Categoria: Análise&Opinião

  • O candidato de si mesmo

    O candidato de si mesmo

    Sem emplacar nacionalmente, Leite pode ficar quatro anos sem mandato. Foto João Pedro Rodrigues/SecomRS

    ELMAR BONES

    Ninguém é candidato de si mesmo. Essa é a regra não escrita da política partidária, que as velhas raposas não cansam de repetir aos novatos. Eduardo Leite parece não tê-la aprendido. Ele não tem sido outra coisa desde que ultrapassou os umbrais do Piratini em 2019, aos 33 anos.

    Por melhor que seja, o candidato tem que esperar sua hora – é a outra leitura que se pode fazer da regra partidária.

    Em 2022, ainda no PSDB, Leite tentou atropelar João Dória, então governador de São Paulo, para lançar-se à presidência da República. Sua aventura nacional morreu na praia.

    Agora, está inconformado porque foi preterido por Ronaldo Caiado, como candidato do PSD ao Planalto. Restará a ele o papel de cabo eleitoral, tentando impulsionar a candidatura estadual de seu vice, Gabriel Souza.

    É evidente que ele tem “mais perfil” do que Caiado para ser a “terceira via”, que é o candidato que a oposição está buscando para barrar o Lula 4.

    Mas Caiado governa Goiás, que é um estado ascendente no contexto brasileiro. Registrou o maior índice de crescimento no país em 2025.

    Leite governa um Rio Grande do Sul estagnado, para não dizer decadente. Nos últimos 25 anos, o RS caiu do 2º para o 6º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

    Eduardo Leite conseguiu a façanha de se reeleger governador, fato inédito na história política do Estado. Mas, em suas duas gestões, em vez de reverter o processo de queda, aprofundou-o.

    No primeiro mandato, deu continuidade à obra devastadora de Ivo Sartori, que extinguiu fundações e centros de pesquisa em nome do equilíbrio fiscal, até hoje não alcançado ou precariamente alcançado através da venda de patrimônio e cortes de investimentos essenciais. A enchente, “a maior da história”, de certa forma, mascarou problemas estruturais e, mobilizando investimentos federais, turbinou o PIB estadual em 2024. Em 2025, já voltou a crescer abaixo da média brasileira.

    Quem sabe, por sua condição de perpétuo candidato, perdeu também a oportunidade de obter melhores condições para a dívida com a União, que extrapolou.

    Enfim, Eduardo Leite é uma liderança ainda em ascensão numa democracia carente – tem muito terreno pela frente. Precisa sopitar sua ambição. Terá, agora, quatro anos sem mandato para refletir.

    Obs: Sim, houve um abaixo-assinado defendendo seu nome, mas uma candidatura à presidência não se faz com uma lista de amigos e admiradores, por mais influentes que sejam.

  • O Centro (Histórico) de Porto Alegre

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    Porto Alegre, nove horas da manhã do dia 30 de março de 2026. No “coração” do Centro – que já foi histórico em tempos passados, e limpo -, em um trecho de cerca de 500 metros, entre as ruas General Câmara e Senhor dos Passos, existem mais de 50 imóveis comerciais de porta de rua fechados, a maioria com placas de aluga-se. 

    Só na Rua da Praia são 30. Eram 45 vazios no ano passado, mas notei novos ‘xing lings’ na Andradas. 

    Se estender a caminhada pela avenida Independência, da Santa Casa até a Ramiro Barcelos, dá para acrescentar mais uns 15 imóveis de calçada com as cortinas cerradas. Isso, sem contar os inúmeros imóveis comerciais e residenciais vazios nos prédios, andares acima. 

    Soube que vários escritórios de advocacia debandaram na região. Fato que abalou cafés, bares e restaurantes. Um Centro desabitado e pouco frequentado se torna um risco para a segurança da população e do patrimônio.

    Na Borges, mais imóveis fechados e a restauração do viaduto Otávio Rocha é um suspiro de alívio.

    Enfim, o salvador da pátria do Centro, o bravo Mercado Público, que garante o maior movimento, com ou sem goteiras. Ah, e o charmoso Chalé da Praça XV, com seu entorno sinistro.

    O Centro desta pequena cidade grande, como dizia Mário Quintana, carece de ​muito mais atenção.

  • É preciso defender o Jardim Botânico de Porto Alegre

    É preciso defender o Jardim Botânico de Porto Alegre

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    O Jardim Botânico de Porto Alegre (JBPA) tem 67 anos e é considerado um dos cinco melhores e maiores do Brasil. Possui 28 coleções científicas que somam mais de 4.200 plantas, incluindo espécies raras, ameaçadas de extinção e endêmicas, que são encontradas apenas no RS. No local há animais silvestres, entre mamíferos, répteis, anfíbios e peixes, e mais de 100 espécies de aves.

    Em 2003, o JBPA foi declarado Patrimônio Cultural do Estado (Lei nº 11.917). O que não dá para aceitar é que até hoje esse museu vivo da flora rio-grandense não faça parte do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre.

    Um projeto do então vereador Marcelo Sgarbossa, do PT na época, propôs em 2017 o tombamento do imóvel, o que impediria quaisquer alterações que descaracterizassem o Jardim Botânico. A proposta foi analisada por duas comissões, mas não chegou a ser votada no plenário da Câmara Municipal. 

    Aquele espaço de conservação já perdeu mais da metade dos 81,5 hectares de sua área original, desde que foi criado em 1958. Restaram 36 ha. Alguns falam em 39ha porque incluem a área ao lado, onde a Fepam mantinha laboratórios. Hoje, uma parte daquele espaço é usada como depósito de veículos oficiais. Em outra parte do terreno, nos fundos, há coleções arbóreas.

    Acompanhei todo o processo de extinção da Fundação Zoobotânica do RS, a partir de agosto de 2015, decidida pelo tenebroso governo José Sartori e apoiada pelos vendilhões do templo, praticamente os mesmos de sempre. Publiquei mais de 60 reportagens sobre o JBPA, o Museu de Ciências Naturais e o Parque Zoológico. As três instituições estavam amparadas pela FZB. Rendeu o livro Patrimônio Ameaçado (Editora JÁ).

    Abraço simbólico na Fundação ocorrido em 11 de agosto de 2015. Foto: Cleber Dioni Tentardini/JÁ

    Até 2014, estava na presidência da fundação a geógrafa Arlete Pasqualetto, que permaneceu durante toda a gestão Tarso Genro. Inclusive, naquele ano foi produzida a última “Lista Vermelha”, de espécies ameaçadas de extinção, uma obrigação legal que o Estado vem descumprindo. Em 2015, com o novo governo, do MDB, assumiu a FZB o geólogo José Wenzel, analista ambiental da Fepam na época, e como era um defensor daquele espaço de conservação, durou seis meses apenas.

    Com o fim da FZB, cessaram as verbas de instituições nacionais e internacionais para grandes projetos e pesquisas científicas, trabalhos que levaram a fundação a ser reconhecida mundialmente. Recursos valiosos que eram usados inclusive para manutenção dos acervos e do seu patrimônio material. Com orçamento reduzido, até uma reforma no telhado do prédio do Museu demorou dez novelas. Ficou pronto, enfim. Pelo menos não chove mais dentro das salas.

    O governo Leite gastou os tubos para elaborar editais para concessão à iniciativa privada do JBPA, do Museu e Zoo. No leilão do Zoo, ninguém deu nem um punhado de alfafa como lance. Depois, vieram os projetos mirabolantes para o JBPA e o Museu, com seu riquíssimo acervo. Estiveram por lá a convite do governo estadual, por exemplo, administradores do Bondinho do Pão de Açucar, da Opus – a gigante do entretenimento pertencente à família Zaffari, entre outros anônimos. Nenhuma informação a respeito e, como se sabe, a falta de transparência dá margem a boatos e levantou-se a hipótese de o Zaffari querer construir um grande centro cultural ou um shopping Bourbon no local. O diz que me disse ganhou volume e obrigou o grupo supermercadista a emitir nota à imprensa, agora sim, informando que isso tudo era fantasioso. Na verdade, o empreendimento existe, o tal Belvedere, e está sendo construído a duzentos metros do JB, ladeira acima na Tarso Dutra, continuação da Salvador França.    

    A atual diretoria do JBPA faz malabarismos com os parcos recursos. Sem autonomia, com o orçamento acorrentado ao cofre da administração direta do governo, através da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA), o futuro da área continua incerto. Afinal de contas, a quem interessa essa vulnerabilidade?

    É preciso entender que o ​Jardim Botânico não é um mero espaço de lazer, um simples depósito de plantas ou um parque para a iniciativa privada instalar uma roda gigante e terceirizar a venda de hambúrguer em contêiner.

    O JB ​​é um guardião de espécies ​​​raras e ameaçadas de extinção​ de plantas e árvores nativas do Rio Grande do Sul​, com banco de sementes e viveiro valiosíssimos e um espaço sem igual na cidade para ações de educação ambiental. Assim como o Museu de Ciências Naturais, que possui o maior acervo de material-testemunho da biodiversidade tanto terrestre como aquática do Estado. Isso é motivo não só para comemorar, mas também para defender.

  • A nova celulose à beira do Guaíba e o risco de repetir a Borregaard

    A nova celulose à beira do Guaíba e o risco de repetir a Borregaard

    ELMAR BONES

    No dia 16 de março de 1972 foi inaugurada a Indústria de Celulose Borregaard, em Guaíba, com a presença das mais altas autoridades e manchetes ufanistas em todos os jornais.

    Inauguração da fábrica em Guaíba, no ano de 1972. Foto Reprodução Arquivo/CeluloseRioGrandense

    Seria uma das maiores fábricas em território gaúcho, a consolidação do Rio Grande do Sul industrial, milhares de empregos, milhões em impostos, além de avanços tecnológicos, etc.

    Reprodução do jornal Zero Hora.

    “Um dos marcos do novo Rio Grande do Sul, que se prepara para ser a segunda potência industrial do Brasil”*, conforme o editorial do jornal Zero Hora no dia da inauguração.

    Só depois, quando o cheiro de ovo podre se espalhou sobre a cidade, inclusive sobre os donos dos jornais, é que se foi dar ouvido aos alertas de José Lutzenberger e seus companheiros da recém-criada Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

    Aí, a imprensa foi descobrir o parecer do químico Milo Rafin, da Universidade Federal, que muito antes alertava para as emissões sulfurosas e para os efluentes tóxicos que seriam lançados nas águas do Guaíba.

    Na sequência, descobriu-se que o grupo norueguês, dono do empreendimento, recebera isenção de impostos e financiamento de bancos estatais**, mas não providenciara um estudo de impacto ambiental abrangente para construir a fábrica.

    Em dezembro de 1973, ante o clamor popular, a Borregaard foi fechada. Uma vitória da comunidade porto-alegrense. Só foram retomados os trabalhos com novos filtros, que a fábrica foi obrigada a instalar, e os cuidados com as emissões lançadas no ar e os efluentes despejados no Guaíba. Os sistemas de tratamento de resíduos sólidos, projetados pelo próprio Lutzenberger, fazem parte dessa conquista.

    Hoje a empresa se jacta de manter os mais rigorosos controles (não há dados técnicos divulgados sobre isso), mas esses níveis de precaução não foram alcançados espontaneamente. Foram conquistados pela pressão da comunidade, alarmada ante os danos evidentes.

    Agora em março de 2026, 54 anos depois da inauguração da Borregaard, estamos diante de uma situação semelhante, guardadas as devidas proporções.

    A fábrica da Borregaard, inaugurada em março de 1972, tinha capacidade para 190 mil toneladas/ano. A planta atual, em Guaíba, depois de passar por cinco donos, sempre em expansão, chega aos 2 milhões de toneladas de celulose por ano.

    A ela vai se somar a nova fábrica que se projeta construir a poucos quilômetros, na Barra do Ribeiro, com capacidade de produzir 2,5 milhões de toneladas/ano. É saudada nas manchetes como “o maior investimento da história do Rio Grande do Sul” – de 25 bilhões de reais, milhares de empregos, milhões em impostos, a redenção econômica do Estado. 

    A empresa que toca o projeto atual, CMPC, uma multinacional chilena, até ganhou um prêmio como a marca mais identificada com a defesa do meio ambiente. 

    Enquanto isso, as vozes que se levantam, de pesquisadores, ambientalistas e do próprio Ministério Público, questionando a falta de transparência quanto aos impactos sociais e ambientais do projeto, são silenciadas.

    Assim como foi Milo Rafin, cujo parecer foi ignorado pelas redações de todos os jornais, aos quais ele enviou cópia.

    O novo megaprojeto, até agora, foi submetido ao debate em uma única audiência pública, em Barra do Ribeiro, com maioria recrutada pela empresa.

    A recomendação do MP de que se suspenda o processo de licenciamento ambiental em andamento, para que os impactos do projeto sejam amplamente debatidos, foi prontamente atacada pelos empresários. A nota da Fiergs, manifestando “surpresa e preocupação” foi antecipada pelo colunismo oficial. 

    O cheiro de ovo podre, que se espalhou sobre Guaíba e até Porto Alegre, denunciou a Borregaard em 1972.

    Em 2026, há filtros eficientes para que a população não seja alertada pelo olfato.

    Os efeitos das descargas tóxicas nas águas do Guaíba serão imperceptíveis durante muito tempo.

    Quando as consequências aparecerem, talvez seja tarde demais.

    *Naquela época o RS ainda disputava com Minas Gerais a colocação de 3º Estado mais industrializado do país, atrás de SP e Rio, apenas. Hoje no ranking dos estados mais industrializados do IBGE aparece em 8º lugar.

    *O BNDES era sócio, com 43% do capital. A empresa norueguesa, controladora, tinha apenas 32% do capital. Até o governo do Estado era acionista minoritário.

    Leia mais: Carga tóxica no Guaíba vai dobrar com nova fábrica de celulose, alerta ambientalista

    Especialistas apontam para ‘graves impactos ambientais’ com nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    MPF recomenda suspender licenciamento de indústria de celulose da CPMC em Barra do Ribeiro

    E reportagem da Agência Pública: No Rio Grande do Sul, projeto de celulose de R$ 25 bilhões ameaça indígenas e o rio Guaíba

  • Entrevista com Leonel Brizola: Como nascem as falsificações históricas

    SILVANA MOURA

    Mais do que direito à História, temos o direito à verdade da História, para evitar um passado falsificado, supostamente “limpo”, eivado de manipulação e pretensa uniformidade.

    Em 1996 realizei, em Carazinho, uma Entrevista de História Oral (sou Historiadora e trabalho com História Oral há 40 anos) com Leonel Brizola, em companhia do também historiador Ney Eduardo Possapp d’Ávila.

    A entrevista, com duração de 4h20min, permaneceu inédita até que, há dois anos, por mediação do professor doutor Nildo Domingos Ouriques, presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina, a Editora Insular se interessou pela publicação.

    Foi então que Juliana Brizola e Rejane Guerra, jornalista carioca e amiga pessoal de Juliana, contataram o editor Nelson Rolim de Moura e o ameaçaram com outra publicação, alegando ter uma cópia impressa da entrevista entregue por Romeu Barleze a Brizola. Quem trabalha com História Oral sabe que o documento, em História Oral, são as fitas gravadas, que sempre estiveram em minha posse.

    Juliana, sob alegação de ser neta de Brizola, exigiu que seu nome e de sua amiga constassem na capa da publicação como “Organizadoras”, o que, de fato, agora se verifica.

    Juliana Brizola e Rejane Guerra tiveram êxito em seu intento, e a publicação estará à venda a partir de 10 de março próximo, com lançamentos agendados em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Carazinho (terra natal de Brizola e minha) e outros tantos lugares no RS e no Brasil.

    Matérias mentirosas e que omitem meu nome estão sendo espalhadas nos principais jornalões do país, como Zero Hora e O Globo, suponho que alimentadas pela assessoria de Juliana Brizola.

    Em uma matéria de O Globo consta que as fitas originais foram encontradas em Florianópolis com o Editor Nelson Rolim de Moura, como se tivessem ido passear em Floripa.

    As fitas originais sempre estiveram comigo; são únicas e foram levadas para Florianópolis pelo professor Nildo Ouriques, a meu pedido, e entregues ao editor em fevereiro de 2024.

    Que lambança histórica promovem estas duas senhoras, Juliana Brizola e Rejane Guerra. Não bastasse terem se apropriado de minha produção intelectual, agora disseminam histórias incorretas, distorcidas e prenhes de falsificações.

    Um desserviço à ética e uma apologia à impostura.

  • Feminicídio, nova campanha vai mostrar o agressor

    MÁRCIA TURCATO

    O governo federal relançou em fevereiro o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio. É um “relançamento” porque o pacto nasceu em 2023 e não colheu resultados. A nova estratégia de comunicação da campanha muda a linguagem ao colocar o foco não mais na vítima, a mulher, mas no agressor, o homem. Desde que o crime de feminicídio foi definido há 10 anos, as campanhas de publicidade exibidas nas mídias mostravam a imagem de mulheres agredidas, vulneráveis. TV e outdoor, até então, não mostravam imagens de homens recriminados ou presos.

    A mudança não é apenas estética, é de conceito. A imagem de mulheres em situação de vulnerabilidade, a maioria delas com um olho roxo, parece estimular e banalizar a violência. É como se colocasse em primeiro plano a opção pelo espancamento. “Ao retirar o foco da vítima, a campanha apela à sociedade que assuma um papel ativo na prevenção e na denúncia de violências contra as mulheres”, explica José Augusto Nigro, vice-presidente da agência Calia, que produziu a campanha.

    O filme, que será veiculado após o carnaval, mostra o homem agressor sendo criticado nos locais que frequenta. O objetivo é interromper a rotina de violência que milhares de mulheres são submetidas não somente dentro de suas casas mas também em locais públicos. A produção é da agência Calia, que atende a Secretaria de Comunicação do governo federal.



    Crime em Goiás

    “Papai ama vocês”. Essa foi a declaração do pai assassino dos filhos de 12 e 8 anos, publicada numa rede social, pouco antes de matar as crianças e cometer o suicídio. Aconteceu no interior de Goiás na madrugada do dia 12 de fevereiro. O assassino deixou uma carta responsabilizando a ex-esposa pela motivação do crime brutal. O ato mostra o nível de crueldade cometido pelo criminoso, que tirou a vida dos próprios filhos e deixou a ex-companheira num luto sem fim. Gravíssima também é a reação da sociedade local que adotou a versão do assassino e impediu que a mãe enlutada participasse do velório de seus filhos. O ato mostra o tanto que a sociedade aprova o machismo e acaba pactuando com o crime.

    Situação no RS e Brasil

    No primeiro semestre de 2025, no Rio Grande do Sul, uma em cada cinco prisões foi decretada por violência doméstica. O número de prisões por esse tipo de crime no RS subiu 99% em oito anos, passando de 1.341 no primeiro semestre de 2017 para 2.677 no mesmo período de 2025. Os números são da Coordenadoria Estadual das Mulheres em Situação de Violência Doméstica Contra a Mulher (Cevid) do TJ-RS.

    De acordo com relatório apresentado pela deputada Maria do Rosário (PT-RS), relatora da Comissão Externa da Câmara Federal sobre os Feminicídios ocorridos no Estado do Rio Grande do Sul, de 2020 ao primeiro semestre de 2025, 660 crianças e adolescentes ficaram órfãs de mães, que foram vítimas de feminicídio, na maioria dos casos praticado pelo companheiro ou ex-companheiro.

    No relatório, a deputada cita 95 propostas para viabilizar o compromisso dos governos federal e estadual na redução das mortes de mulheres. O relatório da Comissão Externa deve ser apresentado e votado na Câmara dos Deputados, em Brasília, ainda em fevereiro.

    A deputada diz que não há política profunda e articulada no Rio Grande do Sul e no Brasil para interromper as mortes por feminicídio. Maria do Rosário anunciou que as deputadas federais irão apresentar um projeto de lei para ampliar o Fundo Nacional de Segurança Pública para combate ao feminicídio nos estados, mas enfatizou que os governos municipais, estaduais e federal precisam assumir compromisso com a causa.

    No Brasil, os casos de feminicídio também cresceram. O país atingiu o número recorde de 1.518 vítimas em 2025, ano em que a sanção da Lei do Feminicídio completou dez anos. No ano anterior, 2024, o país também já havia atingido recorde, com 1.458 mulheres assassinadas.

  • Vargas e Lula, algo em comum

    ELMAR BONES

    Pela primeira vez, desde Getúlio Vargas, o Brasil tem um grande líder popular com Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula.

    Vargas também estava no auge de sua popularidade em 1954. Tornara-se líder de um “partido de massas” e estava à frente de um movimento trabalhista/reformista, que mobilizava intensamente o nascente operariado brasileiro. Era o “pai dos pobres”.

    Não era candidato, o mandato presidencial era de cinco anos, sem reeleição. Mas, como diziam, “elegeria até um poste”. Em oito meses armou-se uma tempestade que começou com um manifesto de coronéis e culminou com o “atentado da rua Tonelero” – uma crise que encurralou o presidente e o levou ao suicídio, em agosto daquele mesmo ano.

    Saído da elite rural do Rio Grande do Sul, Vargas era um “melancólico”, daqueles tipos do pampa, descritos por Dyonélio Machado.

    Em seu livro sobre Vargas, o psiquiatra João Mariante conta que ele tinha sempre um revólver à mão. Em 1930, quando Flores da Cunha e Oswaldo Aranha saíram do palácio Piratini para liderar a tomada dos quartéis em Porto Alegre, Vargas tirou a arma da gaveta, colocou-a sobre a mesa e só voltou a guardá-la quando soube que a situação estava dominada.

    Naquele 24 de agosto de 1954, ele saiu da reunião com os seus ministros certo de que havia perdido. Para não ser preso e humilhado, usou o seu revólver contra o próprio peito.

    Lula é cria do povo, saiu de sua terra num pau de arara e, se cogitasse o suicídio diante de perigos ou fracassos, já estaria morto há tempo. A sanha antipovo já se abateu sobre ele, foi preso e humilhado, mas não se deixou abalar. Ao contrário, afiou as suas capacidades, que já eram excepcionais, e tornou-se um líder reconhecido no mundo, como nem Getúlio Vargas foi.

    Em 2026, ele está no seu terceiro mandato presidencial, líder de um partido de massas e à frente de um movimento trabalhista/reformista. É candidato a reeleição, favorito, mas há uma crise se armando em volta dele. As “forças ocultas” se articulam mais uma vez.

    Qual vai ser o desfecho?

  • EUA convoca Europa a recolonizar o Sul Global

    HENRIQUE CASANOVA

    O Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, fez discurso sábado passado no qual convoca a Europa para o reestabelecimento do que ele chama de civilização ocidental.

    Numa fala naturalmente carregada de propaganda ideológica imperialista, ele diz que a decadência do mundo ocidental é acelerada “por revoluções comunistas ateias e levantes anticoloniais”.

    Ou seja, Marco Rubio trata as lutas de resistência dos povos colonizados como algo negativo, problemático e que deve ser sufocado.

    Lembremos que Marco Rubio tem obsessão pela destruição da experiência socialista em Cuba. Essa foi sempre sua principal pauta, mesmo sendo ele filho de imigrantes cubanos. Ao falar de si mesmo, porém, no sábado último do discurso, fez questão de apresentar-se como Americano descendente de Europeus.

    Rubio fala diretamente aos líderes europeus dizendo que os EUA não querem “aliados fracos, (…) acorrentados pela culpa e pela vergonha”. Ele diz ainda que os aliados dos EUA devem se orgulhar da sua cultura e do seu patrimônio, da sua grande e nobre civilização e devem ser capazes de defendê-la.

    O discurso visa justificar as intervenções dos EUA e seus aliados em outros países. Rubio chega ao extremo de dizer que a noção de uma sociedade global onde “todos são cidadãos do mundo” foi uma “ideia tola”.

    O que as corporações de mídia estão reportando apenas como um discurso de reconciliação entre EUA e Europa pós crise da Groelândia é, na verdade, um convite dos EUA para que a Europa continue em pleno apoio nos fronts de conflito do Imperialismo norte-americano e que esteja disposta a escaladas nos conflitos.

    Na América Latina, os EUA tentam reestabelecer influência inconteste através da troca de regime em países como Venezuela e Cuba.

    No Oriente Médio, com vitória recente na Síria e o processo colonial sionista já se expandido de Gaza para a Cisjordânia e o Líbano, os EUA precisam apenas derrubar o Irã para ter ampla hegemonia na região.

    Na Eurásia, a tentativa de desestabilizar a Rússia via Guerra da Ucrânia fracassou. Mas é com a China que os EUA se preocupam mais, já que os chineses são o “case” de sucesso do Sul Global: único país que foi de muito pobre a grande potência.

    A China tem um modelo de Socialismo de Mercado que prospera na paz, focando sua indústria em infraestrutura e inovação ao mesmo tempo em que se beneficia de ser ainda o parque industrial do mundo capitalista. Liderando em setores como carros elétricos e energias renováveis em geral, a China esbanja competitividade já que não precisa reservar a maior fatia dos lucros para sua burguesia, como ocorreria no Capitalismo.

    Estamos então perante anúncio dos EUA de que eles vão tentar reestabelecer o mundo unipolar Ocidental com o uso de força: “Estamos preparados para fazer isso sozinhos”, afirma Rubio, “mas preferimos fazer em parceria com os amigos da Europa”.

    Rubio diz que será uma tarefa de “restauração”. Restauração do quê? Cara Pálida!

    *Henrique Casanova é porto-alegrense, jornalista e geógrafo.

  • A presidenta, a miss e as meninas do Brasil

    Márcia Turcato, jornalista

    Claudia Sheinbaum, 63 anos, é a presidenta do México. No dia quatro de novembro ela foi assediada por um homem que tentou beijá-la e passou a mão no seu seio.

    O abuso aconteceu na rua, no Centro Histórico da cidade do México, à luz do dia, quando a presidenta se dirigia ao Ministério da Educação Pública, cercada por eleitores.

    Fátima Bosch, 25 anos, Miss México, foi humilhada em público em evento na Tailândia, também no dia quatro, pelo diretor do Miss Universo 2025.

    No Brasil, 26.399 meninas entre 10 e 14 anos vivem em união conjugal, revelou o censo do IBGE, realizado em 2022 e divulgado no dia seis de novembro, e todas elas engravidaram, ou seja, foram estupradas.

    O que há em comum entre esses três fatos?

    Eles mostram que não importa a idade, a nacionalidade e o continente, a mulher é importunada, assediada, agredida, humilhada e estuprada por homens que contam com o suporte estrutural da sociedade.

    O IBGE, na falta de um vocábulo, classificou a união das crianças e adolescentes como “união consensual”, quando sabemos que isso não existe.

    Essas meninas não são maiores de idade, elas estão na faixa etária da vulnerabilidade. Portanto, essa “união consensual” é estupro, é violência.

    A menina é retirada das brincadeiras de infância e da vida escolar por um homem que a explora de todas as formas e a faz assumir o papel de esposa, de mãe, de cuidadora, de cozinheira e de faxineira.

    Sem ter acesso à educação escolar e ao convívio com outras crianças, as meninas perpetuam a ignorância e a feminização da pobreza.

    É exatamente essa situação que parlamentares do Congresso Nacional querem manter para assegurar um mercado de mão-de-obra barato, ignorante de seus direitos civis e de seus direitos reprodutivos.

    Para conseguir seu objetivo, deputadas e deputados do campo mais atrasado da política aprovaram o PDL 3/2025, que ficou conhecimento como Projeto de Decreto Legislativo da Pedofilia, de autoria da deputada Chris Tonietto (PL-RJ), que pretende cancelar a Resolução 258/2024 do Conanda- Conselho Naconal dos Direitos da Criança e do Adolescente, que assegura o direito a interrupção da gravidez de meninas vítimas de estupro, quando sabemos que criança não é mãe e estuprador não é pai.
    Mas o PDL é ainda mais cruel. Ele pretende que as meninas não recebam informações sobre seus direitos e que o governo federal não promova ações contra as tais de “união consensual”, ou seja, o casamento infantil, que é o estupro autorizado.

    Por ser um PDL, caso o projeto seja aprovado no Senado, não poderá ser vetado pelo presidente da República. A matéria foi aprovada por 317 votos, com 111 votos contrários.

    Desnecessário dizer que o Congresso é formado majoritariamente por homens. A Câmara tem 513 parlamentares, desse total, apenas 91 são mulheres, 422 são homens.

    Entre 2013 e 2023, 232 mil meninas entre 10 e 14 anos tiveram filhos. Se elas engravidaram, isso é estupro de vulnerável. Mas o Congresso Nacional, ao invés de tratar esse crime como crime, prefere culpabilizar a menina e obrigá-la a ser mãe, a não ter acesso à escola, a não ter acesso à informação, a perpetuar a miséria, a dar prosseguimento a feminização da miséria e a gerar um batalhão de mão-de-obra barata para sustentar os mimos do capitalismo e pagar as contas desses deputados e deputadas que não querem um futuro para a infância do Brasil.

     

  • MÁRCIA TURCATO / Greta, uma adolescente na liderança do mundo

    MÁRCIA TURCATO / Greta, uma adolescente na liderança do mundo

    Greta Thunberg e Malala Yousafzai, jovens mulheres que lutam pela paz no mundo usando a força da palavra. Malala recebeu o Nobel da Paz, agora é a vez de Greta.

     

    Márcia Turcato

    Greta Thunberg deveria receber o Prêmio Nobel da Paz 2025. A ativista sueca de 22 anos mobiliza jovens e adultos desde os 12, quando iniciou a greve escolar das sextas-feiras, Fridays for Futures, em Estocolmo, capital do seu país, para protestar contra o aquecimento global e exigir dos governos ações de proteção ao meio ambiente.

    Desde então, outras agendas com compromisso social também passaram a fazer parte das suas atividades. Ela já esteve na ONU- Organização das Nações Unidas, em 2018, onde fez um veemente discurso exigindo que os governantes de todo o mundo se comprometessem para mitigar os efeitos do aquecimento global para os jovens possam ter um futuro.

    E cobrou: “como vocês se atrevem”! ao afirmar na tribuna da ONU que os governantes estão acabando com a vida no planeta Terra, o que resultou numa reação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, então em seu primeiro mandato, que a chamou de “pirralha” e recomendou que fosse ao cinema para se distrair.

    Mas a pirralha não se abalou. É ela quem organizou a Flotilha Global Sumud, para levar ajuda humanitária para a faixa de Gaza, que foi retida em águas internacionais por tropas de Israel. Uma segunda flotilha foi organizada, com a participação de ativistas de todo o mundo, entre eles 15 brasileiros. As embarcações foram novamente retidas no mar e todos os ativistas presos e posteriormente deportados.

    Grata é, de fato, a única liderança no mundo que está lutando pela paz sem usar nenhuma arma de guerra. As armas dessa jovem guerreira são a palavra e a solidariedade. Exatamente o que fez outra jovem mulher, Malala Yousafzai, natural do Paquistão, vítima do talibã aos 12 anos de idade quando recebeu um tiro na cabeça porque ousou ir para escola, proibida para meninas.

    Malala usou como arma pela paz a palavra e a educação. Ela recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2014, aos 17 anos. Foi a pessoa mais jovem a receber a láurea. As principais vozes em defesa da paz no mundo são duas mulheres, jovens, que têm a coragem de mudar o mundo e desafiar os governantes belicistas e contrários à ciência.