Por Cristiano Goldschmidt
Toda sociedade produz narrativas sobre si mesma. Algumas são preservadas pela literatura, outras pela música, pela pintura, pelo teatro ou pela tradição oral. Desde o final do século XIX, porém, poucas formas de expressão se mostraram tão poderosas quanto o cinema. A capacidade de reunir imagem, som, emoção, memória e imaginação transformou essa arte em uma das mais influentes ferramentas de construção da identidade cultural dos povos. No Brasil, não foi diferente. Celebrado em 19 de junho, o Dia do Cinema Brasileiro oferece uma oportunidade para refletir sobre uma manifestação artística que, muito além do entretenimento, ajudou a registrar transformações sociais, interpretar conflitos, preservar memórias e construir formas de compreensão sobre o país e sua gente.
A data remete a 19 de junho de 1898, quando o ítalo-brasileiro Affonso Segreto realizou imagens da Baía de Guanabara durante a chegada de um navio ao Rio de Janeiro. Considerado um dos marcos inaugurais da cinematografia nacional, aquele registro ocorreu poucos anos após os irmãos Lumière apresentarem ao mundo a invenção que revolucionaria para sempre a maneira de contar histórias. Naturalmente, ninguém poderia imaginar naquele momento a dimensão cultural que o cinema alcançaria ao longo do século seguinte.

A trajetória do cinema brasileiro jamais foi linear. Diferentemente de países que consolidaram cedo grandes indústrias cinematográficas, o Brasil desenvolveu sua produção em meio a dificuldades econômicas, limitações técnicas, instabilidades políticas e um mercado historicamente dominado por obras estrangeiras. Ainda assim, construiu uma identidade própria, marcada pela diversidade de olhares e pela permanente tentativa de compreender a realidade nacional.
Talvez essa seja sua característica mais marcante. Enquanto parte significativa da indústria audiovisual mundial se organiza em torno de fórmulas capazes de circular com facilidade pelos mercados globais, o cinema brasileiro frequentemente voltou sua atenção para dentro de casa. Ao longo das décadas, suas câmeras percorreram sertões, favelas, metrópoles, comunidades indígenas, áreas rurais, periferias urbanas, florestas e pequenas cidades do interior. Registraram desigualdades, esperanças, conflitos políticos, dramas familiares, expressões religiosas, manifestações culturais e as inúmeras contradições que compõem a experiência brasileira.
Não se trata apenas de representar paisagens ou costumes. O cinema brasileiro, em seus momentos mais relevantes, procurou interpretar o país. Seus melhores filmes não se limitaram a mostrar o Brasil; buscaram compreender suas tensões, suas feridas abertas, seus processos históricos e seus dilemas sociais. Em uma nação marcada por profundas desigualdades e enorme diversidade cultural, essa tarefa nunca foi simples.

Essa vocação tornou-se especialmente evidente a partir da década de 1950 e alcançou grande projeção nos anos 1960 com o surgimento do Cinema Novo. O movimento transformou a linguagem cinematográfica nacional e conquistou reconhecimento internacional ao defender um cinema autoral, crítico e comprometido com a realidade brasileira.
Entre seus principais representantes destacou-se Glauber Rocha, cuja obra permanece como uma das mais influentes da história do cinema latino-americano. Seu famoso lema, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, sintetizava a crença de que a criatividade poderia superar limitações econômicas e técnicas. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967) apresentaram ao mundo um Brasil distante dos estereótipos exóticos frequentemente reproduzidos no exterior.
Ao lado de Glauber, nomes como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Leon Hirszman e Cacá Diegues ajudaram a consolidar uma cinematografia capaz de dialogar com os grandes debates artísticos do século XX sem renunciar a suas especificidades nacionais. Seus trabalhos revelaram personagens, paisagens e conflitos que raramente encontravam espaço nas produções estrangeiras consumidas pelo público brasileiro.

Mas reduzir o cinema brasileiro ao Cinema Novo seria ignorar sua extraordinária diversidade. Ao lado das produções politicamente engajadas floresceram documentários, dramas urbanos, adaptações literárias, comédias populares, animações e experiências estéticas das mais variadas. Essa pluralidade talvez seja uma de suas maiores riquezas. Afinal, um país de dimensões continentais dificilmente poderia ser representado por uma única linguagem ou por uma única visão de mundo.
Ao longo de sua história, porém, produzir cinema no Brasil significou enfrentar desafios permanentes. A atividade audiovisual exige investimentos elevados, infraestrutura complexa e mecanismos eficientes de distribuição. Sem apoio institucional, torna-se extremamente difícil competir em um mercado global dominado por conglomerados internacionais que movimentam bilhões de dólares anualmente.
Foi nesse contexto que a Embrafilme desempenhou papel fundamental durante boa parte do século XX. Criada em 1969, a empresa estatal atuou no financiamento, na distribuição e na promoção do cinema brasileiro. Embora estivesse longe de ser consensual e tenha sido alvo de críticas, sua existência contribuiu para garantir uma produção contínua e criar condições mínimas para o desenvolvimento do setor.
O fechamento da Embrafilme, em 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello, marcou um dos momentos mais difíceis da história do audiovisual brasileiro. Sem mecanismos adequados de substituição, a produção praticamente entrou em colapso. Longas-metragens deixaram de ser realizados, projetos foram abandonados e muitos profissionais precisaram interromper carreiras construídas ao longo de décadas.
A crise revelou algo frequentemente ignorado nos debates públicos: cinema não é apenas arte. Cinema também é trabalho, indústria e atividade econômica. Por trás de cada filme existe uma extensa cadeia produtiva que envolve roteiristas, diretores, atores, figurinistas, fotógrafos, técnicos de som, montadores, cenógrafos, profissionais de transporte, alimentação, hospedagem, comunicação e inúmeros outros trabalhadores.
A recuperação começou apenas na segunda metade dos anos 1990, período conhecido como Retomada do Cinema Brasileiro. Novos mecanismos de incentivo permitiram o ressurgimento da produção nacional. Obras como Carlota Joaquina (1995), de Carla Camurati, demonstraram que ainda havia espaço para o cinema brasileiro dialogar com o público. Pouco depois, Central do Brasil (1998), de Walter Salles, emocionaria espectadores em diferentes continentes e mostraria que histórias profundamente brasileiras podiam alcançar dimensão universal.
Nas décadas seguintes, o audiovisual brasileiro ampliou sua diversidade temática e estética. Novos polos de produção surgiram fora do eixo Rio-São Paulo, documentários conquistaram projeção inédita, produções independentes ganharam relevância e diferentes grupos sociais passaram a ocupar espaços historicamente restritos dentro da indústria cultural.
Entretanto, os desafios permaneceram. A sustentabilidade do setor continuou fortemente ligada à existência de políticas públicas de incentivo. Não por privilégio, mas porque praticamente todos os países que possuem cinematografias fortes adotam algum tipo de mecanismo de proteção e financiamento para suas produções nacionais.
Essa discussão voltou ao centro do debate durante o governo de Jair Bolsonaro. O período foi marcado por conflitos entre o governo federal e setores da cultura, incluindo o audiovisual. Houve ataques a profissionais, disseminação de informações falsas sobre políticas culturais, atrasos na liberação de recursos, paralisação de editais e um ambiente de insegurança institucional que afetou diversos projetos.
A partir de 2023, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciou-se um processo de reconstrução das políticas voltadas ao setor cultural. A retomada de investimentos, a reativação de mecanismos de fomento e a recomposição institucional da área contribuíram para renovar as perspectivas do audiovisual brasileiro.
Os resultados começaram a aparecer não apenas no aumento da produção, mas também na visibilidade internacional das obras nacionais. Um dos exemplos mais significativos é Ainda Estou Aqui (2024), dirigido por Walter Salles e baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva. Ao narrar a trajetória de Eunice Paiva após o desaparecimento de seu marido durante a ditadura militar, o filme demonstrou como experiências profundamente brasileiras podem alcançar ressonância universal ao tratar de temas como memória, luto, resistência e justiça.
Outro exemplo é O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, que utiliza o suspense político para refletir sobre vigilância, autoritarismo e repressão durante os anos mais duros do regime militar. A recepção positiva dessas produções em festivais e premiações internacionais evidencia a vitalidade criativa do cinema brasileiro contemporâneo.
Esse reconhecimento vai muito além do prestígio simbólico. Festivais e premiações ampliam mercados, fortalecem coproduções, atraem investimentos e ajudam a projetar uma imagem mais complexa e plural do Brasil para o restante do mundo.
Mas talvez a contribuição mais importante do cinema brasileiro esteja em outro lugar. Em uma época marcada pela circulação acelerada de conteúdos globais e pela crescente padronização de narrativas, produzir filmes nacionais significa preservar a capacidade de contar nossas próprias histórias. Nenhum país é capaz de representar o Brasil com a mesma profundidade que os próprios brasileiros.
Quando um filme retrata um sertão esquecido, uma comunidade ribeirinha, uma periferia urbana, uma pequena cidade do interior ou uma família comum enfrentando seus desafios cotidianos, ele está fazendo mais do que entretenimento. Está registrando experiências humanas que ajudam a construir memória coletiva. Está preservando modos de vida, sotaques, valores, conflitos e formas de compreender o mundo.
O cinema é também uma disputa de narrativas. Quem conta as histórias de um povo ajuda a definir como esse povo será visto pelos outros e por si mesmo. Por isso, investir em cinema significa investir em soberania cultural. Significa garantir que o país continue produzindo imagens capazes de refletir sua complexidade e sua diversidade.
Ao observar a história do cinema brasileiro, percebe-se que ela guarda muitas semelhanças com a própria história nacional: períodos de entusiasmo e crise, avanços e retrocessos, conquistas e desafios. Ainda assim, permanece uma impressionante capacidade de reinvenção. Celebrar o Dia do Cinema Brasileiro é, portanto, celebrar muito mais do que filmes. É reconhecer uma arte que ajuda o país a compreender a si mesmo. É valorizar uma atividade que produz cultura, movimenta a economia, gera empregos e preserva memórias. É defender a capacidade de um povo de contar sua própria história. Afinal, toda nação que produz suas próprias imagens produz também uma compreensão mais profunda de quem é, de onde veio e do futuro que deseja construir.
