente adverso. No entanto, essa realidade não pode ser usada como justificativa para a deterioração do serviço. A precarização atinge também os próprios condutores, submetidos a longas jornadas, ganhos instáveis e custos elevados de manutenção. Ainda assim, o fato de haver dificuldades do outro lado não elimina o direito do cliente de receber um serviço digno pelo qual está pagando.

    Outro aspecto que merece atenção é a mudança na postura de parte dos motoristas. Não é incomum encontrar profissionais que demonstram agir como se estivessem fazendo um favor, e não prestando um serviço. Essa inversão de lógica compromete a relação básica de consumo, que deveria ser pautada por respeito mútuo e profissionalismo. O usuário não está pedindo um benefício; está contratando um serviço — e, como tal, tem expectativas legítimas de qualidade, segurança e cordialidade.

    Há também um efeito silencioso, mas profundo, dessa precarização: a normalização do ruim. O que antes geraria reclamação imediata hoje é aceito com um suspiro resignado. O passageiro entra no carro, percebe o estado do veículo, mas segue a corrida porque “é o que tem”. Essa adaptação gradual a padrões mais baixos é perigosa, pois reduz a pressão por melhorias e legitima a continuidade de práticas inadequadas.

    Outro ponto que merece reflexão é a assimetria de responsabilidades. Quando algo dá errado, a responsabilidade parece sempre diluída. A plataforma aponta para o motorista, o motorista aponta para as condições impostas pela plataforma, e o usuário fica no meio, sem uma solução clara. Esse jogo de empurra enfraquece a confiança no serviço e evidencia a necessidade de regras mais firmes, que definam deveres e consequências de maneira objetiva.

    Por fim, é impossível ignorar que a precarização não é apenas operacional, mas também relacional. O vínculo entre quem presta e quem utiliza o serviço foi esvaziado de empatia e profissionalismo. Em vez de uma relação comercial clara, baseada em troca justa, o que se vê muitas vezes é tensão, impaciência e desalinhamento de expectativas. Recuperar esse equilíbrio exige mais do que tecnologia ou ajustes de preço — exige responsabilidade, fiscalização e, acima de tudo, o reconhecimento de que um serviço, para existir de forma sustentável, precisa respeitar quem paga por ele.

  • Entre o compromisso ético da amizade e a omissão silenciosa

    Uma amizade que se retrai diante da possibilidade concreta de promover o outro revela, em última instância, que seu vínculo está condicionado a certas fronteiras invisíveis.

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há uma forma silenciosa — e, por isso mesmo, profundamente reveladora — de medir o valor de uma amizade: não pelas palavras trocadas nos momentos de conforto, nem pelas risadas compartilhadas quando tudo parece leve, mas pela disposição concreta de sustentar o outro quando ele se encontra diante de suas próprias possibilidades ainda não realizadas. A amizade verdadeira, nesse sentido, não é apenas um espaço de acolhimento emocional; é também um território de responsabilidade mútua.

    Há quem pense que reconhecer o talento de um amigo já constitui, por si só, um gesto suficiente de generosidade. E, de fato, há algo de importante nisso: ser visto por alguém que nos conhece intimamente tem um valor quase ontológico, pois confirma que aquilo que intuímos sobre nós mesmos não é uma ilusão isolada. Contudo, o reconhecimento restrito ao círculo afetivo pode se tornar, paradoxalmente, uma forma sutil de limitação. O talento que não encontra passagem para o mundo permanece como potência estagnada — e a potência que não se realiza tende, com o tempo, a se transformar em frustração.

    É aqui que a amizade revela sua dimensão mais exigente. Apoiar um amigo não é apenas dizer “você é capaz”, mas perguntar: “como posso ajudar para que o mundo também veja isso?”. Essa mudança de perspectiva desloca a amizade do campo da contemplação para o campo da ação. Ela exige iniciativa, envolvimento e, sobretudo, uma certa dose de coragem. Porque, ao criar oportunidades para o outro, o amigo assume um papel ativo na transformação da vida alheia — mesmo que isso implique riscos, exposição e, por vezes, sacrifícios.

    Vivemos em uma cultura que frequentemente celebra o sucesso individual como fruto exclusivo do mérito pessoal. No entanto, essa narrativa ignora um aspecto fundamental da experiência humana: ninguém se realiza sozinho. Por trás de cada trajetória que se torna visível, há sempre uma rede — explícita ou invisível — de pessoas que, em algum momento, abriram portas, indicaram caminhos, ofereceram suporte. A amizade, quando levada a sério, é uma das formas mais nobres dessa rede.

    Mas há um ponto ainda mais delicado nessa reflexão. Nem todo apoio é, de fato, apoio. Há amizades que, sob o disfarce de proteção, mantêm o outro em um espaço confortável, porém limitado. Evitam expô-lo ao julgamento externo, ao risco do fracasso, à dureza do mundo. Embora isso possa parecer cuidado, muitas vezes é apenas uma forma de preservar a própria dinâmica da relação — uma tentativa inconsciente de manter o outro próximo, acessível, dependente. Nesse caso, a amizade deixa de ser um impulso para o crescimento e se torna um mecanismo de contenção.

    A verdadeira amizade, ao contrário, aceita — e até incentiva — a possibilidade de distanciamento que o crescimento pode trazer. Ela compreende que ajudar o outro a alcançar novos espaços significa, inevitavelmente, alterar a configuração da relação. E, ainda assim, escolhe apoiar. Esse é um gesto raro, porque exige desapego e maturidade emocional.

    Há, portanto, uma ética implícita na amizade autêntica: a ética da promoção do outro. Não se trata de anular a si mesmo, nem de transformar a relação em um projeto unilateral de investimento. Trata-se de reconhecer que o vínculo se fortalece quando ambos se comprometem com o florescimento mútuo. Nesse sentido, oferecer oportunidades não é um favor; é uma extensão natural do reconhecimento do valor do outro.

    É interessante notar que, muitas vezes, o próprio indivíduo tem dificuldade de reivindicar seu espaço no mundo. Inseguranças, medos e condicionamentos sociais atuam como barreiras invisíveis. O amigo, então, assume uma função quase mediadora: ele enxerga com mais clareza aquilo que o outro ainda hesita em afirmar. E, mais do que enxergar, ele age. Indica, apresenta, recomenda, insiste. Esse conjunto de pequenas ações, frequentemente invisíveis para quem observa de fora, pode ser decisivo para que um talento encontre seu lugar.

    No fundo, a amizade verdadeira opera como uma espécie de testemunho ativo. Ela não apenas afirma “eu sei quem você é”, mas também se compromete com a tarefa de fazer com que essa verdade encontre ressonância no mundo. Há algo de profundamente ético — quase político — nesse movimento, pois ele rompe com a lógica da indiferença e da competição pura, substituindo-a por uma lógica de cooperação e cuidado.

    Talvez seja por isso que amizades desse tipo sejam tão transformadoras. Elas não se limitam a acompanhar a vida; elas participam da sua construção. E, ao fazê-lo, criam uma espécie de memória compartilhada do crescimento: cada conquista de um se torna, em alguma medida, também a conquista do outro.

    Em última análise, o valor da amizade não reside apenas na presença, mas na implicação. Estar presente é importante, mas implicar-se é o que realmente diferencia o vínculo superficial do vínculo profundo. Implicar-se é agir em favor do outro mesmo quando não há garantias, mesmo quando o reconhecimento não será imediato, mesmo quando o esforço não será visível.

    E talvez seja justamente aí que a amizade encontra sua forma mais elevada: quando deixa de ser apenas um espaço de afeto e se torna um compromisso com o vir-a-ser do outro. Porque, no fim das contas, ser amigo de alguém é, em alguma medida, assumir a responsabilidade de não permitir que aquilo que ele pode ser permaneça apenas como possibilidade.

    Entretanto, há uma zona ética ainda mais desconfortável, frequentemente evitada: a dos amigos que, podendo agir, escolhem não fazê-lo. Não se trata aqui daqueles que não possuem meios ou condições reais de ajudar, mas daqueles que detêm algum grau de influência, acesso ou capacidade de intermediação e, ainda assim, permanecem inertes. Essa inércia raramente se apresenta como negligência explícita; ela costuma se esconder sob justificativas plausíveis — a falta de tempo, o receio de se expor, o medo de comprometer sua própria posição. No entanto, quando analisada com rigor, essa omissão revela uma fissura naquilo que se poderia chamar de compromisso ético da amizade.

    Em muitos casos, essa recusa em agir não nasce da indiferença pura, mas de um conflito mais sutil: a tensão entre o desejo de ver o outro crescer e o desconforto diante das implicações desse crescimento. A ascensão de um amigo pode provocar comparações silenciosas, deslocamentos de identidade e até a sensação de perda de um certo equilíbrio relacional previamente estabelecido. Assim, ao não oferecer a oportunidade que está ao seu alcance, o indivíduo preserva não apenas sua zona de conforto, mas também uma hierarquia implícita que o favorece. Trata-se, portanto, menos de uma falha de caráter isolada e mais de um mecanismo humano — embora eticamente questionável — de autopreservação.

    Reconhecer essa dinâmica não implica condenar sumariamente tais amizades, mas exige uma reavaliação honesta de seus limites. Uma amizade que se retrai diante da possibilidade concreta de promover o outro revela, em última instância, que seu vínculo está condicionado a certas fronteiras invisíveis. E talvez a questão mais importante não seja se todos somos capazes de oferecer oportunidades, mas se estamos dispostos a enfrentar o desconforto que isso implica. Pois é justamente nesse ponto — onde o apoio deixa de ser abstrato e se torna ação com consequências reais — que a amizade se define em sua forma mais autêntica ou se revela, silenciosamente, insuficiente.

  • A Literatura Brasileira no Dia do Trabalho

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    O 1º de maio costuma ser lembrado pelo peso histórico das lutas trabalhistas, pelo som das manifestações e pela memória viva de direitos conquistados ao longo de décadas. No entanto, essa mesma data abriga uma outra forma de celebração, menos ruidosa, mas igualmente significativa: o Dia da Literatura Brasileira. Longe de ser apenas uma banal coincidência, essa sobreposição revela uma afinidade profunda. No Brasil, escrever nunca foi só vocação ou talento — é também trabalho. Um trabalho muitas vezes solitário, pouco reconhecido, atravessado por dificuldades materiais, mas que insiste em existir como forma de resistência.

    Antes mesmo de se reconhecer como literatura, a produção escrita no Brasil já delineava contornos do que viria a ser uma identidade narrativa própria. Nos relatos de viajantes, nas cartas enviadas à metrópole, nas descrições fragmentadas de um território ainda em disputa, havia uma tentativa de traduzir o desconhecido em linguagem. Era uma escrita que vinha de fora, carregada de estranhamento e curiosidade. Com o passar do tempo, no entanto, o país começou a produzir suas próprias vozes, e esse deslocamento — de objeto narrado a sujeito narrador — marca o surgimento de uma literatura que não apenas descreve, mas interpreta e questiona.

    Com essa transformação, a língua portuguesa também se reinventa em solo brasileiro. Ela se expande, se mistura, se contamina de influências diversas, refletindo a complexidade cultural do país. O resultado é uma linguagem que não se encaixa facilmente em moldes fixos: ora erudita, ora coloquial; ora marcada pela oralidade, ora pela experimentação formal. Diferentemente de tradições literárias mais lineares, a brasileira se constrói por meio de rupturas, como se cada geração precisasse redescobrir suas próprias formas de expressão.

    Essa característica de reinvenção constante está diretamente ligada às tensões sociais que atravessam o país. A literatura brasileira não se limita ao campo estético; ela dialoga com a realidade de maneira incisiva. Ao longo da história, serviu como instrumento de denúncia, reflexão e memória. Escritores transformaram em palavras experiências marcadas por desigualdade, violência e exclusão, ampliando o alcance de vozes frequentemente silenciadas. Nesse sentido, a literatura não apenas representa o mundo — ela o tensiona, o questiona e, por vezes, o desestabiliza.

    É impossível ignorar, nesse contexto, o caráter político do ato de escrever e de ler. Em um país onde o acesso à educação sempre foi desigual, a própria possibilidade de produzir e consumir literatura carrega implicações sociais profundas. Durante muito tempo, os espaços literários foram restritos a determinados grupos, o que moldou não apenas quem escrevia, mas também quais histórias eram contadas. Hoje, há um movimento contínuo de ampliação desse horizonte, ainda que marcado por desafios persistentes.

    Essa ampliação se manifesta de maneira especialmente intensa nas margens — geográficas e simbólicas. Fora dos grandes centros editoriais, surgem narrativas que desafiam convenções e ampliam o repertório literário. Autores periféricos, indígenas, negros, mulheres e outras vozes historicamente excluídas vêm não apenas ocupando espaço, mas transformando a própria ideia de literatura. O que antes era considerado periférico passa a ocupar o centro de debates, revelando novas formas de linguagem, novas estruturas narrativas e novas perspectivas de mundo.

    Ao mesmo tempo, a literatura brasileira contemporânea carrega uma dimensão de resistência que dialoga diretamente com o espírito do 1º de maio. Muitos escritores conciliam a escrita com outras atividades profissionais, enfrentando a precariedade do mercado editorial. Editoras independentes surgem e sobrevivem graças à persistência de quem acredita no valor da palavra escrita. Leitores, por sua vez, constroem seus próprios caminhos de acesso, muitas vezes por meio de bibliotecas públicas, trocas informais ou iniciativas comunitárias.

    Há, nesse ecossistema, uma espécie de esforço coletivo que mantém a literatura viva, mesmo diante de adversidades. É como se cada livro publicado, cada texto compartilhado, cada leitura realizada fosse também um gesto de afirmação. A literatura, nesse sentido, não depende apenas de grandes instituições — ela se sustenta em redes invisíveis de criação, circulação e recepção.

    Curiosamente, essa celebração não se manifesta em grandes eventos ou cerimônias oficiais. Ela acontece de forma difusa, quase imperceptível: em salas de aula, em clubes de leitura, em cadernos esquecidos, em textos escritos à margem do cotidiano. A literatura brasileira vive tanto nos livros publicados quanto nas histórias contadas oralmente, nas experiências que circulam fora dos circuitos tradicionais.

    Essa dimensão discreta não diminui sua importância — pelo contrário, a fortalece. Enquanto o Dia do Trabalhador mobiliza coletividades nas ruas, a literatura opera no campo do íntimo, do reflexivo. Ainda assim, ambas compartilham um mesmo fundamento: a ideia de construção. Construir direitos, construir narrativas, construir sentidos para a experiência humana.

    O 1º de maio, portanto, convida a uma reflexão mais ampla. Ele não apenas rememora conquistas passadas, mas também aponta para desafios presentes. No campo literário, isso implica pensar sobre acesso, diversidade, reconhecimento e sustentabilidade. Implica perguntar quem ainda está à margem e quais histórias ainda não foram contadas.

    Ao ampliar esse olhar, percebe-se que a literatura brasileira não é um conjunto fixo de obras consagradas, mas um processo em constante transformação. Ela se alimenta de tensões, de contradições, de encontros e desencontros. Cada nova voz que emerge altera o panorama, acrescentando camadas de complexidade e vitalidade.

    Talvez seja justamente essa capacidade de transformação que mantém a literatura relevante. Em um mundo marcado pela velocidade e pela superficialidade, ler e escrever exigem pausa, atenção e escuta. São atos que resistem à lógica da pressa, criando espaços de reflexão que se tornam cada vez mais raros — e, por isso mesmo, mais necessários.

    No fim das contas, a coincidência entre o Dia do Trabalhador e o Dia da Literatura Brasileira deixa de parecer acaso e passa a revelar uma afinidade essencial. Ambos celebram formas de produção — material e simbólica — que sustentam a vida em sociedade. Ambos reconhecem o esforço, a persistência e a imaginação como elementos fundamentais para a construção de um país.

    Porque um país não se ergue apenas com infraestrutura ou legislação. Ele também se constitui nas narrativas que produz, nas histórias que escolhe contar e nas vozes que decide ouvir. E enquanto houver alguém disposto a escrever — mesmo diante das dificuldades, mesmo longe dos holofotes — haverá sempre um Brasil em processo de reinvenção, tecido lentamente na matéria viva das palavras.

  • Rejeição a Messias: quando o Senado tensiona os limites da democracia

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não é um fato trivial — e tratá-la como um simples exercício de independência institucional seria, no mínimo, ingênuo. Há algo mais profundo em jogo. O episódio expõe, com certa nitidez, a forma como parcelas organizadas da direita radical brasileira vêm operando: não necessariamente para ocupar formalmente todas as instituições, mas para tensioná-las ao limite, desgastá-las e, sempre que possível, torná-las disfuncionais.

    É claro que o Senado tem o direito — e até o dever — de rejeitar indicações presidenciais quando julgar inadequadas. O problema não está no gesto em si, mas no ambiente político que o molda. Nos últimos anos, consolidou-se no Brasil uma prática de sabotagem institucional que não se apresenta como tal. Ela se disfarça de rigor técnico, de zelo republicano, de “preocupação com a independência”. Mas, na prática, opera por meio de campanhas coordenadas, pressão pública e construção de narrativas que antecedem qualquer avaliação objetiva.

    No caso de Jorge Messias, a discussão sobre sua proximidade com o governo — algo comum a praticamente todos os indicados ao STF ao longo da história — foi amplificada de maneira seletiva. Não se trata de dizer que essa proximidade não deva ser debatida. Deve. Mas o que chama atenção é o uso estratégico desse argumento por setores que, em outros momentos, não demonstraram o mesmo nível de preocupação com critérios semelhantes.

    Esse tipo de seletividade não é um detalhe: é um sintoma. Ele revela que o debate deixou de ser sobre o perfil ideal de um ministro do Supremo e passou a ser sobre a capacidade de bloquear o governo em qualquer frente possível. O STF, nesse contexto, torna-se menos uma instituição a ser preservada e mais um campo de disputa a ser controlado — ou, ao menos, enfraquecido.

    Há um padrão que se repete. Sempre que o tribunal atua como limite a investidas autoritárias ou como garantidor de regras constitucionais, intensifica-se uma campanha de deslegitimação. Questiona-se sua autoridade, atacam-se seus membros, constrói-se a ideia de que a Corte não representa a sociedade. A rejeição de uma indicação presidencial, quando inserida nesse ambiente, deixa de ser um evento isolado e passa a fazer parte de uma engrenagem maior.

    O risco disso é menos imediato do que parece — e, por isso mesmo, mais perigoso. Não se trata de um colapso abrupto das instituições, mas de um desgaste contínuo. Aos poucos, vai-se corroendo a previsibilidade dos processos, banalizando conflitos entre os Poderes e naturalizando a ideia de que tudo pode ser permanentemente contestado. Quando esse tipo de lógica se instala, a estabilidade democrática deixa de ser um dado e passa a ser uma exceção.

    Dito isso, seria um erro responder a esse cenário apenas com indignação ou denúncia. Há também uma dimensão propositiva que não pode ser ignorada. A rejeição abre uma oportunidade concreta — e talvez necessária — de repensar a composição do Supremo de maneira mais estrutural.

    É difícil justificar, em pleno século XXI, a baixa presença de mulheres na mais alta Corte do país. Não se trata de um argumento identitário superficial, mas de reconhecer que o direito não é produzido em abstrato. Ele é interpretado por pessoas, com trajetórias, experiências e sensibilidades distintas. Um tribunal excessivamente homogêneo e masculino tende, inevitavelmente, a ter pontos cegos.

    A indicação de uma mulher para o STF, neste momento, teria um peso que vai além do simbolismo. Seria uma forma de alinhar a instituição com a realidade do próprio sistema jurídico brasileiro, no qual mulheres já são maioria em diversos níveis, da advocacia à magistratura. Mais do que isso: seria um gesto de reposicionamento político diante de uma tentativa clara de captura do debate institucional por agendas regressivas.

    Mas é importante dizer: não basta que seja uma mulher. A escolha precisa reunir densidade jurídica, trajetória sólida e independência real. Caso contrário, o movimento corre o risco de ser esvaziado ou instrumentalizado. O desafio está justamente em combinar representatividade com excelência — algo que, felizmente, não falta no cenário jurídico brasileiro.

    No fim das contas, o episódio diz menos sobre Jorge Messias e mais sobre o momento que o país atravessa. Há uma disputa em curso sobre o papel das instituições e sobre os limites da política. De um lado, forças que operam pela instabilidade, pelo ruído constante, pela erosão da confiança. De outro, a necessidade — ainda que nem sempre plenamente articulada — de reconstruir parâmetros mínimos de funcionamento democrático.

    O próximo passo do governo será decisivo. Não apenas pelo nome a ser indicado, mas pelo tipo de mensagem que essa escolha vai transmitir. Em contextos de tensão institucional, escolhas importam mais do que nunca. Elas não apenas preenchem cargos — elas sinalizam rumos.

    Se houver alguma lição a extrair desse episódio, talvez seja esta: a defesa das instituições não se faz apenas resistindo a ataques, mas também aproveitando as brechas que surgem para fortalecê-las de forma concreta. E, neste caso, isso passa, inevitavelmente, por ampliar quem tem voz dentro delas.

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    *Foto: Ton Molina/Agência Senado

  • Dia Internacional da Educação: o Brasil que se revela na sala de aula

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A educação não se deixa apreender como um simples conceito estável ou como um consenso já dado. Ela se apresenta, antes, como um campo de tensões, no qual se entrecruzam disputas de sentido, silêncios históricos e projetos de sociedade. Pensar a educação, nesse horizonte, implica reconhecer que educar nunca se limitou à transmissão de saberes: trata-se de um gesto que revela, interroga e, muitas vezes, desestabiliza aquilo que foi naturalizado ao longo do tempo.

    Falar de educação, portanto, exige mais do que adesão retórica. Exige memória — e uma memória ativa, capaz de reconhecer que o ato de ensinar se inscreve em processos históricos densos, atravessados por conflitos e assimetrias. No Brasil, essa trajetória se construiu de forma irregular, marcada por descontinuidades e permanências incômodas. É uma história que encontra, em figuras como Paulo Freire e Anísio Teixeira, não apenas referências pedagógicas, mas projetos de país: visões que recusaram a neutralidade da educação e afirmaram seu potencial transformador, insistindo que ensinar é, inevitavelmente, intervir no mundo.

    Tal constatação ajuda a compreender por que a educação, entre nós, jamais ocupou um lugar pacífico. Ela sempre esteve imbricada em disputas mais amplas — projetos de poder, concepções de cidadania, modelos de sociedade. E, ainda assim, preservou uma dimensão de abertura, um espaço onde o possível resiste ao previsto. É nesse intervalo que a imaginação de Darcy Ribeiro se torna fecunda, ao conceber uma educação enraizada na diversidade brasileira, capaz de formar sujeitos desde a infância não apenas para o convívio social, mas para a participação plena na vida coletiva.

    Se recuarmos aos primeiros capítulos dessa história, veremos que a educação no Brasil nasce sob o signo do controle e da normatização. Ensinar, durante séculos, significou catequizar, disciplinar, ajustar indivíduos a um projeto que pouco dialogava com as realidades locais. A escola, nesse contexto, operava menos como espaço de emancipação e mais como mecanismo de ordenamento social — muitas vezes apagando saberes, culturas e modos de existência.

    Contudo, a história não se esgota em suas intenções originais. Há sempre algo que escapa — e é nesse desvio que novas possibilidades emergem.

    Nas frestas do sistema, em salas improvisadas, em materiais compartilhados e em perguntas que insistem em existir apesar do silêncio, a educação foi se reinventando. Não como ideal plenamente realizado, mas como prática possível, construída no cotidiano. Há nessa reinvenção uma dimensão discreta, quase invisível, mas profundamente significativa. Educadoras como Macaé Evaristo encarnam essa experiência ao demonstrar que ensinar também é escutar, reconhecer e legitimar vozes historicamente marginalizadas.

    A sala de aula brasileira, observada de perto, revela um país em sua complexidade mais concreta. Não o país das narrativas oficiais, mas aquele atravessado por desigualdades estruturais, urgências materiais e tensões permanentes. Ali convivem o estudante que trabalha antes de estudar, a professora que transforma escassez em estratégia pedagógica e conteúdos que tentam dialogar com realidades que frequentemente os excedem. A escola torna-se, assim, um microcosmo onde se refletem as contradições nacionais.

    Nesse cenário, celebrar o Dia Internacional da Educação (28 de abril) talvez seja menos um gesto comemorativo do que um exercício de lucidez. Há sempre o risco de que a educação se transforme em palavra esvaziada — reiterada em discursos institucionais, mas fragilmente sustentada na prática. Reconhecer esse risco é condição para enfrentá-lo.

    Entre as dimensões frequentemente negligenciadas, a cultural se destaca pela sua potência. Educar não é apenas transmitir conteúdos formais, mas reconhecer repertórios, estabelecer pontes entre o conhecimento sistematizado e a vida concreta. Quando a escola ignora a linguagem, a música, os territórios e as experiências dos sujeitos que a habitam, ela se torna estrangeira em seu próprio contexto. Ao contrário, quando acolhe essas dimensões, transforma-se em espaço de pertencimento e criação.

    Há também uma dimensão crítica incontornável: a pergunta sobre a quem serve a educação que temos. Longe de ser retórica, essa questão expõe as estruturas profundas do sistema educacional brasileiro. A desigualdade, nesse campo, não é um desvio ocasional, mas um traço persistente. Existem escolas que ampliam horizontes e outras que se limitam a administrar restrições — e essa diferença revela muito sobre as prioridades históricas do país.

    Ainda assim, reduzir a educação a um inventário de carências seria ignorar sua força mais silenciosa. Há uma potência no que resiste — na insistência cotidiana de professores e estudantes, na descoberta inesperada que a leitura pode proporcionar, na escola que permanece aberta apesar das adversidades. Ensinar alguém a ler, no Brasil, ultrapassa o gesto pedagógico: é um ato que toca a própria ideia de cidadania, pois implica oferecer instrumentos para compreender, questionar e, eventualmente, transformar a realidade.

    Talvez um dos equívocos mais recorrentes seja imaginar a educação como algo acabado, um sistema estável a ser aplicado de forma uniforme. Na verdade, ela é, por natureza, incompleta — um processo em permanente construção, atravessado por tensões entre expectativa e experiência, entre o que se ensina e o que, de fato, se aprende.

    Nesse sentido, educar é inevitavelmente um gesto político, não no sentido restrito das disputas partidárias, mas como formação de sujeitos capazes de pensar, interpretar e agir de maneira autônoma. E esse nunca foi um projeto consensual. Ao contrário, frequentemente encontrou resistências, explícitas ou veladas.

    O que permanece, para além das datas, é o cotidiano das escolas — com suas fragilidades estruturais e suas conquistas discretas. É ali, longe das formulações grandiosas, que a educação se realiza. E talvez seja justamente essa persistência concreta que mereça maior reconhecimento: a capacidade de produzir sentido em meio à escassez, de manter aberta — ainda que minimamente — a possibilidade de outros futuros.

    No fim, a educação brasileira não se deixa conter por celebrações. Ela exige um olhar atento, um compromisso contínuo e a disposição de confrontar aquilo que historicamente foi evitado. Porque educar, em sua essência, nunca foi apenas ensinar. Foi — e continua sendo — uma forma de disputar o mundo e de reinscrever, nele, novas possibilidades de existência.

  • É preciso refletir sobre os mais de 84 mil desaparecidos no Brasil em 2025

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Em 2025, o Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas, segundo dados consolidados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública Sinesp), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

    Mais do que um número expressivo, o dado revela um fenômeno contínuo, distribuído no tempo e no território — e, olhando com mais atenção, é difícil não se impressionar com o que isso significa na prática: ao longo de um único ano, centenas de brasileiros deixaram de ser localizados todos os dias, em histórias que vão de conflitos familiares a situações que permanecem sem explicação. O número, quando isolado, pode soar apenas como um dado estatístico; mas, quando traduzido em frequência diária,
    passa a sugerir uma rotina silenciosa de ausências que se acumulam quase imperceptivelmente.


    A leitura desses dados oficiais permite ir além da estatística bruta e traçar um perfil. Quando se observa idade, distribuição geográfica e dinâmica dos registros, começa a surgir um padrão que chama atenção: o
    desaparecimento no Brasil atinge majoritariamente pessoas jovens, aparece com mais força em áreas urbanas densas e convive com uma espécie de ciclo constante — muitos casos são resolvidos, mas uma parte deles simplesmente não chega a um desfecho claro. Esse padrão, no entanto, não deve ser visto como algo estático; ele parece refletir dinâmicas sociais mais amplas, como urbanização acelerada, desigualdades persistentes e fragilidades nas redes de proteção.

    Ao mesmo tempo, é inevitável perguntar até que ponto esses números capturam a totalidade do fenômeno. A própria existência de um sistema nacional indica avanço institucional, mas também evidencia que o problema atingiu uma escala que exige monitoramento contínuo. Nesse sentido, os dados não apenas informam — eles também sugerem a necessidade de interpretar o desaparecimento como parte de um conjunto mais amplo de vulnerabilidades sociais.

    Juventude como dado preocupante

    Um dos aspectos mais marcantes nos dados do Sinesp é a presença significativa de crianças e adolescentes entre os desaparecidos. Em 2025, esse grupo respondeu por cerca de 28% do total — 23.919 pessoas com menos de 18 anos. Colocando isso em termos mais diretos, são aproximadamente 3 em cada 10 desaparecidos. E quando se pensa no ritmo diário, o número ganha outro peso: dezenas de menores desaparecendo todos os dias ao longo de um ano inteiro.

    Esse dado, por si só, já desloca aquela ideia mais comum de que desaparecimentos estão ligados principalmente a crimes graves ou a adultos. Entre os mais jovens, o cenário parece mais difuso e, de certa forma, mais complexo: saídas voluntárias, conflitos familiares, situações de
    vulnerabilidade. Nem sempre há violência envolvida — mas ainda assim, o volume nessa faixa etária sugere fragilidades sociais que continuam se repetindo. Talvez o ponto mais inquietante seja justamente esse: não se trata de episódios isolados, mas de uma recorrência que indica padrões de ruptura em ambientes que deveriam, em tese, oferecer proteção.

    Além disso, a presença expressiva de jovens nos dados convida a refletir sobre prevenção. Se uma parcela significativa dos casos envolve dinâmicas familiares ou sociais conhecidas, até que ponto políticas públicas, escolas e redes comunitárias estão conseguindo atuar antes que o desaparecimento ocorra? A estatística, nesse caso, parece apontar não apenas para o problema em si, mas para oportunidades ainda pouco exploradas de intervenção precoce.

    Onde os desaparecimentos se concentram


    A distribuição territorial dos casos acompanha, em grande medida, o próprio mapa populacional do país. Estados mais populosos acabam concentrando os maiores números absolutos. São Paulo aparece com folga na liderança, com cerca de 20.546 casos, seguido por Minas Gerais (9.139),
    Rio Grande do Sul (7.611), Paraná (6.455) e Rio de Janeiro (6.331).

    Mas parar apenas nesses números pode dar uma impressão incompleta. Quando se olha proporcionalmente, estados menores também apresentam incidências relevantes. Isso faz pensar que o desaparecimento não é um problema isolado dos grandes centros, mas algo espalhado pelo país, assumindo características diferentes dependendo do contexto — seja
    urbano, periférico ou de fronteira. Em outras palavras, o fenômeno parece se adaptar às realidades locais, o que dificulta a formulação de respostas únicas.

    Essa leitura mais ampla reforça a ideia de que políticas uniformes podem não ser suficientes. O que explica um desaparecimento em uma metrópole densamente povoada pode ser muito diferente do que ocorre em regiões menos urbanizadas. Ainda assim, os dados nacionais colocam todos esses contextos sob o mesmo guarda-chuva, o que, embora útil para dimensionar o problema, pode esconder nuances importantes.

    Outro ponto que chama atenção é a coexistência de dois movimentos: muitos registros e, ao mesmo tempo, muitas localizações. Em 2025, mais da metade das pessoas dadas como desaparecidas — 56.688 — foi posteriormente encontrada.

    À primeira vista, esse dado pode sugerir um avanço na capacidade de resposta, com sistemas mais integrados e troca de informações entre estados. Mas ele também levanta uma dúvida importante: nem todos os casos resolvidos voltam a ser oficialmente atualizados no sistema. Isso significa que os números podem carregar distorções — tanto para mais quanto para menos — e dificultar uma leitura mais precisa da realidade. No fim, fica uma distinção que nem sempre aparece de forma clara:
    desaparecer nem sempre significa permanecer desaparecido. Muitos casos se resolvem relativamente rápido, enquanto outros se prolongam por tempo indeterminado, formando uma espécie de camada invisível dentro das estatísticas. Essa camada, embora menos visível nos dados agregados, talvez seja a que mais desafia as estruturas institucionais, justamente por concentrar os casos sem desfecho.

    O tempo como fator crítico

    Mesmo sendo majoritariamente quantitativos, os dados do Sinesp apontam para algo qualitativo que faz diferença: o tempo de resposta. Hoje, já não é mais necessário esperar 24 horas para registrar um desaparecimento, e isso muda bastante o cenário. Esse detalhe, que pode parecer simples, acaba sendo decisivo. Quanto mais rápido o registro, maiores as chances de localização. Ainda assim, essa lógica depende de algo básico, mas nem sempre garantido: que as pessoas saibam disso e tenham acesso aos canais de denúncia. Aqui, a eficácia da política pública parece depender tanto da estrutura formal quanto da circulação de informação na sociedade.

    Além disso, o fator tempo convida a uma reflexão mais ampla: em que medida a rapidez institucional consegue acompanhar a velocidade com que os desaparecimentos ocorrem? Se o registro é imediato, mas a resposta ainda enfrenta limitações operacionais, o ganho potencial pode não se concretizar plenamente.


    Um fenômeno multifacetado

    Os próprios dados oficiais não conseguem classificar de forma detalhada todas as causas dos desaparecimentos, e isso diz muito sobre a natureza do problema. Um desaparecimento pode ter origens completamente diferentes — desde uma decisão voluntária até acidentes, desorientação, conflitos ou crimes.

    Essa variedade torna tudo mais difícil de enquadrar. Diferente de outros indicadores de segurança pública, aqui não existe uma única lógica ou um único tipo de ocorrência. Cada caso pode exigir uma abordagem distinta, tanto na prevenção quanto na investigação. Essa complexidade talvez explique por que o fenômeno persiste mesmo com avanços institucionais: não há uma solução única para um problema que se apresenta de tantas formas diferentes.

    O que os números não mostram

    Se por um lado os dados do Sinesp ajudam a dimensionar o problema, por outro eles também deixam lacunas evidentes. A subnotificação ainda pode existir, especialmente em contextos mais vulneráveis. Além disso, faltam informações mais detalhadas sobre circunstâncias, perfil das pessoas desaparecidas e desfechos dos casos.
    Essas lacunas levantam uma questão importante: até que ponto compreendemos, de fato, o fenômeno que estamos medindo? A ausência de detalhes pode limitar não apenas a análise, mas também a formulação de respostas mais eficazes. Em certo sentido, o que não aparece nos dados pode ser tão relevante quanto aquilo que aparece.

    Mesmo com essas limitações, o panorama de 2025 deixa uma impressão difícil de ignorar: o desaparecimento de pessoas no Brasil está longe de ser algo pontual. É um fenômeno que se repete, em grande escala, e que afeta
    principalmente jovens em diferentes regiões do país. No fim das contas, mais do que um conjunto de números, esses mais de 84 mil registros acabam revelando algo mais profundo — uma sequência contínua de rupturas na vida de milhares de pessoas. Algumas são breves, quase
    resolvidas no silêncio do dia a dia. Outras, no entanto, permanecem em aberto, desafiando tanto as políticas públicas quanto a própria capacidade de compreender o que está por trás dessas ausências.

  • A nova celulose à beira do Guaíba e o risco de repetir a Borregaard

    A nova celulose à beira do Guaíba e o risco de repetir a Borregaard

    ELMAR BONES

    No dia 16 de março de 1972 foi inaugurada a Indústria de Celulose Borregaard, em Guaíba, com a presença das mais altas autoridades e manchetes ufanistas em todos os jornais.

    Inauguração da fábrica em Guaíba, no ano de 1972. Foto Reprodução Arquivo/CeluloseRioGrandense

    Seria uma das maiores fábricas em território gaúcho, a consolidação do Rio Grande do Sul industrial, milhares de empregos, milhões em impostos, além de avanços tecnológicos, etc.

    Reprodução do jornal Zero Hora.

    “Um dos marcos do novo Rio Grande do Sul, que se prepara para ser a segunda potência industrial do Brasil”*, conforme o editorial do jornal Zero Hora no dia da inauguração.

    Só depois, quando o cheiro de ovo podre se espalhou sobre a cidade, inclusive sobre os donos dos jornais, é que se foi dar ouvido aos alertas de José Lutzenberger e seus companheiros da recém-criada Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

    Aí, a imprensa foi descobrir o parecer do químico Milo Rafin, da Universidade Federal, que muito antes alertava para as emissões sulfurosas e para os efluentes tóxicos que seriam lançados nas águas do Guaíba.

    Na sequência, descobriu-se que o grupo norueguês, dono do empreendimento, recebera isenção de impostos e financiamento de bancos estatais**, mas não providenciara um estudo de impacto ambiental abrangente para construir a fábrica.

    Em dezembro de 1973, ante o clamor popular, a Borregaard foi fechada. Uma vitória da comunidade porto-alegrense. Só foram retomados os trabalhos com novos filtros, que a fábrica foi obrigada a instalar, e os cuidados com as emissões lançadas no ar e os efluentes despejados no Guaíba. Os sistemas de tratamento de resíduos sólidos, projetados pelo próprio Lutzenberger, fazem parte dessa conquista.

    Hoje a empresa se jacta de manter os mais rigorosos controles (não há dados técnicos divulgados sobre isso), mas esses níveis de precaução não foram alcançados espontaneamente. Foram conquistados pela pressão da comunidade, alarmada ante os danos evidentes.

    Agora em março de 2026, 54 anos depois da inauguração da Borregaard, estamos diante de uma situação semelhante, guardadas as devidas proporções.

    A fábrica da Borregaard, inaugurada em março de 1972, tinha capacidade para 190 mil toneladas/ano. A planta atual, em Guaíba, depois de passar por cinco donos, sempre em expansão, chega aos 2 milhões de toneladas de celulose por ano.

    A ela vai se somar a nova fábrica que se projeta construir a poucos quilômetros, na Barra do Ribeiro, com capacidade de produzir 2,5 milhões de toneladas/ano. É saudada nas manchetes como “o maior investimento da história do Rio Grande do Sul” – de 25 bilhões de reais, milhares de empregos, milhões em impostos, a redenção econômica do Estado. 

    A empresa que toca o projeto atual, CMPC, uma multinacional chilena, até ganhou um prêmio como a marca mais identificada com a defesa do meio ambiente. 

    Enquanto isso, as vozes que se levantam, de pesquisadores, ambientalistas e do próprio Ministério Público, questionando a falta de transparência quanto aos impactos sociais e ambientais do projeto, são silenciadas.

    Assim como foi Milo Rafin, cujo parecer foi ignorado pelas redações de todos os jornais, aos quais ele enviou cópia.

    O novo megaprojeto, até agora, foi submetido ao debate em uma única audiência pública, em Barra do Ribeiro, com maioria recrutada pela empresa.

    A recomendação do MP de que se suspenda o processo de licenciamento ambiental em andamento, para que os impactos do projeto sejam amplamente debatidos, foi prontamente atacada pelos empresários. A nota da Fiergs, manifestando “surpresa e preocupação” foi antecipada pelo colunismo oficial. 

    O cheiro de ovo podre, que se espalhou sobre Guaíba e até Porto Alegre, denunciou a Borregaard em 1972.

    Em 2026, há filtros eficientes para que a população não seja alertada pelo olfato.

    Os efeitos das descargas tóxicas nas águas do Guaíba serão imperceptíveis durante muito tempo.

    Quando as consequências aparecerem, talvez seja tarde demais.

    *Naquela época o RS ainda disputava com Minas Gerais a colocação de 3º Estado mais industrializado do país, atrás de SP e Rio, apenas. Hoje no ranking dos estados mais industrializados do IBGE aparece em 8º lugar.

    *O BNDES era sócio, com 43% do capital. A empresa norueguesa, controladora, tinha apenas 32% do capital. Até o governo do Estado era acionista minoritário.

    Leia mais: Carga tóxica no Guaíba vai dobrar com nova fábrica de celulose, alerta ambientalista

    Especialistas apontam para ‘graves impactos ambientais’ com nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    MPF recomenda suspender licenciamento de indústria de celulose da CPMC em Barra do Ribeiro

    E reportagem da Agência Pública: No Rio Grande do Sul, projeto de celulose de R$ 25 bilhões ameaça indígenas e o rio Guaíba

  • Entrevista com Leonel Brizola: Como nascem as falsificações históricas

    SILVANA MOURA

    Mais do que direito à História, temos o direito à verdade da História, para evitar um passado falsificado, supostamente “limpo”, eivado de manipulação e pretensa uniformidade.

    Em 1996 realizei, em Carazinho, uma Entrevista de História Oral (sou Historiadora e trabalho com História Oral há 40 anos) com Leonel Brizola, em companhia do também historiador Ney Eduardo Possapp d’Ávila.

    A entrevista, com duração de 4h20min, permaneceu inédita até que, há dois anos, por mediação do professor doutor Nildo Domingos Ouriques, presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina, a Editora Insular se interessou pela publicação.

    Foi então que Juliana Brizola e Rejane Guerra, jornalista carioca e amiga pessoal de Juliana, contataram o editor Nelson Rolim de Moura e o ameaçaram com outra publicação, alegando ter uma cópia impressa da entrevista entregue por Romeu Barleze a Brizola. Quem trabalha com História Oral sabe que o documento, em História Oral, são as fitas gravadas, que sempre estiveram em minha posse.

    Juliana, sob alegação de ser neta de Brizola, exigiu que seu nome e de sua amiga constassem na capa da publicação como “Organizadoras”, o que, de fato, agora se verifica.

    Juliana Brizola e Rejane Guerra tiveram êxito em seu intento, e a publicação estará à venda a partir de 10 de março próximo, com lançamentos agendados em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Carazinho (terra natal de Brizola e minha) e outros tantos lugares no RS e no Brasil.

    Matérias mentirosas e que omitem meu nome estão sendo espalhadas nos principais jornalões do país, como Zero Hora e O Globo, suponho que alimentadas pela assessoria de Juliana Brizola.

    Em uma matéria de O Globo consta que as fitas originais foram encontradas em Florianópolis com o Editor Nelson Rolim de Moura, como se tivessem ido passear em Floripa.

    As fitas originais sempre estiveram comigo; são únicas e foram levadas para Florianópolis pelo professor Nildo Ouriques, a meu pedido, e entregues ao editor em fevereiro de 2024.

    Que lambança histórica promovem estas duas senhoras, Juliana Brizola e Rejane Guerra. Não bastasse terem se apropriado de minha produção intelectual, agora disseminam histórias incorretas, distorcidas e prenhes de falsificações.

    Um desserviço à ética e uma apologia à impostura.