Por Cristiano Goldschmidt
Vivemos uma época paradoxal. Nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil compreender a complexidade do mundo. A velocidade das redes sociais, a fragmentação dos debates públicos e a transformação de questões históricas em slogans instantâneos produziram um ambiente em que opiniões circulam com enorme facilidade, enquanto a reflexão profunda se torna cada vez mais rara. Nesse contexto, o documentário emerge não apenas como um gênero cinematográfico, mas como um instrumento de investigação intelectual e de reconstrução da complexidade perdida.
É precisamente nesse horizonte que se inscrevem os documentários Vai pra Cuba, Eduardo! (2024), Vai pra Argentina, Carajo! (2025) e Vai pra China, Eduardo! (2026). Produzidos pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), os três filmes constituem um projeto documental singular no audiovisual brasileiro contemporâneo. Concebida a partir de uma ideia original de Eduardo Moreira, a trilogia combina jornalismo investigativo, análise histórica e observação de campo, tendo o próprio Moreira como principal condutor das entrevistas, das viagens e das investigações realizadas em cada país.
A direção da série revela igualmente uma preocupação com o rigor narrativo e a pluralidade de perspectivas. Os documentários Vai pra Cuba, Eduardo! e Vai pra China, Eduardo! foram dirigidos por Juliana Baroni, enquanto Vai pra Argentina, Carajo! contou com direção compartilhada entre Baroni e o jornalista e documentarista argentino Fabián Restivo. No caso de Vai pra China, Eduardo!, merece destaque ainda a dimensão internacional da produção. O documentário foi realizado em coprodução com o China Media Group (CMG), o maior conglomerado estatal de comunicação da China, responsável por veículos de enorme alcance e relevância, como a CCTV e a CGTN. Essa colaboração confere ao projeto uma amplitude rara, permitindo acesso a informações, contextos e experiências que dificilmente poderiam ser alcançados por uma produção estrangeira convencional.
A relevância desses documentários não reside apenas nos temas que abordam. Sua contribuição mais importante talvez seja de natureza epistemológica. Em uma época marcada pela polarização, eles recuperam algo que deveria ser fundamental em qualquer sociedade democrática: a disposição para compreender antes de julgar.
O primeiro filme, Vai pra Cuba, Eduardo!, realiza uma tarefa particularmente necessária. Durante décadas, Cuba foi transformada em símbolo. Para alguns, tornou-se a representação de uma experiência revolucionária de resistência ao poder norte-americano. Para outros, converteu-se em exemplo definitivo do fracasso do socialismo. Em ambos os casos, a realidade concreta frequentemente desaparece sob o peso das disputas ideológicas.
O documentário procura romper esse mecanismo. Ao apresentar entrevistas, registros locais e aspectos da vida cotidiana da ilha, a obra desloca a discussão do terreno abstrato para o terreno humano. A questão central deixa de ser quem venceu o debate ideológico e passa a ser como vivem as pessoas submetidas a circunstâncias históricas específicas.
Particularmente relevante é a atenção dedicada aos embargos internacionais e às suas consequências. Independentemente das posições políticas que cada espectador possa adotar, é impossível compreender a experiência cubana sem considerar o impacto das restrições econômicas impostas ao país ao longo de décadas. O mérito do documentário está justamente em inserir esse elemento no debate sem transformá-lo em explicação única para todos os problemas da ilha. O resultado é um retrato mais complexo e, por isso mesmo, mais honesto.
Há também uma dimensão ética importante nessa abordagem. Ao invés de tratar Cuba como um conceito ou um experimento geopolítico, o filme devolve protagonismo aos cubanos. Essa escolha parece simples, mas representa uma contribuição significativa para a qualidade do debate público. Afinal, nenhuma análise séria sobre uma sociedade pode prescindir das vozes daqueles que a habitam.
Se o documentário sobre Cuba convida o espectador a refletir sobre os efeitos históricos do isolamento econômico, Vai pra Argentina, Carajo! desloca a atenção para uma experiência política contemporânea cujos desdobramentos seguem mobilizando intensos debates dentro e fora da América Latina: o governo de Javier Milei e sua agenda de reformas econômicas radicais.
A Argentina ocupa uma posição singular na história da região. Poucos países experimentaram de forma tão intensa ciclos alternados de crescimento, crise, expectativas de recuperação e sucessivas frustrações. Nesse contexto, a ascensão de Milei ao poder representou a promessa de uma ruptura profunda com modelos anteriores de gestão econômica. O documentário, entretanto, opta por examinar menos as promessas e mais os efeitos concretos dessa transformação na vida cotidiana da população.
A participação de Fabián Restivo na direção acrescenta uma dimensão particularmente relevante à obra. Como jornalista e documentarista argentino, sua presença contribui para uma leitura mais próxima das tensões sociais e econômicas vividas no país, conferindo densidade local a uma investigação que busca compreender os impactos reais das políticas implementadas pelo governo.
Diferentemente de análises centradas em indicadores macroeconômicos ou discursos oficiais, Vai pra Argentina, Carajo! volta seu olhar para as ruas, para os trabalhadores, para os aposentados, para os pequenos comerciantes e para aqueles que experimentam diretamente as consequências das mudanças em curso. O resultado é um retrato frequentemente duro e inquietante da realidade argentina contemporânea.

Ao longo do documentário, a escalada do custo de vida aparece como um dos elementos centrais da narrativa. O aumento dos preços, a corrosão do poder de compra e a crescente dificuldade de acesso a bens e serviços básicos são apresentados não como abstrações estatísticas, mas como experiências concretas que afetam milhões de pessoas. A inflação deixa de ser apenas um dado econômico e passa a ser percebida como uma força capaz de remodelar rotinas, expectativas e projetos de vida.
A obra dedica especial atenção aos efeitos sociais decorrentes da política de austeridade adotada pelo governo. Os severos cortes de gastos públicos são analisados a partir de suas repercussões práticas sobre serviços, programas de assistência e condições de vida da população mais vulnerável. Nesse sentido, o documentário estabelece uma crítica consistente à ideia de que ajustes econômicos podem ser avaliados exclusivamente por indicadores fiscais, ignorando seus impactos humanos.
Particularmente marcante é a forma como o filme registra o crescimento da população em situação de rua e a ampliação dos sinais visíveis de precarização social. As imagens e depoimentos reunidos ao longo da narrativa funcionam como um contraponto poderoso aos discursos que apresentam as reformas apenas sob a ótica da eficiência econômica. O documentário sugere que qualquer avaliação séria de um projeto político precisa considerar não apenas seus objetivos declarados, mas também seus custos sociais.
Essa abordagem confere à obra um caráter claramente crítico em relação ao governo Milei. Contudo, sua força não reside na simples denúncia ou na oposição partidária. O que torna o documentário relevante é sua capacidade de conectar decisões econômicas abstratas às experiências concretas das pessoas afetadas por elas. Em vez de permanecer restrita ao plano ideológico, a crítica ganha substância ao ser construída por meio de testemunhos, observações de campo e evidências da vida cotidiana.
Ao fazer esse movimento, Vai pra Argentina, Carajo! contribui para uma discussão mais ampla sobre os limites da austeridade, os significados do desenvolvimento econômico e as responsabilidades sociais do Estado. Mais do que um filme sobre a Argentina contemporânea, a obra se transforma em uma reflexão sobre os custos humanos das escolhas econômicas e sobre a necessidade de avaliar projetos políticos não apenas por seus resultados financeiros, mas também por seus efeitos sobre a dignidade e as condições de vida da população.
Nesse sentido, o documentário amplia significativamente o debate público. Sua contribuição não está em oferecer respostas definitivas, mas em recolocar no centro da discussão uma pergunta fundamental que frequentemente desaparece dos diagnósticos econômicos: para quem, afinal, servem as políticas econômicas e quais vidas são transformadas por elas?
Já Vai pra China, Eduardo! enfrenta talvez um dos desafios intelectuais mais ambiciosos da trilogia. Falar sobre a China contemporânea significa abordar uma das experiências históricas mais extraordinárias dos últimos séculos.
Em poucas décadas, o país realizou uma transformação econômica de proporções gigantescas, retirando centenas de milhões de pessoas da pobreza e convertendo-se em uma das principais potências tecnológicas do planeta. Ao mesmo tempo, essa ascensão levanta questões complexas sobre governança, vigilância digital, inteligência artificial, inovação e o futuro das relações internacionais.
O documentário demonstra acerto ao concentrar parte de sua atenção no desenvolvimento tecnológico chinês. Em muitos aspectos, compreender a China contemporânea significa compreender como tecnologia, planejamento estratégico e investimento em pesquisa passaram a desempenhar papel central na competição global.
A coprodução com o China Media Group revela-se especialmente significativa nesse contexto. Mais do que uma parceria institucional, ela simboliza uma tentativa concreta de construir pontes de compreensão entre universos culturais frequentemente separados por estereótipos, desconfianças e narrativas simplificadoras. O acesso proporcionado por essa colaboração fortalece o caráter investigativo da obra e amplia sua capacidade de oferecer um retrato mais abrangente da realidade chinesa.
A discussão sobre inteligência artificial adquire relevância especial. Trata-se de um dos temas mais importantes do século XXI, capaz de influenciar mercados de trabalho, sistemas educacionais, estruturas produtivas e até mesmo concepções de liberdade individual. Ao investigar a maneira como a China se posiciona nesse campo, o filme oferece ao público uma oportunidade de refletir sobre desafios que ultrapassam fronteiras nacionais.
Há, ainda, uma contribuição particularmente importante: o documentário ajuda a combater visões caricaturais sobre a sociedade chinesa. Durante muito tempo, boa parte do debate ocidental oscilou entre a admiração acrítica e a desconfiança absoluta. Nenhuma dessas posturas favorece a compreensão. Conhecer uma sociedade exige observar suas contradições, suas conquistas e seus dilemas.
Nesse sentido, a obra amplia horizontes intelectuais e incentiva um olhar mais sofisticado sobre o cenário internacional.
Considerados em conjunto, os três documentários revelam uma característica rara: a disposição para atravessar fronteiras geográficas e ideológicas sem abandonar o compromisso com a investigação. Cuba, Argentina e China são apresentadas não como símbolos destinados a confirmar crenças prévias, mas como realidades complexas que desafiam interpretações simplistas.
Essa escolha possui enorme valor cultural. Em um período histórico marcado pela formação de bolhas informacionais, iniciativas que promovem contato direto com diferentes experiências nacionais desempenham função quase pedagógica. Elas estimulam a curiosidade, ampliam repertórios e fortalecem a capacidade crítica dos espectadores.
Também merece destaque a arquitetura coletiva do projeto. A ideia original concebida por Eduardo Moreira, sua presença permanente como entrevistador e investigador de campo, a direção cuidadosa de Juliana Baroni, a contribuição de Fabián Restivo no capítulo argentino e o trabalho de produção do Instituto Conhecimento Liberta demonstram como o documentário pode funcionar como uma verdadeira construção colaborativa de conhecimento.
Democracias saudáveis dependem de cidadãos capazes de analisar informações, confrontar argumentos e compreender contextos. Documentários que incentivam esse exercício contribuem para a formação de uma esfera pública mais qualificada.
Não se trata de concordar integralmente com todas as conclusões sugeridas pelas obras. O verdadeiro mérito de um documentário relevante não está em eliminar o debate, mas em enriquecê-lo. Sua função não é fornecer verdades definitivas, e sim oferecer elementos que permitam interpretações mais informadas.
Talvez seja justamente essa a principal contribuição da trilogia. Em vez de reforçar certezas confortáveis, ela convida o espectador a realizar uma viagem intelectual. Cuba, Argentina e China aparecem como espelhos através dos quais podemos refletir não apenas sobre esses países, mas também sobre nossas próprias concepções de desenvolvimento, liberdade, justiça social, tecnologia e poder.
Num mundo saturado de opiniões instantâneas, essa disposição para investigar, escutar e compreender constitui um gesto de rara importância. E é exatamente por isso que esses documentários merecem atenção. Não apenas pelo que mostram, mas pelo tipo de olhar que ajudam a construir: um olhar mais atento à complexidade humana e menos disposto a aceitar explicações simplificadoras para os grandes desafios do nosso tempo. Ao reunir investigação jornalística, experiência de campo, cooperação internacional e reflexão crítica, a trilogia produzida pelo ICL consolida-se como uma das iniciativas documentais mais relevantes do período recente, contribuindo de maneira efetiva para ampliar o horizonte das discussões públicas sobre política, economia, sociedade e desenvolvimento no século XXI.
