GERALDO HASSE: Um tiro na água

A privatização da Corsan, pretendida pelo governador e autorizada pela Assembléia, está se configurando como um tiro na água. Primeiro porque não atenta para as necessidades da maioria da população; segundo, porque visa agradar à minoria empresarial que se compraz na busca de boas oportunidades de lucro.

Já que não dá prejuízo, a Corsan poderia captar sócios para acelerar sua ação em prol da maioria. Por que ninguém quer ser parceiro de uma estatal lucrativa?

O ‘case’ Corsan tende a deixar claro que não pode ser considerado bom gestor público quem considera correto e/ou viável entregar à iniciativa privada o abastecimento de um bem de primeira necessidade para a população. O currículo do atual governador diz que ele estudou para isso (gestão pública). Temos aí uma contradição entre teoria e prática. Isso sem falar que na campanha eleitoral o próprio candidato teria prometido não privatizar a Corsan.  Mudou de idéia? Ou simplesmente enrolou os eleitores?

Não vale dizer que a venda da empresa foi autorizada pela maioria da Assembléia. Agora, tocar o processo às pressas gera a desconfiança de que haveria uma ânsia de arrecadar recursos para financiar candidaturas em 2022. São detalhes que vão sendo jogados nas valas abertas pelas patrolas da privatização.

Antes que seja tarde, é preciso deixar claro que privatizar um serviço essencial à vida humana é uma leviandade que se apresenta com a roupagem moderna do (neo)liberalismo, cujos devotos vazam na hora H.

Verifique-se como estão as coisas em Uruguaiana, onde o serviço de água e esgoto foi entregue em 2011 à Odebrecht Ambiental, que alguns anos depois — respingada pela Lava Jato — passou o negócio à canadense BRK, que tergiversa diante das cobranças de que está falhando.

Ora, não faz sentido transferir para mãos privadas — como negócio — um serviço tocado há décadas por gestores públicos que já costumam contratar terceiros para obras de saneamento. Tudo indica que é mais fácil corrigir lacunas e senões do que simplesmente jogar fora o vovô com a água da bacia.

Se a privatização é uma porta aberta para a valorização (isto é, o encarecimento) do serviço de abastecimento, quem vai fornecer água gratuita para as bicas das vilas desassistidas pelo estado? Quem vai cuidar efetivamente da canalização dos esgotos e do saneamento básico?

Estamos cansados de saber que tudo isso é direito dos cidadãos e tarefa dos governos, mas sempre aparece alguém disposto a burlar o compromisso e fugir à responsabilidade. Isso é gestão pública — no sentido democrático da expressão?

 

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