JOSÉ MANOEL FERREIRA GONÇALVES/ O resgate de Engenharia

O resgate da Engenharia como motor do crescimento em 2022

José Manoel Ferreira Gonçalves*

O ano que começa será emblemático para a democracia e o desenvolvimento econômico e social. Teremos a mais importante eleição de todos os tempos da nossa República, e as discussões sobre o modelo de país que desejamos para os próximos anos já estão acaloradas.

A Engenharia não pode se eximir desse debate. Ela precisa ocupar seu papel, não apenas protocolar, mas participando e formulando propostas de políticas públicas de efetivas mudanças.

Um exercício não menos importante nesse quadro é desvendar as inúmeras falácias que o atual governo tentará disseminar, a fim de iludir o eleitor. Vejamos, a título de ilustração do que está por vir na corrida presidencial, a proposta orçamentária encaminhada pelo Executivo para apreciação do Congresso referente aos valores destinados ao investimento em ciência e tecnologia. Nominalmente, está previsto um aumento de 138% para as despesas com o financiamento de bolsas, projetos e infraestrutura de pesquisa. O que mereceria aplausos, no entanto, é apenas uma cortina de fumaça para iludir a sociedade.

Isso porque o orçamento para pesquisa no Brasil sofreu nos últimos anos seguidos cortes. Mesmo com esse reajuste anunciado, estamos longe de atingirmos o mínimo necessário para sustentar o trabalho científico que um dia já foi responsável por elevar o nome da tecnologia brasileira mundo afora. O desenvolvimento tecnológico está completamente desamparado do incentivo do Estado. O mesmo estado de penúria e abandono pode ser observado em outras áreas estratégicas – a defesa do meio ambiente, por exemplo, é tratada como algo irrelevante, provocando espanto na comunidade internacional e enxovalhando a imagem do Brasil entre potenciais investidores globais.

A via crucis da pesquisa no governo Bolsonaro é apenas um retrato do quanto regredimos nos últimos anos. É preciso dar um basta nesse cenário de profundo retrocesso. Devemos reagir de forma contendente contra as trevas em que a Engenharia – tanto quanto outras notórias atividades que outrora nos enchiam de orgulho e contribuíam para a grandeza da nação – se embrenhou.

Precisamos iniciar um trabalho de resgate do papel da Engenharia no contexto nacional. A oportunidade está posta. Os ventos de 2022 já estão soprando a favor da mudança. Depois de um longo período sem investimentos, é hora de uma nova atitude, que nos permita alavancar a retomada da economia pós- pandemia, no novo contexto da democracia, consolidado nas urnas.

O Brasil que desejamos não pode ser o da gestão simplista, míope e acomodada, que entrega as ferrovias à iniciativa privada por décadas, sem um projeto de integração nacional por meio dos trilhos, que pudesse conectar a mais ampla diversidade de produtos aos centros de consumo, e ainda conseguisse resgatar o transporte de passageiros sobre trilhos. Não pode ser a nação agrária, exportadora de comodities, com ferrovias escoando unicamente soja, milho, açúcar e minério de ferro pelos nossos portos. Não pode ser o país onde prevaleçam os interesses do lucro e da especulação predatória.

A Engenharia não deve ficar a reboque desse processo de colônia dos novos tempos de escravidão. Temos capacidade para projetar e executar uma missão muito mais nobre, com criatividade, ousadia e coragem. Queremos (e temos a capacidade para tanto) estabelecer novos polos de desenvolvimento e pesquisa de materiais e métodos construtivos.

Entendo que nossas diversas áreas da Engenharia estão prontas para esse resgate, mas precisam dizer isso à nação. Sem medo, acreditando em nosso potencial e exigindo investimentos robustos em ciência, tecnologia e inovação.

É uma missão que devemos abraçar para o bem de nossa gente e para o mundo, nesse 2022 que se aproxima.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro e presidente da FerroFrente (Frente Nacional pela volta das Ferrovias), da Associação Guarujá Viva (Aguaviva) e do PDT em Guarujá, São Paulo; é também diretor da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados (CNTU)

P.C. DE LESTER: Jornalismo de soluções desmascara o vilão do centro

Pois não é que descobriram o vilão que transformou o centro de Porto Alegre num acampamento de refugiados?

Quem diria, um plano tão bem intencionado, feito por pessoas tão competentes, aprovado na Câmara, com audiências públicas e, agora revela-se: traiu a confianca de todos.

Pois é,  foi ele. Está la “em GZH” : o Plano Diretor de Desenvolvimento Ambiental  é o  culpado pela decadência do centro da “capital dos gaúchos”.

Pelo que se deduz, ele é que levou o Mercado Público à situação em que está, caindo aos pedaços.

Ele levou o Viaduto  Otávio Rocha aquela situação decrépita (nos últimos 15 anos, o que se fez ali foi tirar os miseráveis que dormiam embaixo e tentar apagar as mensagens dos pichadores).

A usina do Gasômetro está há 5 anos fechada, para reforma? Com esse Plano Diretor não poderia ser de outra forma.

As calçadas estão esburacadas, prédios tombados no abandono? Pudera, o Plano Diretor não deixa construir edifícios de mais de 18 andares no Centro!. Os camelôs tomaram conta do centro? Também, com esse Plano Diretor!

Felizmente, o jornalismo de resultados denuncia o vilão e  nos traz uma boa notícia. O prefeito Sebastião Melo já está tomando providências: vai fatiar o vilão!

O centro será um paraiso para os investimentos imobiliários e, com isso, todos os problemas se revolverão.

 

 

JOSÉ LUTZENBERGER / A COP e a releitura de “A Alternativa Fatal”

O início da 26 Conferência do Clima (COP26) em Glasgow, torna muito oportuna a releitura de um clássico. “Dois Caminhos/A Alternativa Fatal”, traz o resumo de um texto publicado originalmente na segunda metade dos anos 70 e reproduzido no livro Sinfonia Inacabada, da jornalista Lilian Dreyer. Seu autor, José Antônio Kroeff Lutzenberger, o “Lutz” (1926 – 2002), não foi apenas ministro do meio ambiente, o primeiro do Brasil, ou um dos ambientalistas pioneiros e mais destacados da nação. Ele foi um visionário. À distância no tempo, fica nítida sua análise quase profética e sua crítica profunda ao sistema econômico-político e social vigente. Para quem chegar ao final do artigo, fica a pergunta: ainda conseguiremos evitar uma freada abrupta nessa autopista? Vale a reflexão!

Dois Caminhos

“A humanidade se aproxima de uma encruzilhada fatal. O caminho atual leva direto ao precipício. Muito em breve – e muito antes de alcançado o precipício – teremos perdido outras opções, agora ainda abertas. Este caminho poderia ser comparado a uma autopista para altas velocidades onde, a partir de certo ponto e após alcançada certa velocidade, as pontes ruíram após a passagem. Dali por diante não haverá volta. A queda será inevitável.

A continuação pura e simples dos processos em marcha, isto é, a extrapolação das formas de desenvolvimento hoje universalmente propostas e cegamente aceitas, fará com que aconteça exatamente o que hoje toda pessoa informada e preocupada prevê.

Não existem neste planeta recursos energéticos e materiais suficientes para um Produto Nacional Bruto (PNB) em crescimento exponencial sem fim.

Poluição da miséria

Os crentes da doutrina do PNB crescente gostam de argumentar que precisamos primeiro de produção, custe o que custar, seja qual for a forma de produção, para só depois pensar em distribuir riqueza. Este argumento é muito cômodo para eles, pois os isenta de responsabilidade por uma real justiça social, permite que apresentem, honesta ou cinicamente, a imagem da “poluição da miséria”, que só o desenvolvimento seria capaz de eliminar.

Mas esta pobreza é consequência das atuais formas de desenvolvimento. A pobreza relativa é sempre resultado de estruturas de poder. O índio, quando em sua estrutura tribal intacta, em ambiente intacto, em seu idioma original nem a palavra “problema” conhece.

São ainda muito poucos os que já compreenderam, e a polarização ideológica convencional impede muitas vezes que se compreenda, o fato de que as atuais estruturas tecnológicas são esquemas de exercício de poder.

As tecnologias que as grandes burocracias empresariais, multinacionais ou estatais escolhem, por entre as inúmeras alternativas possíveis, são sempre aquelas tecnologias que geram poder. Estas são as tecnologias imediatistas, duras, de grave impacto ambiental e social. 

Escravidão tecnológica

Em suas fases finais, o Império Romano partiu também para uma agricultura predatória como a nossa, destruidora da produtividade futura do solo; partiu para a grande monocultura, mantida pela mão do escravo. Naquela época a escravatura era direta, o chicote disciplinava o escravo. Hoje a máquina fixa o homem na estrutura do poder e destrói o ambiente. Pouco a pouco nos tornamos todos servos das grandes burocracias. Estas alicerçam seu poder na crescente sofisticação tecnológica, na progressiva concentração do capital e na acelerada centralização do poder de decisão econômica.

Para o indivíduo emaranhado na teia, que importa uma imaginária diferença entre poder empresarial, multinacional ou estatal! As teias se entrelaçam e envolvem o globo.

O próprio movimento de luta por uma maior sanidade ambiental apenas agora começa a compreender que o desastre ambiental que hoje nos assola é aspecto inerente desse tipo de sociedade industrial e não terá solução enquanto não houver mudança de rumo tecnológico.

Tecnologia da vida

Voltemos à nossa metáfora viária. O primeiro caminho é uma autopista rígida, sem retornos, saídas ou voltas colaterais. O segundo caminho, nem sempre pavimentado, tem muitos ramais, todos em terreno diversificado e fascinante, todos com retorno sempre aberto. O primeiro caminho é o caminho duro, insensível, desligado da paisagem e do povo; o segundo é o caminho ecológico, totalmente integrado na paisagem, que sente a cada instante, da qual faz parte.

A opção branda apoia-se nas mesmas forças que vêm mantendo, há três e meio bilhões de anos, a Vida na Terra. Estas são energias permanentemente renováveis de nossa inesgotável fonte de vida: o Sol. São forças que se nos apresentam sob formas diversas: radiação solar, vento, desnível hídrico, biomassa, marés e vagas. As técnicas de aproveitamento seguem as leis da vida.

A tecnologia da vida não conhece a concentração, nem uniformização, a não ser como mera fase de transição, a equilíbrios mais complexos e disseminados. A vida é também uma permanente rebelião contra a entropia, enquanto que as tecnologias duras aceleram em toda parte a entropia. As tecnologias brandas, entretanto, freiam ou diminuem a entropia.

Tabus e dogmas

Por isso, o caminho brando parte de filosofia fundamentalmente oposta à filosofia que rege a atual Sociedade Industrial. O dogma do crescimento dá lugar à doutrina do equilíbrio sustentável e da qualidade de vida. Progresso não mais se mede com índice tão simplório, insensível e desconcertante quanto o PNB. Progresso é, então, algo muito mais complicado, que inclui, predominantemente, fatores que nada têm a ver com fluxo de dinheiro e movimentação de materiais, tais como a maior disseminação da felicidade individual, melhor integração da humanidade em seu ambiente, ambiente mais belo, mais saudável, mais rico em vida, com vida mais diversificada; mais estável e harmônica estrutura social, mais cultura, mais excelência intelectual, mais arte, recreação, intercâmbio social, mais alegria de vida.

A ênfase está toda na qualidade, não na quantidade. O que interessa é a manutenção do patrimônio real, material e espiritual, não o simples incremento do capital monetário.

O dinheiro é simples contrato anônimo, avulso e divisível, perde seu significado quando desaparecem os recursos.

Novo paradigma

Teremos então grande escolha de meios e procedimentos. Os recursos materiais não-renováveis, as matérias-primas de origem mineral, utilizados frugal e inteligentemente, serão sempre reciclados. Todos os objetos serão concebidos e fabricados de maneira que durem o máximo e que possam, após o uso final, ser reciclados. Não mais será considerado progresso o uso de uma técnica que esbanja preciosos materiais irrecuperáveis para economizar dinheiro e mão de obra.

Ao contrário do que vem acontecendo, a energia será considerada algo precioso, a ser usado com muito critério, nunca esbanjando. É inevitável, em futuro muito próximo, o aumento do custo de todas as formas de energia. Se continuarmos trilhando o caminho duro, esse aumento causará crises econômicas sempre mais graves, com as consequentes convulsões sociais, conflitos e endurecimento do despotismo. 

No caminho brando, entretanto, este encarecimento fará florescer grandes variedades de tecnologias apropriadas, precisas, eficientes no verdadeiro sentido da palavra, de tecnologias anti-entrópicas, tecnologias de baixo impacto ambiental e mesmo impacto ambiental positivo, além de promover diversidade cultural e maior justiça social.

Balanço energético

A Terra tem um fluxo limitado de energia, mas este fluxo é amplamente suficiente para o funcionamento da ecosfera e para uma vida civilizada da humanidade, não para um esbanjamento exponencial. Não tem sentido o edifício sem janelas ou janelas insuficientes, que usa iluminação elétrica dia e noite. Existem hoje edifícios que gastam, para cinco ou dez mil pessoas, mais energia ao meio-dia do que uma cidade de cem mil habitantes gastava em 1950, à noite.

Certamente não se pode dizer que aquelas cidades não eram civilizadas. E será mesmo saudável e necessário o esporte do snowmobile e o motor de popa de 70 cavalos? Quem já voou em planador sabe da fabulosa experiência que é o vôo sem motor – silencioso, sensível aos elementos. 

O barco à vela constitui atividade física e intelectualmente superior à barulhenta e brutal corrida do barco a motor. Por que, aliás, não poderiam os barcos de carga, para mercadorias que não têm muita pressa, complementar seus motores com vela? É verdade que haveria mais gente a bordo. Mas também a vida a bordo seria mais divertida! Nada mais triste que a vida a bordo de um supertanqueiro ou de um grande barco de containers, com meia dúzia apenas de homens na tripulação e que não pára mais que um dia em cada porto.

Na agricultura, partiremos para os métodos orgânicos, de produção ecologicamente sustentável, que melhoram constantemente a produtividade da paisagem agrícola, ao mesmo tempo em que a tornam mais bela e humana e invertem o êxodo rural. Mais uma vez, a adoção generalizada destes métodos, por si só , significará enorme economia de energia.

 É por poucos conhecido o fato de que os métodos agrícolas e pecuários modernos têm balanço energético negativo. Gasta-se muito mais energia nos insumos do que a energia fixada na fotossíntese da lavoura.

Tecnocracia centralizadora

No aproveitamento das energias alternativas o enfoque será outro que o atual. A tecnocracia insiste hoje na energia concentrada, centralmente manipulada e distribuída sobre imensas regiões. Nesta forma, o poder de decisão está nas mãos de poucos e o usuário aceita as condições impostas pela burocracia central, sem a mínima chance de participação nas decisões. 

Assim, a captação de energia solar em esquema mega tecnológico tem impacto ambiental tão negativo quanto às demais tecnologias duras. Continuariam as extensas linhas de alta tensão, a gigantesca concentração de capital e as grandes burocracias.

O sol nos oferece sua energia de forma difusa, amplamente distribuída. Para que reconcentrá-la e depois redistribuí-la? A captação deverá ser em nível familiar ou em pequena comunidade; captamos o sol nos tetos, que já são pequenos desertos. Desaparecem as inevitáveis perdas de transmissão, a infra-estrutura técnica é muito menor, o capital está disseminado, desaparece a burocracia da administração e está distribuído o poder de decisão. A vulnerabilidade do sistema global é quase zero.

Instrumento de dominação

Se o que se quer é água a 35 graus no banho, o chuveiro elétrico é a forma mais ineficiente de transformação de energia. Algo assim como destilar uísque para obter água potável. Mas um painel solar para aquecimento direto de água, numa técnica que está ao alcance de qualquer funileiro, resolve magnificamente o problema, especialmente em nossas latitudes. Este painel pode ser adaptado em qualquer teto, custa pouco, não conhece patente, nem royalty, dá trabalho a pequenos artesãos, incrementa a pequena e média indústria, diminui o poder das multinacionais.

Neste caso não há nem redução de PNB, mas melhor distribuição e menos impacto ambiental. Num simpósio sobre energia, quando alguém propôs que o esquema oficial de energia elétrica propagasse o painel solar de água quente para diminuir o consumo de eletricidade dos chuveiros elétricos, o dirigente deste esquema argumentou que o chubveiro elétrico custava menos de quinhentos cruzeiros, enquanto que o painel solar estava por volta dos vinte mil. Entretanto, mais adiante, no mesmo simpósio, este mesmo administrador citou, tranquilamente, trinta mil cruzeiros como o total de investimento por KW em seu esquema.

Ora, o painel que substitui o chuveiro elétrico corresponde a peĺo menos dois KW. Quer dizer que ele economiza no esquema uns sessenta mil cruzeiros. A vantagem social, portanto, é de um para três, com uma diferença importante: o equipamento de vinte mil cruzeiros é meu, está sob meu controle, os sessenta mil no esquema são deles, são controlados por eles, mas são pagos por mim, através da tarifa ou pela inflação.

Pode-se ver claramente que a concentração tecnológica é instrumento de dominação, não de eficiência produtiva e atendimento social.

Fato político

Não se pode afirmar que haja conspiração consciente. A megatecnologia não surgiu com o intuito de escravizar. Seus executivos são, muitas vezes, gente muito bem intencionada. Pessoalmente fui tecnocrata, participei da megatecnologia agroquímica, e tive a oportunidade de observar a psicologia reinante.

À medida que os esquemas mega tecnológicos se estendem, eles criam suas próprias leis, eliminam alternativas para o usuário impotente, manipulam mercados. O aspecto mais perigoso é que a megatecnologia se transforma em fato político. Ela acaba manipulando a política a seu favor, em contradição frontal à doutrina da livre iniciativa, que ela diz defender.

Inversão dos fatos

É comum o ecologista ser acusado por burocratas e tecnocratas de defender a natureza em detrimento do homem. Essa é uma cínica inversão dos fatos. O alvo fundamental de toda megatecnologia é a diminuição e, quando possível, eliminação total de mão-de-obra, isto é, afastamento do homem do processo de produção. Para manter pleno emprego argumenta-se então com a necessidade do crescimento constante do PNB.

Mas grande parte deste crescimento significa ainda mais equipamento, sempre mais sofisticado, destinado à eliminação de mão-de-obra e domínio do homem sobre o homem, em espiral sem fim.

Ao contrário do que acontece com as tecnologias duras, que hoje arrasam o planeta porque, ao resolverem um problema sempre causam uma constelação de outros, as tecnologias brandas sempre resolvem vários problemas ao mesmo tempo. Os dois caminhos, o caminho duro e o caminho brando, ainda não se separaram de todo, ainda temos à frente algumas saídas na autopista sem retorno. O que precisamos agora é frear, não brutalmente, mas suave e decididamente.”

ROBERTO AMARAL/ O atraso

Roberto Amaral

“Por que o Brasil ainda não deu certo?” perguntava-se Darcy Ribeiro, político,  antropólogo, ensaísta, conferencista e romancista, homem de grandes paixões,  certamente o mais inquieto dos pensadores  brasileiros do século passado, e, sem dúvida alguma, um dos mais profícuos e desassombrados intelectuais-militantes que já tivemos.

No seu estimulante “O povo brasileiro”, que começou a escrever no exílio do Uruguai, aquela pergunta, a cuja busca de resposta dedica sua obra madura, é formulada noutros termos, mais avançados, quando se indaga: “Por que, mais uma vez, a classe dominante nos vencia?” (referia-se à vitória do golpe de 1964).

Mas então, como se vê, a própria pergunta já trazia consigo a resposta, na indicação de nossa tragédia histórica como resultado do controle do poder por uma gente medíocre, perversa, anti-nacional, alienada e forânea.

Gente muito bem representada, aliás, pelos comensais do regabofe na mansão do especulador Naji Nahas, responsável pela quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, com o qual a casa-grande com seus procuradores (empresários, jornalistas, políticos, advogados) comemorou o acordo inter-elite que, a pretexto de afastar as ameaças de golpe iminente, anunciado no dia 7 de setembro, assegurou ao capitão Bolsonaro a inviabilização do impeachment e a impunidade de seus filhos.

Fora o que não se conhece. Como sempre, os acordos se amarram no andar de cima da hierarquia mandante para observação de todo o povo; desta vez o pacto foi traficado com militares, parlamentares e ministros do STF, tendo como costureiro e escrivão o inefável ex-presidente Michel Temer, advogado com vasta experiência nas Docas de Santos.

A classe dominante brasileira é uma das mais longevas do mundo, porque competente na preservação do mando político-econômico,  o mesmo desde a colônia, imune como se mostra a transformações sociais, políticas e econômicas.

Seu poder foi regado no escravismo e sobreviveria com a abolição e o trabalho assalariado, mediante as mais variadas formas de exploração; projeção dos interesses reinóis, sobrevive na independência, e no império transitou do domínio português para  o serviço do colonialismo britânico. Hoje é agente subalterno dos EUA.

O país  caminha do agrarismo à industrialização no século 20, da vida rural ao urbanismo; conhece insurgências de toda ordem, e em todas elas o povo é massacrado; desfaz-se da monarquia anacrônica, a última do continente, e adota a peculiar forma republicana de governo sem povo, de democracia juncada de golpes de Estado e ditaduras.

Os antagonismos se resolvem na conciliação, sob o comando da classe dominante, que não permite reformas de fato. Seu objetivo, lembrava José Honório Rodrigues, foi sempre acomodar as divergências dos grupos hegemônicos e jamais conceder benefícios ao povo, posto de lado, capado e recapado de seu papel de sujeito histórico, como escreveu Capistrano de Abreu.
O país conheceu momentos de turbulência e momentos de progresso e expansão capitalista.

Há quarenta anos convive com a estagnação econômica, de par com desindustrialização e brutal concentração de renda. O poder da casa-grande, porém, mais se fortalece.

O país exportador de açúcar e algodão, na colônia,  enriqueceu a oligarquia paulista na república com as exportações de café a preços subsidiados pelo resto do país; hoje exporta grãos e minério in natura, além de cientistas e pesquisadores, aos quais nega emprego, após investir em sua formação.

Aos trancos e barrancos, o Brasil se modernizou e hoje é uma das dez principais potências do mundo, sem haver combatido as desigualdades sociais, o que revela o projeto de sociedade que nos governa.

Em  500 anos de construção histórica, nada ameaçou a classe dominante,  impávida, insensível,  intocada, reproduzindo  o mando da velha casa-grande, na colônia e na república, o poder da terra e do capital concentrado, financeirizado,  globalizado.

Em 1930  comandou uma “revolução” que não arranharia a ordem social e econômica;  um de seus líderes, o governador mineiro Antonio Carlos de Andrada, proclamava: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”.

Modernizando o país a partir de uma ditadura (o “Estado novo”), o movimento de 1930 fortaleceu a ordem capitalista, e a “elite” econômica conservou o mando que não admite concessões à emergência de interesses nacionais ou populares.

Talvez, nesse processo histórico, estejamos próximos de encontrar explicação para o atraso da burguesia aqui vivente (e daí o atraso do país “que não dá certo”): sendo brasileira, não é nacional, pois jamais se conciliou, seja com os interesses da nação, seja com os interesses de seu povo; não tendo sido, jamais, progressista, nunca se conflitou com a aristocracia feudal, nem conheceu a menor contradição com os interesses do imperialismo, do qual desde cedo se fez sócia menor.

A contradição capital nacional versus imperialismo se resolveu numa composição de interesses.

Para essa burguesia, o povo é um incômodo e qualquer sorte de projeto nacional um anacronismo.

Essas observações me chegam com a leitura de entrevista concedida ao Estadão (16/10/2021) pelo presidente do conglomerado controlador do banco Itaú e uma série de outras empresas.

O banqueiro pede mais reforma trabalhista; não está satisfeito com os  direitos já surrupiados dos trabalhadores. Quer mais abertura econômica, mais privatizações, defende o aumento de juros, embora saiba que não sofremos de inflação de demanda.

É calorosamente contra o impeachment de Bolsonaro. Com o mesmo entusiasmo se diz eleitor de João Doria, que considera “um grande gestor público”, injustiçado pela avaliação popular.

A entrevista é longa. Nenhuma palavra lhe ocorreu, porém, sobre o desemprego, que atinge 14,7% da população ativa do país. Nada sobre a carestia que maltrata a população brasileira: a cesta básica passa de 60% do salário mínimo, e 50% da população brasileira com mais de 16 anos mora em residência cuja receita não ultrapassa um salário-mínimo.

O endividamento das pessoas representa 59,9% da renda média nacional, o pior resultado desde 2005, quando o indicador começou a ser apurado. Pelo menos 110 milhões de brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar (dados de 2020).
Nenhuma palavra sobre as mais de 603 mil vidas levadas pela pandemia.
Muitas palavras, porém,  para defender uma alternativa a Bolsonaro que não seja Lula. O sr. Alfredo Setúbal não é um ponto fora da curva, pelo contrário: suas opiniões, sua visão de mundo e de Brasil refletem o pensamento da atrasada classe dominante brasileira.

Há algumas poucas semanas, um analista da política visitou as praças do Rio de Janeiro e São Paulo para conhecer a visão do grande empresariado sobre o quadro político brasileiro e as expectativas para 2022, delineadas a partir das pesquisas de opinião, fartamente divulgadas pela imprensa.

De suas entrevistas colheu a manifesta rejeição à candidatura do ex-presidente Lula, a mesma rejeição que a grande oficialidade não cuida de disfarçar.

É essa gente desapartada do país e do povo que dita o ritmo da política e economia. É com ela, portanto, que Lula terá de sentar para discutir um pacto de governabilidade, se conseguir se eleger mais uma vez. Não será fácil; Dilma não conseguiu.

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O povo passa fome mas os bancos… Segundo o  Relatório de Estabilidade Financeira, divulgado pelo Banco Central (18.10.21), a rentabilidade dos bancos no 1º semestre deste ano retornou ao nível pré-pandemia. O lucro das instituições financeiras também cresceu. Já o Retorno sobre o Patrimônio Líquido, conhecido como ROE, chegou a 14% nos 12 meses encerrados em junho deste ano, índice mais elevado desde maio de 2020.

Ilustração da miséria – Vídeo que circula nas redes sociais mostra um grupo de pessoas catando restos de alimentos de um caminhão de lixo em Fortaleza,   em frente a um supermercado no bairro Cocó, área nobre da cidade.

 

MÁRCIA TURCATO/ Desmilitarização da Saúde

Márcia Turcato*

O general Eduardo Pazuello deixou de herança para seu sucessor no Ministério da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga, mais de 301 mil covas e muitas outras que ainda serão abertas no vácuo de sua desqualificada atuação.

Queiroga assumiu afirmando que recebeu carta branca do chefe. E parece que recebeu mesmo. Em 24 horas ele retirou dos postos chaves da pasta os militares de alta patente e baixa competência que estavam lá e convocou o médico e professor da USP Carlos Carvalho para coordenar a Secretaria Extraordinária Covid-19. Carvalho é publicamente contra o tratamento precoce defendido por Bolsonaro.

Até meados de março de 2021, morreram mais de 301 mil brasileiros por covid-19. Em 23 anos, de 1996 até 2019, a aids vitimou 281.156 pessoas. E esse é um agravo para o qual praticamente não existiu tratamento durante uma década e que até hoje não há vacina para prevenir a doença. Tal como o covid-19, a aids também surgiu repentinamente, era uma doença desconhecida, se espalhou pelo mundo e o contágio é pessoa a pessoa.

A aids iniciou com uma taxa de mortalidade de 6,2 em cada grupo de 100 mil e caiu para 5/100 mil em 2019. A pandemia de covid-19 está com uma taxa de letalidade de 142,1 por 100 mil e um índice de transmissão de 1,23. Isso significa que um grupo de 100 pessoas contaminadas pode transmitir a doença para outras 123. Para a situação ser considerada razoável, no caso da pandemia, a taxa de transmissão deve ser inferior a 1,0. Só mais dois exemplos para contextualizar: de 1996 até 2020, a influenza (H1N1) matou 15.543 pessoas e a febre amarela vitimou cerca de 700.

Esses três agravos à saúde foram enfrentados e controlados por campanhas de esclarecimento à população, parceria com organismos internacionais, uma política nacional de saúde e vacinas, no caso da influenza e da febre amarela, que impediram os óbitos e o surgimento de casos graves. E, principalmente, em todos esses cenários, o país vivia sob um estado democrático de fato, sem burlas institucionais e sem a militarização de suas esferas civis.

Nesse largo período de 24 anos, o Ministério da Saúde teve gestores de muito sucesso em sua missão, como José Serra, cuja administração foi modelo internacional no enfrentamento da aids e também foi ele quem implementou a vacinação contra influenza; Alexandre Padilha, que criou o Programa Mais Médicos, que deu uma resposta rápida para a falta de serviços de saúde no interior do Brasil e em áreas de difícil acesso; Arthur Chioro e Marcelo Castro que criaram ações unificadas e uma ampla mobilização nacional para o enfrentamento do zika vírus, causador de microcefalia e outras sequelas graves em bebês, e também enfrentaram um grave surto de febre amarela com campanhas de esclarecimento e, no caso da febre amarela, vacinação massiva. Encerrando a lista, Luiz Henrique Mandetta, já sob a maquilagem democrática do governo Bolsonaro, que adotou medidas sanitárias não farmacológicas para enfrentar o covid-19 mas foi de encontro ao obscuro pensamento de seu chefe e abandonou a gestão.

Com a saída de Mandetta, assumiu o Ministério da Saúde por 29 dias o médico Nelson Teich. Depois dele, o general Eduardo Pazuello ficou no cargo por 11 meses. Não fez nada. Omisso, sem conhecer a área, foi negligente com a saúde da população. Sob sua gestão, não foi realizada nenhuma campanha de esclarecimento, liderou uma guerra fria com São Paulo porque o estado fez a defesa da vacina contra o covid-19, deixou os hospitais do Amazonas sem ar, não articulou uma ação nacional com os estados, tal como o chefe, defendeu o uso de uma medicação para vermes como tratamento precoce contra o covid-19, comprou a briga do chefe contra a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a imprensa. Saiu com 301 mil pessoas mortas, quase todas enquanto esteve à frente do Ministério da Saúde nesses 11 fatídicos meses. Pazuello, o coveiro da Nação.

Pode ser otimismo meu, ou desejo, mas parece que Bolsonaro dá sinais de que sentiu um golpe. Afrouxar as rédeas do Ministério da Saúde foi a primeira concessão, agora também é possível que ele demita o ministro das Relações Exteriores e também o seu assessor de assuntos internacionais, filmado fazendo o gesto da supremacia branca em audiência no Senado. Ou, no mínimo, fazendo um gesto obsceno. Ao mesmo tempo, o presidente da Câmara, forte aliado até ontem, mandou um recado ao Planalto ao dizer que o sinal amarelo foi ligado. O timer está ligado, entramos em contagem regressiva.

*Jornalista com 20 anos de experiência em Comunicação de Risco em Saúde e Enfrentamento de Crises em Saúde

 

VILSON ROMERO/ 98 anos de Previdência no Brasil

Vilson Antonio Romero (*)

No Brasil, até em razão da pobreza de expressiva parcela da população, não há uma cultura poupadora e previdenciária.

Mas, com certeza, sabemos que previdência nada mais é do que a acumulação de recursos ou a sequência de contribuições que fazemos no presente com olhar e pensamento voltados para o futuro, para garantir qualidade de vida e sustento no jubilamento ou no infortúnio, com a perda da capacidade laborativa. Ou, ainda, para garantir renda aos herdeiros, em caso de falecimento.

Dispomos de diversas estruturas constituídas com esse desígnio precípuo, sendo algumas públicas e oficiais, sem fulcro lucrativo, e outras privadas e mercantis, com busca de rentabilidade também para quem as administra.

Temos três regimes previdenciários.

Um, com reservas aplicadas no mercado mobiliário, em títulos públicos e bens imóveis, prioritariamente, voltado, em especial, aos investidores e aplicadores, chamado de Regime de Previdência Complementar. Subdividido e gerido por Entidades Fechadas ou Abertas de Previdência Complementar (EFPC ou EAPC).

As EFPC são os chamados fundos de pensão, disponibilizados em particular por empresas estatais para complementar a aposentadoria de seus empregados e, também, surgindo entre empresas privadas de médio e grande porte e categorias profissionais como advogados e engenheiros.

Este setor hoje abrange 260 entidades e dispõe de cerca de R$ 970 bilhões de reservas envolvendo mais de 7 milhões de participantes, dependentes e assistidos, conforme aponta a Abrapp.

Já as EAPC são as instituições financeiras e seguradoras que, efetivamente, vendem planos de previdência como VGBL ou PGBL e hoje contam com provisões técnicas da ordem de R$ 990,8 bilhões e ativos garantidores de R$ 1.001,20 bilhões, segundo a Fenaprevi.

Sem sombra de dúvidas, a previdência privada, apesar de parte dela visar lucro, tem especial importância como instrumento formador de poupança e de fundos para relevantes investimentos na economia nacional.

E o Senhor Mercado atua pelo seu crescimento, na razão direta do encolhimento da previdência pública, como constatado nas sete reformas previdenciárias desde a Constituição Federal de 1988.

Por outro lado, no setor público, há os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), constituídos pelos entes federados (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) para garantir a aposentadoria dos seus servidores públicos e formados a partir de contribuições desses trabalhadores e do próprio empregador.

Esse sistema alcança mais de 11 milhões de funcionários públicos distribuídos entre parcela expressiva das 5.570 cidades (muitas ainda empregam somente pela CLT), os 26 Estados e o Distrito Federal.
Mas o embrião de todo este sistema é o Regime Geral de Previdência Social (RGPS), assim denominado desde a Constituição Cidadã de 1988, que chega, neste 24 de janeiro, a 98 anos de existência em solo nacional.

Data de 1923 a Lei Eloy Chaves, pedra fundamental do seguro social brasileiro. que determinou a cada companhia ferroviária do país constituir uma Caixa de Aposentadorias e Pensões (CAP) com a incumbência de arrecadar contribuições patronais e de seus empregados e pagar aposentadorias a quem completasse 50 anos de idade e 30 de contribuição (na época). Só em 1923, 27 empresas criaram suas respectivas CAPs.

Quase um século após e centenas de mudanças constitucionais, infraconstitucionais e estruturais, chegamos ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), hoje uma autarquia subordinada ao Ministério da Economia, com a competência precípua de garantir o pagamento mensal de aposentadorias, pensões, auxílios e demais benefícios a mais de 36 milhões de brasileiros, das áreas urbanas e rurais, num desembolso anual de quase R$ 700 bilhões (dados de 2020).

Como cada vez mais lares dependem da renda do aposentado e do beneficiário em geral do INSS, fato este agravado pelo aumento do desemprego decorrente da pandemia da Covid-19, fica evidente a relevância da previdência social pública como redistribuidora de renda e mitigadora da desigualdade social brasileira.

Que chegue ao centenário, daqui a dois anos, mais sólida, consolidada, solidária e justa. Feliz aniversário, previdência social. Saúde e vacina para todos.
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(*) jornalista e auditor fiscal, vice-presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), diretor da Associação Gaúcha dos Auditores Fiscais (Agafisp) e do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

ALDO REBELO/ Militares e liberais não são metais que se fundem

“Ideias não são metais que se fundem” é a bela metáfora atribuída ao líder liberal gaúcho Gaspar Silveira Martins para explicar a inviabilidade de um acordo com os positivistas de Júlio de Castilhos em pleno curso da Revolta Federalista que abalou a República e foi debelada a ferro e fogo pelo punho pesado do Marechal Floriano Peixoto.

A frase guarda plena atualidade e decifra a dura competição que se trava nos bastidores do governo entre a ala liberal e fiscalista do ministro Paulo Guedes e a corrente desenvolvimentista inspirada no ministro-chefe da Casa Civil, general da reserva Braga Netto, e no ministro do Desenvolvimento Regional Rogério Marinho.

A refrega já rendeu, além de argumentos, desaforos brandidos de parte a parte. Os fiscalistas de Paulo Guedes atribuem aos desenvolvimentistas o risco de destruição de todo o esforço do governo para sanear o déficit, e com ele as contas públicas. Os desenvolvimentistas repetem a quem quiser ouvir que as ideias do grupo de Paulo Guedes foram aposentadas solenemente em todo o mundo e sobrevivem no Brasil graças à ignorância e à teimosia do ministro da Economia.

Os analistas atentos aos bastidores de Brasília atribuem aos militares uma resistência silenciosa aos dogmas econômicos de Guedes. É compreensível e razoável. Forças Armadas são instituições nacionais e instituições de Estado, e só nesta condição tem sentido existir. Sua manutenção exige meios materiais com a respectiva participação no orçamento do País. Para o mercado e para economistas liberais Forças Armadas não passam de rubricas dispendiosas drenando recursos preciosos para o equilíbrio fiscal da Nação.

As rupturas e transições que permitiram a evolução política do Brasil foram amalgamadas por alianças heterogêneas, entre elas as que uniram militares e liberais, mas foram alianças passageiras, separadas logo em seguida pelas profundas diferenças de concepções entre os dois universos. A contabilidade e as planilhas de custos dos economistas liberais jamais perceberam como naturais e necessárias as contas apresentadas pelos militares para suas preocupações com o interesse nacional e para suas razões de Estado.

A grande verdade é que não há nenhuma novidade na manifestação dessas diferenças. Militares e liberais fizeram a República, mas os primeiros apoiaram o plano de industrialização de Ruy Barbosa, fortemente sabotado pelos segundos, o que resultou no seu fracasso. No início da República a engenharia militar discutia e planejava rasgar o Brasil de ferrovias da Amazônia ao Prata como se pode ler nos belos e patrióticos ensaios de Euclides da Cunha, enquanto no mesmo período os governos liberais da República Velha vendiam os barcos da Marinha de Guerra para fazer caixa e abater dívidas. Não eram navios quaisquer. Em seu livro Os Sete Pilares da Sabedoria, o escritor inglês Thomas Edward Lawrence anota, com um toque de surpresa, que a nau capitânia da Marinha Britânica no Golfo de Acaba, na primeira Guerra Mundial, era um navio de origem brasileira, provavelmente uma das unidades privatizadas no governo Campos Sales.

A Aliança Liberal conduziu a Revolução de 1930, reunindo Getúlio Vargas, os militares de Góes Monteiro e os liberais de Virgílio e Afrânio de Melo Franco, Júlio de Mesquita Filho e José Américo de Almeida. Mas em 1932 os liberais de São Paulo se levantaram em armas contra Vargas. Vitorioso, Vargas promoveu a industrialização, a legislação social e a modernização do Estado, com apoio militar, até ser deposto em 1945 por uma aliança entre militares e liberais, para provar que o Brasil não é matéria a ser decifrada por amadores.

Em 1964, eis que novamente militares e liberais, apoiados pela mídia, por empresários e pela embaixada Americana, depõem o governo de João Goulart, mas a aliança é rompida logo em seguida e os militares cassam o mandato da mais fulgurante estrela da constelação liberal, o brilhante ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda.

O abismo entre liberais e militares se agrava com as ações do presidente Ernesto Geisel, notadamente o II PND, o Programa Nuclear e o Programa Espacial, coroadas com o rompimento do Acordo Militar entre o Brasil e os Estados Unidos. o que se mostrou surpreso pela nau capitânia de origem brasileira na Marinha Britânica.

O nacionalismo de Geisel somou-se à violação dos direitos humanos para oferecer a plataforma perfeita que reuniu liberais progressistas e conservadores com apoio dos Estados Unidos para montar o cerco contra o regime militar. O resto da história é conhecido.

Quando os liberais conservadores derrotaram a candidatura do PT em 2018, com o discreto apoio das lideranças militares, estava escrito que o pacto seria destinado ao abandono como o juramento renegado do Padre Amaro no célebre romance de Eça de Queirós.

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Aldo Rebelo é jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados; ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência e Tecnologia e Inovação e da Defesa nos governos Lula e Dilma.
 

ELMAR BONES/ A palavra que falta

Neste fim de semana, Jair Bolsonaro deu um passo bastante ousado na sua caminhada para obter um poder autocrático, livre das limitações que a Constituição impõe aos governantes no Brasil.

Ele avança aos trambolhões, em zigue-zague, com declarações contraditórias, atos incompreensíveis, mas avança e, cada vez mais parecem dispersas e intimidadas as forças que podem detê-lo.

Neste domingo, ele foi explícito: disse que tem apoio do povo e que isso lhe garante o apoio das forças armadas.

O povo ao qual ele se dirige  são os grupos de bolsonaristas que pedem intervenção militar, com fechamento do congresso e do STF, o  que deixa subentendido que, se ele tentar o passo decisivo, terá não só o apoio desse “povo”, como terá também os respaldo das “Forças Armadas”.

Ele falou no domingo e até o início desta segunda-feira nenhuma palavra dos comandos militares havia esclarecido a situação anômala que se criou com a manifestação do presidente. A expectativa geral é por uma manifestação que recoloque as coisas no seu lugar.

Ou não haverá outra interpretação, além daquela que diz que o golpe já foi dado.

 

ELMAR BONES/ O silêncio da RBS

É inexplicável o comportamento dos grandes grupos de comunicação quando se trata de dar informações sobre suas atividades ou decisões.

Um de seus bordões é a cobrança de transparência de governantes, funcionários públicos, empresários, entidades representativas e tudo mais.

É uma prerrogativa que a sociedade lhes confere e da qual eles não abrem mão.  Entende-se, aceita-se, e é até elogiável que assim seja.

O que não dá pra aceitar ou compreender é a atitude que adotam na hora em que são cobrados. A omissão sistemática nas ocasiões em que, em nome do interesse público, se busca informações junto a eles.

Ou é uma declaração formal da assessoria de imprensa ou é uma nota genérica, como faz a RBS neste momento.

Mesmo sendo um grupo que deve sua grandeza a concessões de serviços públicos, que representam grande parte de seus negócios e seus lucros, a RBS considera como economia interna as medidas que está tomando, de contenção de custos – demissões em massa, corte de salários e jornada, suspensão de contratos de trabalho. Medidas que terão impacto na qualidade dos serviços que prestam ao público.

Nem ao sindicato que representa seus empregados é dada uma explicação. Apenas uma nota genérica e que pouco esclarece.

Com que autoridade, os profissionais que trabalham para seus veículos poderão cobrar informações ou transparência junto ao setor público ou ao meio empresarial ou seja lá o que for?

 

 

 

 

 

A solidariedade orgânica e o golpe no Brasil

MARÍLIA VERÍSSIMO VERONESE
O texto que segue foi publicado hoje à tarde, como postagem pessoal, no meu perfil da rede social Facebook, numa versão mais curta e mais crua. Procurei adaptá-lo para publicação na coluna do Jornal Já, dando segmento à reflexão do texto anterior, sobre a solidariedade micropolítica e os vínculos sociais que são próprios a nós, humanos organizados em sociedade. A visita que relato aconteceu hoje pela manhã, dia 28 de dezembro de 2017. Procuro ressaltar o aspecto racional de praticar a solidariedade, para além da questão ética e das escolhas morais que fazemos. Relato uma experiência pessoal e em seguida comento o que ela pode significar, em nível de sociedade e de economia – vida coletiva – interdependente.
Em Porto Alegre, quem costuma passar pela avenida Terceira Perimetral, entre a rua Furriel Luiz Antônio de Vargas e a Avenida Anita Garibaldi, já deve ter visto um “acampamento” fixo, de lona preta, na calçada do lado direito, no sentido zona norte; moradores de rua residem no local já há algum tempo, mesmo antes do expressivo aumento do número de moradores de rua em Porto Alegre, agravado em 2017 (efeitos do golpe parlamentar-midiático-judiciário ocorrido no Brasil em 2016, sobre o qual já escrevi anteriormente neste espaço). Sempre passo por lá para chegar no trabalho, em São Leopoldo, distante 30 km da capital. O acesso à saída da cidade dá-se pela avenida Perimetral e é meu caminho quase diário.
Graças ao recesso de final de ano e sua semana de folga, hoje tive tempo de fazer o que pretendia já há meses, ir visitar e conhecer aquelas pessoas e seu cãozinho preto, sempre deitado ali na calçada, preso na coleira. Sabia que eram catadores, por já ter visto o material empilhado ao lado deles.
Quem me atendeu foi o senhor Luiz, que prefere ser chamado de Luizinho. Profissão: catador de material reciclável urbano. Trabalha com seu parceiro, também morador do local, que optou por não se identificar. Já o convidaram para atuar numa cooperativa de reciclagem, mas ele acha melhor fazer seus próprios horários de trabalho, como catador individual, associado a um colega de profissão. O tema da reciclagem e seus desdobramentos sociais me é muito caro, já que como pesquisadora estive ao lado de catadores e catadoras de material reciclável urbano em pesquisas participativas, e também orientei teses e dissertações a respeito; parte desse trabalho pode ser conferido aqui:
Voltando ao Luizinho, que motivou esta reflexão no apagar das luzes de 2017, este me contou que já teve uma casa, mas foi obrigado a desfazer-se dela por deterioração da condição financeira. Ao ser perguntado se poderíamos fazer campanha para arrecadar alguma coisa para eles, consultou o colega, que disse: “Não precisamos de nada no momento”. Luizinho acrescentou: “Mas aceitamos material reciclável para que possamos vender maior quantidade. Não trabalhamos mais com pet, mas latas de alumínio serão muito bem-vindas[1].”
A cachorrinha preta, chamada Giana, é saudável, alegre, quer brincar, pula e lambe. Limpa e de excelente aspecto, ignorou a princípio os Biscrocs que levei para ela (ou seja, não tinha fome), dignando-se a comer um ou dois no final da visita. Estava mais interessada em brincar comigo. Luizinho disse que passeia com ela de manhã bem cedo antes de sair o sol, agora no verão, acrescentando que é castrada, vacinada e ele tem “os papéis que comprovam”.
Dentro da lona que se vê da rua, há dois velhos colchões, lado a lado, e os pertences dos moradores. São, como imaginei, gente boa, pacífica e que trabalha; a precariedade lamentável em que vivem é INACEITÁVEL. Não era para ser assim num país que transfere BILHÕES por dia[2], via mercado financeiro/juros da dívida pública, para uns poucos milionários e bilionários que já não têm mais onde enfiar dinheiro[3]. Segue abaixo o gráfico do orçamento público para 2017, elaborado com base em dados oficiais, disponíveis em sites do governo brasileiro. Metade do orçamento é transferido para credores da dívida brasileira, maioria composta de rentistas, banqueiros e especuladores:
Fonte: Palestra Comprometimento da Saúde e o privilégio do Sistema da Dívida – autoria de Maria Lucia Fattorelli – FIOCRUZ “SAÚDE SEM DÍVIDA E SEM MERCADO” – Saúde: Fontes de financiamento em disputa – Rio de Janeiro, 21 de junho de 2017. PPT disponível em: http://www.auditoriacidada.org.br/palestras-da-auditoria-cidada-2015/
Ou contribuímos para mudar esse país e torná-lo mais digno e justo, ou nos conformamos em sermos seres irracionais, indecentes e detestáveis. Neoliberais têm falado bastante, e já não é de hoje, em renda mínima[4]. Muito criticada, aliás, por algumas correntes da esquerda, mas quer saber? Que seja. Do jeito que as pessoas estão sofrendo hoje, vivendo vidas precárias, na rua, alimentando-se mal, morrendo cedo de doenças evitáveis ou por causa da violência, eu aceitaria uma renda mínima universal, bem como programas de transferência de renda, desde que acompanhados de políticas públicas de trabalho/emprego, moradia, saúde e educação, com PESADOS E CRESCENTES INVESTIMENTOS. Ou seja, o inverso do que hoje é o Brasil.
Mas para isso, temos de combater o golpe e suas políticas recessivas e antissociais. Ou vai piorar muito mais, como já vem piorando. “Ai, não seja moralista!”. Moralismo?! É só o bom e velho Durkheim, meu camarada: solidariedade orgânica. Nada poderia ser mais tradicional em sociologia! Trocas, necessidade do intercâmbio alteritário cotidiano, local e global, sistemas interacionados de trabalho, comércio, urbanidade, comunicação; dependência mútua, o fato social de que precisamos viver juntos num sistema social articulado. “Viver dentro de certa razoabilidade […] o avanço da divisão do trabalho é o que pode evitar a luta irracional pela sobrevivência, haja vista que cada indivíduo desenvolve uma função indispensável à sobrevivência da vida coletiva. ” (Vares, 2013)[5].
Não é uma escolha, para nós humanos. É nossa realidade inevitável, a não ser que queiramos nos tornar ermitões, morar em cima da montanha… e ainda assim, não escaparíamos!  Como abastecer a casa, como consumir o mínimo necessário para a sobrevivência, fora da articulação sócio laboral?
Ou é isso, ou é a barbárie; a anomia toma conta e todo mundo se ferra. Neste final de 2017 e prenúncio de um 2018 difícil, um feliz ano novo; ou velho, a gente que escolhe. Tomem tento, cidadãos.

 
[1] Já de antemão, portanto, peço aos [email protected] que lerem este texto: ao passar por ali, levem suas latas de cerveja/refrigerante para eles, o Luizinho é afável e receptivo; as festas de fim de ano devem gerar boa quantidade. Vira renda e um pouco mais de qualidade de vida para eles e para Giana.
[2] http://tomoeditorial.com.br/catalogo.php?id=733 (Cattani, A. e Oliveira, M. A sociedade Justa e seus Inimigos. Tomo Editorial, 2016).
[3] http://www.auditoriacidada.org.br/
[4] http://epocanegocios.globo.com/Revista/noticia/2017/07/bilionarios-do-setor-de-tecnologia-embarcam-no-movimento-da-renda-basica-universal.html
[5] VARES, Sidnei Ferreira de. Solidariedade mecânica e solidariedade orgânica em Émile Durkheim: dois conceitos e um dilema. Mediações – Revista de Ciências Sociais. v. 18, n. 2, Londrina, 2013. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/viewFile/17317/13807