Carta a Luiz Schwarcz

Pedro Paulo Graczcki
Carta de amor aos livros uma ova.
O sr. Luiz Schwarcz, da Cia das Letras, escreveu uma pseudo-carta de amor aos livros e nos pede algo que ele nunca teve: solidariedade e defesa de classe. Pois bem, qualquer estagiário sabe que ter somente um fornecedor, ou somente um ou dois clientes é burrice. Ou erro estratégico se preferir.
Quer saber? Bem feito, vocês nos ferram há muitos anos. Sou pequeno livreiro em Cachoeira do Sul (RS), faço 200 feiras de livros por ano. Sem ajuda governamental. E faz muitos anos que o Sr. Schwarcz me ignora e tenta me derrubar. Ele com a Saraiva, a Cultura, a Fnac e as grandes editoras, fizeram de tudo para destruir o mercado livreiro, e agora que destruíram ele pede solidariedade, clama por socorro. Bem feito!!!!
Aprendam, nunca apostem todas as fichas numa única jogada e nunca menosprezem pequenos parceiros.
Nossa maior incoerência é termos muito mais editoras que livrarias. É como se tivéssemos 1.000 frigoríficos e 50 açougues no Brasil inteiro. E os frigoríficos ainda tentassem acabar com os açougues. Dá pra imaginar? Pois é assim mesmo no mercado livreiro. E para piorar as “grandes editoras e livrarias” tem 100% de isenção de impostos enquanto as pequenas pagam 7,8% sobre o faturamento.
Agora a vaca foi atirada no precipício. Que momento lindo, que oportunidade única para sentarmos todos, pela primeira vez em pé de igualdade e discutirmos de igual pra igual nosso futuro. Ao invés de uma mega-caloteira, por que não, 200 pequenas livrarias?
O Brasil tem mais de 5 mil municípios, mas os senhores só querem vender nas capitais. Dos 200 milhões de habitantes quantos compram na internet?.
Não existe associação de livrarias. As associações que estão por aí são todas tomadas por grandes editoras ou grandes livrarias. Quem fala em nosso nome, dos pequenos livreiros?
Schwarcz pede atenção aos protagonistas, mas nunca consideraram o protagonismo dos livreiros que são os Dom Quixote do mercado, correndo para cima e para baixo com caixas de livros para levar nossa literatura onde os senhores jamais foram. O senhor demitiu seis empregados de salários gordos? Eu vi muitos colegas mudando de profissão depois de 20, 30, 40 anos de estrada por que os descontos praticados pela Saraiva eram muito superiores ao preço que vocês nos vendiam.
É no andar de baixo que a vida pulsa mais profundamente. No andar de cima os acionistas têm capacidade financeira pessoal para salvar suas empresas. Que bom, então tá tudo ok? Agora é arrumar a casa, pedir umas orações, uma ajudinha pra galera e seguir em frente!
Caro Sr. Schwarcz, nós livreiros estamos aqui, sempre estivemos e estaremos, mesmo quando os senhores tiverem desistido de publicar livros por que o lucro é baixo. Se querem ajuda pra arrumar a casa, então queremos ser convidados pra festa quando ela acontecer.
Querem ideias pra sair da crise? Tenho várias, coloco elas em prática todos os dias. E é por isso que vou reabrir a Livraria São Paulo ainda em dezembro. Maior, mais bonita e mais prática, com a certeza que sem os senhores dando as cartas terei mais chance de sucesso no mercado.
Quer saber? Bem feito.

12 comentários em “Carta a Luiz Schwarcz”

  1. Muito grato pelo espaço, nosso setor foi o que mais se beneficiou das políticas implementadas pelo PT, mas os benefícios nao chegaram ao consumidor final como desejava o governo federal, e ao mesmo tempo todos os benefíciosficaram somente para as grandes empresas dificultando a inda mais as.pequenas livrarias. Muito obrigado.

  2. Ontem estava conversando com minha esposa (na Saraiva! Kkkkkkkk) sobre essa crise das grandes livrarias e falei justamente isso. A estratégia das _mega-stores_ está por trás destas falências.
    Não sei se os brasileiros estão lendo menos. Que os brasileiros leem pouco isso é histórico, não aconteceu de uma hora para outra.
    Só que as grandes redes esmagaram os pequenos e acharam que o fato de terem o mercado quase que exclusivo iria representar lucros astronômicos para elas.
    Deu ruim…

  3. Parabéns, PEDRO PAULO!
    Sau carta é absolutamente pertinente.
    Esse negócio de querer “engolir” os pequenos concorrentes a todo custo está mais para avareza do que para estratégia de mercado.
    Quanto maior o tamanho, maior o tombo.
    Acho melhor outros setores também ficarem espertos.
    Luiz Ferreira

  4. Totalmente de acordo com a sua colocação. Por muitos lutamos contra esses descontos abusivos. Não existe milagre, além de acabar com o mercado livreiro essas redes deram um tiro no próprio pé.

  5. Não seria essa crise nas grandes livrarias um “fenômeno” global? A crise nestas empresas também tem massacrado elas aqui nos EUA. A que eu mais gosto aqui, Barnes and Noble, tem enfrentado sérias crises e já fechou as portas de algumas de suas filiais.
    Livrarias pequenas aqui nos EUA…não existem mais há décadas. Uma pena!

  6. Parabéns. E assim é na moda. Nos alimentos. Nos planos de saúde. Na educação. Etc.. Mas o povo ainda tem muito a aprender.. Aínda é um povo que vota n mais rico porque acha que ele é competente.
    ou no mais infame porque acha que ele é corajoso. Agora pesquisar o valor real. Cultural. Precioso das coisas desde sua concepção até o produto final e muito trabalhoso…

  7. Parabéns pelas palavras Pedro… Eu sou livreiro individual a três anos. Tenho essa mesma sensação de descaso. Já tentei contato com grandes editoras e sempre senti essa diferença. Agora ele pede solidariedade. Eu trabalho a dezenove anos com os livros. Acredito que agora é o momento de uma mudança. Você disse tudo. “Bem feito”….. Espero que eles percebam a importância do pequeno livreiro de agora em diante. Solidariedade para todos não só para o Sr Luiz Schwarcz. Ele nao é o único livreiro do universo.
    Alex Sodré – Livreiro Individual

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