Dilma abre proposta de consulta popular

PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff em pouco tempo deverá ser a última estrela de primeira grandeza do firmamento nacional que não foi tragada pelo buraco negro da Operação Lava Jato. Com isto, acrescenta-se uma nova possibilidade para seu retorno à chefia do executivo.
Os últimos acontecimentos que estão envolvendo os grandes caciques do PMDB que foram, na última eleição, fatores decisivos para a vitória da presidente no Norte-Nordeste, expõem os últimos redutos da conspiração que levou Michel Temer ao poder.
Ainda vão aparecer outros nomes. Estes vindos de todos os lados, desde a esquerda partidária até a direta fisiológica. Parte deles já presos e condenados, deixam à presidente como a estrela solitária, uma vez que nada substantivo apareceu envolvendo sua pessoa física.
Pedir apoio não é crime. Mais legal ainda quando o captador apresenta-se dentro da lei vigente. Seria este o caso apontado nos vazamentos da delação de Marcelo Odebrecht.
O jovem empresário baiano teria dito que a candidata Dilma pediu-lhe certa quantia para financiar sua campanha eleitoral.
O fato em si revela apenas o ativismo da candidata, principalmente se os valores solicitados estivessem dentro dos limites estabelecidos pelo TSE para os níveis de resultado da empresa abordada, o que, de resto, não diz respeito à captadora, mas ao doador, que deve saber até quanto pode ir.
A distorção que se aponta na Lava Jato é que esses valores captados tiveram uma parcela desviada para contas pessoais dos acusados no exterior, não declaradas nem tributadas.
Este é o crime criminoso a que depois os promotores penduraram uma série de agravantes decorrentes, como sua origem e seu destino.
Definitivamente: essa acusação é de fato anterior à data da posse.
Daí a importância do bordão brandido por Dilma afirmando não ter contas no exterior. Não têm por onde pegá-la. Se sua chapa for cassada, não será por improbidade pessoal da candidata, mas pela gestão de suas contas operadas por funcionários e dirigentes partidários.
Nem isto foi comprovado nem apresentado como acusação na Lava Jato nem no processo de impeachment, por inépcia de tais denúncias.
É nesse contexto da Lava Jato que o procurador Rodrigo Janot pediu a prisão dos caciques do PMDB nordestino. Sérgio Machado, o delator, teria dito que essas pessoas seriam donas de quotas de fundos administrados por seus filhos no Exterior.
Entretanto, argumenta-se que tais fundos não estariam em nome dos acusados, depositados em confiança. Negando a titularidade, perdem-se os depósitos e se vai a garantia do fio de bigode.
Então, sendo verdadeiras as denúncias, para se verem livres as pessoas teriam de assistir impassíveis aquelas fortunas entrarem pelo ralo esvaindo-se sem dó nem piedade.
Melhor negar, se for verdade, o que não se comprova e os acusados negam de pés juntos.
Dilma está fora desta embrulhada. Diz que não sabia e com certeza ignorava tais tramoias. A esta altura, se alguém tivesse um menor indício a apresentar em sua defesa envolvendo à presidente afastada, já teria posto as cartas na mesa, tal como o delator Sérgio Machado.
Estes fatos projetam a cada dia o ausência da presidente nesses fatos que estão explodindo as lideranças de todos os matizes e implodindo o sistema partidário da Nova República.
Na entrevista a Luís Nassif, que foi ao ar quinta-feira pela TV Brasil, a presidente afastada põe na mesa uma proposta de profunda reforma política. Isto saiu numa frase curta, mas que ainda está retumbando em Brasília.
Nesta entrevista aparece uma Dilma segura e cordata. Analisa as causas da derrocada que levou à crise econômica com segurança acadêmica. Apresenta o processo político como uma manobra exitosa do PMDB para tomar-lhe o poder, valendo-se do enfraquecimento de suas bases parlamentares.
Citou poucos adversários, destacando-se seu arqui-inimigo, o presidente da Câmara Eduardo Cunha. Também emitiu palavras duras a seus adversários nas duas eleições, José Serra e Aécio Neves, e queixas ferozes contra os caciques paulistas, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, o presidente interino.
Na formulação política, defende o presidencialismo como melhor modelo político para liderar as reformas. Disse que isto é comprovado pela História, pois ao longo de todo o período republicano o executivo sempre foi mais avançado que o legislativo.
Ela diz que os presidentes chegam ao poder com proposta concretas, enquanto os congressos se perdem diluídos por interesses variados, impossíveis de serem conciliados para grandes consensos.
Ela não se referiu a nenhuma grande reforma, mas deixou implícito de que foram os presidentes que sempre estiveram à frente dos grandes passos à frente no Brasil.
Com isto ela chegou a um apelo às urnas. Não deixou claro, mas deu a entender que poderia ser um plebiscito, uma constituinte, algum outro mecanismo originário de uma consulta popular que produzisse os efeitos necessários à reorganização institucional do País.
Neste caso, sua legitimidade como chefe do executivo seria essencial para arbitrar e conduzir o processo eleitoral nessa consulta.
Dilma não mencionou os embates no Senado Federal em torno do impeachment.
Ali se produz um confronto de personalidades jogando numa mesa de cartas marcadas.
Transmitidos ao vivo pela televisão, os debates empacaram num diálogo de surdos. Cada lado parece ter uma agenda própria, no caso a exposição de futuros candidatos aos governos estaduais em 2018.
A bancada legalista apresenta seus nomes: Lindemberg Farias, Vanessa Grazziotin, Gleise Hoffmann, Telmário Motta, Humberto Costa, Fátima Bezerra; na bancada golpista despontam Aloysio Nunes Ferreira, Ronaldo Caiado, Simone Tebet, Ana Amélia de Lemos, Antônio Anastasia.
Nessa arena parlamentar, também se pode esperar novos momentos. Em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, assume o primeiro vice-presidente, senador Jorge Viana, do PT do Acre.
Caracterizado como um parlamentar sereno nos momentos em que assume o comando do plenário da Câmara Alta, Jorge Viana, em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, poderá ser a antítese de seu par da Câmara dos Deputados, o vice-presidente em exercício Waldyr Maranhão. Este manipulou o regimento e usou seu poder para atropelar o andamento da Comissão de Ética que julga o comportamento do presidente afastado Eduardo Cunha.
O respeitado senador acreano poderá fazer cumprir estritamente o regimento interno da Casa e os preceitos da Constituição e do Código de Processo Penal apagando o motor da patrola da bancada golpista majoritária, dando as garantias para os reclamos da bancada legalista, impugnando manobras e procedimentos da mesa da comissão do impeachment.
Uma varredura dessa tramitação poderia levar o processo à extinção por falta de provas e de objeto.

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