Carvão

Filho e neto de ferroviários, vivi minha infância à beira dos trilhos, no tempo em que os trens eram puxados por locomotivas a carvão.
Antes eram movidas a lenha e cheguei a ver: tinha um vagão só para levar a carga de lenha, duas vezes maior do que a parte da fornalha e da caldeira, o motor da locomotiva.
Dois homens se revezavam jogando constantemente achas na fornalha. Imensas pilhas de lenha ocupavam quase todo o recinto da estação ferroviária.
O carvão foi um salto tecnológico: sumiram as pilhas de lenha, aumentou a velocidade, a locomotiva ficou mais potente, puxava o dobro de vagões, o tempo das viagens encurtou, um homem com uma pá abastecia a fornalha.
Certa época fomos morar num local, junto a um enorme reservatório onde as locomotiva “bebiam água” para encher a caldeira e, nos trens de passageiros, abastecer as torneiras e banheiros.
Depois, mudamos para perto da carvoeira, onde as locomotivas manobravam para se abastecer de carvão. Um cone, como um funil, sobre os trilhos era carregado de carvão por um guindaste.
A locomotiva estacionava embaixo e recebia sua carga, num “tender”, três vezes menor do que no tempo da lenha.
Quando adolescente, aquela locomotiva que entrava em curva na estação ferroviária de Santana do Livramento às sete da noite, soltando faíscas e vapores, puxando o trem de passageiros que saíra de Porto Alegre 24 horas antes… era a materialização do progresso, do mundo civilizado de que carecíamos naquela pasmaceira fronteiriça.
Faço essas reminiscências para não deixar dúvidas de que sou suspeito nessa discussão tão acirrada que se trava em torno do projeto de uma nova mina de carvão na região do Jacuí. Mas não posso deixar de entrar nela.
Não consigo ver o carvão como um vilão, algo a ser criminalizado, banido. Vejo uma insensatez nesse radicalismo.
O carvão é um mineral complexo, resultado de 260 milhões de anos de transformações na crosta terrestre. Queima, produz calor, gera energia.
O professor Rualdo Menegat diz que o carvão é um “lixão químico”, tal a quantidade de substâncias e metais pesados que contém.
Pesquisas futuras podem revelar que o carvão é um “manancial químico” tal a quantidade de substâncias e metais que ele contém.
Não desconheço os riscos e o impacto da queima e da mineração do carvão, nem a gravidade e a urgência da questão climática.
Mas não consigo achar sensato abrir mão do carvão que temos. Primeiro que na conjuntura atual é uma fonte de energia inevitável – no setor elétrico, não  há ninguém que descarte o carvão da matriz energética.
Uma base térmica é imprescindível, é o que dizem todos, inclusive históricos defensores da energia renovável.
Segundo: negar definitivamente o carvão, é abrir mão de melhorar o conhecimento sobre ele.
Já se sabe que é possível até extrair gás do carvão subterrâneo sem nem tirá-lo de lá.
Já tivemos pesquisas muito avançadas sobre uso mais sustentável do carvão, que deram para trás, exatamente pela falta de visão, pelo preconceito. Eminentes pesquisadores tiveram seus trabalhos de muitos anos, truncados abruptamente.
Questionar uma nova mina, exigir avaliação de todos os riscos e as mitigações e contrapartidas possíveis, antes de qualquer decisão, vetá-la se for o caso, está certo.
Mas extrapolar para uma condenação absoluta e total da maior riqueza mineral que o Estado tem, maior em potencial energético que as reservas do pré-sal, me parece no mínimo arrogância.
Lembra um amigo meu que fazia questão de pagar a conta sempre, mesmo quando seu cheque não tinha fundos.
 
 
 
 

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