Categoria: Análise&Opinião

  • CARLOS CASTILHOS/ Jornal dá tiro no pé

    O jornal O Estado de S. Paulo comprometeu a própria credibilidade perante seus 232,8 mil leitores diários (*) ao dedicar, numa edição de domingo (**), uma página dupla para publicar um conjunto de textos, aparentemente jornalísticos, sobre o conflito entre ruralistas e indígenas.

    Aparentemente jornalísticos porque, segundo o site Intercept, os textos foram produzidos por uma agência publicitária com o suporte financeiro de uma instituição mantida por associações de grandes ruralistas e por empresas produtoras de adubos e agrotóxicos. O objetivo é fazer lobby contra o STF que deve julgar nos próximos dias um processo regulando a demarcação de terras indígenas em todo país.
    A página dupla foi produzida pela empresa Estadão Blue Studio, que segundo consta em sua página web, cria “soluções publicitárias inovadoras e orientadas à performance”, ou seja, promoção dos interesses (políticos e comerciais) de seus clientes. Logo é uma produção publicitária disfarçada de material jornalístico com o objetivo de promover a ideia de que o STF deve derrubar o chamado “marco temporal”, que segundo os ruralistas “pode acabar com o agronegócio no país”.

    O conjunto de três textos publicados pelo Estadão foi patrocinado pela organização AgroSaber, que se apresenta como uma “agência de notícias do agronegócio” e que segundo o Intercept é uma entidade vinculada à Frente Parlamentar da Agropecuária, a associações de produtores rurais como a ABRAPA (produtores de algodão), APROSOJA (soja) e ABRASS (produtores de sementes).

    Não há nada de ilegal no fato de um jornal criar uma agência publicitária para produzir anúncios. E nem há nada condenável no fato dos anúncios serem pagos por empresas, governos ou organizações civis. Mas quando o material publicitário usa o formato conhecido no jornalismo como “publi-reportagem”, ele disfarça interesses políticos ou corporativos como se fossem informações sérias, garantidas pela credibilidade do jornal.

    Enganar o leitor usando este expediente pode ser uma solução financeira de curto prazo, mas aumenta a chance de acabar se transformando num problema de longo prazo, quando o vírus da dúvida na credibilidade do jornal contagiar seus leitores. O descrédito é praticamente a sentença de morte de um jornal, especialmente na conjuntura atual com a crise no modelo de negócios da imprensa.

    Engodo lucrativo

    As dificuldades financeiras da maioria dos grandes conglomerados jornalísticos nacionais e internacionais tornam mais atraente a alternativa das “publi-reportagens”, que são hoje mais comuns do que se pensa na imprensa mundial. Só que a maioria absoluta deste tipo de desinformação paga passa desapercebida pelos leitores, porque as manchetes e o espaço dado no papel ou em tempo de transmissão via rádio ou TV impacta muito mais do que pequenas inserções identificando os verdadeiros interessados e objetivos do material publicado.

    É nestas circunstâncias que aumenta a importância de organizações jornalísticas, como o Intercept e a Agência Pública, dos grupos de checagem de fatos e de instituições como o Observatório da Imprensa. Os conglomerados industriais na imprensa brasileira não dissimulam sua hostilidade aos críticos de publicidade disfarçada de notícia, deixando de levar em conta que a verificação e cobrança da credibilidade das notícias, artigos e entrevistas são na verdade uma preocupação com o futuro dos jornais, revistas e programas audiovisuais de informação.

    A premeditada confusão entre jornalismo e publicidade começou a ser discutida em larga escala já na primeira década do século atual, com a polêmica em torno da chamada publicidade nativa (ver texto publicado aqui no OI). David Ogilvy, criador da expressão, afirmou que a publicidade disfarçada de notícia poderia aumentar em até 50% a tiragem de jornais impressos. Segundo o respeitado Nieman Lab, da Universidade Harvard, a publicidade nativa gerou receitas de 17 bilhões de dólares para jornais no mundo inteiro em 2017. Aqui no Brasil, não há dados sobre esta modalidade de anúncio pago.

    É compreensível a preocupação dos grandes jornais brasileiros diante da queda acumulada de 12,2% na circulação das versões impressas desde 2016. Mas o preço da sobrevivência de empresas, que no passado acumularam lucros consideráveis, não justifica vender ao leitor versões distorcidas da realidade como se fossem notícias verdadeiras.

    (*) Soma dos leitores da edição impressa (de maio), e da versão online (em junho), segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC) .

    (**) 22/08/2021

    ***

    Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.

    (Publicado originalmente no Observatório de Imprensa)

     

  • ALEXANDRINO ALENCAR/ Hora de se reinventar

    Alexandrino Alencar

    Tal qual a publicidade “O primeiro sutiã a gente não esquece”, o meu primeiro trabalho foi na indústria petroquímica, no início dos anos 1970.

    Primeira paixão, sempre um referencial ao longo de minha vida profissional.

    Uma indústria nascente, na qual as equipes eram, principalmente, de empreendedores, ex-petroleiros, engenheiros recém-formados e técnicos  com cursos preparatórios específicos.

    A empresa fica no ABC paulista, berço de vários segmentos industriais, que aos poucos foram se deslocando para esse Brasil, democratizando a início da industrialização nos anos 1980.

    O setor petroquímico em particular, teve a capacidade de se adaptar e se reinventar várias vezes ao longo do tempo. As crises econômicas dos anos 1980 e 1990, Plano Collor, politica empresariais de redução de custos capitaneadas pelo então diretor de compras da GM, José Ignácio Lopez de Arriotúa, o just in time, as atuais concentrações de compras de fornecedores chineses, com preços imbatíveis, os reflexos da pandemia e outros.

    Há décadas, o nosso PIB dos bens e serviços vem patinando, com uma redução expressiva do setor industrial face ao crescimento do agronegócio e dos serviços, situação preocupante pela sua importância para a sociedade.

    Alguns sinais são preocupantes, como a extinção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), rebaixado a secretaria do Ministério da Economia, este com perfil rentista, também um downgrade na representação setorial.

    No passado feita pelos “capitães (sic) das indústrias”, hoje tem como lideranças, executivos capacitados, sem dúvida. Porém, também sem a legitimidade e, por isso, com pouca influência. Assim, estamos vendo a saída de diversas empresas multinacionais de um mercado que foi sempre promissor e disputado.

    É chegada a hora de se reinventar.

    Uma das iniciativas de curto prazo é o ESG, mantra a ser praticado pelas empresas como forma de uma transformação empresarial/cultural.

    De uma forma mais estruturada – e como uma sugestão para se ter um novo ambiente de estímulo e reconhecimento da importância do setor industrial buscando excelência, competitividade e produtividade – é preciso pensar sobre a volta do MDIC como órgão representante legítimo do poder executivo.

    Além disso, incorporar o Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI) como forma de otimizar esforços, estratégias e recursos em inovação, pesquisa e infraestrutura para todo o segmento produtivo.

    Alexandrino Alencar é advogado e engenheiro químico

     

     

     

  • GAUDÊNCIO TORQUATO/ A banalização das crises

    Gaudêncio Torquato

    A pele já não sente os beliscões. Ganhou camadas impermeáveis de insensibilidade. Não reage aos impactos externos, sejam beliscões ou amputações.

    A crise sanitária era uma gripezinha. Hoje, uma pandemia que mata cerca de 600 mil pessoas.

    Crise política? Ah, essa vem de lá dos corredores do início da República.

    Crise econômica? Todos sabem como é, mas ninguém quer se responsabilizar por ela.

    Crise energética? O ministro Bento Albuquerque garante; não haverá apagão. O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, refuta: é possível que tenhamos um apagão energético.

    E assim, de enrolação a enrolação, o Brasil vai engrossando seu novelo de crises. De tão banais, viram coisas comuns.

    A verve de Roberto Campos apontava dois traços característicos da psique de países em desenvolvimento: a ambivalência e o escapismo. É ambivalência querer equacionar o descontrole dos gestores da coisa pública sem controlar os controladores. E é escapismo argumentar que os confrontos de guerras urbanas, frequentes nas grandes cidades, ocorrem porque o poder do crime é maior que o poder de um Estado, cuja leniência torna-se cada vez mais patente ante a escalada de violência que se abate sobre a sociedade. O espaçoso terreno público se apresenta todo esburacado.

    Cada qual organiza, ao bel prazer, a concepção e a ordem das ações a serem desenvolvidas, solicitando às áreas jurídicas e contábeis que ajustem as contas nos termos da legislação. Dessa forma, orçamentos são engolidos em projetos feitos sob pressão de grupos e em programas superficiais. Se a gestão tem sabor político, é natural que os dirigentes concentrem as decisões, evitando perder força.

    O nosso presidencialismo de coalizão ampara-se na costura de amplas alianças. Entenda-se, ainda, que a política deixou de ser missão (para servir a polis, como pregava Aristóteles) e se tornou profissão. Logo, pôr a mão na res pública passou a ser grande negócio. Abre-se, a partir dessa lógica, uma crise de governança e não de governabilidade, como alguns entendem, porquanto o sistema político, a forma de governo e as relações entre os Poderes, mesmo operando em um complexo desenho institucional como o nosso – federalismo, presidencialismo, bicameralismo, representação proporcional, voto majoritário, pluripartidarismo – não chegam a ameaçar a democracia. Qual é a alternativa? Arrumar a gestão. Haverá sempre um jeitinho de contornar as situações.

    Querem apostar? Onde irá bater a CPI da Covid? Em quem recairá a culpa pela má previsão da crise energética? Haverá penalidade ao presidente Bolsonaro ou alguns de seus ministros por ausência de boa gestão? Veremos uma fila de autoridades no caminho das prisões? Ou será que ficará evidente a máxima de Anacaris, um dos sete sábios da Grécia? “As leis são como as teias de aranha, os pequenos insetos prendem-se nelas e os grandes rasgam-nas sem custo”. Tem havido algum ganho no campo da moral com tanta denúncia? É possível.

    A ladroagem é embalada por um celofane tecnológico de alta sofisticação, diferente dos costumes da Primeira República, quando a eleição do Executivo municipal assumiu relevo prático. Naquele tempo, o lema da prefeitada era: “Aos amigos, pão; aos inimigos, pau”.

    A tarefa de impedir que a teia de aranha seja rasgada pelos grandes exige mais transparência de todas as estruturas públicas. Seria útil que as comunidades acompanhassem de perto o fluxo das obras municipais, a partir de sua descrição em painéis afixados em praças públicas. Mas o propagandismo pode acabar se tornando outra praga.

    Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político Twitter@gaudtorquato

  • ROBERTO AMARAL/ O dia depois da farsa

    Roberto Amaral

    O 7 de setembro de Jair Bolsonaro vai para a história como o 18 Brumário que não deu certo.  A farsa grotesca, pré-anunciada pelo desfile das relíquias da marinha no último 30 de agosto, afastou o temido trago da tragédia  prometida, mas não deve ser vista como ameaça de todo debelada: continuará conosco por um ainda largo tempo, pois durará enquanto não for alterada a presente correlação de forças e removido o atual polo hegemônico, em cujo diretório têm assento os fardados, os herdeiros da casa grande, os  procuradores do  grande capital e os delegados do império do norte: o 1% de brancos ricos e milionários que nos governa, sem alternância desde a remota origem colonial.

    Os generais, na realidade, são o braço armado de uma coalizão de interesses econômicos e políticos, nacionais e internacionais, em conflito com os interesses do país. A tutela que procuram exercer sobre a vida nacional, principalmente a partir do golpe de 1889, atende a essa missão a que se dedicaram. E, diga-se de passagem, trata-se de papel que vêm exercendo com lamentável êxito numa das sociedades mais injustas do planeta: somos, caminhando para o terceiro decênio do século XXI, a segunda província do mundo provedora de alimentos, em país no qual 124,6 milhões de habitantes, algo como a metade de sua população, vivem sob a angústia da insegurança alimentar. É a esse projeto que serve o bloco do poder, mesmo ao risco da fascistização do país, que pode ser o preço cobrado pela sustentação de Bolsonaro.

    As forças armadas, que já respondem perante a História pelos crimes cometidos durante o mandarinato de 1964-85, e pelos crimes presentes do bolsonarismo, poderão amanhã ser responsabilizadas por grave cisão nacional, destruindo o projeto de unidade construído a tão duras penas em quase cinco séculos de uma civilização ainda por afirmar-se.

    Se não  foi desta feita que se efetivou a promessa do Duce tupiniquim de “virada de mesa”, o projeto do golpe dentro do golpe, visando à opção autoritária, permanece de pé, pois seus articuladores seguem nos mesmos postos de mando, animados, até, pelas manifestações do dia 7 passado que revelaram a existência de apoio popular ao projeto protofascista do qual o capitão é o mais ostensivo pregador.

    O jogo está à vista e as cartas  na mesa: o  mandatário em conflito com a democracia avança passo a passo e, sempre que insinua recuar, termina subindo mais um degrau na escalada golpista.

    Assim tem sido desde a campanha de 2018, e assim será até alcançar seu objetivo, ou ser defenestrado.

    Nessa sua arte de “morder e assoprar” para em seguida morder de novo, qualifica de canalha o ministro Alexandre Moraes para, na sequência, mediante a intermediação do inefável Michel Temer, oferecer ao ofendido o “cachimbo da paz”,  que ele aceita pitar. E la nave va.

    Há sinais de fissuras no bloco de poder, temeroso de que o desastre político leve de roldão o projeto neoliberal, a verdadeira “joia da Coroa”. Assim são tidos os manifestos e o comportamento da grande imprensa. Setores do grande empresariado (ouvidos pelos fardados), estariam admitindo trocar de posto o capitão, contanto que tudo continue como está, isto é, mantida a natureza do mando.

    Em síntese, trocar Joaquim por Manuel, preferentemente sem qualquer infração constitucional, embora os militares, por diversas vezes, com o apoio do empresariado e do império, tenha fraturado a Constituição, sob o pretexto de defendê-la – como ocorreu em 1955, quando o general Lott, com o apoio do Congresso, deu um golpe para impedir que um  golpe fosse dado pela dupla Café Filho-Carlos Luz, sob as lideranças do brigadeiro Eduardo Gomes e do almirante Pena Boto.

    Posta de lado, portanto, a possibilidade de um “chega pra lá” no capitão, ou de sua renúncia, a alternativa constitucional possível é o processo de impeachment, em cima do qual, porém, se senta o presidente da Câmara dos Deputados, auferindo gordos dividendos. Ademais desse óbice, concreto, há, assustando liberais de última plumagem, os  temores da crise política e econômica  que qualquer processo de impeachment implica.

    Cabe, ainda, considerar que o capitão, no momento, ainda conta com os apoios que faltaram a Fernando Collor e a Dilma Rousseff.

    A questão é quase hamletiana: se será muito caro ao país o trauma de mais um processo de impeachment contra um presidente da república (embora se trate o caso presente de cassar o mandato de um perigoso delinquente), que não cobrará menos de seis meses, é mais certo ainda que o país, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista econômico, não suportará mais um ano e quase quatro meses de Bolsonaro no terceiro andar do palácio do planalto.

    Como já foi observado, temerosos de banalizarmos o impeachment, estamos banalizando o crime de responsabilidade.

    Superada essa questão, que podemos considerar  instrumental, restará  outra, talvez mais grave, porque de fundo. É que Joaquim deve ser trocado por Manuel, ou seja, trata-se de uma troca sem mudança e só nesses termos é que será levada a termo.

    Fora um diktat da japona, não há como a direita governante, mais uma vez, e na sucessão de um governo desastroso sob todos os prismas (inflação, queda do PIB, alta do dólar, desemprego, expectativa de apagão), assegurar-se da eleição de seu delfim, que presentemente ela chama de “terceira via”, uma bandeira à procura de um candidato.

    Se o encontrar e se o fizer competitivo, a direita terá que correr o risco democrático de apostar no processo eleitoral, que o capitão de há muito tenta desmoralizar.

    É pagar para ver.

    Trabalhemos, portanto, com essa hipótese: com ou sem Bolsonaro, haverá eleições e elas serão respeitadas, como não foram em 2014, quando o PSDB se negou a reconhecer o resultado do pleito.

    Se as eleições fossem hoje, porém, tudo indica que o candidato eleito seria, com indicação de vitória no primeiro turno, o ex-presidente Lula. Mas a possibilidade de retorno do ex-presidente é vetada por generais insubmissos e pelos barões da Faria Lima, os mesmos que financiam os grandes jornais e a grande televisão em sua atual e bem-vinda defesa dos princípios democráticos jogados ao lixo nos idos preparatórios do golpe de 2016 e na campanha de 2018.

    Respeitadas as circunstâncias históricas, Lula ocupa hoje o papel que foi dado a Getúlio Vargas na campanha de 1950: não deve ser candidato (diz o Sr. Ciro Gomes); candidato, não pode ser eleito (para derrotá-lo a Faria Lima fará valer seus cofres); se eleito, não deve tomar posse (dizem as japonas insubordinadas) e, se tomar posse, deve ser deposto.

    Essa postura, felizmente, não conta com a unanimidade do empresariado, pois há os que, na categoria e nos partidos (é o caso do senador Tarso Jereissati), trabalham com a hipótese de um acordo que preserve a ordem democrática (que não comunga com vetos) e a soberania popular.

    Até aqui, terá observado o leitor, não aparecem as esquerdas como sujeito histórico. Todo o protagonismo está entregue à direita, seja a  empresarial, seja a  militar.

    E assim permanecerá o cenário, com as consequências que não precisam ser explicitadas, se faltar às nossas lideranças (partidos, movimento sindical, movimentos sociais) a capacidade de concertação em torno de um projeto comum que, tendo como eixo a preservação do processo democrático (que inclui a realização de eleições e o reconhecimento de seu resultado), fale ao conjunto da sociedade brasileira.

    Essa concertação  não anula, e talvez até a exija mais, a frente da esquerda socialista que, a partir do projeto democrático, pode avançar na busca de objetivos concretos, como as transformações radicais de nossa estrutura econômica, política e social.

    E, finalmente, a esquerda precisa encarar como estratégica a batalha ideológica, que abandonou desde pelo menos a campanha de 2002.

    Até lá, com a frente ampla, se possível, sem ela se esta for a contingência, caberá aos partidos e aos movimentos populares e sindicais a retomada da mobilização social, liderando movimento popular pró-impeachment. Diante dele nossos partidos, a começar pelo PT, não podem ter dúvidas. Dependendo de seu nível de organização, o movimento social poderá  retomar a direção do processo político. Para tal é fundamental compreender o óbvio: não haverá eleições se o projeto democrático não derrotar o projeto fascista, ou seja, não é esta a hora de privilegiar candidaturas, por mais legítimas que sejam.

  • ELMAR BONES/ O salame

    É atribuída ao marechal Costa e Silva a metáfora do poder como uma peça de salame: “Se você usa bem corta uma fatia, quando usa mal corta duas…em qualquer caso ele fica sempre menor”.

    Jair Bolsonaro usou seu poder presidencial para promover, estimular e participar dos eventos deste Sete de Setembro.

    Terá cortado duas grossas fatias para misturar os atos oficiais do Dia da Independência com dois comícios de candidato a ditador, que ameaça o STF e impõe condições para aceitar as eleições em 2022, que não admite perder.

    O golpe, explícito agora, é a alternativa que Bolsonaro busca para restaurar o poder que alcançou em 2018 e que vem fatiando prodigamente para se manter à frente de um governo sem rumo.

    A questão é saber se o que lhe resta do salame é suficiente para tanto.

     

     

     

     

  • ELMAR BONES / O sangue de Vargas

    24 de agosto de 1954

    A aula mal havia iniciado, a professora foi chamada à sala da diretora e voltou chorando. Não haveria aula naquele dia, todos pra casa.

    No corredor ouvi: “Getúlio se matou”. “Mataram ele, com certeza”, disse uma velha professora.

    Em casa, encontrei minha mãe na cozinha, chorando. Me abraçou, soluçava: “Morreu o pai da gente”.

    Getúlio Vargas era o ‘pai dos pobres’ e a comoção que tomou conta do pobrerio naquele subúrbio de Santana do Livramento foi como se de fato tivessem perdido o pai.

    Homens choravam nos botecos, indignação gritada nas ruas, alguns saiam para juntar-se aos grupos que se formavam na estação ferroviária, dispostos a embarcar para o Rio de Janeiro.

    A Rádio Cultura intercalava “músicas fúnebres” com as notícias do quebra-quebra em Porto Alegre, da multidão que tomava conta das ruas do Rio de Janeiro. Parecia que o mundo vinha abaixo.

    (Nas aulas de música que tive com Enio Squeff  descobri que aquela melodia que soava  aterradora  entre as notícias era o réquiem que Johannes Brahms compôs quando morreu sua mãe).

    No fim o terremoto popular que parecia brotar do fundo da terra dissipou-se  e o que Getúlio conseguiu à custa da própria vida foi protelar o golpe por dez anos.

    Brizola com a Legalidade, em 1961, foi o último bastião da resistência getulista, que seria aniquilada com o golpe 1964.

    Um golpe contra  um projeto nacionalista populista, de conciliação e inclusão social que, na ótica da guerra fria, estava abrindo caminho para o comunismo.

    Seria uma intervenção transitória dos militares para extirpar a corrupção, conjurar a ameaça comunista e, em seguida, restabelecer o poder pelo voto.

    Resultou num regime militar que durou 21 anos, sem encontrar o rumo certo.

    Foi derrubado não só pela política dos porões que adotou, mas principalmente pelo modelo econômico de viés getulista que o general Ernesto Geisel tentou implantar.

    “Deus não me traria de tão longe para ser o síndico da catástrofe”, disse José Sarney ao assumir a Presidência da República como o primeiro civil, desde o golpe de 64.

    Sarney era da “ala jovem” da UDN, o partido que comandou a derrubada de Vargas, quando os militares tomaram o poder. Foi aliado do regime desde o primeiro instante.

    Pode-se dizer que aí, em 1985, quando Sarney se tornou presidente pelo voto indireto (e não quando os milicos derrubaram Jango) se deu a derrota definitiva de Getúlio Vargas.

    Na primeira eleição direta, em 1989, Fernando Collor, também da vertente udenista/arenista, sucedeu Sarney, derrotando Lula e Brizola, dois herdeiros da herança trabalhista de Vargas, que se dividiram.

    Era mais uma pá de terra em cima  daquele cadáver.

    Para completar, o sucessor de Collor, Fernando Henrique Cardoso, assumiu declarando que seu propósito era “sepultar a era Vargas”, negando suas raízes social-nacionalistas. (Seu pai defendeu “O Petróleo é Nosso”).

    Mas eis que de repente, quando parecia  coberta por várias camadas de terra, a utopia de Vargas renasceu com a eleição de Lula em 2002.

    E, por década e meia, pareceu que a nação havia se reencontrado com o seu velho projeto nacional desenvolvimentista, de conciliação de classes e inclusão social.

    O que veio depois de 2015 está na memória de todos. Mas parece que a hidra tem sete cabeças e aí está Lula, liderando todas as pesquisas, com a bandeira do projeto  nacional desenvolvimentista, de conciliação e inclusão social.

    A  difusa utopia pela qual Vargas deu um tiro no peito em 24 de agosto de 1954.

     

     

     

     

     

     

  • GERALDO HASSE/ O militarismo vai pesar na balança em 2022

    Uma live sobre “os militares e a democracia” promovida na sexta-feira 13 de agosto pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Cebrap (fundado em 1968 pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso com ajuda da Fundação Ford) resultou numa conclusão unânime de dois cientistas políticos convidados a expor seus conhecimentos acadêmicos sobre o protagonismo militar no atual governo e no Brasil em geral: os generais, os parlamentares originários de forças policiais, as polícias estaduais e os milicianos tendem a ser os fiéis da balança político-eleitoral de 2022, prevalecendo seu viés conservador.

    Fizeram análises e responderam a perguntas os professores Octavio Amorim Neto da FGV RJ e Anais Medeiros Passos da UFSC, ambos especialistas no estudo do comportamento das Forças Armadas.

    Três dias depois de dizer ao jornal El País que as manifestações do presidente Bolsonaro “são estridentes mas não têm efeito”, a veterana socióloga Maria Herminia Tavares, de 74 anos, perguntou a Octavio Amorim Neto e a Anaís Medeiros Passos se a presença de militares no governo significa uma mudança de padrão nas relações com os civis ou, mais grave ainda, representa uma ruptura que dificultaria a manutenção da democracia no Brasil.

    Amorim Neto, formado em 1987 na UFRJ, acredita que a militarização do atual governo (39% dos ministros têm origem militar) gerou uma indefinição política cujo desfecho deverá ocorrer no ano eleitoral de 2022.

    Anaís Medeiros Passos, com doutorado concluído em 2018 em Paris sobre a mística militar na América Latina, afirmou que “a ruptura já aconteceu”, o que está agravando nitidamente a qualidade da democracia no país. Estamos diante da perspectiva de uma transição complicada, pois “a volta aos quartéis não será simples”.

    Qual seria, então, o futuro previsível do exercício do poder no Brasil?

    Segundo o sociólogo carioca, tornou-se claro que o apoio das Forças Armadas é crucial para Bolsonaro, que não tem projeto para o país e age contra as instituições democráticas, estando na contingência de governar para algumas minorias, a quem cumula de favores e benesses, como é o caso dos pacotes pró-militares. Criou-se assim uma situação em que os militares, acumpliciados ao governo, são chamados a avalizar um mandatário discricionário que reencarna o salvacionismo anticomunista de 1935 e 1964 – isso, sem falar do alinhamento político-ideológico com os EUA e contra a China, Cuba e Venezuela.

    Ao explicar por que tem uma visão cética do processo político brasileiro, a portoalegrense Anaís, de 31 anos, diz que as eleições de 2018 marcaram a reorganização das forças políticas conservadoras após pouco mais de uma década de governos liderados pelo PT. Como parte das forças conservadoras, as Forças Armadas se dividem atualmente em três blocos: os bolsonaristas, os simplesmente conservadores e os democratas – isolados, no momento. Além dos membros das três armas da República, a pesquisadora da UFSC lembra que há movimentos mais ou menos conservadores organizados no âmbito das polícias militares dos estados; e, ainda, não se pode desconsiderar a fundação recente da Associação Brasileira de Praças Eleitos, uma inédita entidade formada por componentes dos baixos escalões de todas as forças militares.

    A live com apenas dois debatedores, no final da manhã de sexta-feira 13/8, parece não ter obtido grande audiência, mas aprofundou o conhecimento sobre o surto militarista que voltou a assombrar a sociedade brasileira e – está claro – tem potencial para se prolongar, ainda que a correlação de forças políticas já não favoreça Bolsonaro.

    Octavio Amorim Neto acredita que, apesar do fracasso do governo 2019-2022, a percepção popular ainda mantém os militares “num patamar de alto respeito”, embora o desempenho do presidente coloque as Forças Armadas numa “corda bamba” e o alto comando militar numa sinuca histórica semelhante à dos primeiros presidentes militares — Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto –, que traíram a democracia. Atualmente, segundo o sociólogo da FGV, “a cúpula militar segue comprometida com a governança democrática”, com a ressalva de que o entendimento militar sobre o que é democracia segue padrões especiais. Por isso, Amorim entende que as lideranças civis nacionais devem escrever o quanto antes “um livro branco” com as regras sine qua non do jogo político, de modo a enquadrar todo mundo, especialmente os militares.

    Como seria isso? Aí é que a porca torce o rabo. Aqui, para encerrar, volta o ceticismo de Anaís Medeiros Passos. Segundo a jovem professora, há dois fatores favorecendo o status quo militarizante:

    1 – o anticomunismo continua sendo ensinado nas escolas militares, o que fortalece o conservadorismo das forças armadas em geral

    2 – os políticos não têm interesse em contestar os militares; pelo contrário, a maioria joga no time do “tamo junto”.

     

  • ALDO REBELO/ A Ferrogrão e os desorientados

    Circula a notícia de que na segunda quinzena de agosto integrantes de uma autodenominada Internacional Progressista desembarcarão no Brasil com o objetivo de, segundo seus porta-vozes “derrotar e enterrar” a Ferrogrão.

    A articulação global conta entre seus integrantes com o senador Bernie Sanders, ex-pré-candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais dos Estados Unidos, além de outras celebridades norte-americanas e europeias.

    No Brasil, o movimento tem o apoio de ONGs ligadas às questões indígenas e ambientais e de próceres de setores progressistas e de esquerda.

    É importante registrar que o anúncio da caravana acontece depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal provocada por ações judiciais do Ministério Público e de um partido político pretensamente de esquerda, interrompendo o processo para a construção da ferrovia.

    É de se notar que a campanha contra a Ferrogrão parte dos mesmos grupos que atuaram para inviabilizar a construção da hidrelétrica de Belo Monte e se dedicam a sabotar qualquer iniciativa para dotar a Amazônia da infraestrutura necessária ao seu desenvolvimento e à proteção do meio ambiente.

    O caso da Ferrogrão é exemplar porque é um projeto essencial para a redução do custo de transporte da produção agropecuária do centro-oeste para o porto de Miritituba, no Rio Tapajós, no estado do Pará, e daí para o exterior.

    A caravana só se explica pela desorientação de agrupamentos progressistas e de esquerda que perderam completamente os laços com os interesses nacionais, com o desenvolvimento nacional e com as necessidades do povo brasileiro.

    Da mesma forma, a interferência estrangeira nos assuntos internos do Brasil pode ser explicada pela desastrada política externa do governo.

    Hoje o Brasil é um país sem aliados no mundo, em conflito com o atual governo dos Estados Unidos, nosso mais importante vizinho de hemisfério, em hostilidade permanente contra a China, o nosso mais destacado parceiro e cliente da agropecuária, em arengas desnecessárias com os europeus, para não falar do mal-estar com vizinhos como Argentina, Bolívia, Venezuela e mais recentemente o Peru.

    Dividido internamente e isolado no mundo, nossa Pátria se converte em presa fácil para a cobiça geopolítica e comercial das aspirações hegemônicas do planeta.

    O Brasil e a Amazônia precisam de rumo, de união, de uma agenda voltada para a retomada do desenvolvimento, do crescimento da economia, da redução das desigualdades e da construção da democracia.

    O Brasil precisa da Amazônia para voltar a crescer e gerar esperança para a população, principalmente os mais jovens, desenganados com o País.

    E a Amazônia necessita do apoio do Brasil para proteger o meio ambiente e aproveitar as potencialidades de sua biodiversidade, de sua fronteira agrícola e de sua fronteira mineral, com hidrovias, ferrovias, rodovias, infovias e educação de qualidade para garantir o seu futuro.

    * Aldo Rebelo é jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados e ministro de Estado da Defesa, da Ciência, Tecnologia e Inovação, do Esporte e da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais.

     

  • LOURENÇO CAZARRÉ/ É a Oceania, estúpido!

    Lourenço Cazarré

    A disputa mais acirrada dessa última Olimpíada foi, sem dúvida, a luta pela conquista do maior número de medalhas. Tradicionalmente, os Estados Unidos eram o vencedor sempre isolado dessa modalidade. Por décadas, tiveram como concorrente a União Soviética, até que essa foi desmilinguida por Gorbatchov.

    A batalha dessa disputa em Tóquio – travada agora contra a China, sua nova rival – só veio no último dia, quando os americanos ultrapassaram, por uma chapinha metálica de ouro, os asiáticos.

    A nossa cobertura jornalística desse evento, como de quase todas outras disputas esportivas, não primou pela objetividade. Ficou mais para o pachequismo, que é a torcida frenética, herança de nossa paixão futebolística. E para o furor patrioteiro, que nos leva a acreditar que nossos atletas, especialmente os de origem mais modesta, maioritários, são os mais dedicados do universo.

    Além da mera leitura numérica, o quadro de prêmio de uma Olimpíada poderia ser analisado, por exemplo, levando-se em consideração o PIB dos países ou sua população.

    No caso da relação com o PIB, darei apenas um exemplo: Cuba, que obteve 15 medalhas e acabou em décimo quarto da classificação geral. É de longe o mais pobre dos primeiros quinze maiores vencedores. Teve, claro, melhores desempenhos nos anos em que recebia ajuda econômica da União Soviética. Considerando o fato de ser um país de renda média muito baixa (uma das menores na pobretona América Latina), seu desempenho esportivo é excepcional. Superado apenas pelo paupérrimo Quênia, dos grandes corredores de longas distâncias, o décimo nono na classificação final.

    Ainda considerando o produto interno bruto, talvez se deva mencionar aqui o óbvio: as duas economias mais pujantes ocupam os dois lugares mais altos do podium medalheiro. Estados Unidos e China somaram 201 premiações.

    Tão interessante, sem dúvida, pode ser uma conta que considere a população de uma determinada nação em relação ao número de vitórias que ela conquista numa Olimpíada. Nesse aspecto, destaca-se de maneira espantosa a Oceania.

    Comecemos pela Nova Zelândia, que ocupou o décimo terceiro posto em Tóquio, logo atrás do Brasil, ao ganhar 20 medalhas. É um país de escassos 4,9 milhões de habitantes. Ou seja, sua população é quarenta e duas vezes menor que a brasileira. Quarenta e duas!

    Passemos agora ao segundo país mais atlético do mundo, quando se observa a relação entre medalhas e habitantes. É a Austrália, que tem 25 milhões de habitantes e obteve 46 medalhas. Destrinchando: com população oito vezes menor que a brasileira ganhou o dobro de medalhas.

    Mais um número: dividindo-se cada medalha conquistada pela Nova Zelândia por sua população, veremos que cada círculo de ouro prata ou bronze corresponde a 250 mil habitantes. Na Austrália, essa mesma relação seria de uma medalha para cada 540 mil cidadãos. No Brasil, a proporção seria de 10 milhões de pessoas por vitória.

    Os números aqui apresentados nunca são considerados pela mídia brasileira que prefere fazer comparações com as nações europeias, todas elas com maior tradição esportiva e renda média bem mais elevada, como Alemanha, França e Itália.

    Na velha Europa, talvez devêssemos nos concentrar no Reino Unido. Com uma população semelhante à de Itália ou França, e um pouco menor que a da Alemanha, o reinado de Elisabeth 2 faturou no Japão o dobro das medalhas obtidas por esses seus três vizinhos.

    Então, talvez possamos aqui avançar um comentário provocativo: esporte é coisa dos anglo-saxões. Somados, os britânicos – que criaram a maioria dos esportes hoje disputados – mais as nações colonizadas maciçamente por eles (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia) ganharam 308 medalhas.

    Os três países orientais mais bem colocados em Tóquio (China, Japão e Coreia do Sul) conseguiram só a metade: 166 medalhas.

    Por fim, podemos refletir sobre a América Latina, na qual o Brasil se destaca com alguma luz de frente, como diria um gaúcho amante de corridas de cavalo. Os sete países de fala portuguesa ou espanhola faturaram 55 medalhas, sendo 36 de Brasil e Cuba. A ex-riquíssima Argentina – que na virada para o Século XX possuía renda maior que a das grandes nações europeias – ficou com o sétimo posto da região com apenas três medalhas, nenhuma de ouro.

    Será que, pensando em Paris, daqui a três anos, não deveríamos voltar nossos olhos para essa vizinha (fica no Hemisfério Sul) distante, a Oceania?

    Certa vez um jornalista amigo me disse que, se ganhasse na loteria, se refugiaria na Austrália porque lá vigora a cultura anglo-saxã, de pleno respeito aos direitos individuais, em um clima semelhante ao nosso. Um clima civilizado. Um clima que permite a prática desportiva ao longo de todo o ano sem os invernos selvagens que fustigam as nações do Norte.

    Como perguntar não ofende, não seria o caso de indagarmos de nossos dirigentes esportivos: vocês prestaram atenção ao que ficou bem claro no quadro de medalhas de Tóquio?

  • Joice, Queiroz e Borba Gato: o que há em comum

    A história, que a deputada Joice Hasselman conta, não pára em pé.

    Não lembra o que aconteceu até acordar em seu apartamento, numa poça de sangue, com fraturas e um dente quebrado. Teria ficado sete horas desacordada.

    Na primeira versão, teria levado uma pancada na cabeça e desmaiado. Depois, disse que poderia ter sido dopada. O certo é que não se lembrava de nada.

    O marido dormia em outro quarto do apartamento funcional que a deputada ocupa em Brasilia, Não ouviu nada.

    Quando ela pediu socorro pelo celular, ele a encontrou caída e cogitou que poderia ser um acidente doméstico, a deputada teria caído e na queda sofrido todas as lesões apresentadas no rosto, no braços e na coluna.

    A deputada esperou dois dias para dar queixa à polícia legislativa.

    Isso levou à hipótese de que o agressor tenha sido marido, o neurocirurgião  Daniel França, hipótese implicitamente encampada pelo noticiário.

    No domingo,  a deputada e o marido, apareceram de mãos dadas em uma entrevista ao Fantástico. Ele disse que nunca deu um tapa em ninguém.

    Ela contou que entregou à polícia os nomes de dois suspeitos: um desafeto político que tem acesso ao prédio e outro “que tem acesso aonde ele quiser”.

    Mostrou-se mais preocupada em processar as pessoas que apontam o marido como agressor (“Vou processar todas”)  do que em esclarecer quem a agrediu.

    Já o ex-assessor do deputado Flávio Bolsonaro e intimo da familia, Fabricio Queiroz, recorreu ao face-book para reclamar do isolamento, postando uma foto em que aparece com  Bolsonaro e amigos.

    Na resposta a um comentário, Queiroz disse que “está com a metralhadora cheia”.  Metralhadora de palavras, entenda-se.

    Quanto ao Borba Gato, pelo que diz a imprensa, foi alvo de um grupo de jovens da periferia movidos pela idéia de que a mudança tem que começar pela destruíção dos símbolos do sistema opressor.

    O que esses três fatos tem em comum:  são muito mais do que parecem, cada um deles extremamente revelador, mas que vão  submergir na voragem das notícias, sem que se fique sabendo o que realmente aconteceu.