Categoria: Análise&Opinião

  • Dia Internacional da Educação: o Brasil que se revela na sala de aula

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A educação não se deixa apreender como um simples conceito estável ou como um consenso já dado. Ela se apresenta, antes, como um campo de tensões, no qual se entrecruzam disputas de sentido, silêncios históricos e projetos de sociedade. Pensar a educação, nesse horizonte, implica reconhecer que educar nunca se limitou à transmissão de saberes: trata-se de um gesto que revela, interroga e, muitas vezes, desestabiliza aquilo que foi naturalizado ao longo do tempo.

    Falar de educação, portanto, exige mais do que adesão retórica. Exige memória — e uma memória ativa, capaz de reconhecer que o ato de ensinar se inscreve em processos históricos densos, atravessados por conflitos e assimetrias. No Brasil, essa trajetória se construiu de forma irregular, marcada por descontinuidades e permanências incômodas. É uma história que encontra, em figuras como Paulo Freire e Anísio Teixeira, não apenas referências pedagógicas, mas projetos de país: visões que recusaram a neutralidade da educação e afirmaram seu potencial transformador, insistindo que ensinar é, inevitavelmente, intervir no mundo.

    Tal constatação ajuda a compreender por que a educação, entre nós, jamais ocupou um lugar pacífico. Ela sempre esteve imbricada em disputas mais amplas — projetos de poder, concepções de cidadania, modelos de sociedade. E, ainda assim, preservou uma dimensão de abertura, um espaço onde o possível resiste ao previsto. É nesse intervalo que a imaginação de Darcy Ribeiro se torna fecunda, ao conceber uma educação enraizada na diversidade brasileira, capaz de formar sujeitos desde a infância não apenas para o convívio social, mas para a participação plena na vida coletiva.

    Se recuarmos aos primeiros capítulos dessa história, veremos que a educação no Brasil nasce sob o signo do controle e da normatização. Ensinar, durante séculos, significou catequizar, disciplinar, ajustar indivíduos a um projeto que pouco dialogava com as realidades locais. A escola, nesse contexto, operava menos como espaço de emancipação e mais como mecanismo de ordenamento social — muitas vezes apagando saberes, culturas e modos de existência.

    Contudo, a história não se esgota em suas intenções originais. Há sempre algo que escapa — e é nesse desvio que novas possibilidades emergem.

    Nas frestas do sistema, em salas improvisadas, em materiais compartilhados e em perguntas que insistem em existir apesar do silêncio, a educação foi se reinventando. Não como ideal plenamente realizado, mas como prática possível, construída no cotidiano. Há nessa reinvenção uma dimensão discreta, quase invisível, mas profundamente significativa. Educadoras como Macaé Evaristo encarnam essa experiência ao demonstrar que ensinar também é escutar, reconhecer e legitimar vozes historicamente marginalizadas.

    A sala de aula brasileira, observada de perto, revela um país em sua complexidade mais concreta. Não o país das narrativas oficiais, mas aquele atravessado por desigualdades estruturais, urgências materiais e tensões permanentes. Ali convivem o estudante que trabalha antes de estudar, a professora que transforma escassez em estratégia pedagógica e conteúdos que tentam dialogar com realidades que frequentemente os excedem. A escola torna-se, assim, um microcosmo onde se refletem as contradições nacionais.

    Nesse cenário, celebrar o Dia Internacional da Educação (28 de abril) talvez seja menos um gesto comemorativo do que um exercício de lucidez. Há sempre o risco de que a educação se transforme em palavra esvaziada — reiterada em discursos institucionais, mas fragilmente sustentada na prática. Reconhecer esse risco é condição para enfrentá-lo.

    Entre as dimensões frequentemente negligenciadas, a cultural se destaca pela sua potência. Educar não é apenas transmitir conteúdos formais, mas reconhecer repertórios, estabelecer pontes entre o conhecimento sistematizado e a vida concreta. Quando a escola ignora a linguagem, a música, os territórios e as experiências dos sujeitos que a habitam, ela se torna estrangeira em seu próprio contexto. Ao contrário, quando acolhe essas dimensões, transforma-se em espaço de pertencimento e criação.

    Há também uma dimensão crítica incontornável: a pergunta sobre a quem serve a educação que temos. Longe de ser retórica, essa questão expõe as estruturas profundas do sistema educacional brasileiro. A desigualdade, nesse campo, não é um desvio ocasional, mas um traço persistente. Existem escolas que ampliam horizontes e outras que se limitam a administrar restrições — e essa diferença revela muito sobre as prioridades históricas do país.

    Ainda assim, reduzir a educação a um inventário de carências seria ignorar sua força mais silenciosa. Há uma potência no que resiste — na insistência cotidiana de professores e estudantes, na descoberta inesperada que a leitura pode proporcionar, na escola que permanece aberta apesar das adversidades. Ensinar alguém a ler, no Brasil, ultrapassa o gesto pedagógico: é um ato que toca a própria ideia de cidadania, pois implica oferecer instrumentos para compreender, questionar e, eventualmente, transformar a realidade.

    Talvez um dos equívocos mais recorrentes seja imaginar a educação como algo acabado, um sistema estável a ser aplicado de forma uniforme. Na verdade, ela é, por natureza, incompleta — um processo em permanente construção, atravessado por tensões entre expectativa e experiência, entre o que se ensina e o que, de fato, se aprende.

    Nesse sentido, educar é inevitavelmente um gesto político, não no sentido restrito das disputas partidárias, mas como formação de sujeitos capazes de pensar, interpretar e agir de maneira autônoma. E esse nunca foi um projeto consensual. Ao contrário, frequentemente encontrou resistências, explícitas ou veladas.

    O que permanece, para além das datas, é o cotidiano das escolas — com suas fragilidades estruturais e suas conquistas discretas. É ali, longe das formulações grandiosas, que a educação se realiza. E talvez seja justamente essa persistência concreta que mereça maior reconhecimento: a capacidade de produzir sentido em meio à escassez, de manter aberta — ainda que minimamente — a possibilidade de outros futuros.

    No fim, a educação brasileira não se deixa conter por celebrações. Ela exige um olhar atento, um compromisso contínuo e a disposição de confrontar aquilo que historicamente foi evitado. Porque educar, em sua essência, nunca foi apenas ensinar. Foi — e continua sendo — uma forma de disputar o mundo e de reinscrever, nele, novas possibilidades de existência.

  • É preciso refletir sobre os mais de 84 mil desaparecidos no Brasil em 2025

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Em 2025, o Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas, segundo dados consolidados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública Sinesp), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

    Mais do que um número expressivo, o dado revela um fenômeno contínuo, distribuído no tempo e no território — e, olhando com mais atenção, é difícil não se impressionar com o que isso significa na prática: ao longo de um único ano, centenas de brasileiros deixaram de ser localizados todos os dias, em histórias que vão de conflitos familiares a situações que permanecem sem explicação. O número, quando isolado, pode soar apenas como um dado estatístico; mas, quando traduzido em frequência diária,
    passa a sugerir uma rotina silenciosa de ausências que se acumulam quase imperceptivelmente.


    A leitura desses dados oficiais permite ir além da estatística bruta e traçar um perfil. Quando se observa idade, distribuição geográfica e dinâmica dos registros, começa a surgir um padrão que chama atenção: o
    desaparecimento no Brasil atinge majoritariamente pessoas jovens, aparece com mais força em áreas urbanas densas e convive com uma espécie de ciclo constante — muitos casos são resolvidos, mas uma parte deles simplesmente não chega a um desfecho claro. Esse padrão, no entanto, não deve ser visto como algo estático; ele parece refletir dinâmicas sociais mais amplas, como urbanização acelerada, desigualdades persistentes e fragilidades nas redes de proteção.

    Ao mesmo tempo, é inevitável perguntar até que ponto esses números capturam a totalidade do fenômeno. A própria existência de um sistema nacional indica avanço institucional, mas também evidencia que o problema atingiu uma escala que exige monitoramento contínuo. Nesse sentido, os dados não apenas informam — eles também sugerem a necessidade de interpretar o desaparecimento como parte de um conjunto mais amplo de vulnerabilidades sociais.

    Juventude como dado preocupante

    Um dos aspectos mais marcantes nos dados do Sinesp é a presença significativa de crianças e adolescentes entre os desaparecidos. Em 2025, esse grupo respondeu por cerca de 28% do total — 23.919 pessoas com menos de 18 anos. Colocando isso em termos mais diretos, são aproximadamente 3 em cada 10 desaparecidos. E quando se pensa no ritmo diário, o número ganha outro peso: dezenas de menores desaparecendo todos os dias ao longo de um ano inteiro.

    Esse dado, por si só, já desloca aquela ideia mais comum de que desaparecimentos estão ligados principalmente a crimes graves ou a adultos. Entre os mais jovens, o cenário parece mais difuso e, de certa forma, mais complexo: saídas voluntárias, conflitos familiares, situações de
    vulnerabilidade. Nem sempre há violência envolvida — mas ainda assim, o volume nessa faixa etária sugere fragilidades sociais que continuam se repetindo. Talvez o ponto mais inquietante seja justamente esse: não se trata de episódios isolados, mas de uma recorrência que indica padrões de ruptura em ambientes que deveriam, em tese, oferecer proteção.

    Além disso, a presença expressiva de jovens nos dados convida a refletir sobre prevenção. Se uma parcela significativa dos casos envolve dinâmicas familiares ou sociais conhecidas, até que ponto políticas públicas, escolas e redes comunitárias estão conseguindo atuar antes que o desaparecimento ocorra? A estatística, nesse caso, parece apontar não apenas para o problema em si, mas para oportunidades ainda pouco exploradas de intervenção precoce.

    Onde os desaparecimentos se concentram


    A distribuição territorial dos casos acompanha, em grande medida, o próprio mapa populacional do país. Estados mais populosos acabam concentrando os maiores números absolutos. São Paulo aparece com folga na liderança, com cerca de 20.546 casos, seguido por Minas Gerais (9.139),
    Rio Grande do Sul (7.611), Paraná (6.455) e Rio de Janeiro (6.331).

    Mas parar apenas nesses números pode dar uma impressão incompleta. Quando se olha proporcionalmente, estados menores também apresentam incidências relevantes. Isso faz pensar que o desaparecimento não é um problema isolado dos grandes centros, mas algo espalhado pelo país, assumindo características diferentes dependendo do contexto — seja
    urbano, periférico ou de fronteira. Em outras palavras, o fenômeno parece se adaptar às realidades locais, o que dificulta a formulação de respostas únicas.

    Essa leitura mais ampla reforça a ideia de que políticas uniformes podem não ser suficientes. O que explica um desaparecimento em uma metrópole densamente povoada pode ser muito diferente do que ocorre em regiões menos urbanizadas. Ainda assim, os dados nacionais colocam todos esses contextos sob o mesmo guarda-chuva, o que, embora útil para dimensionar o problema, pode esconder nuances importantes.

    Outro ponto que chama atenção é a coexistência de dois movimentos: muitos registros e, ao mesmo tempo, muitas localizações. Em 2025, mais da metade das pessoas dadas como desaparecidas — 56.688 — foi posteriormente encontrada.

    À primeira vista, esse dado pode sugerir um avanço na capacidade de resposta, com sistemas mais integrados e troca de informações entre estados. Mas ele também levanta uma dúvida importante: nem todos os casos resolvidos voltam a ser oficialmente atualizados no sistema. Isso significa que os números podem carregar distorções — tanto para mais quanto para menos — e dificultar uma leitura mais precisa da realidade. No fim, fica uma distinção que nem sempre aparece de forma clara:
    desaparecer nem sempre significa permanecer desaparecido. Muitos casos se resolvem relativamente rápido, enquanto outros se prolongam por tempo indeterminado, formando uma espécie de camada invisível dentro das estatísticas. Essa camada, embora menos visível nos dados agregados, talvez seja a que mais desafia as estruturas institucionais, justamente por concentrar os casos sem desfecho.

    O tempo como fator crítico

    Mesmo sendo majoritariamente quantitativos, os dados do Sinesp apontam para algo qualitativo que faz diferença: o tempo de resposta. Hoje, já não é mais necessário esperar 24 horas para registrar um desaparecimento, e isso muda bastante o cenário. Esse detalhe, que pode parecer simples, acaba sendo decisivo. Quanto mais rápido o registro, maiores as chances de localização. Ainda assim, essa lógica depende de algo básico, mas nem sempre garantido: que as pessoas saibam disso e tenham acesso aos canais de denúncia. Aqui, a eficácia da política pública parece depender tanto da estrutura formal quanto da circulação de informação na sociedade.

    Além disso, o fator tempo convida a uma reflexão mais ampla: em que medida a rapidez institucional consegue acompanhar a velocidade com que os desaparecimentos ocorrem? Se o registro é imediato, mas a resposta ainda enfrenta limitações operacionais, o ganho potencial pode não se concretizar plenamente.


    Um fenômeno multifacetado

    Os próprios dados oficiais não conseguem classificar de forma detalhada todas as causas dos desaparecimentos, e isso diz muito sobre a natureza do problema. Um desaparecimento pode ter origens completamente diferentes — desde uma decisão voluntária até acidentes, desorientação, conflitos ou crimes.

    Essa variedade torna tudo mais difícil de enquadrar. Diferente de outros indicadores de segurança pública, aqui não existe uma única lógica ou um único tipo de ocorrência. Cada caso pode exigir uma abordagem distinta, tanto na prevenção quanto na investigação. Essa complexidade talvez explique por que o fenômeno persiste mesmo com avanços institucionais: não há uma solução única para um problema que se apresenta de tantas formas diferentes.

    O que os números não mostram

    Se por um lado os dados do Sinesp ajudam a dimensionar o problema, por outro eles também deixam lacunas evidentes. A subnotificação ainda pode existir, especialmente em contextos mais vulneráveis. Além disso, faltam informações mais detalhadas sobre circunstâncias, perfil das pessoas desaparecidas e desfechos dos casos.
    Essas lacunas levantam uma questão importante: até que ponto compreendemos, de fato, o fenômeno que estamos medindo? A ausência de detalhes pode limitar não apenas a análise, mas também a formulação de respostas mais eficazes. Em certo sentido, o que não aparece nos dados pode ser tão relevante quanto aquilo que aparece.

    Mesmo com essas limitações, o panorama de 2025 deixa uma impressão difícil de ignorar: o desaparecimento de pessoas no Brasil está longe de ser algo pontual. É um fenômeno que se repete, em grande escala, e que afeta
    principalmente jovens em diferentes regiões do país. No fim das contas, mais do que um conjunto de números, esses mais de 84 mil registros acabam revelando algo mais profundo — uma sequência contínua de rupturas na vida de milhares de pessoas. Algumas são breves, quase
    resolvidas no silêncio do dia a dia. Outras, no entanto, permanecem em aberto, desafiando tanto as políticas públicas quanto a própria capacidade de compreender o que está por trás dessas ausências.

  • 22 de abril: o instante em que o Brasil “passa a existir” para o mundo europeu

    22 de abril: o instante em que o Brasil “passa a existir” para o mundo europeu

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Era 22 de abril de 1500 — ou, ao menos, é assim que nos habituamos a dizer, com a serenidade quase ingênua de quem domestica o passado em datas redondas e memoráveis. Naquele dia, a esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral avistou terra após semanas de travessia pelo Atlântico, movida por ventos incertos e intenções ainda em formação. As caravelas, desviadas da rota das Índias, aproximaram-se de um litoral vasto e silencioso, que mais tarde receberia o nome de Brasil. Houve registro, houve carta, houve descrição — e, sobretudo, houve nomeação. E, com esse gesto inaugural, instituiu-se o começo oficial de uma história que, paradoxalmente, já existia muito antes de ser escrita.

    Gosto de imaginar que, enquanto a bordo se alinhavam palavras e se ensaiavam interpretações, a terra, em sua inteireza, permanecia alheia àquele ímpeto classificatório. Não havia ali qualquer sensação de começo — apenas a continuidade profunda e indiferente dos ciclos. As matas persistiam densas, os rios seguiam seus cursos milenares com a obstinação tranquila de quem não conhece interrupções, e os povos que habitavam aquele espaço desconheciam por completo que estavam prestes a ser inscritos como capítulo em um livro que jamais escreveriam. Seus gestos, seus cantos, seus rituais, desenrolavam-se em temporalidades próprias, invisíveis às tentativas europeias de apreensão e sentido. Para eles, a história oficial ainda não existia — e talvez não fosse necessária, pois sua existência, plena e complexa, dispensava qualquer chancela.

    E, no entanto, naquele instante suspenso entre o horizonte e a nomeação, algo mais sutil também acontecia. Não apenas um território era avistado, mas um mundo era, pouco a pouco, traduzido — ainda que de forma imperfeita, incompleta, e por vezes equivocada. O olhar europeu, ao pousar sobre aquelas terras, não apenas via: interpretava, filtrava, ajustava o desconhecido aos contornos do já conhecido. Cada árvore descrita, cada corpo observado, cada gesto anotado carregava consigo não apenas a surpresa do encontro, mas os limites de quem observa. Era um encontro desigual desde a origem — não necessariamente em força naquele primeiro momento, mas em linguagem, em poder de registro, em capacidade de fixar memória.

    Curioso como a história, uma vez narrada, elege um ponto de partida e insiste nele com a convicção de que tudo o que veio antes não passava de preparação. O 22 de abril tornou-se esse marco conveniente: o instante em que o Brasil “passa a existir” para o mundo europeu. Mas, com o passar do tempo — e talvez com um certo desconforto que amadurece — torna-se impossível ignorar que existir para alguém não equivale a começar a existir. Trata-se de uma distinção essencial, frequentemente negligenciada, que nos convoca a revisar, com mais rigor e sensibilidade, as noções de “início” e de “descoberta”.

    Na escola, repeti o nome de Pero Vaz de Caminha com a naturalidade de quem memoriza sem suspeitar. Sua carta parecia, então, um retrato fiel, quase transparente, do que se apresentava aos olhos dos recém-chegados. Hoje, contudo, é impossível lê-la sem perceber que ali há menos um espelho e mais uma lente — estrangeira, interessada, atravessada por expectativas e estratégias. Caminha descreveu o que viu, sem dúvida; mas descreveu, sobretudo, a partir do que sabia e do que podia compreender. Cada linha, assim, oscila entre revelação e interpretação, entre registro e projeção. Ele nos mostra não apenas o que existia, mas aquilo que lhe era possível enxergar — ou aquilo que desejava comunicar. E isso altera profundamente nossa relação com o passado: estamos sempre um passo atrás, decifrando vestígios através de olhos que não são os nossos.

    Com o passar dos anos, o 22 de abril deixou de ser apenas um dado cronológico e passou a me parecer uma cena mal iluminada — visível, mas nunca inteiramente revelada. Sabemos o essencial: a chegada, o primeiro contato, a curiosidade mútua, os gestos ainda inseguros que tentavam estabelecer pontes entre mundos distintos. Mas há sempre algo que escapa, como se a narrativa oficial fosse apenas a superfície de um acontecimento muito mais denso, mais ambíguo, mais difícil de narrar em sua totalidade. Quem revisita essa data hoje percebe, quase de imediato, a multiplicidade de histórias silenciadas: as de quem já vivia ali, as de quem chegaria depois, e aquelas que se perderam no tempo, dissolvidas na ausência de registro.

    E talvez haja, nesse instante imaginado — esse primeiro vislumbre de terra — um silêncio que raramente consideramos. Um intervalo breve, quase imperceptível, entre ver e interpretar. Um momento em que tudo ainda era possível, em que o futuro não estava completamente traçado. Mas esse intervalo foi rapidamente preenchido: pela palavra, pelo registro, pela vontade de nomear e, ao nomear, estabelecer domínio. A história, ali, começou a se fixar — ainda que de forma parcial, ainda que atravessada por ausências.

    O Brasil que emergiu desse encontro — se é que podemos falar em emergência — não nasceu pronto. Foi sendo tecido lentamente, entre aproximações e rupturas, entre imposições e resistências, entre adaptações silenciosas e conflitos explícitos. Herdamos muito daquele instante, mas não apenas dele. Herdamos também seus descompassos, seus silêncios, suas lacunas. Cada cidade erguida, cada estrada aberta, cada rio navegado carrega ecos daqueles primeiros contatos — memórias não escritas que, ainda assim, moldaram identidades, tradições e tensões que persistem.

    Talvez por isso o 22 de abril jamais me pareça uma data plenamente resolvida. Há nele algo de inacabado, como uma frase interrompida antes de alcançar seu sentido final. Ao mesmo tempo em que delimita um acontecimento histórico preciso, abre um campo de interrogações que permanecem vivas. Descoberta para quem? Início de quê? E, sobretudo, a que custo? Essas perguntas ultrapassam o campo acadêmico — elas tocam o modo como compreendemos nossa cultura, nossas instituições, nossas relações mais íntimas com o outro e com o território.

    Enquanto isso, o cotidiano segue seu curso indiferente. Compromissos se acumulam, alguém se atrasa, o mundo gira com sua pressa habitual. E é justamente nesse contraste — entre a gravidade do passado e a banalidade do presente — que a história encontra uma forma persistente de existir. Ela se infiltra nos detalhes, nos gestos repetidos, nos rituais quase automáticos, nas palavras que herdamos, nas músicas que entoamos, e até nos silêncios que aprendemos a respeitar.

    No fim, o 22 de abril talvez diga menos sobre o que ocorreu em 1500 e mais sobre o que fazemos, hoje, com aquilo que nos foi legado. E isso, ao contrário das datas, não se encerra no calendário. Vive nesse exercício contínuo — imperfeito, por vezes desconfortável — de olhar para trás sem abdicar do movimento adiante. Um exercício de consciência: reconhecer que a história não se conclui, que o passado nos acompanha em cada escolha, e que a descoberta, afinal, é permanente — não apenas de territórios, mas de nós mesmos.

  • Tiradentes: o Mártir que ainda nos observa e as inquietações de um Brasil inacabado

    Tiradentes: o Mártir que ainda nos observa e as inquietações de um Brasil inacabado

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há datas que não se impõem pelo alarde, mas pela persistência silenciosa com que atravessam os séculos e se insinuam na consciência coletiva. O 21 de abril pertence a essa estirpe discreta. Não chega ornado de euforia, tampouco se anuncia com a grandiloquência de outras celebrações; antes, aproxima-se como uma lembrança antiga, dessas que dispensam explicações e, justamente por isso, nos desarmam. Talvez resida aí sua força: provocar um estado raro de escuta interior, como se algo longínquo — e ainda não inteiramente resolvido — insistisse em encontrar voz no presente.

    Não é, porém, a narrativa oficial que desperta essa inquietação. Aquela versão ordenada, ensinada com a nitidez dos fatos bem alinhados, pouco alcança o que verdadeiramente nos perturba. O que emerge, em seu lugar, é uma indagação mais resistente, menos confortável e, por isso mesmo, mais fecunda: quem foi, de fato, o homem que chamamos Tiradentes antes de ser imobilizado na estátua, antes que sua imagem se tornasse um signo e seu nome, um recurso simbólico?

    Tiradentes Esquartejado, de 1893, obra do artista Pedro Américo. Reprodução

    É quase inevitável imaginá-lo despojado de solenidade. Um homem comum, percorrendo trilhas de terra sob o sol inclemente de Minas Gerais, inserido em um mundo onde o ouro cintilava para poucos enquanto a dureza da sobrevivência se impunha à maioria. O século XVIII, tantas vezes revestido de um romantismo retrospectivo, devia ser, em sua matéria mais concreta, áspero e desigual — mais marcado pela escassez, pela vigilância e pela cobrança incessante da Coroa portuguesa do que por qualquer promessa de esplendor.

    E é precisamente nesses terrenos áridos que as ideias costumam germinar. Não nascem prontas nem majestosas, mas como pequenos incômodos que se acumulam em silêncio — um tributo excessivo, uma cobrança arbitrária, a famigerada ameaça da derrama pairando como sombra constante sobre vidas já exauridas. Nesse cenário, a atuação de Tiradentes ganha densidade histórica: não como a de um estrategista refinado, mas como a de um difusor inquieto de ideias, alguém que, ao entrar em contato com os ventos do Iluminismo e com as notícias das transformações que agitavam o mundo atlântico, ousou traduzir essas abstrações em linguagem acessível, quase cotidiana.

    A Inconfidência Mineira, vista de perto, talvez se revele menos como uma conspiração heroica e mais como um murmúrio coletivo que, pouco a pouco, cresceu além do limite do tolerável. Não era apenas um levante contra impostos, mas a expressão embrionária de um desejo de autonomia — difuso, imperfeito, mas decisivo. Nesse contexto, Joaquim José da Silva Xavier emerge como uma figura singular: não o mais erudito entre os conjurados, tampouco o mais prudente, mas talvez aquele em quem a chama da ideia se fez mais visível, mais indomável.

    Diz-se que falava em demasia. Essa característica, tantas vezes tratada como falha, talvez seja justamente aquilo que o torna mais próximo de nós. Em uma sociedade marcada pela contenção e pelo cálculo, sua verborragia adquire contornos de gesto político — não necessariamente deliberado, mas profundamente revelador. É fácil admirar a prudência dos estrategistas; mais difícil é compreender aquele que se expõe, que ultrapassa o cálculo em nome de uma convicção que transborda. Talvez lhe faltasse medida. Ou talvez lhe sobrasse algo raro: a incapacidade de se calar diante do que julgava intolerável.

    Quando o movimento ruiu — como frequentemente acontece quando o ideal colide com o peso da realidade —, o medo desempenhou seu papel habitual. Reorganizou alianças, impôs recuos, produziu silêncios. Alguns se retraíram, outros buscaram proteção onde puderam. Tiradentes, no entanto, permaneceu. Se por escolha deliberada ou por circunstâncias inevitáveis, não é possível afirmar com precisão. Mas há, nesse gesto — ainda que ambíguo —, algo de decisivo: uma permanência que, aos olhos do poder, se converteria em culpa exemplar.

    Sua execução, em 1792, não foi apenas um desfecho, mas uma encenação cuidadosamente arquitetada. O poder colonial, zeloso de sua autoridade, compreendia que a punição precisava ultrapassar o corpo e atingir o imaginário. E, ainda assim, por mais meticulosa que seja a repressão, sempre subsiste algo que escapa ao seu controle — uma memória residual, um significado imprevisto, uma possibilidade de reinterpretação. Ao tentar silenciar um homem, acabou-se por inaugurar um símbolo.

    Curiosamente, Tiradentes não se converteu de imediato na figura que hoje reconhecemos. Sua transfiguração exigiu tempo — e, sobretudo, conveniência histórica. Com a Proclamação da República, emergiu a necessidade de um personagem que encarnasse ruptura, sacrifício e coragem. E ali estava ele, disponível para ser reinventado. Acrescentaram-lhe traços quase messiânicos, uma iconografia que evocava outras tradições, um silêncio digno que o afastava de suas contradições humanas. Tornaram-no, enfim, um emblema — e, ao fazê-lo, inscreveram-no definitivamente na narrativa nacional como precursor de uma liberdade que ele próprio jamais testemunhou.

    Mas todo emblema, ao mesmo tempo em que revela, também oculta.

    Por trás da imagem consolidada, persiste o homem imperfeito — alguém que provavelmente hesitou, que conheceu o medo, que talvez não tenha compreendido plenamente a dimensão de seus próprios atos. Um homem que não testemunhou vitórias, que não colheu frutos, que permaneceu, em muitos sentidos, inacabado. E é justamente essa incompletude que o aproxima de nós de forma mais perturbadora e, paradoxalmente, mais verdadeira.

    O 21 de abril parece habitar esse intervalo delicado entre o vivido e o narrado, entre o fato bruto e sua reconstrução simbólica. Em cidades como Ouro Preto, é tentador imaginar que as pedras guardem mais do que a história oficial consente — que nelas sobrevivam as dúvidas, os silêncios e as conversas interrompidas que nunca foram registradas. Há ali uma memória subterrânea, resistente às simplificações e às versões definitivas.

    No fundo, talvez o que nos faz retornar a Tiradentes não seja o heroísmo em si, mas o desconforto que ele suscita. Ele não libertou o país, não assistiu à transformação que sonhava, não concluiu a história que ajudou a iniciar. E, ainda assim, permanece — não como resposta, mas como pergunta.

    E essa pergunta reverbera no presente. Seguimos cercados por pequenas inconformidades, por tensões que raramente se convertem em ação, por limites que aceitamos mais do que gostaríamos. Também nós hesitamos, recuamos, silenciamos. E, de tempos em tempos, somos atravessados por aquela inquietação persistente: o que fazer com aquilo que sabemos — ou ao menos intuímos — estar errado?

    É nesse ponto que Tiradentes deixa de ser apenas uma figura histórica e se transforma em um espelho imperfeito. Não um modelo a ser imitado, mas uma presença que insiste em lembrar que toda transformação nasce, inevitavelmente, de um desconforto que alguém se recusou a ignorar.

    Há ainda um aspecto mais sutil, quase imperceptível, nessa permanência: o modo como a memória coletiva seleciona aquilo que merece ser lembrado e aquilo que convém esquecer. Ao elevá-lo à condição de mártir, o país construiu uma narrativa que, ao mesmo tempo em que inspira, simplifica. E, nessa simplificação, corre-se o risco de perder justamente o que há de mais fértil na história: sua ambiguidade, suas tensões, sua recusa em oferecer respostas fáceis.

    Talvez o Brasil, nesse sentido, continue a reconhecer-se como um projeto inacabado não apenas por suas estruturas sociais e políticas, mas por sua dificuldade em encarar o passado sem o amparo dos símbolos prontos. Tiradentes, então, deixa de ser apenas um homem do século XVIII para se tornar um ponto de tensão permanente — entre aquilo que fomos, aquilo que afirmamos ter sido e aquilo que ainda não conseguimos nos tornar.

    O feriado passa, como todos passam. A rotina retoma seu curso, o café esfria na xícara, as horas seguem seu ritmo indiferente. Nada parece se alterar de imediato. E, no entanto, algo permanece — uma leve perturbação, quase imperceptível, como se a história se acomodasse ao nosso lado não para oferecer respostas, mas para nos manter inquietos.

    Talvez resida aí seu gesto mais honesto. Não resolver, não consolar, não concluir — apenas permanecer como uma pergunta aberta. E talvez seja justamente isso que não deveríamos nos permitir ignorar.

  • Fim da escala 6×1: cabe ao Congresso decidir entre o progresso e o atraso

    Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão solene do Congresso Nacional. Caberá ao parlamento a decisão final sobre a nova escala de trabalho. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 no Brasil tem ganhado centralidade no debate público contemporâneo por tocar em um dos pontos mais sensíveis da organização social moderna: a tensão permanente entre acumulação econômica, dignidade do trabalho e os limites biofísicos e psíquicos da vida humana. Não se trata, portanto, de uma controvérsia meramente técnica sobre organização de jornadas, mas de uma disputa de paradigmas civilizatórios, cujo desfecho depende da capacidade do Congresso Nacional de se elevar acima de pressões setoriais e compreender a profundidade histórica do tema.

    A escala 6×1 — seis dias consecutivos de trabalho para um único dia de descanso — consolidou-se, sobretudo nos setores de comércio, serviços e varejo, como uma expressão institucional de um modelo produtivo que, embora formalmente compatível com a Consolidação das Leis do Trabalho, preserva uma racionalidade econômica originada em um ciclo industrial que já não corresponde às exigências contemporâneas de produtividade qualificada, saúde mental e reorganização do tempo social. Sua permanência, nesse sentido, não é sinal de inevitabilidade econômica, mas de inércia institucional.

    A proposta de sua superação não se reduz a uma mera diminuição de jornadas, mas implica uma reconfiguração substantiva do pacto social entre capital e trabalho. É precisamente nesse ponto que se torna evidente a centralidade do Congresso Nacional, enquanto instância democrática de mediação de conflitos estruturais. Cabe-lhe arbitrar entre interesses divergentes, evitando a captura do processo legislativo por racionalidades estritamente mercantis ou por agendas ideológicas que, sob o pretexto de liberdade econômica, frequentemente operam como mecanismos de conservação de assimetrias históricas.

    Do ponto de vista da classe trabalhadora, os ganhos associados à revisão da escala 6×1 transcendem o incremento quantitativo de descanso. Diversos estudos em saúde ocupacional e economia do trabalho indicam que a redução de jornadas extensivas está associada à diminuição de quadros de exaustão crônica, burnout e adoecimentos psíquicos, ao mesmo tempo em que potencializa ganhos de produtividade por hora trabalhada. A lógica subjacente é relativamente simples, ainda que sistematicamente ignorada por setores mais conservadores do debate: não há eficiência sustentável na exaustão permanente.

    O tempo livre, nesse contexto, deixa de ser um apêndice do contrato laboral e passa a constituir dimensão essencial da cidadania substantiva. Ao ampliar-se o espaço de não-trabalho, expande-se também a capacidade dos indivíduos de participar da vida social, cultural e familiar, fortalecendo o tecido comunitário e reduzindo formas difusas de alienação social que impactam, inclusive, a estabilidade econômica de longo prazo.

    No âmbito do comércio e dos serviços, a transição para modelos mais equilibrados de jornada não deve ser interpretada como ameaça, mas como reconfiguração estratégica. A qualidade do atendimento, a estabilidade da força de trabalho e a redução da rotatividade tendem a se beneficiar de trabalhadores menos exauridos, o que impacta diretamente a experiência do consumidor e a eficiência sistêmica do setor. A produtividade contemporânea, cada vez mais, depende menos da extensão do tempo trabalhado e mais da sua qualificação.

    Para o empresariado, sobretudo aquele mais sensível a transformações estruturais, impõe-se uma leitura menos imediatista e mais estratégica do fenômeno. A história econômica é suficientemente clara ao demonstrar que ganhos sustentáveis de produtividade raramente emergem da intensificação contínua da exploração laboral, mas sim da reorganização inteligente de processos, da incorporação tecnológica e da qualificação do trabalho humano. A insistência em modelos rígidos de jornada revela, em muitos casos, uma defasagem gerencial mais do que uma necessidade econômica objetiva.

    A transição para um modelo pós-6×1, portanto, poderia ser conduzida de maneira gradual, combinando incentivos institucionais, adaptação regulatória e estímulos à inovação organizacional. Trata-se de uma mudança de arquitetura social, e não de um rompimento abrupto com a realidade produtiva.

    Entretanto, o debate encontra resistência significativa de setores políticos e econômicos que operam sob uma racionalidade profundamente ancorada em pressupostos da extrema direita contemporânea, marcada por uma defesa quase dogmática da desregulamentação e pela naturalização de assimetrias laborais como se fossem condições imutáveis da economia. Nesse campo, a crítica à ampliação de direitos trabalhistas frequentemente ultrapassa o debate técnico e assume contornos ideológicos, nos quais qualquer reorganização do tempo de trabalho é interpretada como ameaça ao próprio funcionamento do mercado, ainda que evidências empíricas sugiram o contrário.

    Paralelamente, segmentos organizados do empresariado, especialmente aqueles mais dependentes de estruturas de baixa remuneração e alta rotatividade, exercem pressão sistemática no sentido de preservar um modelo de jornada que maximize a extração de valor no curto prazo. Essa convergência entre interesses econômicos concentrados e uma racionalidade política avessa à regulação social mais robusta contribui para a manutenção de um discurso que apresenta a escala 6×1 como inevitável, quando, na realidade, ela é historicamente construída e politicamente sustentada.

    A crítica necessária a esse bloco de resistência não deve se apoiar em moralismos simplificadores, mas em uma análise estrutural: trata-se de reconhecer que a defesa intransigente do status quo pode operar como um entrave à modernização das relações de trabalho e à própria elevação da produtividade sistêmica da economia brasileira. Em um contexto global de transformação tecnológica acelerada, automação e reorganização do tempo social, a manutenção de padrões laborais rígidos tende a produzir não apenas custos sociais elevados, mas também perda de competitividade estrutural.

    Em síntese, a superação da escala 6×1 deve ser compreendida como parte de um projeto mais amplo de modernização institucional do trabalho no Brasil. O Congresso Nacional, enquanto espaço de deliberação democrática, tem a responsabilidade histórica de enfrentar essa questão com base em evidências empíricas, projeções de longo prazo e compromisso com o interesse público, e não sob a influência de pressões conjunturais ou dogmas econômicos ultrapassados.

    O verdadeiro dilema não se resume à quantidade de dias trabalhados, mas à própria concepção de sociedade que se deseja consolidar: uma sociedade subordinada à lógica da maximização imediata da produção, frequentemente defendida por setores políticos alinhados a uma visão economicista restrita, ou uma sociedade capaz de articular eficiência econômica com bem-estar humano, coesão social e desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, o debate sobre o fim da escala 6×1 é, em última instância, um debate sobre o próprio horizonte civilizatório do país.

  • 17 de abril de 1996: 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás

    Cruz marca o local do massacre em Eldorado dos Carajás, Pará. Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo ABr


    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há datas que não passam. Ficam suspensas no tempo como poeira vermelha sobre a pele — insistem, infiltram-se, recusam o esquecimento. Abril, no sul do Pará, é sempre um mês que arde. Não apenas pelo calor, nem pela terra exposta das estradas, mas pelo que ficou impregnado nela: a memória de um país que, diante do clamor por justiça, respondeu com o peso das armas.

    Trinta anos depois, o que aconteceu no Massacre de Eldorado do Carajás ainda não terminou de acontecer.

    A estrada PA-150, naquele 17 de abril de 1996, não era apenas caminho: era palco. Centenas de trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra seguiam em marcha, depois de dias de deslocamento e de espera por negociação. Estavam acampados, cansados, pressionando por desapropriações prometidas e nunca cumpridas. Não pediam mais do que aquilo que a Constituição já previa — mas, no Brasil, entre o direito escrito e o direito vivido, há sempre um abismo.

    Do outro lado, veio a Polícia Militar do Pará. Não veio para escutar. Veio para desobstruir. A ordem era liberar a estrada, custasse o que custasse. E custou. O que se seguiu não foi apenas confronto: foi uma execução que resultou em 21 mortes. Dezenas de feridos. Trabalhadores cercados, muitos sem possibilidade de fuga, atingidos à queima-roupa. Corpos caídos no asfalto e na terra, ferramentas transformadas em símbolos de impotência diante de fuzis.

    Não foi um acidente. Tampouco um descontrole momentâneo. O massacre carrega a assinatura de uma lógica antiga, quase colonial, que entende a terra como privilégio e o pobre como obstáculo. O que se viu ali não foi apenas repressão: foi uma mensagem. E mensagens, quando dadas em tiros, são sempre difíceis de apagar.

    Há relatos de feridos impedidos de receber socorro imediato, de sobreviventes perseguidos mesmo depois da dispersão, de uma violência que ultrapassou qualquer justificativa de manutenção da ordem. A estrada, que deveria ligar cidades, naquele dia separou mundos — o dos que podiam mandar e o dos que só podiam resistir.

    Há quem tente enquadrar o episódio como um ponto fora da curva. Mas a curva, no Brasil, é longa e tortuosa. Antes de Carajás, vieram outros silêncios armados; depois dele, também. O que muda são os nomes, os rostos, às vezes a geografia. A estrutura permanece — uma engrenagem que transforma reivindicação em ameaça e resistência em crime.

    Naquela tarde, a estrada ficou marcada por corpos e por algo ainda mais persistente: a evidência de que a lei nem sempre se aplica da mesma forma. Anos depois, alguns comandantes da operação foram condenados, mas a responsabilização nunca alcançou toda a cadeia de decisões que tornou possível a tragédia. A sensação de justiça incompleta permanece como uma sombra — porque justiça não é apenas punir executores, é também enfrentar as estruturas que autorizam a violência.

    Trinta anos é tempo suficiente para que uma geração inteira cresça sem ter visto o que aconteceu. E, ainda assim, herde suas consequências. Porque o massacre não se limita aos que estavam lá. Ele ecoa nas ocupações que continuam sendo tratadas como caso de polícia, nas lideranças ameaçadas, nos conflitos agrários que persistem como uma ferida aberta no mapa.

    O Brasil urbano, muitas vezes, observa tudo isso à distância, como se fosse outra realidade. Mas há um fio invisível que liga a estrada de terra aos centros asfaltados: o alimento que chega à mesa, o modelo de desenvolvimento que se escolhe sustentar, o silêncio que se aceita manter. Ignorar Carajás é, de certo modo, participar do seu esquecimento — e o esquecimento é a forma mais eficiente de repetição.

    Uma crônica, por natureza, lida com o cotidiano. Mas há cotidianos que são construídos sobre ruínas. O de muitos trabalhadores rurais no país ainda carrega o peso daquele abril. Não como lembrança distante, mas como aviso permanente. A terra continua sendo disputada não apenas com documentos, mas com coragem — e, às vezes, com sangue.

    Há também, contudo, um outro lado da memória: o da persistência. Porque, apesar de tudo, as vozes que foram silenciadas naquele dia não desapareceram completamente. Elas se espalharam. Estão nos acampamentos que resistem, nas marchas que insistem, nos nomes que continuam sendo pronunciados em assembleias e encontros. Há uma dignidade teimosa nisso — uma recusa em deixar que a história seja contada apenas pelos vencedores.

    Talvez o maior incômodo de relembrar Eldorado do Carajás seja justamente este: perceber que ele não pertence ao passado. Ele é uma pergunta que ainda não foi respondida. Que país se constrói quando a reivindicação por direitos básicos é recebida como afronta? Que futuro se desenha quando a terra — origem de tudo — permanece concentrada nas mãos de poucos?

    Trinta anos depois, o asfalto cobre parte das marcas, mas não as apaga. A poeira continua ali, invisível aos olhos apressados, mas pronta para se erguer ao menor movimento. E a memória, essa matéria indomável, segue fazendo o que sabe fazer: voltar.

    Voltar como incômodo. Como denúncia. Como lembrança de que há histórias que não podem ser encerradas enquanto não forem verdadeiramente compreendidas.

    E, talvez, como um pedido — não por piedade, mas por responsabilidade. Porque lembrar não é apenas um gesto de respeito ao passado. É uma forma de interrogar o presente.

    E, quem sabe, impedir que ele se repita.

  • Recordar Zuzu Angel 50 anos após sua morte é um ato ético

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Cinco décadas transcorreram desde o silenciamento brutal de Zuzu Angel (05 de junho de 1921 – 14 de abril de 1976), e ainda assim sua voz persiste — não como eco esmaecido, mas como um timbre agudo que rasga o tecido do tempo e se inscreve na memória moral do país. Há figuras que pertencem à história; outras, raras, pertencem à consciência. Zuzu é destas últimas: uma mulher que, convocada pela dor, recusou o destino privado do luto e converteu-o em gesto público de insurgência.

    Zuzu Angel, em 1972. Fotógrafo desconhecido, da coleção do Arquivo Nacional.

    Antes de ser símbolo, foi criadora. Sua trajetória na moda não se limitava ao ofício de vestir corpos, mas insinuava, já ali, uma forma de narrar o Brasil. Seus vestidos bordados, impregnados de cores tropicais, passarinhos e referências populares, recusavam a submissão estética aos centros europeus. Havia, em seu trabalho, um esforço de afirmação cultural — uma tentativa de dizer que a beleza brasileira não precisava de tradução nem de autorização. A delicadeza de suas peças escondia, talvez, a primeira semente de sua coragem: a disposição de afirmar-se num mundo que frequentemente exigia silêncio e conformidade.

    Mas a história, impiedosa, deslocou-a de seu campo de criação para um terreno mais áspero. O desaparecimento de seu filho, Stuart Angel, aos 25 anos, durante os anos de chumbo da ditadura militar, rompeu qualquer possibilidade de uma vida ordinária. A partir desse instante, Zuzu deixou de ser apenas estilista para tornar-se testemunha, investigadora e acusadora. Sua dor, longe de confiná-la, projetou-a para o mundo. Transformou-se em denúncia.

    Stuart não era uma vítima casual do arbítrio. Militante do movimento estudantil e integrante de organizações de resistência ao regime, tornou-se alvo direto da repressão estatal. Preso, foi submetido a torturas de uma crueldade que ultrapassa os limites do dizível — métodos que buscavam não apenas extrair informações, mas também instaurar o terror como pedagogia política. Seu assassinato por membros do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), longe de ser um excesso isolado, inscreve-se na lógica sistemática de eliminação dos dissidentes. O corpo nunca foi devolvido à família, e essa ausência material se tornou uma ferida aberta, impossível de cicatrizar.

    É nesse vazio — simultaneamente físico e simbólico — que se forja a transformação de Zuzu. A impossibilidade do luto tradicional, sem corpo, sem despedida, sem verdade oficial, impele-a a agir. Sua busca não era apenas pelo paradeiro do filho, mas pela restituição de sua humanidade, negada pela máquina repressiva. Ao exigir respostas, Zuzu confrontava não apenas indivíduos, mas uma estrutura inteira construída sobre o segredo, a mentira e a negação.

    O que singulariza sua luta não é apenas a coragem, mas a linguagem que escolheu para resistir. Zuzu não empunhou armas nem se refugiou na clandestinidade. Seu campo de batalha foi o mesmo em que antes cultivara a beleza: a moda. Em desfiles que passaram a circular internacionalmente, suas criações tornaram-se alegorias do horror. Vestidos outrora leves passaram a exibir manchas que evocavam sangue, pássaros enjaulados, figuras sombrias — metáforas visuais de um país aprisionado. Era uma estética da denúncia, um grito codificado em tecidos e linhas.

    Ao levar sua causa para o exterior, especialmente aos Estados Unidos, Zuzu compreendeu algo essencial: que a luta contra a violência de Estado exigia visibilidade internacional. Ela escreveu cartas, buscou autoridades, confrontou versões oficiais. Sua atuação, nesse sentido, antecipou práticas que hoje reconhecemos como fundamentais na defesa dos direitos humanos: a internacionalização das denúncias e a mobilização da opinião pública global. Não se tratava apenas de encontrar seu filho — era a tentativa de desvelar um sistema inteiro de repressão.

    Entretanto, a mesma visibilidade que a fortalecia também a tornava alvo. Sua morte, em 1976, num acidente automobilístico envolto em suspeitas, carrega até hoje a sombra da violência política. Não foi apenas uma tragédia individual; foi um recado. O poder autoritário, quando confrontado por vozes que recusam o esquecimento, busca não apenas silenciar, mas apagar. Ainda assim, falha. Porque há mortes que, em vez de encerrar histórias, as inauguram. Em 2025, quase meio século depois, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente Zuzu Angel como vítima da ditadura militar, gesto tardio que, embora incapaz de reparar plenamente a perda, reafirma a verdade histórica que ela própria nunca deixou de proclamar.

    Cinquenta anos depois, Zuzu Angel permanece como uma figura de inquietação. Sua memória não permite repouso confortável. Ela nos obriga a revisitar um passado que muitos prefeririam relegar ao esquecimento, e a reconhecer que a violência institucional não é uma abstração distante, mas uma possibilidade sempre latente quando a democracia se fragiliza. Sua luta, portanto, não pertence apenas ao seu tempo — ela se projeta como advertência e legado.

    Há também, em sua história, uma dimensão profundamente humana que resiste à monumentalização. Zuzu não era uma heroína forjada em mitos; era uma mãe que se recusou a aceitar a ausência sem resposta. Essa recusa, simples e radical, é talvez o núcleo de sua grandeza. Num mundo em que a dor frequentemente conduz ao silêncio, ela escolheu falar. E ao falar, abriu caminho para que outros também o fizessem.

    Seu gesto, no entanto, não foi solitário. Ele ecoou e continua a ecoar nas lutas de outras mães, de outros familiares de desaparecidos, que transformaram o sofrimento em reivindicação política. Ao fazê-lo, inscreveram suas histórias pessoais na tessitura mais ampla dos direitos humanos, convertendo a memória em instrumento de justiça. Zuzu, nesse sentido, não é apenas uma figura do passado, mas parte de uma genealogia de resistência que atravessa gerações.

    Recordar Zuzu Angel, cinquenta anos após sua morte, é mais do que um exercício de memória histórica. É um ato ético. É reconhecer que a justiça, ainda que tardia e incompleta, depende da persistência daqueles que se recusam a esquecer. É admitir que a beleza — aquela que ela um dia costurou em tecidos — pode também ser instrumento da verdade.

    E, sobretudo, é compreender que certas vidas não se encerram. Elas permanecem, como uma costura invisível que sustenta o tecido frágil da memória coletiva. Zuzu Angel, com sua coragem indomável e sua dor transformada em linguagem, continua a nos interpelar. Não como lembrança distante, mas como presença exigente — uma presença que nos pergunta, ainda hoje, o que fazemos diante da injustiça, e até onde estamos dispostos a ir para enfrentá-la.

  • 40 anos sem Simone de Beauvoir, uma interlocutora ainda incômoda do presente


    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Quarenta anos após a morte de Simone de Beauvoir (9 de janeiro de 1908 – 14 de abril de 1986), descubro que sua ausência não é propriamente um vazio — é antes um rumor contínuo, uma espécie de presença indireta que se infiltra nas conversas, nos livros, nas pequenas insurgências do cotidiano. Há autores cuja partida inaugura o silêncio; a dela, ao contrário, parece ter multiplicado vozes. E não quaisquer vozes: sobretudo aquelas que, por tanto tempo, mal podiam nomear a própria experiência. Beauvoir não foi apenas filósofa ou romancista; foi uma consciência em vigília, dessas que não se permitem o luxo do repouso. Havia nela uma recusa quase obstinada do conforto das certezas — como se pensar fosse, antes de tudo, aceitar o desconforto de não concluir.

    Ler Beauvoir hoje, digo isso como quem a reencontra mais do que a descobre, é encarar uma lucidez que não se desgasta com o tempo. Sua escrita jamais buscou neutralidade; ao contrário, ela parece ter entendido muito cedo que pensar exige assumir um lugar — e, mais ainda, expor esse lugar sem proteção. Há algo de quase físico nisso: uma escrita que não abdica da experiência, mas também não se rende a ela. Entre a vida e a ideia, entre o vivido e o conceito, Beauvoir construiu uma tensão fértil, dessas que não se resolvem — e talvez seja justamente por isso que permanecem.

    Simone de Beauvoir – “Memórias de uma menina bem comportada”. Reprodução

    É difícil evocá-la sem voltar àquele gesto inaugural que deslocou uma evidência milenar: nomear a opressão das mulheres não como destino, mas como construção. Hoje, a frase ecoa com familiaridade, quase como um axioma — mas houve um tempo em que foi ruptura. Ao afirmar que não se nasce mulher, torna-se, Beauvoir abriu uma fenda no pensamento ocidental. E certas fendas, penso eu, não pedem reparo: são por onde a luz insiste em entrar.

    Mas há um risco em fixá-la apenas nesse ponto, como se sua obra pudesse ser contida numa única formulação. Beauvoir é mais vasta, mais inquieta. Percorre romances, ensaios, memórias, diários — e em todos eles retorna à mesma pergunta, dita de modos diferentes: o que significa existir em liberdade quando o mundo, de tantas formas, nos constrange? Seus romances, frequentemente relegados a um segundo plano, me parecem laboratórios morais, espaços onde os personagens se debatem com escolhas que nunca se deixam purificar. Não há heroísmo fácil ali. Há, antes, uma ética da ambiguidade — essa zona incômoda em que toda decisão cobra um preço.

    Talvez seja essa recusa da pureza que a torne tão próxima. Beauvoir não idealiza — nem seus personagens, nem a si mesma. Em suas memórias, há hesitações expostas, contradições admitidas, zonas de sombra que não são apagadas em nome da coerência. E nisso reside uma honestidade rara: como se a verdade só pudesse emergir quando desistimos de parecer inteiros. Ela compreendeu, com uma clareza que ainda me desconcerta, que viver é negociar permanentemente com o inacabado.

    Quarenta anos se passaram, e o mundo — sim — mudou. Mas não o suficiente. As estruturas que Beauvoir analisou não desapareceram; apenas aprenderam a disfarçar-se melhor. Tornaram-se mais sutis, às vezes mais difíceis de nomear — o que, paradoxalmente, as torna mais persistentes. A liberdade que ela reivindicava segue sendo, para muitos, uma promessa adiada. Por isso, sua obra resiste a ser arquivada: não é apenas objeto de estudo, é ferramenta. Ensina a desconfiar do que se apresenta como natural, a interrogar os papéis que nos oferecem, a reivindicar — com todas as hesitações que isso implica — a autoria da própria vida.

    E há, ainda, uma dimensão que me parece menos comentada, talvez por ser menos ruidosa: a delicada relação que Beauvoir estabelece com o tempo. Em suas memórias, não há refúgio na nostalgia. O passado não é abrigo; é interrogação. Há ali uma espécie de ternura vigilante, como se olhar para trás fosse um ato de responsabilidade, não de consolo. Aquilo que fomos não nos abandona — continua a nos pedir contas. E essa consciência histórica de si, tão exigente, talvez seja uma das formas mais rigorosas de liberdade.

    Também o amor, em Beauvoir, recusa a facilidade. Longe das idealizações, ele aparece como um campo de tensão — entre autonomia e vínculo, entre desejo e risco de anulação. Amar, para ela, não é dissolver-se no outro, mas sustentar uma relação em que duas liberdades coexistam sem se destruir. É um ideal exigente, por vezes quase inatingível — e, justamente por isso, revelador. Há aí uma recusa firme de aceitar afetos moldados pela dependência ou pela dominação.

    Quando penso em sua morte, em abril de 1986 (em setembro eu completaria 10 anos de idade), não me detenho tanto na data quanto na medida que ela nos impõe: que mundo construímos desde então? Há conquistas inegáveis, marcas de um pensamento que ajudou a deslocar estruturas. Mas há também resistências que persistem, silêncios que se reinventam, retrocessos que nos lembram que nenhuma conquista é definitiva.

    Talvez o maior tributo a Beauvoir não seja a reverência — essa forma elegante de domesticar o que nos inquieta —, mas a continuidade crítica. Lê-la não é concordar, é aceitar o convite ao risco de pensar. É permitir que suas perguntas nos desloquem, que suas análises nos incomodem, que sua coragem nos atravesse — não como modelo, mas como impulso.

    Quarenta anos depois, Simone de Beauvoir permanece menos como figura do passado e mais como uma interlocutora ainda incômoda do presente. Sua voz não se apagou; mudou de lugar. Às vezes sussurra, às vezes insiste — mas sempre retorna à mesma exigência: a liberdade não é um dado. É uma tarefa. E, como ela bem sabia, uma tarefa que nunca se conclui, nunca se cumpre sozinho, nunca deixa de ser urgente.

  • Médicos alertam para os riscos à saúde de nova fábrica de celulose da CMPC

    ROSELAINE MURLIK *

    Represento um grupo de profissionais da medicina que, há alguns anos, estuda os diferentes impactos das mudanças climáticas e da poluição ambiental nos ecossistemas na saúde humana e do planeta.

    Causa preocupação o novo megaempreendimento de celulose da empresa chilena CMPC em Barra do Ribeiro (RS), próximo à capital gaúcha, cujo Estudo de Impacto Ambiental não leva em consideração inúmeros aspectos graves, inclusive à saúde humana, os quais estão relacionados, dentre outros, à liberação de toxinas no ar e na água do Guaíba – de onde provém a água para a população beber.

    A produção de celulose pode impactar a saúde humana por múltiplas vias, incluindo a emissão e o descarte de contaminantes sólidos, líquidos e gasosos e, de forma indireta, por efeitos relacionados ao estresse e à cadeia alimentar.

    Médica e indigenista Roselaine Murlik durante audiência na Câmara Municipal de Porto Alegre. Foto: Ramiro Sanchez/JÁ

    Análises Técnicas entregues à FEPAM

    No dia 14 de fevereiro de 2026, juntamente com outros 10 documentos técnicos, produzidos por outros órgãos, entregamos à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM) uma análise que avalia os potenciais riscos à saúde advindos da instalação e atividade do projeto da pretensa fábrica de celulose.

    Consideramos que há falhas metodológicas e omissões no EIA-RIMA apresentado para licenciamento do Projeto Natureza da CMPC. As críticas não são apenas sobre os impactos ambientais físicos, mas também sobre a insuficiência dos estudos apresentados pela empresa para mitigar riscos sociais e biológicos.

    Em resumo, as críticas podem ser categorizadas nos seguintes eixos principais:

    • Riscos à Saúde Humana: não há avaliação do impacto à saúde das populações vizinhas, tanto pela poluição do ar quanto da água.

    • Qualidade da Água e Efluentes: temos questionamentos sobre a avaliação de efluentes líquidos e como esses impactos foram projetados no EIA-RIMA da CMPC.

    • Impactos sobre Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais: a dimensão antropológica e o impacto sobre o modo de vida dessas populações não foram devidamente dimensionados.

    • Biodiversidade e Fauna: temos questionamentos específicos sobre a fauna vertebrada, sugerindo que o projeto pode ameaçar a fauna local.

    • Impacto no bioma Pampa: o projeto afeta diretamente o Pampa, um bioma com vegetação campestre singular e alta biodiversidade, muitas vezes subestimada em grandes empreendimentos.

    Especialistas de diversas áreas entregaram à Fepam analises técnicas do EIA-RIMA. Foto: Divulgação

    A emissão de gases e partículas é a via de impacto mais imediata, provocando aumento nos atendimentos de emergência para nebulizações, medicações injetáveis, e crises de broncoespasmo em asmáticos e com bronquite crônicas, maior demanda por medicamentos de uso contínuo (corticoides, broncodilatadores). O que pode provocar internações frequentes de crianças e idosos (grupos mais vulneráveis) por pneumonia ou insuficiência respiratória.

    De fato, os efeitos da exposição impactam com maior intensidade as crianças (pulmões em desenvolvimento, respiram mais rápido – inalam mais poluentes por kg de peso), idosos (sistema imunológico mais fraco e maior prevalência de doenças cardíacas/pulmonares prévias), asmáticos (reagem imediatamente a picos de SO2 e TRS) e gestantes (riscos de anomalias de desenvolvimento em embriões ou fetos expostos via materna).

    Por sua vez, os compostos de enxofre (TRS) geram um odor extremamente desagradável e perceptível mesmo em baixíssimas concentrações. Embora nem sempre tóxico em níveis baixos, o mau cheiro constante causa náuseas, dores de cabeça (cefaleia), insônia, estresse e ansiedade.

    A contaminação hídrica traz riscos a longo prazo, pois há substâncias persistentes e bioacumulativas. Elas podem entrar na cadeia alimentar através de peixes ou da água contaminada, sendo associadas à distúrbios endócrinos, problemas reprodutivos e aumento do risco de câncer (tabela 1).

    Muitos estudos de monitoramento ou acadêmicos realizados na região do lago Guaíba indicam que a carga tóxica aguda (que mata peixes imediatamente) desapareceu com as novas tecnologias de produção de celulose, mas persistem os riscos causados pela poluição crônica (acumulada no sedimento antigo) e os efeitos subletais (genética dos peixes).

    Estas condições demandam tratamentos de alta complexidade e alto custo (oncologia), e podem requerer monitoramento de saúde a longo prazo para populações expostas. Além disso, há aumento de demanda para o tratamento de dermatites e alergias de contato em pessoas que utilizam os corpos d’água próximos.

    Por fim, a exposição ocupacional aos riscos físicos e químicos dentro da fábrica podem resultar em acidentes com necessidade de reabilitação física e afastamentos laborais, que geram um custo social indireto à saúde pública.

    Impactos da produção de celulose na saúde humana

    ● Sistema Respiratório e Olfativo (Via Aérea) – a forma de impacto mais imediata e comum, através de picos de emissões e exposição prolongada

    ● Irritação Aguda e Crônica: Causada por Óxidos de Nitrogênio (NOx), Dióxido de Enxofre (SO2) e Material Particulado (MP). Efeito – Exacerbação de asma e outras doenças obstrutivas das vias aéreas. Em crianças e idosos, aumenta a incidência de infecções respiratórias (gripes, pneumonias) devido à inflamação constante das vias aéreas.

    ● Intoxicação e Incômodo Olfativo (TRS): Causada por Gás Sulfídrico (H2S) e Mercaptanas (cheiro de ovo podre/repolho). Efeito Físico – em baixas concentrações, causa náuseas, vômitos e dores de cabeça intensas (“cefaleia”). Pode causar irritação nos olhos (conjuntivite química); e efeito neurológico – o H2S é neurotóxico em altas concentrações. Mesmo em níveis baixos (apenas cheiro) pode causar fadiga mental e dificuldade de concentração.

    Fábricas de celulose eliminam bastante SO² e compostos orgânicos voláteis. Estes são muito irritantes e, nas vias aéreas, causam inflamações, broncoespasmo e infecções respiratórias. Principalmente, nas regiões mais próximas e nos seus trabalhadores caso não haja filtros apropriados, equipamentos de proteção e ventilação adequada do ambiente de trabalho.

    Os sulfetos de hidrogênio e partículas finas de 2,5 micrômetros ou menos (material particulado – MP) têm enorme importância como causas de doenças respiratórias. Este material particulado que as fábricas eliminam, queimando resíduos ou na secagem, entram no sangue através da respiração e inflamam brônquios e alvéolos e, em princípio, nem são percebidos, e vão se acumulando ano a ano, manifestando-se depois com doença pulmonar crônica.

    Em relação ao impacto destas substâncias na saúde humana, podemos citar as seguintes referências: um artigo brasileiro, dos mais citados, avaliou 638 trabalhadores que tiveram reconhecidos os problemas respiratórios como os principais associados à exposição ocupacional em uma fábrica de celulose². Paralelamente, há bastante material publicado internacionalmente que também comprova danos à saúde respiratória, tanto com exposição ocupacional como comunitária, provocando função pulmonar diminuída, sintomas respiratórios, asma e doença obstrutiva mesmo em pessoas que moram em até 30km destas indústrias³. Existem trabalhos suecos mais recentes do início desta década, sobre função pulmonar e mortalidade que reforçam o risco respiratório crônico em trabalhadores destas indústrias.

    Entre os riscos respiratórios entre trabalhadores, há alta exposição a irritantes como cloro, compostos de enxofre reduzido e poeira (material particulado), o que leva à disfunção pulmonar e sintomas respiratórios.

    Sabe-se que fábricas modernas controlam um pouco melhor suas emissões, mas os riscos existem inclusive às comunidades adjacentes e principalmente quando não há monitoramento constante. A vigilância epidemiológica e o monitoramento oficial são fundamentais para a captação rotineira de dados. Mas estas avaliações não se fazem com o mesmo dinamismo ou relevância que o aumento da produção dessas fábricas.

    Audiência Pública Popular em Porto Alegre discutiu os impactos da instalação de uma nova fábrica de celulose da CMPC em Barra do Ribeiro. Foto: Ramiro Sanchez/JÁ

    ● Neurotoxicidade e Doenças Orgânicas: Metais pesados (como cádmio, cromo e chumbo) liberados nos efluentes estão associados à neurotoxicidade, doenças cardíacas, doenças renais e inibição do crescimento.

    ● Sistema Digestivo e Endócrino (Via Água e Alimentos) – impacto mais silencioso e de longo prazo (crônico), ligado principalmente à ingestão de água contaminada ou consumo de peixes.

    Para a saúde humana e o ecossistema, a via dos efluentes costuma ser considerada mais perigosa a longo prazo devido à bioacumulação. Compostos Organoclorados (AOX), Dioxinas e Furanos (principalmente em fábricas mais antigas ou sem tecnologia ECF) não se dissolvem bem na água, mas fixam-se na gordura dos peixes. Ao comer o peixe, o humano ingere a toxina concentrada. São substâncias cancerígenas e disruptores endócrinos, podendo causar infertilidade, problemas na tireoide e malformações fetais. Se a captação de água da cidade for abaixo da fábrica (jusante), o tratamento de água torna-se difícil. A presença de fenois pode gerar gosto e odor ruim na água. Toxinas de algas podem causar danos graves ao fígado (hepatotoxicidade).

    ● Saúde Mental e Psicossocial (impacto Invisível) – Muitas vezes ignorado nos laudos técnicos, este é um dos maiores geradores de reclamações em comunidades vizinhas a fábricas de celulose.

    Estresse Crônico e Ansiedade ao viver sob a constante percepção de mau cheiro (“odor de celulose”) ativa mecanismos de estresse no cérebro. Isso eleva os níveis de cortisol e causa insônia, irritabilidade, depressão e sensação de impotência frente à poluição

    ● Perturbação do Sono: tanto o odor forte durante a noite (quando a dispersão atmosférica é pior devido à inversão térmica) quanto o ruído industrial (picadores de madeira, caldeiras) prejudicam o descanso, levando a problemas cardiovasculares a longo prazo.

    ● Saúde Reprodutiva: Efeitos de Disruptores Endócrinos (AOX, dioxinas – especialmente o TCDD, furanos), matéria particulada (especialmente MP 2,5), estão associados a problemas de desenvolvimento do feto, incluindo anomalias congênitas, perda da gravidez e baixo peso ao nascimento. Também estão associados a problemas de fertilidade.

    ● Câncer: Matéria Particulada fina (MP2,5) é classificada como um carcinógeno na Classe 1 pelo IARC (International Agency for Research on Cancer), associado principalmente ao câncer de pulmão e de bexiga. Dioxinas, especialmente o TCDD, e furanos são altamente tóxicos e cancerígenos comprovados (Classe 1 pelo IARC). Desreguladores endócrinos também estão associados à carcinogênese ao alterar ou mimetizar o efeito de hormônios.

    A Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer, prevê que as taxas estimadas de incidência de neoplasias para o RS estão entre as mais altas do país. Os tumores de traqueia, brônquios e pulmões têm as taxas mais elevadas do país; tumores de bexiga e tumores hematológicos (Linfoma não Hodgkin, Leucemias e Linfoma de Hodgkin) também têm risco superior à média brasileira, e a incidência de câncer em crianças e adolescentes (0 a 19 anos) no RS é de 168,11 por milhão, seguindo o padrão da região Sul, que detém as maiores taxas estimadas do Brasil para ambos os sexos.

    Os Trihalometanos são produtos do tratamento do papel para branqueamento com o uso de cloro. A reação do cloro com outros compostos presentes na água bruta no momento do tratamento resulta em subprodutos da cloração na água, como os (THM). Os trihalometanos (THM) são compostos de carbono simples que contêm halogênios. Esses incluem vários subprodutos dos processos de cloração da água (SOH – Subprodutos Orgânicos Halogenados). Entre os THMs estão o bromofórmio, o bromodiclorometano, o clorofórmio, o clorodibromometano, o clorodifluorometano, o fluorofórmio e o iodofórmio. Outros subprodutos da desinfecção incluem os ácidos monocloroacético, dicloroacético, tricloroacético e haloacetonitrilas. Esses compostos estão presentes na água potável em quantidades que variam entre microgramas e nanogramas. São produtos frequentemente encontrados nos efluentes de fábricas de celulose no processo de branqueamento que utilizam cloro.

    Após os primeiros trabalhos publicados nos anos de 1970, muitos outros estudos têm sido conduzidos para avaliar a associação entre a exposição aos SOH e diversos potenciais riscos à saúde, como alguns tipos de câncer, doenças cardiovasculares, reprodução e desenvolvimento fetal. Os dados relatados, a princípio, sugerem associação entre câncer de bexiga, cólon e reto e a ingestão de SOH6.

    A exposição à matéria particulada (MP), especialmente, também é preocupante quanto à saúde reprodutiva. Dados de diferentes países, incluindo o Brasil, mostram que a proximidade de residência com minas ou usinas de carvão estão associados à maior probabilidade de perdas gestacionais (natimortalidade), baixo peso ao nascimento e prematuridade. A associação de exposição à matéria particulada de 2,5 micrômetros (MP2,5) também está associada à pré-eclâmpsia na gravidez (aumento da pressão arterial materna).

    Estudos associando defeitos congênitos em recém-nascidos humanos e exposição materna à matéria particulada (MP2,5) mostraram associações com alguns defeitos congênitos, especialmente anomalias cardíacas congênitas, defeitos de tubo neural e fendas labiopalatinas.

    A Tabela 2 apresenta um sumário analítico de trabalhos publicados em que as evidências epidemiológicas de câncer de cólon, reto e bexiga, aborto espontâneo, natimorto, anomalias respiratórias, parto prematuro, feto pequeno para a idade gestacional, anomalias cardiovasculares, baixo peso ao nascer, anomalias no trato urinário, fenda labial e palatina, retardo do crescimento intrauterino, anomalias cromossômicas são associadas à exposição aos SOH. Nas linhas, estão os números de estudos de cada um destes efeitos relacionados com trihalometanos (THM), água clorada, bromofórmio (BF), bromodiclorometano (BDCM), clorofórmio (CF) e ácidos haloacéticos (AHA).

    Foram relacionados 135 trabalhos científicos, realizados ao longo de quase 30 anos (1981 – 2008), cujas pesquisas evidenciaram que os SOH, principalmente quando o cloro é utilizado, estão associados à ocorrência e a efeitos adversos à saúde (mutagênicos, carcinogênicos e teratogênicos).

    O coletivo “ Medicina em Alerta” aponta as seguintes preocupações com o Projeto Natureza:

    ● No Volume 2, TOMO III – Diagnóstico Ambiental – Meio Socioeconômico do Relatório Técnico há uma descrição do sistema de saúde de Barra do Ribeiro e demais cidades afetadas pelo empreendimento. Não há nenhuma referência sobre os impactos à saúde humana resultantes dos produtos químicos emitidos na atmosfera durante a operação, ou tampouco daqueles presentes nos efluentes, nem dos impactos a longo prazo causados pela bioacumulação progressiva de dioxinas e furanos em animais e seres humanos – no ser humano, a meia-vida das dioxinas é estimada entre 7 a 11 anos.

    ● A análise dos sistemas de saúde na cidade do empreendimento e na maioria das cidades vizinhas evidencia a escassez de leitos hospitalares ou de atendimento de urgências. A demanda aumentada não ocorre apenas por grandes acidentes, mas frequentemente pelo aumento crônico da demanda por tratamento de doenças respiratórias, cardiovasculares e dermatológicas nas comunidades próximas às fábricas e naquelas mais distantes que estarão nas rotas dos ventos predominantes para a dispersão de poluentes. A sobrecarga no sistema de saúde é preocupante, sabendo-se da insuficiência das estruturas que existem na região para atender a demanda atual de doenças crônico-degenerativas e situações agudas de maior complexidade.

    ● Em relação às neoplasias, o Plano de Ação Estadual de Oncologia Triênio 2024-2026, da Secretaria de Saúde estadual, aponta nós críticos na rede de assistência ao paciente oncológico, e cita a necessidade de ampliação dessa assistência. Não há referência ao aumento de casos de neoplasias decorrentes da instalação da fábrica.

    ● O Volume 3 – Avaliação de Impactos Ambientais, Prognóstico Ambiental e Conclusões, apresenta como medidas mitigatórias para o aumento da população instalar hospitais de campanha ou unidades móveis de saúde para aumentar a capacidade de atendimento temporariamente e parcerias com hospitais privados para utilizar leitos disponíveis em caso de necessidade, garantindo atendimento rápido e eficiente, além de estabelecer um Programa de Mitigação de Interferência Urbana que prevê, abordar assuntos como saúde, higiene e segurança no Programa de Educação Ambiental junto à comunidade para situações agudas de acidentes. Tais medidas não parecem suficientes para atender as novas necessidades de saúde – condições agudas que demandam serviços de emergência, e tratamento de doenças crônico-degenerativas, entre elas neoplasias, que requerem estruturação de serviços de maior complexidade.

    ● Já há uma fábrica de celulose em Guaíba; os efeitos do incremento à poluição já lançada pela atual fábrica não estão descritos. Não há também referência à necessidade de estabelecimento de um Plano de Vigilância em Saúde Ambiental para monitoramento dos efeitos da poluição na população exposta. Este é outro impacto na rede de atenção à saúde não dimensionado. Diante de tantas evidências dos impactos da indústria de celulose sobre a saúde humana que não foram contempladas na documentação apresentada para estabelecimento do Projeto, propomos que seja incluída na EIA-RIMA uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS).

    Segundo a Organização Mundial de Saúde, a Avaliação de Impacto à Saúde é uma metodologia que engloba a identificação, predição e avaliação das esperadas mudanças nos riscos (podendo ser tanto negativas como positivas, individual ou coletivas), causadas por uma política, um programa, um plano ou projetos de desenvolvimento em uma população definida.

    A inclusão de uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS) é um complemento necessário neste projeto porque o licenciamento ambiental padrão (o EIA/RIMA) frequentemente deixa lacunas críticas sobre a saúde humana: Enquanto o EIA foca em “o que sai da chaminé” (se a emissão cumpre a lei), a AIS foca em “quem respira a fumaça” (se as pessoas vão adoecer, mesmo com a emissão dentro da lei).

    A legislação ambiental define limites de emissão, mas uma fábrica pode estar 100% legal e, ainda assim, causar danos à saúde. Os limites legais muitas vezes são médias generalistas que não consideram a sinergia entre poluentes (o “coquetel químico”) ou as condições climáticas locais (como a inversão térmica no inverno do RS, que prende a poluição no nível do solo). A AIS avalia o risco biológico real, não apenas a burocracia do número.

    O odor crônico (TRS) não é somente um “cheiro ruim” – gera estresse, ansiedade, insônia e náuseas. A saúde, pela definição da OMS, é o “completo bem-estar físico, mental e social”, não apenas a ausência de doença. A AIS quantifica esse impacto na qualidade de vida e saúde mental da comunidade vizinha.

    Além disso, o licenciamento ambiental trata a população como homogênea. Uma concentração de material particulado (MP2,5) que não afeta um adulto saudável pode ser gatilho para crise de asma em uma criança ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica em um idoso. A AIS identifica quem vive na direção do vento (pluma de dispersão). Se houver escolas, hospitais ou bairros de baixa renda (que já têm saúde precária) nessa zona, a fábrica precisa propor medidas de proteção extras.

    A Avaliação de Impacto à Saúde atua como uma ferramenta preventiva e de transparência fundamental, pois conecta os dados técnicos de engenharia — como emissões atmosféricas e efluentes líquidos — diretamente aos desfechos na vida humana, permitindo identificar riscos invisíveis no licenciamento ambiental comum.

    Ao simular cenários de exposição, a AIS obriga o empreendedor a adotar as Melhores Tecnologias Disponíveis” (BAT) para reduzir a carga tóxica como a substituição do cloro no branqueamento antes mesmo da construção, garantindo uma operação menos poluente. Simultaneamente, ela traduz a complexidade química em informações acessíveis sobre morbidade e qualidade de vida, empoderando a comunidade local para que participe das audiências públicas não apenas com base no medo ou na promessa de empregos, mas com conhecimento científico claro para negociar contrapartidas, exigir monitoramento contínuo e decidir sobre a aceitabilidade do projeto com autonomia real.

    * Assinam este documento pelo coletivo Medicina em Alerta

    Helena Barreto dos Santos, Médica Internista CREMERS- 18044,

    Lavínia Schüler Faccini, Médica Geneticista – CREMERS 13.269,

    Roberto Targa Ferreira, Médico Pneumologista, CREMERS 10887,

    Suzane Cerutti Kummer – Médica Pediatra CREMERS 18226,

    Rafaela Brugalli Zandavalli, Médica de Família e Comunidade, CREMERS 43067,

    Olga Garcia Falceto, Psiquiatra da Infância e Adolescência – CREMERS 5446,

    Elisabeth Susana Wartchow – Médica de Família e Comunidade CREMERS 11767,

    Enrique Falceto de Barros – Médico de Família e Comunidade – CREMERS 31955,

    Anna Cláudia Dilda, – Médica de Família e Comunidade – CREMERS 47020,

    Alexandre Bublitz, Médico Pediatra – CREMERS 38807,

    Soraya Malafaia Colares, Médica Pediatra – CREMERS 14372,

    Bianca Machado da Cruz, Mëdica Emergencista – CREMERS 43515,

    Paulo Zambrano Wageck, Médico Ortopedista e Traumatologista – CREMERS 26250,

    Mayara Floss, Médica de Família e Comunidade – CRMSC 24848, e

    Roselaine Murlik – Médica de Família e Comunidade – CREMERS 26629.

  • 13 de abril: Queriam transformar o Hino Nacional em grito de guerra, mas ele insiste em ser canto de paz

    13 de abril: Queriam transformar o Hino Nacional em grito de guerra, mas ele insiste em ser canto de paz

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    No calendário das datas cívicas, o 13 de abril passa quase em silêncio, como um acorde sustentado que poucos escutam até o fim. Não há fogos, não há desfiles grandiosos, não há a coreografia ensaiada das celebrações que se impõem ao olhar. Há, antes, uma espécie de pausa — um intervalo discreto em que repousa a memória de uma música que atravessou o tempo como um rio paciente, desses que contornam pedras sem jamais deixar de seguir. É o Dia Nacional do Hino Brasileiro, e há algo de profundamente simbólico nessa discrição: celebramos um canto que nasceu para unir, mas que hoje, tantas vezes, ecoa como território em disputa.

    Antes de ser grito de multidão, o hino foi sussurro de criação. Em 1831, quando o Brasil ainda tateava sua própria identidade como quem aprende a reconhecer o próprio rosto no espelho, Francisco Manuel da Silva compôs uma melodia para retratar um país em formação — instável, grandioso, cheio de promessas e contradições. Décadas depois, as palavras de Joaquim Osório Duque Estrada vieram como uma segunda camada de sentido, vestindo a música com imagens de bravura, natureza e destino. Não era apenas uma canção: era uma tentativa — talvez impossível, talvez necessária — de dizer, em som e verso, o que significava existir como povo.

    E, no entanto, nosso hino nunca foi simples. Há nele uma grandiosidade que beira o excesso, como se cada palavra precisasse erguer uma estátua, como se cada verso carregasse a responsabilidade de eternizar uma ideia de pátria. “Margens plácidas”, “brado retumbante”, “lábaro estrelado” — o Brasil ali é mais horizonte do que chão, mais promessa do que realidade. Talvez seja justamente por isso que ele persista: porque não descreve o que somos, mas insiste, teimosamente, no que ainda poderíamos ser.

    Mas toda beleza, quando deslocada, corre o risco de endurecer.

    Nos tempos recentes, o hino tem sido capturado por vozes que já não querem cantar — querem delimitar. Ele surge em manifestações carregadas de tensão, entoado não como convite, mas como exigência. Canta-se para marcar território, para distinguir quem pertence e quem deve ser colocado à margem. Quem não canta, suspeito é; quem hesita, já se torna alvo. E assim, aquilo que nasceu como ponte vai sendo lentamente erguido como muro, pedra sobre pedra, nota sobre nota, até que o som já não acolhe — apenas separa.

    Há uma violência sutil nesse processo, quase invisível para quem não se detém a escutar com atenção. Não se trata da destruição do símbolo, mas de sua torção. O hino permanece reconhecível, intacto em sua melodia, mas deslocado em seu sentido mais profundo. A música que deveria abraçar passa a excluir. O canto coletivo se transforma em coro disciplinado, rígido, onde não há espaço para variações, apenas para repetição.

    E talvez o mais trágico seja que esse processo empobrece não apenas o debate político, mas a própria experiência cultural. Reduzir o hino a instrumento ideológico é como transformar poesia em palavra de ordem: perde-se a ambiguidade, o mistério, a abertura que permite múltiplas leituras. O que antes era interpretação vira obediência. O que antes era emoção compartilhada se converte em teste de fidelidade.

    Ainda assim, o hino resiste — e talvez resista justamente por não caber inteiro em nenhuma tentativa de controle.

    Resiste nas escolas onde crianças tropeçam nas palavras difíceis e ainda assim seguem cantando, inventando sentidos próprios. Resiste nos momentos em que alguém, sozinho, escuta sua melodia e sente algo que não sabe nomear — uma mistura de pertencimento e estranhamento, de orgulho e dúvida, de proximidade e distância. Resiste porque não pertence a quem grita mais alto, mas a quem ainda é capaz de escutar o que há de humano por trás das notas.

    Porque o hino, no fundo, nunca foi sobre unanimidade. Foi — e talvez ainda seja — sobre convivência. Sobre a difícil tarefa de existir junto, apesar das diferenças, apesar das discordâncias, apesar das fissuras que insistem em atravessar o tecido social. Ele não exige concordância plena; exige presença. Não impõe uma única voz; pressupõe um coro imperfeito, feito de contrastes.

    Neste 13 de abril, celebrar o Hino Nacional talvez seja justamente recusá-lo como instrumento de imposição. É devolvê-lo ao seu estado mais frágil — e, por isso mesmo, mais poderoso: o de canto. Um canto que não apaga conflitos, mas também não os transforma em trincheiras. Um canto que não define quem é mais brasileiro, mas pergunta, com delicadeza e inquietação, o que significa ser.

    E talvez, no fim, seja essa a verdadeira subversão: cantar sem ódio em tempos repletos de gritos, ouvir sem medo em meio ao ruído, reconhecer no outro não um inimigo, mas uma voz possível dentro do mesmo coro incompleto.

    Porque o hino pode até ser apropriado por alguns por um tempo — mas nunca será totalmente possuído. Ele escapa pelas brechas, ressoa nos lugares inesperados, reaparece onde menos se espera. Ele se reinventa na escuta de quem ainda acredita que o país não é propriedade, mas construção.

    E, apesar de tudo — das disputas, dos ruídos, das tentativas de captura — ele permanece.

    Não como ordem.
    Não como prova.
    Mas como canto.